Eu roubei seu coração
1 O Garoto Diabo
Notas iniciais
Eu conheci o diabo quando tinha nove anos, nos dias em que eu ainda era feliz em visitar o meu pai, logo depois de ele e Philar terem se divorciado, antes das namoradas cópias, antes da tintura barata para cabelo, antes de tudo ruim.
Ele comprara um duplex bonitinho que tinha a melhor banheira do mundo, vizinhos doidos e a vista do lago local que era possível ver do térreo onde meu pai construirá uma estufa para suas especiarias culinárias, então enquanto ele parecia superar os anos frustrantes de seu primeiro casamento recuperando seu eufórico eu gastronômico, eu o pequeno desastre criado por ele e seu primeiro amor brincava no parquinho do bairro.
Ao contrario de muitas crianças eu estava feliz com a separação dos meus pais, todas aquelas brigas sem fundamentos e expressões cansadas e tristes precisavam de um ponto final, eu amava minha mãe, mas sabia demais que ela tinha problemas profundos consigo mesma para resolver, então não era justo que ela estivesse caindo e levando meu pai, um homem tão sonhador e apaixonado e eu, a filha dela, para um buraco de dor cada vez maior.
Então sim, eu posso ter sido um milagre, uma situação a parte dos estragos que a maioria dos divórcios são.
Eu fiquei mesmo feliz em ter duas casas, dois quartos, dois lugares para escolher passar as férias, e no momento daquela tenra idade de inocência, eu gostava de ficar na casa do meu pai, na sua cidade, naquela bagunça encantadora e caótica que era a nova vida dele, uma que fazia ver quem ele fora antes da bagunça da minha mãe.
Meu pai era um novo solteiro, e apesar do novo emprego o deixar a noite toda fora, ainda tínhamos todo o dia para ficarmos juntos, ficar perto dele era incrível, sempre estávamos fazendo algo, só que como uma pessoa criativa e sonhadora ele tinha seus momentos, e isso consistia em ele passar um tempo perdido em criações na cozinha e eu como uma boa filha entendia aquilo, então tinha que me contentar em deixa-lo brincando com seus ingredientes, e ia direto para o parquinho do bairro.
O parquinho era algo preciso, com balanços novos, trepa-trepa, gangorra e uma casa da árvore real, cheia de passagens interligadas com o terreno abaixo da grande árvore, eu estava simplesmente apaixonada por tudo, desde as escadas ao escorregador interno, então sempre levava minha cesta com lanches e sucos preparados pelo meu pai, abraçava minha boneca preferida e guardava na mochila um livro qualquer que eu estivesse lendo no momento, e o que eu vinha fazendo quase o tempo todo era ler, tinha muito tempo para isso.
Depois de me instalar dentro da casa da árvore espalhei minhas coisas e me recostei contra minha mochila enquanto um capitulo muito legal de O Jardim Secreto me fazia mergulhar na imaginação, estava alheia a tudo ao meu redor, presa dentro da minha imaginação que construía todo um mundo nebuloso.
Então quando a mão preta começou a deslizar sobre o ar perto dos meus pés eu quis acreditar que estava apenas imaginando coisas, então voltei a ler, apenas para sentir aquilo cutucando meus pés descalços, eu fiz o que qualquer garota da minha idade faria ao ver algo tão assustador, eu gritei, muito, e então todo meu corpo entrou em ação ao meu pânico evidente, se sacudindo em terror e retrocedendo até eu bater minha cabeça na parede as minhas costas, a dor me atingiu enquanto a mão continuava tateando até achar a primeira coisa ao seu alcance e sumir.
Aconteceu de ser minha boneca Judy.
E eu tenho que dizer, amava muito aquela boneca, era uma das poucas coisas boas que eu tinha ganhado da minha mãe em um momento muito bom.
Eu entrei no meu modo defensivo na hora e comecei a descer pelo escorregador, só não esperava que alguém estivesse tentando subir enquanto eu descia, então óbvio que bati a cabeça novamente, só que dessa vez bati contra outra cabeça. Nem tive tempo para me preocupar com quem era quando saia rolando por cima do seu corpo e caia na areia estatelada. Acho que por ter batido a cabeça duas vezes e ainda estar com dor, eu não podia me culpar por abrir os olhos novamente e gritar ao ver a figura se levantando em cima de mim. Afinal, ele tinha chifres.
— AAHHHHHHHHHHH!
Usei o primeiro membro que respondeu ao meu cérebro, que foi minha perna que tomou impulso e golpeou o diabo em um lugar macio o fazendo chiar um barulho de dor como um “Ouchh” e cair em sua bunda. Meus olhos lacrimejavam com lágrimas de dor, usei minha mão para limpa-los enquanto levantava com pressa para correr, acabei parando no mesmo momento ao ver o que estava na mão preta dele, minha boneca.
— Você me chutou!
Paralisei ainda mais quando a voz saiu do corpo envolto em preto do diabo, só para perceber então ele abrir seus olhos por trás da máscara, e vou dizer, não sou muito religiosa, graças aos meus pais, mas o pensamento que passou pela minha cabeça em seguida foi que a bíblia estava certa em dizer que o diabo já foi o anjo mais bonito de Deus. Por que o diabo que estava na minha frente tinha olhos de um azul que não deviam nem ser real, e tenho certeza disso, pois depois daquele dia eu passei horas procurando a exata cor na minha palheta de lápis de cor.
— Você é um garoto?
Foi à coisa mais errada a ser dita, eu sei por que no momento em que pronunciei elas a minha boneca estava atingindo minha cara, me fazendo cair sobre minha bunda, totalmente desconcertada.
— É claro que sou sua garota burra!
E então estávamos assim, num impasse, garoto vs garota, olhei para ele mais atentamente e vi que todo aquele preto não passava de um macacão estampado com uma caveira, ele vestia botas e uma capa, um tipo de fantasia hibrida nada haver, a máscara era de algo assustador que eu não conseguia descrever, totalmente não de acordo aos chifres, mas mesmo assim assustador.
— Por quê fez isso?
Minha voz estava meio falha, surpresa e descrença lutando pelo seu lugar em minha cabeça, o garoto parecia tremer de raiva, sua mãos fechada em punhos ao lado do corpo.
— Porque sim!
Então ele se virou e marchou até a escada da casinha da árvore, entrando nela, eu fiquei assistindo como uma idiota sem saber o que ele estava fazendo, até minhas coisas começarem a descer pelo escorregador, fiquei apenas observando cada uma pousar no chão ao meu redor, então levantei o rosto para ver o garoto diabo descendo pelo escorregador, dando um pulo seguro no final para ficar de pé, então caminhar até mim e se abaixar ameaçadoramente e gritar no meu rosto.
— Fique longe da minha casa da árvore sua loura burra!
E assim, sem por em nem tirar, ele simplesmente chutou areia na minha cara, e eu estava boquiaberta, de olhos arregalados, o que me rendeu um monte de areia na boca e nos olhos.
Só por estar tão desnorteada eu me deixei chorar tanto pela dor de toda areia nos olhos quanto de vergonha por tudo que ele tinha acabado de fazer, eu tinha acabado de ser expulsa de um parque infantil público, por um garoto diabo doido. Ele ficou lá parado em pé enquanto eu tossia em meio a soluços sufocados, como se estivesse se certificando que eu recebi a mensagem, eu apenas comecei a recolher minhas coisas, desesperada para sair dali correndo o mais rápido possível.
Não podia culpar as ações do meu corpo quando fui surpreendida mais uma vez pelo diabo.
—Tome.
Sua voz soava mais como a de um garoto normal agora, quase parecia envergonhada, ele oferecia minha boneca como um pedido de desculpa, encarei sua mão estendida com receio, meu corpo todo tinha se contraído como o de um animal amedrontado, ele ficou esperando até que eu me levantasse, meus olhos se mantendo incertos sobre os seus tão azuis e brilhantes que eram quase indecifráveis.
Coloquei a mochila sobre o ombro e estendi minha mão tremula, com esperança que o pedido de desculpas viesse.
Ele olhou por um tempo para meu rosto como se quisesse achar algo e então seus olhos escureceram, eu soube assim que tomei a decisão de levantar que tinha caído numa armadilha.
— Toma essa sua loira burra!
Ele jogou a boneca na minha cara de novo, só que dessa vez eu não cai, apenas abri um berreiro e sai correndo em direção a minha casa, antes que ele pudesse fazer mais alguma coisa.
O que eu pensava enquanto corria pra casa com lágrimas se misturando a areia em meus olhos?
Bom, que meus sentimentos estavam esmagados pelas atitudes de uma criança estranha, uma criança que tinha olhos lindos, e que me enganou e me expulsou sem nenhum motivo de um lugar no qual eu tinha passado quase todos os dias das minhas férias.
Quando cheguei em casa mal tive chance de me esconder do meu pai, pois ele estava acabando de sair todo animado da cozinha, e parou congelado instantaneamente ao me ver. Mal registrei tudo o que veio a seguir, pois meu pai saiu correndo de um lado para o outro atrás de suas chaves, ignorando todos os meus protestos ele me colocou no carro e fomos parar no pronto socorro, eu só percebi que estava ruim quando a enfermeira nos atendeu na recepção, seus olhos primeiro registrando meu pai, o que a fez se empertigar e empinar os peitos, colocando um sorriso sedutor nos lábios, então ela olhou para baixo e sua expressão se desmontou.
— Oh meu Deus querida, o que aconteceu com você?
Eu permaneci calada o tempo todo no carro enquanto meu pai perguntava sem parar, mas ao ter uma mulher tão parecida com minha mãe perguntando finalmente explodi numa bagunça chorosa. Só tinha percebido o motivo de me sentir tão fechada naquele momento, a enfermeira era loira, tinha o cabelo rente aos ombros e olhos azuis, e me lembrava da minha mãe, pra quem eu queria ter corrido quando cheguei em casa.
Ela me levou até a sala de atendimento e me deu um aperto carinhoso na mão ao me dar um pirulito, disse para eu e meu pai aguardarmos a médica.
Quando olhei para o espelho adjacente na sala soube por que meu pai estava tão assustado, eu tinha um calombo enorme na testa e outro atrás da cabeça, bem onde meu redemoinho de nascença estava, sem contar que meus olhos ainda ardiam muito, a vermelhidão deles era assustadora, fora os arranhões espalhados pelo meu rosto e ombros.
Quem parecia com o diabo agora?
O pensamento só me fez ficar mais deprimida, assim como a chegada da médica.
Ela era loira, de olhos azuis.
Mais uma vez os seus olhos pousaram no meu pai antes de em mim. Ela mudou sua postura e o cumprimentou com um sorriso enorme, então se virou e me viu, seu rosto assumindo uma expressão carinhosa.
— Oh querida, vamos cuidar de você, o que aconteceu?
Assim, eu explodi mais uma vez em um choro abandonado, foi quando meu pai apavorado decidiu ligar para minha mãe.
Escutar ela me acalmou na hora, e foi assim que meu pai descobriu o que precisava fazer para que eu falasse, desde então ele usou e abusou da tática várias vezes.
Eu sai do pronto socorro com band-aid´s de unicórnios e vários pirulitos, já meu pai saiu de lá com uma carta na manga e dois números de telefone.
A partir daquele dia eu conheci a Loira n°1 e a n° 2, elas se alternaram durante as férias passeando pela minha casa ou indo a jantares comigo no restaurante onde meu pai trabalhava. Sem contar que durante as semanas seguintes, eu comecei a receber folhas rasgadas do livro que tinha ficado no parquinho, todas tinham escrito com letras raivosas de giz vermelho CAI FORA.
Era como um aviso ameaçador para continuar longe, como flores enviadas pelo garoto diabo.
Eu recebi a capa do livro no meu último dia de férias, o dia em que eu decidi nunca mais pisar os pés no parquinho, mal sabia eu que aquela decisão não era algo tão grande quanto à frequência cada vez menor com a qual eu passei as férias com meu pai depois que ele começou a namorar.
Eu nunca mais vi o garoto diabo.
Não até eu morrer.
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