Notas iniciais
amizade substantivo feminino 1. sentimento de grande afeição, simpatia, apreço entre pessoas ou entidades. 2. p.met. quem é amigo, companheiro, camarada.

Nem sempre fomos escravos do mal. Eu e Anthony já fomos verdadeiros irmãos. Sem contratos, sem pressão, sem dinheiro envolvido ou sem uma suposta dívida de fidelidade. Houve um tempo em que éramos apenas dois jovens conhecendo o mundo. Vislumbrando aquilo que foi, aquilo que era e aquilo seria dele, além de como poderíamos muda-lo. A ambição juvenil que impulsiona os garotos em busca de seus sonhos por mais ilusórios que eles possam ser. Sozinhos, eles podem perecer. Mas com um amigo? Bem, aí a coisa muda de figura. E disso tenho total certeza em dizer: eu tive um amigo durante minha caminhada.

Você se lembra da minha mãe ausente e do meu pai viciado? Bem, minha mãe continuou ausente. Meu pai, por outro lado, largou de vez o mundo do jogo. De vez em quando arranja uns bicos para conseguir um dinheiro a mais, já que o que ele ganhava por sua invalidez era pouco. Entretanto, o álcool não o abandonou. Por mais que tivesse tentado parar mais de três vezes, a garrafa de cerveja sempre se fazia presente na geladeira da nossa casa. Ele bebia, entrava em crise e se arrependia. Prometia nunca mais beber. Entretanto, bastava uma semana (ou menos) para a garrafa voltar à geladeira. Enquanto isso, eu continuava estudando com um objetivo em mente: dar o fora dali.

Mesmo com o excesso de álcool em seu sangue, devo admitir que Preston mudou. Ele não gritava mais comigo e nem chegava em casa de madrugada. Tenho a impressão de que ele tentava, de alguma forma, compensar seus antigos pecados como pai. Mas aviso logo que ele não foi bem-sucedido, talvez por culpa minha. Desde a morte de Liam eu me fechei para o mundo. Conversava menos na escola, mal falava em casa e apenas seguia com minha meta. Os anos foram passando e, sem dinheiro, eu sabia que tinha que conquistar uma bolsa. Tinha que dar mais de mim mesmo se quisesse entrar numa boa faculdade e fugir daquela vida. E assim o fiz.

Em 1986 eu consegui minha passagem para o céu: recebi uma bolsa de estudos para estudar em Michigan. Lembro-me como se fosse ontem a minha reação ao receber a carta de aprovação: êxtase puro. Chegou o dia da viagem e fui imediatamente arrumar as malas. Enquanto fazia toda a arrumação, meu pais entrou no quarto. Ele nem sequer sabia que eu ia para Michigan. Ele também não sabia que eu já tinha juntado um dinheiro para fazer a viagem.

— O que é isso? — Ele perguntou.

Eu estava concentrado, então continuei a colocar as roupas na mala. Ele chamou pelo meu nome. Então eu dei a atenção que ele tanto ansiava.

— Vou para Michigan. Fui aprovado e vou receber uma bolsa de estudos — eu expliquei.

Ele parecia em choque, mas hoje eu entendo o motivo. Há anos ele tivera o filho morto. Em seguida, sua esposa o abandonou. Agora, seu último resquício de família estava partindo. Pior: sem aviso prévio, sem parecer se importar, sem dar satisfação. Ele gaguejou, mas falou:

— Assim? Você não me disse nada disso.

E ele estava certo. Eu realmente não havia falado de meus planos de vida, dos meus sonhos ou do meu futuro. Para falar a verdade, meu pai não me conhecia. E hora ou outra eu pergunto: será que eu o conhecia? Por mais que hoje eu entenda algumas das razões que levavam ele a se comportar de determinadas maneiras, não posso dizer que eu o conhecia. Seria mentira da minha parte. Se bem que eu sou um especialista em mentir.

— Eu quero algo mais, pai. A gente sofre demais aqui. Nós sempre sofremos e sempre foi assim. Veja, eu fazendo faculdade vou ter alguma chance. Talvez mudar a sina da família. Fazer o nome Kaas significar alguma coisa — eu disse.

Seus olhos se encheram de lágrimas. O homem estava em prantos, na mesma intensidade que estava no dia em que seu primogênito morreu.

— Não, pai. Isso não — eu tentei contê-lo.

Ele, ofegante, tentou recuperar o ar. Após uma longa pausa, ele olhou diretamente para meus olhos, estando ele com os olhos vermelho sangue e, finalmente, falou:

— Eu sei que eu sempre fui um pai de merda. Eu sempre fui o pior que havia nessa família. Que família, né? Não consegui manter uma esposa, praticamente matei meu filho e agora você quer fugir de mim. Mas quer saber? Eu não te condeno. Eu condeno a mim mesmo. Eu sou o peso aqui e você está certo em dar o fora. Todos esses anos eu apenas causei dor. Jogava, bebia, gritava. Mas você bem sabe que eu tentei parar. Mas essas coisas são mais fortes — ele pausou começou a chorar mais ainda. — Mas, Deus, você sabe que eu tentei. Toda vez que lembro o dia que você nasceu me bate uma tristeza. Não por você ter nascido, mas por eu ter desperdiçado. Eu tinha uma família linda. E eu joguei fora. Eu joguei tudo fora!

Definitivamente ele estava em seu pior momento. Pior até do que o dia em que Liam morreu. Talvez pelo simples fato de que agora ele tinha consciência total do mal que tinha feito. Mas eu não o culpo totalmente. Minha mãe também não fez sua parte. Preston, pelo menos, gastava suas lágrimas e tinha consciência da culpa que carregava. E ela? Eu só fui vê-la novamente no dia em que morreu.

— Pai, calma. — Eu simplesmente não sabia mais o que falar.

O resto daquela tarde se seguiu em silêncio. Um silêncio sufocante, atormentador e capaz de perturbar até o mais calmo dos calmos. Como dizem por aí: é melhor uma família que fala mal de si mesma, do que o silêncio da indiferença. O meu coração já havia virado pedra, ao menos para ele. Era difícil me sentir sendo seu filho depois de tantos anos dele se comportando como se não fosse meu pai.

Após algumas horas, já com as malas arrumadas e pronto para ir ao aeroporto, eu fui em direção ao quarto dele. A porta estava encostada. A mesma madeira velha, a mesa decadência de sempre. Ao me aproximar, eu pude ouvir que ele ainda soluçava. Imaginei que o quarto já estivesse inundado em lágrimas. Abri a porta vagarosamente e olhei para meu pai: ele estava ajoelhado aos pés da cama, aparentemente orando.

— Pai, chegou minha hora — eu disse a ele.

Ele imediatamente ficou olhando fixamente para mim. Nenhuma palavra saiu de sua boca, mas seu olhar disse tudo. Cheios de lágrimas, seus olhos brilhavam e suas pupilas estavam muito dilatadas. Sua boca ainda tentou ensaiar um sorriso, como se tentasse se despedir de maneira positiva.

— Se cuida — eu disse.

Ele acenou com a cabeça e se levantou. Fui conduzido pela casa. A mesma velha casa de sempre, dessa vez com novos ares de tristeza. Mas eu também começava a enxergar a alegria de uma nova vida. Não existe renovação sem dor. Chegando até a porta da sala, eu olhei mais uma vez para ele. Esperava alguma palavra, mas nada. Dessa vez, ele conseguiu dar um discreto sorriso. Eu abri a porta e olhei mais uma vez para trás.

— Seja mais do que eu fui — ele disse.

E então eu entendi que estava na hora de partir. Fui ao aeroporto, peguei o avião e logo cheguei em Ann Arbor, onde passaria meus próximos anos de vida. Após passar por toda a parte chata (tive que assinar montes de papel), eu finalmente consegui chegar até o lugar onde ficaria hospedado. Era um pequeno prédio próximo a universidade, tendo apenas dois andares e contando com uma fachada simples. Eu consegui minha chave e subi pela escada de madeira que insistia em ranger, como se a qualquer momento pudesse cair. Além disso, as paredes estavam mal-acabadas, quase como se eu estivesse em um prédio abandonado. Chegando em meu apartamento, eu girei a chave e abri a porta. O lugar estava vazio, o que me surpreendeu, tendo em vista que eu iria dividir o lugar com outro estudante da universidade.

Aproveitei o tempo livre para andar pelo apartamento. O resto do prédio era feio, mas eu até que dei sorte com minha morada: tinha um banheiro limpo e bem feito, dois quartos agradáveis e uma sala de estar bastante espaçosa, ao meu ver. Fui descarregar minhas malas num dos quartos, e então comecei a enxergar os problemas. Assim que me sentei na cama, a mesma afundou. Sua armação estava parcialmente quebrada. Eu abri o armário e uma de suas portas caiu. “Só espero não ter nenhuma surpresa no banheiro”, eu pensei. Continuando com a organização, fui interrompido quando ouvi a porta da sala sendo aberta.

— Alguém aí? — Eu ouvi uma voz.

— Vamos logo, filho. — Uma voz mais grave acompanhou a primeira.

Chegando na sala, eu me deparei com duas figuras distintas: um homem de cabelos grisalhos com uma testa enorme e duras expressões junto de um garoto com os olhos gigantes e as bochechas rechonchudas. Ele claramente se sentia perdido naquele pequeno e disfuncional prédio.

— Opa — eu tentei quebrar o gelo.

O homem mais maduro colocou duas grandes malas no chão, bem ao lado do pequeno centro de vidro ali presente.

— Olá! Você deve ser o colega de quarto do meu filho — disse o homem maduro.

— Sim. Meu nome é Reed.

O homem esticou o braço para dar um aperto de mão. Enquanto isso, o garoto das bochechas rechonchudas retirava um par de óculos de uma pequena caixa e colocava em seu rosto. Ele claramente era tímido e introspectivo.

— Marcus Grace. Meu filho se chama Anthony — o homem disse.

“Marcus Grace? O ricaço? ”, eu pensei. Marcus era um grande empresário do ramo das bebidas alcoólicas, sendo um milionário conhecido nacionalmente e, hora ou outra, aparecendo em revistas de fofoca por ter um caso com alguma atriz ou modelo. Sua aparência não era a das mais agradáveis, mas digamos que ele tinha uma bela carteira.

— Prazer — disse o tímido Anthony.

Eu acenei com a cabeça e apertei a mão do ricaço.

— Bem, espero que fique tudo bem aqui. — Marcus me olhou de maneira que eu interpretei ser ameaçadora.

Ele deu um abraço no filho, trocou algumas palavras e se retirou. Lá estávamos eu e Anthony, ainda jovens e estúpidos. O silêncio da introspecção dele e da minha falta de assunto tomou conta da sala. O garoto começou a explorar o apartamento, descobrindo o quarto vago e logo levando seus pertences para o lugar.

— Precisa de ajuda? — Eu perguntei.

Alguns segundos se arrastaram, como se o tempo insistisse em não passar. Mas logo vi Anthony voltando do quarto e dizendo:

— Está tudo tranquilo.

E então eu fui completamente tragado pela curiosidade.

— Seu pai é o Marcus Grace mesmo? Digo, o ricaço? — Eu questionei.

Era raro eu ter momentos assim. Eu vivi a miséria durante toda minha existência. Então, por um breve momento eu pude contemplar alguém que atingiu o máximo da riqueza. Marcus tinha uma história semelhante à minha: um cara pobre que conseguiu despontar graças ao seu espírito persistente. “Pode ser eu no futuro”, eu pensei. Mas eu estava errado: eu me tornei mais.

— Sim — ele parecia desconfortável em falar do assunto. — Não que isso interesse.

A minha pergunta deixou o garoto meio sem graça, mas ele ainda tentou se entrosar.

— Você gosta de videogames? — Ele perguntou.

Eu nunca havia tido a oportunidade de ter um videogame em casa ou um computador. Entretanto, de vez em quando me divertia nos antigos fliperamas da cidade.

— Nunca fui de jogar muito, mas até que eu curto um fliperama de vez em quando — fui sincero.

Anthony pediu para eu esperar um momento e foi até o seu quarto. Eu me sentei no sofá e aguardei. Poucos segundos depois, o garoto retornou com uma verdadeira joia da época: um legitimo Nintendo Entertainment System, ou simplesmente NES para os mais íntimos.

— Caralho! — Eu disse.

— Conhece? — Anthony perguntou.

— Cara, tem propagando desse negócio em todo lugar. Infelizmente eu não posso comprar. Pelo menos não no momento.

O Nintendo era uma verdadeira máquina para jogos. Ela salvou a indústria de games na época e trouxe diversão em larga escala para todos que tiveram oportunidade de experimentá-lo. Eu era um sortudo, afinal, encontrar com um exemplar legítimo do belíssimo console logo no meu primeiro dia na nova cidade? Mas foi melhor ainda. Por mais introspectivo que Anthony fosse, ele tinha um bom coração. Pegando dois controles do poderoso console, ele estendeu um deles e disse:

— Vamos jogar?

Passamos literalmente a tarde toda jogando. Jogamos vários jogos, mas destaco um de ação em que tínhamos que matar os soldados inimigos. Era cooperativo e, por mais que eu não fosse um profissional dos jogos, eu até que fui bem.

— Tem certeza que você não tem um desses em casa? — Anthony começou a se soltar e fazer algumas piadas, mesmo que sem graça.

— Claro. Também tenho um pote de ouro escondido embaixo da cama e meu avô foi perseguido pelos nazistas — eu brinquei.

— O quê? — Tony olhou espantado para mim.

Eu comecei a rir, olhei para o rosto dele e disse:

— Estou te zoando, cara.

Tony caiu na gargalhada. Pode-se dizer que aquele foi o primeiro momento memorável da nossa grande e duradoura amizade.

As horas foram passando e, quando vi, já era noite. Eu estava extremamente cansado da viagem, além de ter jogado sem parar.

— Cara, melhor dormir. Amanhã cedo tem a cerimônia de abertura — eu lembrei.

— Verdade — ele respondeu.

Tony desligou o NES e cada um foi para seu quarto. O dia seguinte seria longo: além da cerimônia, teríamos uma aula introdutória e depois ainda haveria umas daquelas festas juvenis que eu não tinha o menor interesse de participar. Ao fechar dos olhos, eu praticamente desmaiei. E foi difícil de acordar. Eu estava em um sonho: uma caixa branca que explodia em um milhão de pedaços. Dentro dela havia um líquido preto, semelhante a petróleo. E, bem onde seria o núcleo da caixa, estava eu. Nu, confuso e sem perspectiva alguma. E foi então que eu ouvi as vozes.

— Reed! Reed! Vamos perder a cerimônia!

Era Anthony. Ele tentava me acordar de meu pesadíssimo sono e do meu enigmático sonho. Ele segurou meus braços e me balançou. Acordei vendo seu rosto incomodamente próximo do meu.

— Puta que pariu! — Eu reagi.

Tony se afastou e, com bastante pressa, falou:

— Cara, se arruma logo! A cerimônia é daqui a dez minutos!

Ele podia ter ido sem mim, deixando que eu curtisse meu sono e perdesse o momento de introdução na minha vida universitária. Ele não tinha obrigação de ajudar. Não éramos amigos de fato, eu pensava. Mas não. Ele escolheu ser gentil, ajudar, mesmo que isso colocasse ele mesmo em risco e o fizesse perder a abertura. Por mais simples que tenha sido a atitude, eu sei ser grato. Após me arrumar com uma velocidade impressionante, finalmente fui com Tony para nosso destino.

Notas finais
Fico muito grato por qualquer um que esteja a ler a história. Até o próximo capítulo :)