Notas iniciais
só adjetivo de dois gêneros e substantivo masculino 1. que ou o que está, momentaneamente ou não, desacompanhado, separado de outro(s), sem companhia. 2. adjetivo de dois gêneros que é apenas um; único.

Mas eu estava errado. Ter meu irmão junto de mim para sempre era só uma ilusão de criança, claro, mas ninguém espera que alguém amado seja tirado de si de maneira tão repentina. Era uma quinta-feira chuvosa, eu me lembro bem. Mais um dia na escola ao lado de crianças menos inteligentes que eu. Mais uma aula em que eu fui elogiado, como de costume. E então eu segui até o ônibus, na expectativa de chegar em casa e seguir o hábito: ir para meu quarto, estudar e aguardar Liam chegar da aula dele. Com a chegada dele, nós poderíamos brincar, conversar ou ele poderia me ajudar em alguma lição que eu tivesse dúvida (coisa rara de acontecer).

Mas não dessa vez. Naquele dia, o hábito deixaria de existir. Não mais abraços calorosos, conselhos valiosos ou fraternidade verdadeira. Meu ônibus parou, eu desci e comecei a correr para casa. Desajeitado que eu era, acabei escorregando numa poça d’água e caí no chão. O chão completamente molhado e a chuva encharcaram a minha roupa e a minha mochila. Eu me levantei enquanto as pessoas passavam ao meu lado sem nem ao menos fazer menção de me ajudar. “Liam faria algo”, eu pensei. Mas não importava naquele momento: estando de pé, eu voltei a correr até minha casa.

Luzes, barulho e agitação. A polícia e a ambulância estavam na frente da minha pobre casa. Além disso, uma concentração de curiosos deixava tudo mais assustador. “O que diabos aconteceu? ”, eu pensava. Enquanto um policial tentava conter a multidão faminta por desgraça (imagina o estrago que fariam se tivessem acesso a smartphones), uma pessoa em uma maca era transportada de dentro da minha casa até a ambulância. Não consegui identificar, mas um medo tremendo começou a aquecer meu peito. “Liam?! Mãe? Pai? ”, eu pensei.

Eu corri para dentro de casa, mesmo que trombando contra a multidão. “Não, não pode ser isso! Eles devem estar bem! ”, eu tentava me enganar. A simples e singela esperança sem sentido de uma criança querendo negar a morte daqueles que o mantém vivo, por mais estranhos que eles possam ser. Conseguindo driblar o policial e entrando em casa, eu logo me deparo com meu pai. Havia cerveja e sangue em sua camisa branca, além de lágrimas. Ele tremia muito enquanto soluçava.

— Eles vieram, Reed! — Ele disse.

Eles. O que isso queria dizer? Eu não entendia. Eles mataram minha mãe? Liam? Eu realmente não compreendia.

— Eu falhei! — Ele soluçava incessantemente.

Até que, em meio aquele momento de puro desespero, Preston me deu um abraço sincero. Mesmo encharcado, eu ainda sentia a umidade de suas lágrimas. Era um choro sincero. Naquele momento ele não estava sendo um pai. Pelo contrário, estava se apoiando em mim, a pessoa que ele tanto desprezou. Ainda assim, eu não podia perder a oportunidade de abraçá-lo diante daquela desgraça.

— O que houve, pai? Que sangue é esse? — Eu perguntei enquanto lágrimas começaram a escorrer dos meus olhos.

Será que a mãe havia morrido? Ela não estava em casa, mas era horário de trabalho, o que seria uma justificativa. “Liam?! ”, dentro de mim a certeza de que meu irmão havia morrido crescia.

— É... Minha culpa! É minha culpa, meu filho!

Preston simplesmente não conseguia falar. “Minha culpa? ”, eu pensei. Qual o sentido disso? Ele não teria matado o próprio filho. Preston era um tremendo idiota, mas eu sabia que ele não faria isso. Muito menos matar a minha mãe, eu pensava.

— Reed, eu... — O choro não deixava ele continuar a falar.

Até que a porta foi aberta. Era um policial.

— Preston Kaas? Pode vir dar o depoimento? — O policial disse.

Meu pai — entre lágrimas e soluços — aceitou. Eu fui levado com ele para aguardar na delegacia enquanto os peritos investigavam a casa. Enquanto éramos levados, eu perguntei para Preston:

— Foi o Liam?

Eu tentava continuar forte, mas não era possível. Sete anos desprezado pelo pai, sete anos sendo cuidado pelo Liam. Caso ele morresse, eu viraria — na prática — órfão.

— Foi o Alfredo — ele respondeu.

— Alfredo? — Eu questionei.

E então finalmente obtive uma explicação. Mesmo eu tendo apenas sete anos, meu pai não me poupou de detalhes. Sendo ele viciado em jogos, ele era um cliente frequente do Alfredo’s Gambler, ponto de prostituição, venda de drogas e jogos ilegais. O tal do Alfredo nada mais era do que um mafioso com os melhores contatos. Tinha policiais e até políticos na mão. Ele era inalcançável para a justiça.

— Eu jogava todo dia. E apostava alto — ele continuou.

“Alto? ”, eu pensei. Nós mal tínhamos dinheiro. O que Preston teria para apostar, afinal? O carro da mamãe? A casa? Os filhos?

— Mas pai, o que temos para apostar? Nós somos pobres — eu disse.

— Eu mentia — ele explicou. — Sabe, eu apostava dez mil dólares sem ter nem mil. Por sorte, eu era bom. Acabava ganhando um dinheirão. E daí, quando eu perdia eu conseguia pagar. E isso se seguiu por um bom tempo. Até que eu apostei o que não tinha e perdi.

“Idiota”, eu pensei. O verdadeiro sentido da palavra ódio crescia dentro de mim. O cretino põe a própria família em risco apenas para saciar o vício? A minha vontade era de bater nele ali mesmo.

— Eu pensei que eles só iam me dar uma surra ou algo do tipo. Mas não. Ele matou Liam na minha frente! — Preston voltou a chorar como uma criança.

“Liam”, eu pensei. O nome do meu irmão. Então era verdade: eu estava órfão. Finalmente eu comecei a chorar como deveria. Até hoje choro quando me lembro. Por que diabos isso aconteceu? Por que os bandidos não simplesmente mataram meu pai? Teria feito algum sentido. Até hoje sonho em me vingar deles, apesar de saber que isso não vai acontecer.

— Me desculpa! — Preston disse.

Em meio ao choro, eu respondi com a mais pura sinceridade de uma criança:

— Não.

Aquele “não” marcou meu pai. Desde daquele momento, ele nunca mais me olharia nos olhos. Não em sinal de desprezo, mas como se sentisse vergonha de si mesmo. E ele deveria ter. Enfim, depois de todo o drama, nós finalmente chegamos na delegacia. Esperei em uma salinha enquanto meu pai foi prestar depoimento. Não que fosse adiantar, pois como eu disse antes: Alfredo tinha a polícia na mão. Preston provavelmente apenas foi cumprir o protocolo.

Os dias seguintes foram sofridos para toda a casa. Eu — como sempre — me trancando no meu quarto, enquanto minha mãe trabalhava e meu pai passava o dia na sala de estar. Estranhamente ele não bebia. Apenas ligava a TV e ficava olhando para a mesma. Olhando, não assistindo. Ele estava em um estado de choque prolongado, ao mesmo tempo em que praticava uma espécie de autopenitencia. Toda vez que minha mãe chegava do trabalho, eles trocavam poucas palavras. Além disso, ela mal falava comigo. Talvez sentisse o peso da culpa de ser uma mãe ausente e não conseguisse criar coragem de falar com seu último filho vivo.

O clima sombrio se seguiu até o rompimento de tudo. Minha mãe não aguentava a pressão. Tinha medo da máfia aparecer de novo na nossa casa.

— Você matou o nosso filho! — Ela gritou para Preston em uma das discussões que presenciei.

— Onde você estava?! Onde você estava para salvar seu filho? — Ele retrucou.

Eu prestava atenção a cada movimento e detalhe. Minha mãe estava com uma pequena mala preta nas mãos enquanto falava. Preston, visivelmente abatido, se encontrava com sua velha camiseta branca e sua barba ainda maior. Dessa vez, sua fiel companheira — a garrafa de cerveja — não se fazia presente.

— Eu estava trabalhando, sustentando essa casa! Coisa que o homem da casa não consegue fazer! — Ela disse.

Aquilo irritou profundamente meu pai. Ele cerrou os punhos, como se fosse bater na minha mãe. Mas a consciência falou mais alto: ele respirou fundo. Com um pouco mais de calma, ele finalmente disse:

— Eu trabalhava, você sabe disso! — Ele se defendeu.

— E se machucou porque quis. Só queria beber! — Ela acusou.

E então ele perdeu o controle.

— Cala a boca! — Preston deu um soco na mesa.

— Vai, bate em mim! — Ela provocava.

Definitivamente a minha mãe não era exatamente uma pessoa boa. Ela realmente queria que Preston batesse nela. Talvez quisesse ganhar algum dinheiro com isso ou simplesmente ferrar com meu pai. Não que eu esteja o defendendo. Para falar a verdade: os dois se mereciam até demais.

— Saia daqui! — Preston ordenou.

Andando lentamente até a porta, Linda se virou e disse:

— Eu vou mesmo. Quero viver. Mas saiba que se vierem e matarem o Reed, a culpa será sua!

E ela se foi. A própria mãe usando o nome do filho para fazer pressão em cima do ex-marido. Se ela realmente se importasse comigo, ela não me deixaria com Preston, afinal, com ele eu estaria em risco, supostamente. Mas não. Como eu sempre digo: ela não era minha mãe. Ninguém nunca foi. Após sua saída, meu pai notou que eu escutava e via tudo.

— Você viu? O que aquela vagabunda fez? Ela largou você! Largou a mim! — Preston disse.

Eu, como uma criança assustada, apenas acenei com a cabeça positivamente. Preston começou a chorar e foi para a cozinha. Abrindo a geladeira, não encontrou cerveja alguma. Eram tempos difíceis para todos. Até hoje penso no que minha mãe fez. Ah, e tem um agravante: tudo isso um dia antes da cerimônia de enterro do meu irmão. Dia de não só enterrar seu corpo, mas também as mágoas de família, supostamente. Mas isso nunca viria a acontecer.

O dia finalmente chegara. Eu e meu pai fomos até o cemitério onde ocorreria o rito de despedida de Liam Kaas. Chegando lá, eu me deparei com o ar fúnebre do lugar: túmulos em todas as direções, praticamente incontáveis. Uma neblina tomava conta do ambiente, tornando tudo mais sinistro. Além disso, anjos decoravam o cemitério. Entretanto, eu não achava esses anjos tão amigáveis. Anjos que tiram aqueles que amamos de nós? Isso soava meio diabólico para mim.

Mas em meio ao sinistro e fúnebre, a grama extremamente verde e as belas flores e plantas espalhadas pelo ambiente traziam um pouco de luz em meio à escuridão que é a morte. Como se ainda fosse nosso dever dar um pouco de conforto aos que já se foram. E talvez seja. De qualquer forma, eu me espantei com o lugar. Por mais assustador, belo e enigmático que fosse, tinha um pequeno detalhe: ele parecia ser o tipo de lugar em que ricos enterravam seus familiares. Não era o caso da nossa família. Dinheiro era algo sempre ausente.

Além disso, eu me espantei com um dos presentes no enterro: um homem barrigudo, claramente calvo e com um fino bigode branco, além de uma costeleta bem-feita. Sua pele cor de canela também o dava destaque. Era alguém distinto. Além dele havia apenas o padre, meu pai, uma professora de Liam e dois colegas de escola dele. Com a nossa presença, a cerimônia foi iniciada sem pestanejar.

Após o evento religioso em si, um jovem apareceu no local e entregou um papel a meu pai. Enquanto ele lia, lágrimas escorriam de seus olhos.

— É da Linda — ele explicou.

Mesmo sem aparecer no enterro do próprio filho, minha mãe ao menos mandou uma carta. Não é muito, mas é melhor que nada. Meu pai a leu em voz alta:

— “Filho meu, nem sei onde estás, mas saiba que te amo. O mundo não é justo e ele definitivamente decidiu não ser justo conosco. Que você possa encontrar no outro mundo a paz que não encontrou neste”.

Patético. Ela me abandonou, me deixou à mercê de um alcoólatra em crise e ainda disse que amava o filho morto? Repito: patético. Mas as palavras serviram para emocionar meu pais e os presentes. Eu, em minha inocência, também chorei. Após isso, o padre finalmente se retirou junto com a professora e os dois colegas de Liam. Ficaram lá eu, meu pai e o homem do bigode branco.

— É uma pena quando essas coisas acontecem — o homem disse. — Mas sabe como é: o inesperado não é necessariamente impossível. Meus pêsames, Preston.

O homem estendeu a mão para cumprimentar meu pai. Ele, entretanto, disse com os dentes cerrados:

— Alfredo!

Era o assassino do meu irmão! O meu sangue ferveu, mas eu sabia que não deveria reagir. Não queria parar numa cova que nem o Liam.

— Sim, amiguinho. Você deveria me agradecer por dar uma cova decente para seu filho. Eu sou um homem bom, afinal — disse Alfredo.

Temendo pela própria segurança (e talvez pela minha), Preston apertou a mão do mafioso. Alfredo então se aproximou de mim, passou a mão em minha cabeça e disse:

— Não se preocupe, garoto. Você não é o seu irmão. Tem um futuro brilhante pela frente.

Ele deu um breve sorriso e saiu do local. Afinal de contas, posso dizer que ele não estava errado.

Notas finais
Muito obrigado pela leitura! Até o próximo capítulo :D