Eu sonhei um sonho
1 "I Dreamed a Dream" - musical LES MISERABLES
Era o ano de 1850.
Havia festa na casa dos Smith.
Ocorria ali a festa de casamento do senhor Oliver Smith, um viúvo que enfim encontrava o amor novamente. Ao menos, assim se dizia. Contudo, essa frase estava longe de ser real.
A primeira esposa de Oliver Smith falecera há alguns anos. Naquela época, de fato, ele se casara por amor. Agora, no entanto, casava-se outra vez, mas por conveniência. Era um homem de negócios, pertencente à alta sociedade. Era simplesmente importante que tivesse uma esposa; alguém para ajudá-lo a organizar sua vida pessoal. Assim demandava a sociedade da qual fazia parte.
Aliás, a sociedade assim exigia também porque Oliver Smith tinha uma filha que contava então oito anos de idade. O homem não poderia criar uma menina por conta própria; a garota precisava de uma mãe. Assim, sendo um novo casamento uma necessidade aparentemente importante, o senhor Smith procurou por uma nova esposa, que não lhe foi difícil encontrar.
Naquela noite, casava-se com Ellen Jones, que agora se tornava Ellen Smith. A mulher era consideravelmente mais jovem que Oliver Smith, mas isso não causava qualquer estranhamento à sociedade.
Aquela festa celebrava o início de uma nova vida. Entretanto, essa vida não necessariamente seria boa. Não para a pequena Jane.
Ellen era apenas dez anos mais velha que Jane. A nova esposa de Oliver não era ainda uma mulher muito madura e, consequentemente, não saberia lidar tão bem com o fato de possuir uma enteada. Por sinal, essa realidade era bastante complicada para Ellen, especialmente porque Ellen não se casava por amor; sua família entendia que aquele era um bom casamento e, como um negócio a ser fechado, o casamento foi realizado.
Oliver amava sua filha, embora fosse um homem muito sério e que não era dado a demonstrações explícitas de carinho. Mesmo assim, tentava ser um bom pai e sempre sorria quando a pequena Jane lhe abraçava, o que acontecia com frequência, uma vez que a menina era como a falecida mãe: gentil, meiga, doce e com uma enorme facilidade para demonstrar tais características.
O pai dizia abertamente que a filha lhe lembrava a antiga esposa. Ellen não amava Oliver, mas sentia-se traída mesmo assim. A nova mulher de Oliver compreendia que aquela posição agora lhe pertencia e não acreditava ser correto que a memória da antiga esposa permanecesse tão viva naquela casa, que agora era sua. Devido a isso, Ellen passou a sentir ciúmes de Jane, como se a menina representasse a antiga mulher de Oliver.
O senhor Smith não percebia os problemas domésticos que começavam a surgir a partir daí. Nunca fora homem de notar detalhes e assim não percebia os maus-tratos que sua filha sofria. Afinal, não era nada gritante, nada explícito. Jane era muito nova para compreender o que se passava ao certo, mas sentia vividamente a frieza, o sarcasmo e o deboche que Ellen lhe demonstrava sempre que possível. A bem da verdade, é preciso que se diga que Ellen apenas agia conforme se sentia; não era uma forma realmente premeditada de agir. A jovem esposa de Smith sentia-se frustrada, presa a um casamento sem amor, mas sequer compreendia verdadeiramente sua infelicidade, uma vez que nunca se apaixonara antes.
Acreditando que sua vida não lhe era satisfatória por causa da enteada, Ellen buscou a solução que, pensava ela, seria a solução para os seus problemas. Engravidou de Oliver Smith. Deu a ele uma nova filha, a pequena Anne, nascida no mesmo dia em que Jane completava seu décimo aniversário.
Para Ellen, aquilo havia sido providencial. Poucas pessoas deram atenção à Jane, por causa do nascimento de Anne. Ellen se regozijou da situação, pois, para ela, a maior atenção que Anne recebia era uma vitória para si.
Assim, na casa dos Smith, tudo agora parecia girar em torno da caçula Anne. Ellen oferecia à filha todos os mimos possíveis e fazia questão de que Jane percebesse a diferença que havia entre as duas filhas de Oliver.
Todavia, algo inesperado ocorreu. Em virtude de tratamentos tão diferenciados, era de se esperar que Jane desgostasse da irmã. Era de se imaginar que a relação entre as duas irmãs não fosse boa, seria até mesmo compreensível se Jane acabasse transferindo para sua irmã os ressentimentos que tinha em relação à Ellen.
Porém, nada disso aconteceu. Jane amou a irmã no instante em que a viu. Ao ver a irmã, pela primeira vez, nos braços do pai, Jane se apaixonou perdidamente por ela. E, quando o pai lhe disse que se aproximasse de Anne, Jane o fez, temerosa, pois a irmã parecia tão pequena e frágil... Mesmo assim, chegou o mais perto que pôde e sussurrou nos ouvidos do bebê: “Eu vou te amar para sempre”.
Eram palavras fortes para uma criança; mesmo assim, eram verdadeiras. Jane pareceu transferir para aquele bebê todo o carinho e amor que, apesar de tudo, ainda transbordavam dela.
Dessa forma, Anne cresceu amando fortemente sua irmã mais velha. A diferença de dez anos não era nada perto dos laços que ambas foram construindo com o passar dos anos.
E os anos passaram felizes para Anne que, em sua ingenuidade, acreditava que todos à sua volta fossem felizes. Anne não imaginava que sua irmã fosse tão infeliz, porque esta tentava não demonstrar esse sentimento. Mas Jane ia crescendo e, a cada dia que passava, tolerava menos a forma velada com que Ellen a destratava.
Jane não gostava de revidar quando Ellen, de sua forma sutil, atacava-a com comentários depreciativos ou humilhantes. Ela tentava ignorar, pois achava que seu pai não gostaria de viver em um ambiente hostil, o que certamente ocorreria se a inimizade das duas se tornasse mais clara.
Foi por esse motivo que, quando completou vinte anos, Jane decidiu que era hora de partir.
Não foi algo planejado, mas a ela, quando o momento chegou, ir embora daquela casa parecia ser a única coisa a fazer sentido.
Um ano antes, Jane havia conhecido Jeffrey Marshall, um rapaz proveniente de uma família mais humilde. O jovem havia visto Jane uma vez, à distância, quando esta passeava pela praça, junto da irmã. Desde então, buscava estar presente nos lugares que descobrira serem parte da rotina da moça. Não demorou muito para que Jane notasse Jeffrey e, em segredo, engatassem um romance. Porém, também não levou muito tempo até que Oliver Smith descobrisse a história de amor que sua filha vivia. Sendo um homem bastante conservador, não viu com bons olhos essa aproximação entre sua filha e um rapaz que não era bom o bastante para estar associado ao nome de sua família. Foi veemente em sua colocação; a filha estava proibida de ver o rapaz. Jane, pela primeira vez em sua vida, contrariou o pai e, por isso, foi castigada. Oliver mandou que a filha ficasse trancada em seu quarto, sem poder sair até que aprendesse a respeitá-lo conforme o esperado. Jane, entretanto, demonstrou toda a sua teimosia, recusando-se a obedecer às ordens paternas. O senhor Smith também era muito teimoso e, desse modo, nem pai, nem filha, recuavam.
O castigo de Jane se prolongava por uma semana já; Anne não entendia o que se passava e, quando perguntava à sua mãe por que a irmã não podia sair do quarto, Ellen desconversava. Anne não insistia, pois a mãe não lhe dava abertura para tanto. Se pudesse, Anne conversaria com sua irmã para entender o que estava acontecendo, mas era parte do castigo de Jane ficar sem falar com a caçula.
Então, um dia, tudo aconteceu rápido demais.
Era domingo à noite. O castigo de Jane entrava já em uma nova semana de duração. O pai, firme em seu propósito de educar a filha a seu modo, não falava a respeito. Vivia-se, naquela casa, como se Jane sequer estivesse lá. Era quase como se fosse proibido tocar no assunto, a não ser que a filha mais velha se mostrasse obediente e seguisse as ordens do pai.
Entretanto, isso nunca ocorreu. E o desfecho de uma situação que poderia ter sido mais bem resolvida deu-se da pior maneira.
Pai e filha nunca mais voltariam a se falar.
Jane não suportaria acatar a ordem do senhor Smith. Ela não poderia ir contra um sentimento tão forte que já nutria pelo jovem Jeff. Jane finalmente parecia compreender ao certo o quanto era infeliz naquela casa. Junto ao homem que amava, vislumbrava uma vida muito mais feliz. A moça não se preocupava com as questões materiais. Sim, ela provinha de uma família de muitas posses e, mesmo não recebendo tantos mimos quanto Anne, Jane tinha uma vida boa, ao menos, em aspectos materiais.
Contudo, isso já não bastava à filha mais velha de Oliver Smith. Ela desejava sentir-se viva de verdade e essa sensação lhe foi apenas conhecida quando encontrou Jeffrey.
Assim, naquela noite de domingo, a casa dos Smith estava silenciosa. Todos dormiam e não se ouvia qualquer barulho. Anne, em seu quarto de menina, com sonhos povoados de bonecas e sorrisos, abraços e felicidade, dormia profundamente, agarrada ao seu fofo travesseiro.
De repente, Anne sentiu um beijo em sua testa.
Era um beijo doce e suave, deitado delicadamente sobre sua face de modo que ficava claro; a intenção não era acordá-la. No entanto, o sono da caçula era muito leve e, embora sonolenta, ela abriu os olhos castanhos:
— Jane...?
A irmã mais velha a observava com um semblante triste. Jane sorria, mas sorria em meio a lágrimas. Ela parecia tentar sorrir ainda mais, como se assim conseguisse transmitir algo à pequena irmã, que agora se sentava sobre a cama, esfregando os olhinhos e tentando afastar o sono de si.
— Querida, preste atenção. Eu não posso me demorar, então preciso que me escute atentamente agora, está bem?
Anne não respondeu uma palavra; apenas acenou a cabeça positivamente. Havia percebido o tom grave das palavras da irmã.
— Meu bem, você sabe o quanto eu amo você? Sabe o quanto você é importante para mim? Eu a amo tanto, que chega a doer... E, por muito tempo, pensei que esse amor que lhe tenho seria o bastante em minha vida. Mas... – e, então, Jane lançou um olhar melancólico em direção à porta do quarto da caçula – Mas eu descobri que ainda me restava amor. Amor dentro de mim, Anne querida. Eu ainda tenha tanto amor a oferecer! E encontrei alguém a quem entregá-lo...
— Está falando do Jeffrey, irmã? – Anne perguntou, demonstrando que, embora houvesse muito segredo em torno desse assunto, alguma coisa ela sabia. E soube por ser perspicaz, sendo capaz de pegar no ar frases inacabada, olhares repreensivos, entre outros detalhes que sempre surgiam quando a conversa caminhava na direção desse tópico.
Jane mesma nunca falou sobre o assunto com Anne. Inclusive, havia sido a primeira e única vez na vida das irmãs que não conversavam sobre algo. As duas eram tão íntimas e próximas que não parecia haver segredo entre elas. Anne até mesmo sabia um pouco do ressentimento de Jane quanto à madrasta e quanto ao pai, porque, no fundo, Jane guardou também alguma mágoa do senhor Smith, pois a jovem nunca aceitou muito bem o fato de o pai permitir que a nova esposa ocupasse tanto do lugar que uma vez pertencera à sua mãe. Era claro que Jane nunca expôs seus pensamentos dessa forma para a irmã, mas Anne tinha sido capaz de perceber, apesar da pouca idade, que a relação de Jane com Ellen não era das melhores. E, em seu puro e inocente coração, ela compreendia os sentimentos da irmã.
Porém, Jane não havia sequer mencionado o nome de Jeffrey para Anne, porque achava que a irmã era muito nova para entender sobre certos assuntos. Manteve silêncio sobre seu amor, tentando deixar em segredo o que se passava consigo, o que foi em vão, pois, no final das contas, seu pai acabara descobrindo tudo...
— Sim, minha querida. Estou falando do Jeff. Eu sinto muito, queria ter conversado com você sobre isso... Eu queria que soubesse o quanto ele é importante para mim, o quanto ele me faz feliz... Eu queria, minha irmã, que você compreendesse o quanto preciso dele, porque somente assim, você poderá... – nesse instante, a voz de Jane se quebrou, e ela precisou levar a mão à boca, tentando ocultar um soluço de dor. A essa altura, as lágrimas que escorriam pelo seu rosto eram abundantes – Somente assim você poderá entender o que preciso fazer agora. – Jane segurou firmemente as mãos de Anne nas suas – Se tivéssemos conversado antes, você me entenderia perfeitamente, eu tenho certeza... Mas agora não temos tempo. Por isso, minha querida... Eu preciso que confie em mim. Apenas confie em mim. – Jane olhava nos olhos na irmã, com leve desespero – Confie em mim quando eu lhe digo que amo você. Confie em mim quando eu digo que, não importa o que aconteça; eu vou amá-la para sempre. Está bem?
Anne sentiu um leve tremor passar por seu corpo. Aquelas palavras eram sérias e assustadoras. Não era o seu conteúdo que assustava, mas a forma como elas eram ditas.
Entretanto, não houve tempo de externar esse susto; no instante seguinte, Jeff apareceu à porta do quarto, vestindo uma capa negra, e com a expressão preocupada:
— Jane, meu amor... Precisamos ir. Meu amigo trouxe os cavalos; estão parados em frente à casa. Os cavalos estão agitados; se nos demorarmos mais, as pessoas poderão acordar por causa do barulho.
Somente então Anne se deu conta de que sua irmã vestia uma capa vinho, a qual ela normalmente vestia quando viajava. Junto à cama, havia uma mala, que Jeff entrou para pegar. Quando estava prestes a deixar o quarto, o rapaz voltou-se para trás, olhou para Anne e sorriu. Era um sorriso de cumplicidade, de gratidão. E era também uma promessa. Com esse sorriso, Jeffrey parecia querer dizer a Anne que ela não se preocupasse. A partir de agora, ele cuidaria de Jane. Depois, voltou a se concentrar no que fazia e seguiu caminho para fora do quarto, embrenhando-se nas sombras em que a casa estava mergulhada.
Jane então começou a vestir as luvas que havia deixado sobre seu colo durante toda aquela conversa, e que Anne também só percebia agora. O sono a impedira de ver que a irmã estava vestida para partir.
Quando Jane finalmente se levantou e direcionou os olhos para a irmã, uma última vez, Anne pegou a boneca que estava debaixo de suas cobertas e com a qual dormia todas as noites. Estendeu-a para Jane, que derramou mais lágrimas com esse gesto:
— Mas... é a sua boneca predileta, meu bem...
— Por isso eu quero que a leve. Assim, você nunca vai se esquecer de mim...
— Eu jamais me esquecerei de você, meu anjo!
— Mesmo assim... Quero que minha boneca fique com você. Quando você abraçá-la, será como se estivesse abraçando a mim.
Jane não se conteve e abraçou a irmã fortemente. Abafou o choro nos cabelos castanhos da mais nova, em lágrimas comoventes, que fizeram Anne, que não tinha chorado ainda, permitir que algumas lágrimas quentes escorressem pela sua face também. Após alguns minutos assim, as duas irmãs se separaram. Fitaram-se em silêncio por alguns instantes e então Jane tomou para si a boneca que a caçula lhe entregava, abraçou-a junto ao seio e sorriu tristemente para a irmã:
— Adeus... minha Anne.
No dia seguinte, não demorou muito para que a casa inteira se desse conta do ocorrido. Quando uma criada foi levar o desjejum à filha mais velha de Oliver Smith, logo compreendeu a fuga ocorrida no meio da noite. Correu a avisar seu senhor que, enfurecido, colocou todos os seus homens atrás da filha.
Entretanto, era tarde. Jane e Jeffrey haviam partido há um bom tempo e estavam longe demais para que seus rastros pudessem ser seguidos.
Após meses de busca, Oliver Smith enfim pareceu compreender que seus esforços para encontrar a filha seriam todos em vão. Ninguém sabia dizer para onde o casal havia fugido. Ora, a verdade é que possivelmente nem os dois mesmos soubessem. Jane havia se aventurado corajosamente a fugir com o rapaz, pois ele não tinha posses e ela não pôde levar mais que apenas seus próprios bens, os quais não eram muitos. Por amor, Jeff e Jane decidiram arriscar tudo, em busca de uma vida em que pudessem ficar juntos, sem necessitar da permissão de alguém.
Nos primeiros dias que se seguiram, depois de o senhor Smith decidir parar com as buscas, o pai de Anne ficou trancado em seu escritório. Raramente saía de lá. Somente quando precisava resolver algo urgente deixava aquele cômodo.
Oliver Smith amava sua filha. A seu modo, mas amava. Possivelmente agora se arrependia de não ter sabido como lidar com aquela situação. Em seu agora permanente triste olhar, parecia haver uma saudosa lembrança. Era possível entrever ali que o senhor Smith pensava, vez ou outra, se tudo poderia ter sido diferente se a mãe de Jane estivesse viva. A ele faltava certa sensibilidade que, na primeira esposa, era sua maior característica. A mãe de Jane a teria compreendido. A mãe de Jane teria sabido como agir. Se a mãe de Jane estivesse viva, Jane provavelmente ainda estaria ali...
Ellen, obviamente, percebia esse sentimento melancólico em seu marido. De sua forma, soube respeitar a tristeza do esposo, embora sentisse um rancor muito grande dentro de si crescer com força. No final, para ela, Jane havia vencido. O sentimento de Oliver pela filha, que sempre existiu, agora era demonstrado com mais vigor. Não da forma usual, mas do jeito típico do senhor Smith. Sempre tão quieto e discreto, o homem passou a ser mais recluso, mais calado, mais introspectivo ainda. Ellen nunca conseguiu ser muito próxima do marido e agora se via mais afastada dele do que nunca. Devido a isso, a esposa de Oliver Smith foi se tornando uma mulher mais amarga e frustrada.
Foi nesse ambiente que Anne cresceu. Sentindo sempre muitas saudades da irmã, Anne entrou na primavera de sua vida. Seu pai, sempre ensimesmado, via-se afastado da vida real cada vez mais, mas era capaz de direcionar palavras de carinho à filha. Aliás, a única que ainda recebia demonstrações de afeto naquela casa era Anne. O laço de pai e filha tornou-se mais forte especialmente depois de uma ocasião específica. Um dia, Oliver Smith estava em seu escritório e recusava-se a sair. Ellen mandara uma criada chamá-lo para o almoço, mas o homem disse não sentir fome. À noite, ele não havia se alimentado ainda. Ellen mandou que lhe levassem algo para comer; o homem, contudo, disse que não queria ser incomodado. Preocupada com isso, a jovem Anne entrou no escritório de seu pai, sem lhe pedir permissão. Naquela noite, fazia um ano que Jane havia partido. Anne sabia disso muito bem, assim como seu pai. Era um dia doloroso, que trazia amargas recordações. Em silêncio, Anne se sentou ao pé da cadeira em que o pai estava. O homem olhava pela janela, com um olhar perdido no horizonte. A menina deitou a cabeça no colo do pai, buscando oferecer a ele algum conforto, de sua forma singela de agir. Oliver Smith levou a mão aos cabelos da filha e os acariciou, enquanto mantinha o olhar fixo pela janela. O homem se martirizava e se recriminava, por crer que a filha mais velha poderia estar passando dificuldades; isso se ainda estivesse viva. O pai de Anne não verbalizou esses temores, mas a menina, tão sensível, compreendeu o que o pai sentia. Assim, com sua doçura característica, apenas disse:
— Ela está bem, papai. Ela está com Jeffrey e ele cuidará bem dela.
Oliver Smith voltou o olhar surpreso com as palavras da filha. A menina então o encarou de volta e sorriu:
— Jane está bem, papai. E deve estar feliz também.
O homem não pareceu acreditar nas palavras da menina, mas sorriu diante do gesto da pequena. Entendeu a tentativa de Anne em tranquilizá-lo e aquilo aqueceu seu coração.
Anne, por sua vez, não mentira. Ela acreditava em cada palavra que dissera. Para Anne, sua irmã era feliz. Fugira por amor; vivia, portanto, por amor. De amor.
A natureza de Anne era já predisposta a um romantismo forte, pois era uma menina muito delicada e sensível. A fuga da irmã, capítulo tão doloroso na vida de seu pai, era também um episódio triste na sua; mas era de uma tristeza doce, de uma amarga doçura. Anne entendia perfeitamente os motivos de sua irmã, pois enxergara em seus olhos, naquela noite, a força de um sentimento que ainda não conhecia, mas que se fazia notável.
Nos anos que se foram passando, a frieza se tornara uma constante no ambiente da casa dos Smith. O casarão era mais silencioso do que nunca, pois Oliver Smith não permitia que Ellen oferecesse festas ou banquetes ali. A tristeza reinava no local e os poucos sorrisos eram provenientes de Anne, que, tendo sua natureza sonhadora mais alimentada pela necessidade de uma fuga dessa realidade, vivia da leitura de obras românticas, que a faziam sonhar com um grande amor, com uma vida emocionante, com um sentimento tão forte que a faria vencer o mundo para vivenciá-lo.
Anne idealizava o amor como o tinha visto acontecer com Jane. Pensava que, um dia, também ela gostaria de se apaixonar como havia acontecido com sua irmã.
Assim, a vida seguiu para a jovem Anne, sem grandes abalos, até o dia em que precisou passar por mais uma dura provação.
Como se não bastasse ter de se ver separada da irmã por um destino que não lhes possibilitou continuar juntas, Anne teve de aceitar que a vida lhe tirava agora seu amado pai.
Oliver Smith nunca se recuperou inteiramente da perda de Jane. Na verdade, desde a morte da primeira esposa, o homem sentira que algo muito importante lhe havia sido tirado; algo que jamais conseguiria substituir. Perder a filha tinha sido perder a primeira mulher em definitivo e aquilo foi o bastante para levar o senhor Smith a definhar, pouco a pouco, até que a morte o carregou de vez.
Anne possuía catorze anos quando o pai faleceu.
Ellen sofreu a perda do marido, mas de uma forma diferente da filha. Nunca amara o homem de fato, mas isso não a impediu de realmente sentir a partida de alguém que, no mínimo, era-lhe uma presença reconfortante. Contudo, o que mais preocupou a viúva era o fato de se ver agora desamparada. Sem o marido, a vida se tornava mais difícil, não tanto pelos aspectos econômicos, mas principalmente os sociais. Para ela, era uma grande conquista ter conseguido um marido que era um bom partido. A força social que isso lhe dava era algo do qual não se sentia apta a abrir mão. Todavia, agora que era viúva, embora ainda pudesse desfrutar do poder que possuía de várias formas, não era mais o centro de tantas atenções, pois esse lugar pertencia às mulheres de homens vivos e que ainda estavam no comando de importantes cenários políticos, econômicos e sociais.
Talvez por isso, após um breve período de luto, Ellen começou a se mostrar disponível, demonstrando não estar interessada em ser apenas uma senhora viúva. Não; ela ainda não estava pronta para ficar à parte de todo esse mundo em que, outrora, ela havia reinado.
Por ser ainda uma mulher bonita, Ellen terminou por conseguir um novo casamento. William Carter era um homem de idade já bastante avançada e que nunca havia se casado. Sentindo a necessidade de ter um herdeiro, encontrou em Ellen uma esposa que pareceria preencher bem o perfil do que ele considerava ser o ideal para sua esposa. Desse modo, sem grandes arrebatamentos sentimentais, firmou-se entre ambos um rápido noivado, que desembocou em um casamento pouco tempo depois.
Aos quinze anos, portanto, Anne se via agora em uma nova casa, sendo parte de uma nova família. A menina não tinha gostado muito do rumo que sua vida estava tomando, mas não pôde ir contra. Só lhe restava sua mãe e precisaria seguir com ela para onde fosse.
Anne não gostava muito do velho Carter. O homem parecia-lhe frio e mesquinho com os outros, ganancioso e egoísta ao extremo e tudo isso a jovem era capaz de perceber pelos pequenos atos desse senhor, a quem a jovem se recusava veementemente a chamar de pai. Ellen, inicialmente, ficou zangada com a recusa da filha, mas quando o próprio Carter alegou não fazer a menor questão de reconhecer a menina como sua filha, a mulher deixou estar. Era bastante óbvio que Ellen agia de acordo com o que William Carter queria ou dizia e tudo parecia girar em torno sempre da mesma questão: deixar o marido contente.
Em troca dessa forma tão submissa de agir, Ellen recebia permissão de fazer o que fazia de melhor: dar festas, oferecer recepções, jantares e tudo o mais que, de certa forma, agradavam ao velho Carter. Afinal, o homem era beneficiado de toda essa socialização, ficando assim em destaque, o que lhe era muito favorável, pois suas relações para negócios se fortaleciam dessa maneira.
Anne, que parecia ter herdado do pai o jeito recluso de ser, encontrou dificuldades em se ver subitamente em meio a tantas festas. Afinal, quando finalmente teve idade para participar de bailes e festas, seu pai se via naquela fase de não querer qualquer coisa do tipo em sua casa. Anne, quando criança, lembrava-se de toda a pompa e circunstância de momentos assim, mas apenas como espectadora. Por ser muito menina, a mãe lhe dizia que não podia participar desses eventos; somente quando fosse mocinha. Anne não se importava tanto; gostava mais era de ficar olhando, especialmente quando a irmã – que, sendo dez anos mais velha que ela, obviamente participava desses momentos – aparecia. Jane era, para Anne, a mulher mais bonita do mundo. E ficava sempre sonhando com o dia em que poderia vestir roupas tão elegantes como a irmã. Costumava achar que Jane se vestia de nuvens, por causa das rendas e sedas de seus vestidos de gala. Como era muito criança, achava que fazia sentido: sua irmã era um anjo e se vestia de nuvens para os bailes. De fato, quando dançava, Jane parecia flutuar no salão e Anne, sempre escondida nesses momentos – uma vez que, dado o horário, era para ela estar já em sua cama, dormindo – sonhava acordada com o dia em que poderia estar ali, com sua irmã.
Isso nunca ocorreu. Anne cresceu e já havia passado da idade dos seus primeiros bailes. Agora, no entanto, Ellen acreditava que já estava na hora de apresentar devidamente sua filha à sociedade. Assim, na festa dos dezesseis anos de Anne, Ellen ofereceu à alta sociedade local uma festa retumbante, esplendorosa.
Anne estava muito nervosa no dia. Havia muitas pessoas e ela era o centro das atenções. Não estava acostumada com isso. Não teve tempo de se acostumar; normalmente, as meninas começavam a participar dos bailes como coadjuvantes e iam se acostumando àquele ambiente até o dia em que uma festa era dada em sua homenagem, como uma apresentação formal da jovem para a sociedade, significando que agora ela estaria disponível para pedidos de casamento.
Toda essa formalidade desagradava à Anne, que lia histórias de amor e sonhava com algo bem diferente de tudo aquilo. Ela não queria pedidos formais de casamento, ela não queria toda aquela circunstância para encontrar alguém a quem amar. Sim, porque, para Anne, o amor deveria estar acima de tudo. E ela queria amar, assim como Jane havia amado.
Em seu primeiro baile, Anne ficou extremamente tímida. Não soube se portar corretamente, porque ficou fugindo dos rapazes que lhe diziam bonitas e macias palavras, galanteios típicos e esperados em momentos como esse. Era tudo tão novo; a música inebriante, mulheres em vestidos elegantes, rodopios no meio do salão, brilho, luz, multidões... Tudo aquilo era demais a uma menina que não teve tempo de se acostumar àqueles rituais.
Ellen não gostava de fracassos e o baile dos dezesseis anos de Anne poderia ser considerado um. Devido a isso, a mulher resolveu dar mais bailes, mais festas, até que a imagem de sua filha fosse modificada perante a sociedade, que a taxava, desde já, de uma menina muito bonita, embora completamente sem os atributos necessários para figurar como a estrela de um salão.
Com o tempo, Anne começou a se sentir menos desconfortável nessas festas. Ela já não fugia tanto dos rapazes que a assediavam e era até mesmo capaz de sorrir diante dos comentários afáveis que lhe dirigiam. Começava a se portar como uma dama, tal e qual sua mãe lhe ensinara, mas não se sentia à vontade assim. Ficava sempre relembrando as histórias de seus livros e concluindo que não sentira ainda aquela explosão sentimental no peito, como ocorria com as heroínas de seus livros prediletos. Como então encontrar um marido? Era isso o que sua mãe mais queria, mas Anne se via incapaz de dar a ela essa alegria. Anne queria amar. Só poderia se casar se amasse e entendesse que poderia ser feliz.
Assim, uma noite, em mais um dos bailes que sua mãe oferecia, Anne se via já mais polida e educada de acordo com as etiquetas do salão. Dançava com alguns cavalheiros, sorria com seus galanteios, bebia um pouco de vinho aqui, dizia algumas amenidades ali e ficava por isso. Nunca era mais do que isso.
Entretanto, naquela noite, houve algo diferente.
Era verão e alguns jovens rapazes, que faziam faculdades em outras cidades, estavam em férias e vieram passar esses dias de descanso com suas famílias. Anne nunca tinha visto esses rapazes, mas eles eram diferentes dos jovens que conhecera até então. Eles lhe pareciam mais independentes, menos dados a tantas formalidades. Não seguiam toda aquela etiqueta e, embora também fossem muito ricos, pareciam preferir seguir as próprias regras, em vez das impostas por aquela sociedade.
Foi assim que Anne conheceu Bradley Campbell.
Bradley Campbell era filho de uma das famílias mais conhecidas e respeitadas da região. O rapaz fazia faculdade de Direito em outra cidade e apenas vinha à casa dos pais nas férias. O jovem estava em uma fase na qual claramente ele procurava por diversão, sem interesse em qualquer coisa mais séria.
Quando o jovem Bradley viu Anne pela primeira vez, não conseguiu mais tirar os olhos de cima da moça. Ela tinha algo de diferente das garotas que conhecia. Era uma pureza, uma inocência, uma suavidade distinta do que estava acostumado a encontrar em outras meninas.
Além de tudo, Anne não parecia estar realmente procurando um bom partido para se casar, embora o baile em que estavam tivesse justamente esse fim. Isso atiçou em Bradley o desejo de conquistar aquela jovem, que parecia tão alheia a toda aquela festa que era feita apenas para ela.
Quando Anne se afastou um pouco da multidão que a cercava, Bradley viu ali a chance de se aproximar. A moça tomava um gole de vinho e tentava se refrescar um pouco, ficando próxima à janela e sentindo a brisa da noite. Era uma noite quente de verão e o calor era intenso.
Bradley aproximou-se por trás, quase sorrateiramente. E, muito próximo da jovem, sussurrou:
— Boa noite.
Anne quase deixou sua taça de vinho ir ao chão. O susto fez com que o coração lhe batesse acelerado e, quando se virou para trás, viu o jovem Bradley sorrindo-lhe, o que, pelo susto do momento, fez a jovem se confundir, sem saber se o coração lhe palpitava pelo inusitado momento ou pelo sorriso que o rapaz lhe oferecia, tão charmoso.
— Está muito quente aqui, não acha? – os olhos azuis de Bradley eram profundos e Anne rapidamente se viu perdida dentro deles – Não quer ir um pouco lá para fora?
— Eu... – Anne gaguejava – Eu não posso. Se eu sair...
— A festa é sua, não? – Bradley a interrompeu.
— Sim; e exatamente por isso eu devo ficar.
— Não; é exatamente por isso que você pode partir. – o sorriso do rapaz mostrou-se devastador. Ele então estendeu a mão, oferecendo-se para acompanhar a jovem que, percebendo ali uma forma de fugir de toda aquela formalidade que não lhe agradava nem um pouco, resolveu aceitar.
Poderia não ser grande coisa, mas era emocionante para a jovem Anne. Ela estava indo contra as regras, regras que a faziam sentir-se presa. O rapaz, oferecendo-lhe essa possibilidade, parecia-lhe tão diferente dos outros que até então conhecera, e que sempre agiam de acordo com o figurino...
Lá fora, em meio ao jardim, Anne já se sentia tremer com o pequeno prazer de estar fazendo algo tão contrário ao que deveria. Tinham conseguido sair sem chamar muita atenção e a moça se perguntava se já haviam dado pela sua falta. Nesse instante, o rapaz parou e Anne se assustou com a parada brusca.
Bradley então olhou para a noite estrelada e começou a apontar para algumas estrelas. Perguntou se Anne as conhecia e ela respondeu que não. Apenas era capaz de apreciá-las e amá-las pelo que eram assim. O jovem disse então que ela estava certa e que não havia qualquer necessidade de se conhecer o nome daquilo que se aprecia. Uma rosa teria igual perfume se possuísse qualquer outro nome. Anne reconheceu a passagem de “Romeu e Julieta”, uma de suas obras prediletas. Sorriu com o comentário e então Bradley a fitou intensamente:
— Eu sei seu nome, senhorita Anne Smith... Mas mesmo que não soubesse, não poderia permanecer imune aos seus encantos. Você é como essas estrelas... Elas brilham e encantam a todos, independente de serem conhecidas pelos nomes, por aqueles que as admiram. Eu olho para você e vejo esse brilho que emana do seu ser... E me pergunto se um homem como eu poderia ser amado por uma estrela como você...
Anne ficou estática.
— Você... mal me conhece, meu senhor.
— Não se precisa conhecer uma estrela para poder amá-la, senhorita.
Anne não soube o que dizer. Estava encantada e tão deslumbrada que apenas pôde deixar-se levar pelo momento. Aquela situação inesperada fazia com que fosse invadida por sentimentos novos, todos muito misturados. Sentia-se cheia de sensações inebriantes, exatamente como as mocinhas dos seus livros favoritos. Será que enfim experimentava o que tanto lera em seus livros?
Será que finalmente descobria o que era se apaixonar?
Bradley, sabendo-se eficaz em seu comentário, aproximou-se e levou sua mão à face de Anne. Fez-lhe uma breve carícia e, não encontrando resistência, levou seu rosto para mais perto do da jovem. Mantinha os olhos castanhos dela aprisionados nos seus. E logo, sua boca também fazia dos lábios dela cativos dos seus.
Aquele verão foi feito de sonhos e de uma felicidade profunda para Anne. Ela e Bradley se viam com frequência, com a total aprovação de Ellen, que vislumbrava um bom casamento ali para sua família. Ter uma relação desse tipo com a família Campbell era tudo o que poderia querer. Anne, por sua vez, não se preocupava com essas questões. Estava apaixonada, cada vez mais. Seus sentimentos por Bradley cresciam e, quando não estava na companhia do rapaz, sonhava acordada com ele.
Faziam piqueniques, saíam para caminhadas no parque, olhavam muito para as estrelas. Cada beijo trocado era, para Anne, uma confidência desse amor. Ela era feliz e sonhava em viver assim, feliz para sempre, com o seu príncipe encantado.
Todavia, depois de algum tempo, Bradley começou a parecer mais arredio. Já não sorria tanto e Anne começou a desconfiar de que algo estivesse muito errado. Tentou descobrir o que era, mas sua perspicácia não foi suficiente. Quando finalmente indagou ao rapaz o que estava acontecendo, se ela havia feito algo errado para receber dele um tratamento cada vez mais frio, Bradley respondeu:
— Eu não sei se você me ama tanto quanto eu a amo, Anne.
— Tem dúvidas do meu amor, Brad? Oh, por favor! Não duvide! O que posso fazer para provar que meu sentimento por você é sincero?
— Você sabe que eu não vejo como algo realmente importante seguir todas as regras da nossa sociedade, Anne...
— Sim, eu sei! É um dos motivos que me faz amá-lo tanto, Brad!
— E eu acho que, se nos amamos, ninguém nos deve dizer o que fazer, ou quando fazer...
— Concordo com você, meu querido Brad!
— Então, por que... – o rapaz fez uma pausa dramática, dando a entender que o que diria a seguir o afligia – Por que temos de esperar? Por que esperar por uma estúpida convenção para que possamos demonstrar o nosso amor de forma espontânea e verdadeira? Se eu a amo, Anne... Eu quero poder lhe mostrar isso, sem que me digam quando, ou onde...
Anne pareceu compreender de que se tratava tudo aquilo. Empalideceu.
— Mas... não posso forçá-la. São ideais meus, e apenas meus. Você não precisa concordar comigo, tampouco fazer o que eu desejo fazer. Até porque isso significaria você fazer algo que não quer; e eu jamais seria capaz de lhe pedir isso. São tolices minhas, ignore-as. Eu sou movido por um amor que não consigo mais controlar e por isso digo tolices como essas. Apenas um tolo apaixonado pode ter a capacidade de agir como eu e não posso esperar que você compreenda.
— Eu... – Anne respirou fundo – Brad, eu amo você. Se você é um tolo apaixonado, então eu também devo ser. Sejamos tolos e apaixonados juntos, meu amor!
Anne estava nervosa, mas compreendia que era importante demonstrar seu amor. E, se para Bradley, a melhor maneira seria aquela, então ela não teria qualquer reserva. A jovem se entregou para ele por inteiro, naquela noite.
Durante o verão, Anne dormiu com Bradley por diversas vezes. Deitavam-se juntos em lugares diversos, como um celeiro abandonado, que era o local onde mais passaram a se encontrar a partir de então. Em outras ocasiões, fizeram-no no quarto do rapaz, em dias nos quais a família Campbell estava fora.
Anne não se arrependia, porque sabia que fazia por amor. E Bradley parecia mais feliz assim, então ela acreditava que tudo estivesse bem...
Entretanto, quando o outono chegou, em um dia como outro qualquer, Anne soube que Bradley havia ido embora.
O rapaz havia partido. Tinha voltado para a faculdade.
Ele sequer se despedira da moça.
Aquilo foi um duro golpe para Anne. A princípio, a moça tentou entrar em contato. Descobriu o endereço do rapaz e enviou cartas a ele.
Nunca obteve qualquer resposta.
Não era do feitio de Anne fazer um escândalo, então a jovem apenas amargou sozinha a solidão em que foi abandonada.
Porém, como se a vida não houvesse ainda cansado de lhe pregar peças cruéis, Anne percebeu, depois de algum tempo, que estava grávida.
Aquilo era o pior. Como poderia revelar isso a sua mãe? Como lidar com esse fato? Anne se desesperou; não tinha com quem contar.
Ou melhor, havia alguém. A única pessoa que, pensava ela, apesar de tudo, poderia compreendê-la. Afinal, aquela criança não era apenas dela.
Escreveu para Bradley, dizendo-lhe que estava grávida de um filho dos dois.
Como resposta, recebeu somente o seguinte:
“Esse filho que você carrega não é meu.”
Anne sentiu o chão sumir depois dessa resposta. Não imaginava algo assim, pensava que um filho pudesse sensibilizar o antigo namorado. Descobrir-se enganada feriu-a no fundo da alma.
Não tendo a quem recorrer, precisou revelar a verdade para sua mãe.
Ellen ficou desesperada. Quando Anne lhe falou da gravidez, a notícia já era grave, mas tudo piorou quando ela perguntou quem era o pai, ao que a filha respondeu que simplesmente não importava, uma vez que o pai não queria reconhecer a criança como sua. Ellen então entrou em pânico; sua filha agora estava marcada e não poderia arranjar um bom casamento naquelas condições. William Carter, que ouviu a discussão entre mãe e filha, na qual Ellen brigava afoitamente com Anne, enfureceu-se tanto quanto a esposa. Possuir uma enteada grávida e sem estar casada era um pesadelo! Aquilo não poderia ser! Começou a dizer que não deveria ter se casado com Ellen, que escolhera mal, que essa mulher lhe estava trazendo a maior desgraça que poderia lhe acontecer... Ellen, por sua vez, chorou ainda mais desesperada, pedia compaixão ao marido, não queria ser abandonada, dizia que faria o possível para reverterem aquela situação.
O velho Carter então alegou que só haveria um meio de resolver tudo aquilo.
Anne deveria fazer um aborto.
A simples ideia era assombrosa, mas para Anne era ainda pior. Aquele homem queria decidir por ela o que fazer? Aquele homem com o qual não sentia qualquer ligação de afeto? Era ele quem queria tomar uma decisão que deveria caber apenas a ela?
Ellen, no entanto, não deixou espaço para dúvidas. Prontamente, apoiou o marido. Disse à filha que aquela realmente era a melhor solução. Se fizessem tudo em segredo, a honra da filha – e da família – poderia estar salva.
Ficou tudo acertado desse jeito. Na manhã seguinte, bem cedo, Ellen levaria a filha para outra cidade, onde procurariam alguém que as pudesse ajudar no procedimento.
Anne, ainda em estado de choque diante de tudo, não conseguiu reagir muito. Apenas fez o que pediram. Organizou suas coisas em uma pequena mala, pois teria de ficar fora por alguns dias. Foi para a cama cedo, onde deveria repousar para a viagem do dia seguinte. Contudo, não conseguiu dormir. Passou a noite em claro, passando e repassando em sua mente tudo o que havia acontecido até então em sua vida.
Pela manhã, bem cedo, estava pronta para sair com sua mãe. Não se despediu do velho Carter; ele mesmo não tinha a mínima vontade de vê-la “nesse estado”, como fazia questão de dizer. Melhor para Anne, que também não suportava nem mesmo ver o rosto desse homem.
O sol não havia nascido ainda, quando as duas entraram em uma carruagem para viajar até o seu destino. Durante todo o longo trajeto, mãe e filha não trocaram uma única palavra. Ellen parecia entretida em ler alguma coisa, enquanto Anne permaneceu durante toda a viagem olhando pela janela, como se buscasse encontrar algo no horizonte.
Quando enfim chegaram ao seu destino, quase um dia inteiro havia se passado. Ambas desceram da carruagem, sentindo os corpos cansados. Pararam em frente a uma casa, onde Ellen disse que já eram esperadas. Entretanto, disse à filha que aguardasse um pouco do lado de fora, pois precisava tratar de alguns últimos detalhes antes de Anne ser apresentada ao homem que poderia cuidar de tudo para elas.
Ellen, antes de entrar na casa, lançou um olhar para a filha que demonstrava grande pesar. Mas a tristeza em seu olhar parecia ir além daquela situação. Era quase como se a mãe quisesse pedir desculpas para a filha. Era como se, no fundo, Ellen soubesse que aquilo não era correto. Porém, para a mãe de Anne, era notório: não havia outro jeito. Sim, Ellen parecia pedir desculpas à filha pela vida estar assim... Mas não haveria outro jeito.
Anne respondeu ao olhar da mãe, com um compreensivo sorriso. Desde que Bradley a havia abandonado, nunca mais tinha sorrido. Todavia, agora, o sorriso lhe era a única reação possível. Sua mãe agia de acordo com o que conhecia, de acordo com o que sabia do mundo. Ela não fazia por mal.
Porém, não era por isso que Anne deveria trilhar o caminho traçado por sua mãe.
Assim que viu Ellen entrar, Anne soube, subitamente, o que deveria fazer. Não havia dúvidas dentro dela. Sim, sua mãe fazia o melhor que podia, o melhor que conhecia. Mas o melhor para sua mãe não era o melhor para si. Aliás, não era o melhor para si, tampouco para seu bebê.
Era a primeira vez que Anne pensava em sua criança como um bebê inteiramente dependente de si. E, ao pensar no bebê que carregava em seu ventre, Anne simplesmente soube. Ela queria aquela criança, ela queria ser a mãe daquela criança.
Anne acabava de decidir: faria o que fosse melhor para a criança. Essa epifania trouxe a ela a certeza de que necessitava. Então, tão logo sua mãe sumiu de seu campo de visão, Anne alegou para o cocheiro da carruagem que se sentia um pouco mal. Pediu que ele fosse atrás de sua mãe, que sempre carregava consigo um pouco de água de laranjeira, o que era bom para esse tipo de mal-estar. O cocheiro, não achando ser uma boa ideia abandonar o seu posto, replicou que o ideal seria a própria filha ir atrás da mãe. Anne, no entanto, respondeu que, conforme o próprio cocheiro ouvira, ela não poderia entrar na tal casa até que sua mãe a chamasse.
O homem ponderou um pouco, mas terminou por concordar. Foi atrás de Ellen e, assim que entrou, Anne foi rápida. Retirou de sua bolsinha um papel, onde escreveu, com um pedaço de carvão que encontrou próximo à carruagem:
“Mamãe, eu sinto muito. A culpa é minha. Não desejo lhe trazer sofrimento, mas não posso viver de acordo com o que espera de mim. E não culpe o pobre cocheiro, eu precisava afastá-lo para poder partir. Adeus, seja feliz. Anne.”
Anne retirou sua mala da carruagem e correu para longe dali. Quando estava próxima a uma taverna, pensou em entrar e se hospedar ali por aquela noite. Entretanto, no momento em que ia entrar, viu parar uma carruagem da qual desciam alguns viajantes. A jovem foi ousada, interpelou o cocheiro, perguntando para onde ele iria agora. O velho senhor respondeu que iria para outra cidade, onde era esperado. Anne perguntou se poderia ir com ele, ao que o homem prontamente respondeu que sim, contanto que fosse pago. A jovem já esperava por isso; contudo, não tinha dinheiro consigo. Pegou então um de seus anéis e o entregou ao senhor, que aceitou o objeto como pagamento.
Assim foi que Anne, depois de rodar por muitas léguas, acabou em uma cidade desconhecida e muito, muito distante de seu antigo lar. A moça estava bastante assustada com tudo aquilo, mas a segurança de que agira corretamente lhe dava forças.
Nessa cidade, tão distante de tudo e de todos que um dia conheceu, Anne se hospedou em uma taverna por lá. Pagou com mais de algumas joias suas e por ali ficou até que conseguisse organizar em sua mente como iria agir de agora em diante. Compreendendo que não tinha muito dinheiro, Anne logo percebeu que precisava encontrar um meio de consegui-lo. Entendendo que todas as suas posses poderiam ser transformadas em dinheiro em espécie, pegou os vestidos e sapatos que estavam em sua mala e, sem grandes dificuldades, descobriu onde vendê-los. Por um tempo, pôde ficar assim, mas foi com alguma consternação que percebeu como o dinheiro desaparecia rápido. Em questão de poucos dias, Anne decidiu que precisaria trabalhar.
Por ter vindo de uma família rica, não sabia fazer muitas coisas. Entretanto, considerando sua condição, julgou que o ideal fosse trabalhar em um ambiente fechado. Era inverno e o frio era cada vez mais rigoroso. Anne então se lembrou de que gostava muito de observar o trabalho da criadagem na casa e que isso talvez lhe pudesse ser útil.
Foi andando pelas ruas, de porta em porta, pedindo por trabalho. Lembrava-se de que, às vezes, era assim que sua mãe admitia algum novo empregado. Lembrava-se também do que sua mãe observava ao contratar alguém. Analisava a aparência, os modos, a boa vontade em trabalhar. E, agora, apesar de Anne não ter mais roupas tão caras – trajava vestidos mais simples, que comprara com as economias que fizera –, a jovem sabia ser simpática e mostrar-se como uma pessoa interessante a se contratar.
De fato, foi o que aconteceu. Não demorou muito para conseguir uma casa que a admitisse. Entretanto, não fora tão simples como pensara. O trabalho era pesado. Anne precisava aprender rápido e não havia muito tempo para isso. Os patrões eram rígidos e exigiam perfeição. Então, Anne se esforçou. Tinha em mente que precisava sobreviver como pudesse.
No entanto, quando sua barriga começou a aparecer, a senhora da casa indagou a Anne a respeito de sua condição. Anne não havia mentido, mas omitira seu estado quando ali fora empregada. Não dissera que estava grávida, mas não o fizera por mal. A verdade era que tinha se preocupado; não sabia se a contratariam nesse estado. A senhora pareceu não gostar, mas disse estar disposta a fazer um trato. Anne poderia trabalhar lá até ter a criança. Depois, no entanto, deveria ir embora. Com um filho pequeno, Anne não poderia trabalhar tanto, teria de amamentar a criança, cuidar de um bebê ocuparia muito de seu tempo e a senhora não estava interessada em passar por esses contratempos. A jovem aceitou, afinal aquilo ainda era melhor que nada. E, sabendo que depois de ter seu bebê ficaria sem trabalho, Anne passou a economizar cada centavo que recebia.
Desse modo, o tempo foi passando até que, na primavera do ano seguinte, Anne finalmente teve seu bebê. Era uma linda menina, à qual Anne decidiu chamar de Janine, em uma espécie de homenagem à irmã, de quem ainda sentia muitas saudades.
Conforme o combinado, tão logo teve seu bebê, Anne precisou abandonar a casa em que trabalhava. Já sabendo de antemão o que lhe esperava, Anne tinha feito uma pesquisa pela cidade e havia encontrado uma pequena pensão que poderia abrigar a ela e à sua pequena Janine.
Com o dinheiro economizado, pôde pagar por um quarto por quase quatro meses, antecipadamente. Não pretendia gastar muito consigo mesma, então tentaria fazer valer o seu dinheiro.
Esses meses foram muito felizes para Anne que, embora sofresse com a privação de muitas coisas, descobria em si um amor cada vez mais forte pela filha, o que lhe dava forças para seguir em frente.
No entanto, a vida prosseguia também, e cada vez mais difícil. O dinheiro que economizara começava a acabar e Anne precisaria de um novo emprego para sustentar a si e à filha. O problema é que ela não sabia o que fazer com Janine. Os lugares aonde ia buscar trabalho não admitiam que ela levasse consigo sua filha.
Quando começou a ficar sem dinheiro, não tendo como pagar o quarto da pensão, viu-se pressionada pela dona do lugar a quitar suas dívidas ali ou ir embora de uma vez. Desesperada, Anne contou suas dificuldades à mulher, tentando compadecê-la de sua decisão. Não recebeu tanta compaixão como resposta, mas, ao menos, houve uma solução. A dona da pensão disse que poderia cuidar da criança de Anne durante o dia. Obviamente, cobraria por isso. Dessa maneira, Anne acabava tendo mais um gasto com o qual arcar, mas essa situação era melhor que a atual. Aceitou e, dessa forma, Anne conseguiu arranjar trabalho.
O problema é que, nessa cidade, que não era muito grande, todos já sabiam que Anne era mãe solteira. Mulheres nessa condição nunca eram muito respeitadas, de modo que a jovem mãe era constantemente assediada e humilhada em seu local de trabalho. Nas primeiras vezes em que isso ocorreu, Anne revidou. A vida lhe fora ensinando a ser forte e ela agora demonstrava isso. Por esse motivo, terminava discutindo e brigando com as pessoas de seu trabalho e o resultado costumava ser sua rápida demissão.
Depois desse tipo de situação se repetir algumas vezes, Anne sentiu que precisaria engolir algumas ofensas; do contrário, não restaria lugar onde pudesse trabalhar. Seu espírito se quebrou no momento em que fez essa constatação, mas concluiu que o mais importante era ter dinheiro para sobreviver e, mais importante: para criar sua filha. Passou então a aceitar humilhações e ouvia resignada comentários maldosos. Por fora, ela parecia não mais se importar, mas a verdade é que a cada palavra cruel que ouvia, Anne sangrava um pouco por dentro. Sua sensibilidade, sempre tão aflorada, sofria com essa triste realidade. Porém, não havia saída. E Anne seguia assim.
Entretanto, com o passar do tempo, a situação conseguiu piorar. Janine estava crescendo e a dona da pensão alegava que cuidar da menina dava mais trabalho; consequentemente, ela queria ganhar o equivalente ao trabalho que estava tendo. Anne se revoltava com essa situação, mas via-se em um beco sem saída. Sabia muito bem que aquela mulher não cuidava de sua filha com tanto esmero, mas era a única ajuda que se havia disponibilizado. Negar-se a pagar por esse aumento poderia lhe trazer muitos problemas, não só porque poderia perder a pessoa com quem deixava Janine, mas porque isso poderia lhe custar o quarto em que morava também.
Além disso, nos lugares em que trabalhava, não eram apenas as humilhações sofridas que enfraqueciam Anne. Sua necessidade de emprego e de um salário era tão grande que, muitas vezes, ela era mais explorada que outros funcionários. Sua docilidade fazia com que fosse presa fácil e não foram poucas as vezes em que precisou ficar além de seu horário para terminar seu serviço, pois costumava ter de fazer a parte dos outros e, para conseguir terminar a sua, fazia horas extras. O tempo a mais que a dona da pensão gastava para cuidar de Janine tinha de ser pago como extra também, o que exigia de Anne mais trabalho para pagar suas dívidas, o que a levava a trabalhar ainda mais fora do horário, o que a fazia criar ainda mais dívidas com a dona da pensão... Isso se tornava um terrível círculo vicioso e Anne se desesperava por não conseguir se ver livre dele.
Chegou-se a um ponto em que Anne trabalhava apenas para pagar a dona da pensão. Eram dívidas relacionadas ao quarto, ou dívidas quanto aos cuidados com Janine. Anne pagava não apenas pelo tempo que a mulher dispendia cuidando da criança – se é que cuidava mesmo, de fato –, mas pagava pelos gastos que a criança demandava. Alimentação, água, até mesmo o fogo da lareira diante do qual a criança se aquecia nos dias mais frios... Tudo era pago à parte. Anne sabia que estava sendo explorada. Até tentara, uma vez, descobrir se haveria outro lugar, outro espaço, uma forma mais justa de se viver. Não encontrou.
Em consequência disso, seu dinheiro ia todo para a dona da pensão. Não gastava consigo; na verdade, mal se alimentava e suas roupas iam ficando em pior estado a cada dia que passava. Às vezes, tinha impressão de que os invernos estavam se tornando mais rigorosos, mas a verdade era que suas roupas é que estavam envelhecidas demais para protegê-la do frio. Por conta disso, acabou adoecendo. Estava fraca demais.
Como resultado, perdeu o emprego. Não conseguia trabalhar e ninguém teve interesse em contratar uma mulher naquele estado. Anne não tinha dinheiro para comprar remédios ou se cuidar. Aliás, o pouco que ainda tinha estava usando para pagar à dona da pensão. Estava pagando a ela mais do que nunca, porque tinha medo de ficar com a filha por perto. Não queria que Janine adoecesse também.
Entretanto, seu dinheiro era pouco e as quantias cobradas pela dona da pensão iam aumentando. Quando finalmente todas as suas economias acabaram, o desespero tomou conta de Anne. A dona da pensão disse que seria obrigada a colocar Anne para fora se ela não lhe pagasse logo; além de, obviamente, abandonar Janine sozinha, pois não trabalharia de graça. A essa altura, Janine tinha já quase dois anos de idade e precisava de supervisão. Anne não viu outra solução: Mesmo nesse estado, resolveu ir às ruas para tentar encontrar dinheiro.
Em um primeiro momento, ainda tentou conseguir dinheiro pelas vias convencionais. Mas já tinha tentado isso antes e não funcionara. Portanto, Anne concluiu que não haveria outro caminho. Essa solução já lhe tinha passado pela cabeça algumas vezes, mas sua dignidade ainda lhe falara alto naquelas ocasiões. Seu orgulho era uma de suas únicas posses e não queria abrir mão disso.
Porém, a vida pode ser cruel e tirar tudo o que se tem. Absolutamente tudo.
Começou a se oferecer aos homens que passavam pela rua. No começo, estava tímida e visivelmente não se sentia à vontade fazendo aquilo. Todavia, ao perceber que dessa forma não obteria sucesso, precisou ser mais direta.
Aquilo foi humilhante.
Foi o pior inverno de sua vida. Andava agora pelas ruas, usando poucas roupas, tentando se fazer sedutora, mas em um péssimo estado que causava mais pena do que desejo nas pessoas que a viam. Por isso mesmo, Anne normalmente só atraía homens que não tinham qualquer escrúpulo e que pagavam pouco, por compreenderem que aquela jovem era mais necessitada que o usual. Aproveitavam-se dela, humilhavam-na como podiam e, quando pagavam – porque alguns ainda se aproveitavam da situação para fugir sem lhe dar qualquer quantia em troca –, pagavam muito mal. Anne estava fraca demais para fazer valer sua vontade e simplesmente aceitava a irrisória quantia que lhe davam.
Para piorar a sua situação, Anne descobriu que não era fácil se prostituir. Havia muitas mulheres que também necessitavam de ganhar a vida assim e os melhores lugares eram disputados. Não foram poucas as vezes em que se envolveu, involuntariamente, em brigas com outras mulheres. Não foram poucas as vezes em que apanhou de alguma prostituta, que se achava prejudicada pela presença de Anne ali.
Fraca como estava, Anne não conseguiria lutar. Portanto, acabou ficando em um dos piores pontos da cidade.
De qualquer modo, Anne estava conseguindo sobreviver ao inverno e àquele inferno. Não se poderia chamar aquilo de vida, mas, ao menos, era uma sobrevida. Era verdade que estava cada vez mais doente, mas, ao menos, conseguia pagar suas dívidas todas dessa forma.
Uma noite, após satisfazer um homem que nem sequer se dispôs a levá-la para um quarto, tomando-a ali mesmo, na rua, em um beco, Anne foi duramente humilhada. O homem, no momento de pagar a ela, reteve um punhado de moedas em sua mão e ficou brincando de dar ou não o dinheiro a ela. Estendia o braço e, quando Anne fazia menção de que pegaria as moedas, o homem recolhia o braço de volta, rindo muito do olhar desesperado que Anne tinha em seu rosto. Anne estava muito fraca e, quando tentou se aproximar do homem, para tentar tomar-lhe logo as moedas, acabou tropeçando e caindo sobre ele. O homem não gostou e a empurrou para trás. Com esse gesto, Anne foi acometida por uma forte tosse e, ao tossir sangue, acabou sujando a roupa do homem que, revoltado, esbofeteou-lhe o rosto, fazendo com que Anne caísse ao chão. Em seguida, jogou as moedas sobre a neve que encobria o local, maldizendo-a em diversos xingamentos antes de partir. Anne não se importou, estava acostumada com tratamentos assim. Agora, a única coisa que interessava era recuperar as moedas, pois a neve que cobria o solo escondia os cobres que o homem lhe jogou. O frio era tamanho e ela tremia convulsivamente, mas não desistia dessa tarefa. Enfiava a mão na neve em busca daqueles poucos trocados. Não podia perder aquele dinheiro.
Estava assim, compenetrada nessa sofrível tarefa, quando percebeu uma presença ao seu lado. Quis ignorar; provavelmente era mais alguém querendo fazer pouco caso dela e Anne não tinha tempo para isso agora. Contudo, a pessoa abaixou-se a seu lado e começou a mexer na neve também. Isso fez com que Anne tivesse um ataque de nervos e começasse a gritar que o dinheiro era dela, só dela, porque ela tinha trabalhado por aquilo...
Suas forças estavam no fim. A pessoa à sua frente era apenas um borrão. Anne não conseguia mais discernir se o que via era realidade ou delírio... Estava prestes a perder os sentidos quando ouviu uma voz masculina indagar:
— Anne...?
******
Quando Anne despertou, sentiu o corpo muito dolorido. Foi essa a primeira sensação que experimentou. Depois, entretanto, sentiu que seu corpo estava sobre uma cama muito macia. Abriu os olhos vagarosamente e, quando se acostumou à claridade do local, percebeu que não sabia onde estava. Era um cômodo bonito, amplo, bem iluminado. Havia uma lareira que mantinha o quarto bastante aquecido. Era agradável estar ali e a sensação trouxe um conforto grande à Anne, que se permitiu sorrir ao se ver ali. Contudo, logo se lembrou de sua filha e pânico tomou conta dela. Estava quase deixando a cama, quando a porta do quarto se abriu.
Ao olhar para lá, Anne não foi capaz de acreditar no que seus olhos viam.
Muitas lágrimas explodiram de uma única vez e Anne compreendeu como amor e dor podem ser sentimentos tão próximos.
Anne abriu os braços e, no segundo seguinte, foi envolvida por um abraço que lhe trouxe um calor familiar e reconfortante.
Anne nunca se sentiu tão feliz. Com os lábios trêmulos, conseguiu enfim pronunciar o nome que tinha tanto sabor de saudade:
— Jane...
******
Na noite em que tivera aquele colapso, quis o destino ser bom para Anne. Enquanto a pobre moça buscava na neve os trocados que lhe haviam sido jogados, ela foi vista por um elegante homem que passava pelo local.
Esse homem era Jeffrey. Jeffrey Marshall.
O tempo fora bom para Jeffrey. O rapaz, outrora um jovem que parecia não ter futuro algum, tornou-se um importante homem de negócios. Não foi fácil, ele teve de lutar muito. Mas sua motivação era proveniente do forte desejo de ser bom o bastante para Jane Smith. A jovem nunca exigira isso do rapaz, mas ele havia prometido para si mesmo que daria à Jane uma vida tão boa quanto a que ela tivera de abrir mão para que pudessem ficar juntos.
Após muita luta e perseverança, Jeffrey, sempre com o apoio de sua amada Jane, conseguiu vencer na vida.
O homem estava naquela cidade a negócios. Ele se encaminhava justamente para o hotel em que se hospedara, quando viu aquela triste cena. Uma jovem sendo estapeada e depois procurando na neve os poucos trocados que o vil homem lhe jogara. Em um primeiro momento, Jeffrey quis ir atrás do homem que fizera isso. Aquele comportamento infame tinha de ser punido. Porém, a imagem da jovem desesperada por seu dinheiro tocou mais fundo em seu bom coração, de modo que resolveu ajudá-la.
Colocou-se a seu lado, disposto a recolher o dinheiro para ela. Como calçava luvas, seria mais fácil para ele revirar aquela neve. No entanto, a moça parecia desesperada e em uma espécie de transe. Quando finalmente o notou, desesperou-se, acreditando que ele queria tomar-lhe o dinheiro. Jeffrey quis se explicar, mas a jovem parecia não ouvi-lo. Somente então, quando olhou mais atentamente para a mulher à sua frente é que ele pôde perceber. Era Anne, a irmã de Jane; a menina cuja imagem ficara gravada em sua mente, tamanha a obsessão de Jane por manter, sempre por perto, um retrato da irmã caçula. As feições mais magras e mais adultas não lhe enganaram. Era realmente Anne.
Como a moça acabou desmaiando, Jeffrey pegou-a em seus braços e a levou para seu hotel. Anne estava muito febril e, em seus breves momentos de lucidez, ela chamava pela filha. Com algum custo, Jeffrey conseguiu que Anne lhe dissesse, mesmo em meio a delírios, onde ele poderia encontrar a filha dela. Foi assim que ele chegou à pensão e foi lá que encontrou a sobrinha de sua esposa.
Não lhe foi difícil tirar a menina dali. A dona da pensão não se importou muito; bastou que Jeffrey oferecesse uma boa quantia em dinheiro pelo trabalho dela e a mulher entregou a criança sem perguntar o que seria de Janine. Com a menina consigo, Jeffrey voltou ao hotel e preparou tudo para o retorno à sua cidade.
Não havia avisado Jane do que se passara, até mesmo por falta de tempo. Assim, quando finalmente voltou à sua casa, foi recebido pela esposa e pela filha, Annette. Não sabia ao certo como começar a explicar, então deixou que a esposa visse com os próprios olhos. Trouxe-a para ver quem estava dentro da carruagem e Jane quase desmaiou ao ver a irmã caçula ali.
Levaram-na para casa, trataram dela com todo o cuidado necessário. Jane não deixava seu posto jamais; permanecia à cabeceira da cama em que Anne repousava, disposta a estar ali quando a irmã despertasse. Era, muitas vezes, preciso que Jeffrey a levasse para descansar um pouco; do contrário, Jane nunca sairia dali.
Foi justamente em um desses poucos momentos em que Jane se afastou de seu posto, que Anne acordou. E foi quando Anne começava a se desesperar por não entender onde estava, que Jane voltou.
As duas irmãs, em um primeiro momento, apenas se abraçaram. Abraçaram-se e permitiram que a saudade permeasse aquele momento, transbordando de seus corações, podendo enfim dar vazão a esse sentimento. Choravam lágrimas quentes que eram sofridas e alegres; eram tantas sensações misturadas que nenhuma das duas se preocupou em explicar ou entender. Sentiam, apenas. Isso lhes bastava. Então, ficaram caladas por um longo tempo, apenas abraçadas, apenas sentindo a presença da outra junto de si.
Quando finalmente sentiram-se mais tranquilas, afastaram-se um pouco e sorriram-se largamente. Havia muito o que falar, havia tanto sobre o que conversar... Era praticamente uma vida inteira que passaram longe uma da outra.
A primeira pergunta que Anne fez foi a respeito de Janine. Queria saber onde estava sua filha. Jane disse que a irmã podia ficar tranquila; Janine estava com Jeff. Isso foi o bastante para puxar o assunto a respeito da vida de Jane, que contou à Anne que havia casado com Jeff, que formara uma família com ele... Contou que haviam lutado juntos e que, com muito suor e trabalho, tinham conseguido criar um negócio próprio, o qual vinha lhes rendendo bons lucros agora. Jane falou que também tinha uma filha, de seis anos de idade e que se chamava Annette. Jane disse que dera o nome à filha em homenagem à irmã da qual nunca se poderia esquecer.
Anne sentiu-se feliz com a homenagem e disse que fez o mesmo, ao escolher um nome para a própria filha. Contudo, a semelhança entre a vida das suas acabava aí. Anne então contou como foi o desenrolar de sua história. Não teve vergonha, porque se reconhecia muito mais forte do que imaginaria ser possível antigamente. Assim, sem usar de meias palavras, contou tudo o que lhe sucedera durante os anos em que estiveram separadas. Por sinal, Anne espantou-se com a incrível facilidade que sentiu em conversar com a irmã. A familiaridade daquele momento fez com que se sentisse segura como há muito tempo não acontecia. Abriu-se de um modo que não imaginava ser mais possível e revelou todas as situações vividas ao longo daqueles anos.
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Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!Jane chorou muito com o relato da irmã. Começou a se culpar, alegando que deveria ter levado a irmã consigo naquela noite. Pediu perdão à Anne, dizia-se uma péssima irmã, chorava copiosamente, como se sentisse a dor da irmã na própria pele. Anne, por sua vez, sentia-se leve. De forma alguma, culpava a irmã por qualquer coisa. Sabia que Jane não poderia ter agido diferente. Quando partira, naquele noite, Jane não sabia o que seria de seu futuro. Não sabia sequer se teria um futuro. Aventurava-se e desafiava o próprio destino. Fazia por amor, então aceitava sacrificar-se. Porém, Jane não achava que seria boa ideia arrastar sua irmã consigo. Se tudo desse errado, Jane jamais se perdoaria por ter tirado a irmã de sua vida, que até então era boa, para uma realidade imprevisível e cruel. De fato, para Jane, Anne ficaria bem. Seu pai a amava, Ellen, como sua mãe, jamais lhe deixaria faltar algo... Jane realmente acreditou que a irmã estaria bem.
Alguns anos atrás, quando já estava bem estabilizada, Jane quis tentar um contato com sua família. Era a primeira vez, depois de tantos anos. Somente aí soube que seu pai já havia falecido... Foi quando descobriu também que Ellen havia se casado com outro homem, muito rico. E, buscando mais algumas informações, soube que Ellen e William Carter tinham se mudado para outra cidade, onde viviam muito bem com sua filha. Jane pensara que essa filha era Anne, mas a irmã lhe contava agora que essa era provavelmente a filha que Ellen deu ao velho Carter, que tanto queria um herdeiro...
Jane disse que, fosse o que fosse, nada mais disso importava. Agora elas estavam unidas novamente e nada poderia separá-las. Jane disse que cuidaria da irmã e que seriam felizes, como uma família grande e alegre.
Entretanto, a essa altura, Anne já estava muito fraca. Jeffrey mandou virem os melhores médicos, mas de nada adiantou. A doença de Anne estava muito avançada e não havia nada que pudessem fazer. Jane revoltou-se; não aceitava que pudesse acabar assim. A irmã mais velha manteve-se nesse estado de negação por muito tempo, até que, um dia...
Um dia, em uma bela manhã, Anne pediu que chamassem a irmã ao seu quarto. Jane estava ajudando uma criada a preparar um lanche para a irmã, quando avisaram-na de que Anne queria vê-la. Preocupada, Jane correu ao quarto. Quando lá chegou, encontrou a irmã sentada em uma cadeira, próxima à janela.
— Anne, querida! Você não pode ficar se levantando assim.
— Jane, minha irmã... – Anne olhou na direção da porta e sorriu – Estava cansada de ficar deitada... Quis ver um pouco da paisagem.
— Mesmo assim, meu amor... É melhor voltar para a cama. Venha; vou lhe trazer um lanche agora...
— Já é primavera? – Anne indagou, ignorando o pedido da irmã e voltando a olhar pela janela.
— Já. – Jane respondeu, aproximando-se da caçula.
— Eu gosto muito da primavera. Janine nasceu nessa estação.
— Eu também gosto. – Jane limitou-se a responder.
Do lado de fora da casa, no imenso jardim que ficava defronte, Annette e Janine brincavam alegremente. As duas pequenas primas logo se tornaram muito próximas e, desde o dia em que Jeffrey trouxe Anne e sua filha para lá, as duas meninas brincavam sem parar.
— Quando olho para elas, eu me lembro da nossa infância... – voltou a falar Anne, após permanecer alguns segundos calada.
— Sim, eu também. – respondeu Jane – Elas gostaram muito uma da outra. Eu fico feliz com isso...
— Janine será feliz. Isso me faz feliz, porque assim eu poderei partir em paz...
— Do que está falando, Anne? – Jane repreendeu a irmã – Não diga bobagens. Você não vai a lugar algum.
— Jane, eu...
— Não. Eu não quero ouvir. Venha, você precisa voltar para a cama.
— Jane, está tudo bem. – Anne segurou a mão da irmã e percebeu que ela tremia – Sabe, eu estou feliz. Estou muito feliz por tê-la reencontrado, minha irmã. Estou feliz por ter sido mãe. Eu sempre quis amar, amar plenamente, sentir meu corpo transbordar desse sentimento. E quer saber o que houve? Isso aconteceu. Eu pensava que a vida tinha sido cruel comigo. Pensava que meus sonhos nunca fossem se realizar, mas... Agora, eu vejo... Tenho muito pelo que agradecer. A vida me deu a oportunidade de amar e ser amada. Hoje, é só isso que fica. Eu consigo esquecer o amargo. Ficou apenas o doce... No final, acho que isso é tudo o que importa, não é mesmo? Eu tive bons momentos, repletos de amor. São eles que vou levar comigo.
— Anne, eu não quero conversar assim. Não quando você fala em tom de despedida.
— Não estou me despedindo, irmã! Estou agradecendo. Aliás, é primavera. Na primavera, nada tem fim. É sempre o início de algo. E é isso que eu sinto quando olho para Janine e a vejo assim, tão feliz, brincando com a prima. Sabe, Jane... Minha filha é o meu recomeço. Olhando para ela, eu percebo... Nada foi em vão...
— Anne, por favor... Não fale mais... – os olhos de Jane já estavam marejados. Anne, por sua vez, tinha uma expressão luminosa no rosto.
— Você vai cuidar bem dela para mim, irmã?
— Claro. – Jane respondeu, sentindo que as lágrimas começavam a descer pelo seu rosto. Anne então voltou a olhar pela janela, sorrindo com a imagem da filha que brincava com a prima, em meio às flores primaveris que começavam a desabrochar – Ah, isso me lembra uma coisa, Anne. Lembra-se da sua boneca?
— Que boneca?
— Sua boneca preferida. A que você me deu, para que eu nunca me esquecesse de você...
— Ah, sim... Eu me lembro.
— Eu a tenho até hoje. Cuidei muito bem dela. – sorriu Jane.
— Eu tinha certeza de que cuidaria bem dela, irmã.
— Tive uma ideia! Por que você não dá essa boneca para a Janine? Aposto que ela iria gostar!
— É uma boa ideia... – respondeu Anne, voltando a olhar para fora.
— Eu vou buscá-la! Está guardada no meu armário, e está em excelente estado! Você vai ver com seus próprios olhos e ficará orgulhosa de mim, Anne querida!
Dizendo isso, Jane correu para fora do quarto. Fechou-se em seu próprio cômodo e se permitiu chorar com mais vontade. Mas não demorou muito nisso; cinco minutos depois, tratava de se recompor. Não queria chorar assim na frente de Anne, não queria parecer fraca para a irmã. Pegou a boneca em seu armário, sorriu com as recordações que lhe afloravam toda vez que tinha aquela boneca nos braços, e retornou ao quarto da irmã.
— Aqui está! – Jane anunciou que estava de volta assim que adentrou o quarto. No entanto, Anne não se voltou para trás.
Jane caminhou até a irmã e pousou a mão delicadamente sobre o ombro dela. Ao perceber que ela ainda não respondia, colocou-se frente a frente com Anne.
A irmã caçula estava com os olhos fechados. Sua expressão era tranquila, o semblante era plácido. Parecia que ela apenas dormia. Havia até mesmo um sorriso em seus lábios rosados.
Porém, Jane sabia o que tinha ocorrido de fato. Tristemente, ela sorriu. Colocou a boneca nos braços da irmã e sentou-se ao seu lado. Deitou a cabeça no ombro de Anne e permitiu-se, por um instante, ali ficar. Permaneceu assim, junto à irmã, vendo Annette e Janine brincarem.
O começo precisa do fim para poder recomeçar.
E a vida recomeçava.
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Nota da autora: Como essa canção já nasceu com uma história por trás, foi difícil criar um novo enredo. Semelhanças com a história da Fantine então devem não só ser esperadas, como compreendidas. É impossível fugir da história que originou a música.
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I Dreamed A Dream (versão da Anne Hathaway)
There was a time when men were kind
When their voices were soft
And their words inviting.
There was a time when love was blind
And the world was a song
And the song was exciting.
There was a time ... then it all went wrong
I dreamed a dream in time gone by
When hopes were high and life worth living,
I dreamed that love would never die
I dreamed that God would be forgiving.
Then I was young and unafraid,
When dreams were made and used and wasted.
There was no ransom to be payed,
No song unsung, no wine untasted.
But the tigers come at night,
With their voices soft as thunder,
As they tear your hope apart
As they turn your dreams to shame
He slept a summer by my side.
He filled my days with endless wonder,
He took my childhood in his stride,
But he was gone when autumn came.
And still I dream he'll come to me
And we will live the years together,
But there are dreams that cannot be
And there are storms we cannot weather.
I had a dream my life would be
So different from this hell I'm living
So different now from what it seemed
Now life has killed the dream
I dreamed
[TRADUÇÃO:]
Eu Sonhei um Sonho
Houve um tempo em que os homens eram gentis
E suas vozes eram suaves
E suas palavras convidativas
Houve um tempo em que o amor era cego
E o mundo era uma música
E a música era excitante
Houve um tempo... e de repente tudo deu errado
Eu sonhei um sonho em um tempo passado
Quando as esperanças eram grandes e a vida valia ser vivida
Eu sonhei que o amor nunca acabaria
Eu sonhei que Deus seria misericordioso.
Eu era jovem e não tinha medo
Quando os sonhos eram feitos e usados e jogados fora
Não havia resgate a ser pago
Nenhuma música sem ser cantada, nem vinho não degustado.
Mas os tigres vêm a noite,
Com suas vozes suaves como trovão,
Enquanto eles despedaçam sua esperança
Enquanto eles transformam seus sonhos em vergonha
Ele dormiu um verão ao meu lado.
Ele preencheu meus dias com maravilhas sem fim,
Ele levou minha infância em seu passo
Mas ele se foi quando o outono veio.
E ainda assim eu sonho que ele voltará para mim
E que viveremos os anos juntos,
Mas existem sonhos que não podem ser sonhados
E existem tempestades que não podem passar.
Eu tive um sonho que minha vida seria
Tão diferente deste inferno que estou vivendo
Tão diferente agora do que parecia ser
Agora a vida matou o sonho
Que eu sonhei.
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