Eu roubei seu coração
2 Problemas no Paraíso
Notas iniciais
Acho que nunca me senti tão chateada por fazer uma viajem.
Viajar não era o problema, o inconveniente era ter de fazer a viagem em um trem, pois meu pai decidira me punir por ter o evitado com tanto afinco, eu sequer podia culpa-lo, mas ainda assim era degradante ter seu pai te punindo, por algo que você realmente fez.
Ao invés de me pagar uma passagem de avião decente, tudo o que ele fez foi transferir uma quantia miserável que me obrigava a pegar uma viajem lenta e barata de trem, não podia me culpar por tê-lo xingado de todos os nomes mentalmente.
Ele disse: Se há um meio de transporte rápido e um devagar, o mais barato sempre vai ganhar, além do mais, quem não ama viajar de trem? É uma aventura incrível! Conhecimento meu anjo, conhecimento!
Enfim, além de ir para um lugar que eu tinha escolhido como refúgio depois de pensar muito nas minhas alternativas, também demoraria séculos pra chegar nele.
Olhei ao meu redor para a estação antiquada e respirei fundo, as pessoas pareciam cansadas e apressadas, havia tanta gente velha e entediante, era difícil se entusiasmar com um lugar tão antigo e decrepito.
Eu não era fã de coisas velhas, sou uma garota do futuro, qual é!
Posso estar soando como uma garota mimada agora, mas ninguém podia me culpar, essa é a minha merda de vida, eu tenho pais divorciados que decidiram me dar trabalho depois de oito anos de paz, então sim, eu estava pirando, e meus hormônios de adolescente de dezessete anos não estavam ajudando muito.
Agora se você quer saber o motivo de eu estar indo para casa do meu pai depois de tanto tempo, bem, sente-se, pois não é nada agradável.
Minha mãe decidiu namorar um senador famoso.
Eu transei com o filho dele quando ela decidiu que queria subir ao altar.
Então, obvio, ela anulou tudo, pois como toda mãe pensava no bem estar da filha antes de tomar seu próprio bem estar.
O que acontece é que o filho do senador era um puto de vinte e sente anos, e eu uma garota de dezessete sem nenhum juízo, nos deixamos sermos pegos no ato, isso poderia ter rendido historias sórdidas nos tabloides se a pessoa errada tivesse nos encontrado. E sim, foi o próprio senador que nos encontrou, ele ficou irado com a situação e as consequências que elas poderiam ter trazido a sua campanha, então apenas virou a cara e se sentou para conversar com minha mãe, que teve uma atitude inusitada ao terminar seu compromisso com ele para me proteger de uma vida cheia de possíveis escândalos.
Eu não era nenhuma flor, ainda não sou, então é obvio que minha mãe tentou me proteger de mim mesma.
Depois que tudo estava terminado, ela agiu como qualquer mãe e gritou toda sua frustração, o que me deixou meio atordoada, pois foi a primeira vez que ela surtou, e mesmo que tenha sido uma coisa ruim que só pioraria se ela não procurasse ajuda, o episodio em si me fez acordar para minhas ações inconsequentes.
Eu tinha pisado na bola, fiquei com um cara velho quando eu era apenas uma criança, não tinha me ligado que isso poderia ter dado em cadeia e processo por abuso infantil, então quando minha mãe quebrou de vez eu meio que cresci um pouco, quer dizer, o suficiente para decidir o que era certo.
O certo foi acompanhar minha mãe até uma clinica de reabilitação, e depois ligar para o meu pai contando tudo e proclamando minha mudança para sua casa.
Ele ficou muito triste com a situação da minha mãe, mas também ficou muito feliz com a possiblidade de eu ir morar com ele, então, era isso, eu estava tentando consertar as coisas que fiz e aceitando todas as minhas punições.
A piada, é que meu pai não sabe o que aconteceu, ele apenas sabe que minha mãe precisava de tratamento e por isso minha custodia estaria com ele por tempo indeterminado.
Olhei mais uma vez ao redor, meus olhos impacientes passando pelo relógio, parecia que nunca chegaria a hora do meu trem chegar, então encarei minhas unhas por um tempo até sentir aquelas sensação de incomodo que te avisa que o esmalte já está descascando há um tempo, sabe, aquele sensaçãozinha que te diz para ter vergonha na cara e decidir remover a cor de uma vez. Mas, como uma pessoa ansiosa, eu apenas levei os dedos à boca e arranquei o resto da tinta preta com os dentes.
Ao contrário do que a maioria pensa, a cidade onde meu pai mora não é um pesadelo, ou a coisa mais entediante do mundo, é o oposto, é um lugar incrível e diversificado, cheio de vida e agitação, o que estava me matando era lidar com a nova vida dele, e com meus próprios demônios obvio.
Quando meus pais se separaram ambos demoraram um tempo até começar a namorar novamente e por incrível que pareça, tá-dah, meu pai foi quem deu o primeiro passo, então estou contando o motivo de nós termos nos afastado durante os anos, foi por causa de uma lista infinita de loiras, que eu decidi que não queria mais ter meu pai por perto.
Ele tinha muitas namoradas, todas num padrão, loira de olhos azuis, uma coleção infinita de barbies com prazo de validade.
Antes que eu pudesse identificar a essência de uma delas, lá vinha outra, e não, meu pai não é nenhum tipo de galinha insaciável, ele é apenas...é difícil explicar, acho que ele é do tipo que se apaixona por todo mundo, mas não o tipo arrebatador, tá mais pra paz e amor para todos, ou todas no caso. A coisa é, eu percebi mais tarde que o desfile de loiras numéricas era um problema interno do meu pai, pois ele estava tentando achar a garota certa para preencher o vazio que “á” garota tinha deixado nele, e, bem, a garota responsável pelo vazio era minha mãe.
Sim, meus pais são um clichê de historia de amor, garoto conhece garota da casa ao lado, se tornam melhores amigos, paixão não correspondida, e então a erupção do amor correspondido antes que seja tarde de mais. Pois é, Philar, minha magnânima mãe, era o primeiro e único (até agora) amor do meu pai. Apesar deles terem se separado, por razões de bem estar mútuo, não significava que o amor deles tinha morrido, ao contrário, por se amarem demais eles decidiram se separar.
Você provavelmente nunca vai conhecer pessoas assim na vida real, um milagre é o que eles são.
O que acontece, é que meu pai finalmente encontrou a pessoa que preenchia esse vazio, ou ao menos metade dele, ele tinha casado um ano antes do meu aniversário de dezoito, e estava mais radiante do que nunca, cada vez mais apaixonado e louco para compartilhar isso com o mundo. Acho que foi isso que fez minha mãe decidir parar de evitar as investidas do senador, ela percebeu que não dava mais para esperar por um milagre feliz para voltar com meu pai, então decidiu se casar com o político.
Não saiu tudo exatamente como ela queria, enquanto os planos futuros dela desmoronavam os do meu pai só evoluíam.
Eu estava chateada com o casamento da minha mãe porque estava chateada com o do meu pai.
Queria esganar os dois, mas não podia, não era meu direito sabotar a felicidade deles, não depois de tudo que passaram.
Então eu estava nessa estação, sentada em cima das minhas malas, roendo as unhas, sentindo o coque frouxo do meu cabelo deslizando pelas costas e pensando em como não arruinar a vida do meu pai com a minha decisão de ir morar com ele e sua esposa.
E assim, com o suspiro do vento, ou o bater das asas de uma borboleta, que de repente tudo ao redor mudou, a melodia de um violão deslizou colorindo toda a atmosfera, dando vida as pessoas ao redor, felicidade vasando por seus sorrisos intrigados e olhos curiosos.
Ele apareceu assim, como se a felicidade tivesse acabado de explodir no meio da estação, lá estava ele, no meio de todos, tocando uma música qualquer, mas derramando todo seu coração para todos.
Meu coração se acelerou só pelo som da sua voz cantando, minhas costas se empertigaram e eu me levantei de cima das minhas malas, tentando olhar por cima das pessoas que abriam caminho. Quase corri com a vontade súbita que eu tive de vê-lo.
Então ele apareceu, andando por entre as pessoas sorridentes, seus pés em coturnos marrons gastos tocando o chão com graça, as calças jeans claras moldando pernas longas, um violão em braços cobertos por um moletom verde.
Minha respiração se prendeu quando meus olhos passaram pelo violão e seu peito coberto por uma camisa branca de algodão, e eu não podia estar preparada para a visão do seu rosto, ou a reação que todo o meu corpo ao perceber que ele estava olhando para mim.
Ele continuou caminhando em minha direção, os olhos presos no meu rosto, à canção crescendo e lá estava queridos leitores, o cara mais lindo que eu conheci na vida.
Eu tinha acabado de conhecer um anjo.
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