Eu quero você.

1 Afeição aguda ( único)


Notas iniciais
Oi, pessoal! Essa é uma fic curtinha e cheia de dengo para o Dia dos Namorados. Ela foi totalmente inspirada na música 'Pupila' da Anavitória com o Vitor Kley. Preparem-se para um Hyoga boiola que tenta manter a pose de gelo, mas é traído pela própria biologia, e um Shun que é um amorzinho de pessoa. Espero que cure o coração de vocês tanto quanto curou o meu ao escrever! Boa leitura! 💚❄️

Como explicar para alguém que não havia química nenhuma correndo em suas veias, mas sim poesia viva?

Que seus olhos dilatavam automaticamente, transformando-se em duas enormes esferas azul-escuras, sempre que Shun simplesmente se sentava ao seu lado?

Não era exagero.

Nem peça pregada pela imaginação.

O corpo humano fazia aquilo quando encontrava o seu próprio norte — ou alguém — que desejava guardar trancado no lado de dentro do peito.

Quando Hyoga olhava para Shun, seu cérebro capitulava muito antes que seu orgulho pudesse fingir indiferença. Era como se cada parte dele entendesse, que aquela era a pessoa mais importante do ambiente. Então as pupilas se expandiam involuntariamente, numa tentativa quase instintiva de absorver mais dele… mais do rosto delicado, do sorriso calmo, da voz suave que sempre parecia abraçá-lo por dentro.

Era o próprio organismo ajustando o foco para o seu próprio sol.

E o coração…. Ah, o coração era o mais belo dos traidores.

Não era o efeito da cafeína. Não era a pressa do nervosismo. Muito menos uma arritmia sem explicação.

Era, puramente, Shun.

Porque quando o via, o corpo de Hyoga entrava naquele estado estranho e bonito que a paixão causava. O cérebro disparava pequenos choques de adrenalina e dopamina, espalhando calor pelo peito, acelerando seus batimentos e enchendo-o daquela euforia a que fazia tudo parecer mais leve… mais vivo. Como fogos de artifício expandindo-se no breu, ou duas galáxias inteiras colidindo em um ponto infinito.

Seu coração não corria por medo ou sobressalto.

Corria apenas para tentar alcançar o compasso exato e bonito que Shun ditava para o universo, com o simples estalar de um sorriso.

Eles estavam no parque naquela manhã de domingo, exatamente como faziam há anos. Era uma constante na rotina de ambos, um hábito do qual nenhum dos dois conseguia desatar.

Depois de uma semana inteira de trabalho, compromissos e responsabilidades, sempre encontravam algumas horas para passar juntos. Era uma tradição orgânica, um pacto que os próprios corpos deles insistiam em cumprir. Parecia haver uma conexão invisível e biológica ali; como se suas células estivessem tão interligadas que a distância prolongada pudesse causar um colapso em seus sistemas, uma pane generalizada pela falta um do outro. Um acordo não verbal que a própria carne e o sangue tinham assinado há muito tempo, e que nenhum dos dois ousava quebrar.

Mas aquilo não era suficiente. Hyoga sabia disso.

Sabia porque passava os outros seis dias da semana sentindo falta da presença de Shun em tudo. Nas músicas que escutava, nos caminhos por onde passava, nas mensagens que escrevia e apagava antes de enviar.

Precisava dele com uma frequência ridícula. Precisava do mesmo ar. Do mesmo espaço. Da mesma luz.

E aquilo era tão absurdamente clichê que chegava a ser irritante. Se alguém lhe contasse uma história dessas há alguns anos, ele provavelmente reviraria os olhos e faria um comentário sarcástico. Mas ali estava ele, vivendo exatamente o tipo de romance do qual costumava zombar.

Pior. Ele, que sempre se orgulhou de sua postura fria e controlada, havia se transformado no tipo de sujeito que compra cartões com corações cafonas e sorri para a tela do celular no meio do transporte público. Se o seu antigo eu o visse agora, com certeza lhe daria um soco na cara de vergonha alheia.

Quando Shun se aproximava, Hyoga às vezes prendia a respiração por alguns segundos. Não porque estivesse nervoso... Bem... talvez um pouco. Mas principalmente porque queria guardar o perfume dele.

O aroma suave de sálvia e alecrim parecia se misturar ao próprio oxigênio do parque. Então, numa lógica completamente sem sentido, Hyoga inspirava fundo e segurava o ar nos pulmões o máximo que conseguia, querendo conservar aquela essência dentro de si pelo maior tempo possível, armazenando pequenos pedaços de Shun para enfrentar os dias de ausência.

Era patético. Completamente patético. E ele tinha plena consciência disso.

Às vezes precisava disfarçar uma tontura boba porque passava tempo demais sem respirar direito, fingindo que estava apenas admirando a paisagem quando, na verdade, sua visão estava quase escurecendo.

Morrer daquela forma seria uma vergonha histórica.

Causa da morte: asfixia por excesso de paixão. O homem que enfrentou os invernos mais rigorosos, derrotado pelo perfume de ervas do amigo/namorado. A lápide provavelmente arrancaria gargalhadas de qualquer um que o conhecesse.

E, ainda assim...

Enquanto observava Shun sentado ao seu lado naquele banco, os fios verdes balançando suavemente com a brisa da manhã e um sorriso tranquilo brincando em seus lábios enquanto folheava uma revista, Hyoga concluiu que talvez valesse a pena o risco do desmaio.

Porque existiam formas muito piores de morrer. Por exemplo, passar uma vida inteira respirando e vivendo, mas sem tê-lo por perto. Essa sim parecia uma sentença terrível mente cruel.

— O que foi? — Shun perguntou, virando o rosto em sua direção.

Hyoga congelou. Flagrado.

Seu olhar provavelmente estava preso nele havia vários minutos.

— Nada… — respondeu depressa, desviando a atenção para um pombo particularmente interessado nas migalhas de pão que Shun havia jogado momentos antes. Isso, olhe para os pombos, foque nos pombos! Qualquer coisa é melhor do que confessar que eu estava te secando.

Shun riu. Aquele som característico e doce entrou por um dos ouvidos de Hyoga, fazendo uma trilha sonora detalhada pelo seu tímpano — uma verdadeira ópera ecoando na sua cabeça — antes de sair pelo outro lado, deixando um rastro de calmaria.

E foi embalada por aquela risada que uma música específica começou a verberar nos pensamentos de Hyoga, como um eco que ele não conseguia (e nem queria) silenciar. O ritmo parecia ditar exatamente o que ele estava sentindo naquele milésimo de segundo.

Como que eu vou dizer pra ele… que eu gosto do seu cheiro? Da cor do seu cabelo?

Olhou de soslaio para os fios verdes que balançavam com o vento, sentindo o aroma de sálvia e alecrim ainda impregnado em seus pulmões. A letra da música era quase uma afronta de tão precisa. Era um desabafo em forma de melodia repousando no fundo da sua mente.

Que ele faz minha pupila dilatar…

Ali, fingindo um interesse profundo na caminhada feia daquela ave no concreto, Hyoga percebeu o quanto era ridícula a sua tentativa de disfarçar. O corpo dele já tinha entregado tudo muito antes de a boca gaguejar um "nada". Ficou ali, em silêncio, deixando a mente viajar nos versos ritmados, cantarolando mentalmente aquele compasso bobo e feliz. Tátátá, tátárá…

Sabe, depois que ele tinha conhecido Shun, tinha ficado genuinamente difícil viver de outra forma. Ele se pegava imaginando coisas, planejando os próximos domingos, os próximos anos. O som deles era parecido. Combinavam tanto que doía.

— Você está muito quieto hoje, Hyoga — Shun comentou, fechando a revista de leve e apoiando-a nos joelhos, aqueles olhos verdes e expressivos focando inteiramente no loiro. — Tem certeza de que está tudo bem?

— Estou maravilhosamente bem — o russo respondeu, tentando soar o mais natural possível.

Foi uma mentira péssima. Pior do que o tom de voz levemente ensaiado, houve o detalhe anatômico: sempre que mentia, a pontinha do nariz de Hyoga dava um leve e sutil tique para o lado. Um detalhe ridículo que Shun havia descoberto uns quatro anos atrás e, desde então, usava como um detector de mentiras infalível.

— Maravilhosamente? — Shun ergueu as sobrancelhas, o início de um sorriso divertido desenhando-se no canto dos lábios.

— Sim — Hyoga repetiu, mentindo de novo. E o seu nariz, claro, moveu-se outra vez.

Enquanto isso, a maldita música continuava batucando em sua mente, em um ritmo insistente. Tátátá, tátárá…

— Isso parece muito suspeito… — Shun franziu o cenho, estreitando aqueles olhos verdes.

Suspeito?, Hyoga pensou, lutando contra a vontade de rir. Suspeito era o fato de Shun ter o poder de desestabilizar todo o seu sistema nervoso com um único olhar. Suspeito era ele ser o dono absoluto das reações químicas daquele corpo loiro e continuar ali, com aquela cara de anjo, exigindo depoimentos.

— Eu não sabia que felicidade era crime — Hyoga defendeu-se, cruzando os braços.

Shun arqueou a outra sobrancelha, mudando de tática. Ele pegou a revista que estava em seu colo, deixou-a de lado no banco e girou o corpo inteiramente na direção do russo, apoiando um dos braços no encosto de madeira. Aquele movimento descontraído carregava um aviso implícito: "Eu te conheço, Hyoga. E você também me conhece. Sabe que eu vou te obrigar a falar".

Olhando para Shun daquela distância, a mente de Hyoga foi invadida por mais uma estrofe da melodia que o perseguia desde cedo:

Faz de conta que eu te conheço bem… Quero algum atalho pra te convencer que a gente se combina, só você não vê. Mas eu vejo, eu vejo, ah…

Ele via. Via em cada detalhe, na forma como o corpo de Shun se encaixava perfeitamente ao lado do seu naquele banco de madeira que já tinha as marcas deles. Só faltava fazer o outro enxergar a imensidão daquilo tudo.

— Você não pode me atacar aqui no meio do parque, na frente de todo mundo — Hyoga murmurou, arqueando uma linha de expressão bem-humorada. — Há muitas testemunhas. Se você tentar me arrancar uma confissão à força, eu grito.

Shun soltou uma risada, jogando a cabeça ligeiramente para trás.

Aquele som era exatamente o mesmo que Hyoga tinha escutado na noite anterior, através do telefone, quando ligou para marcarem de se encontrar naquela manhã. O que, parando para pensar, também era uma grande cafonice. Eles não precisavam marcar nada; seus corpos iam para aquele parque nas manhãs de domingo de forma quase automática, guiados por aquela força celular. Mas, ainda assim, eles faziam questão de se falar na véspera. Só para ouvir a voz um do outro.

E a música continuava a traduzir os bastidores daquela ligação:

Ensaio no espelho pra tentar ligar…

Porque, na noite de sábado, Hyoga tinha passado literalmente meia hora encarando a tela do celular, respirando fundo e ensaiando o tom de voz perfeito antes de discar o número de Shun, apenas para não parecer desesperado demais. O que era uma bobagem, já que estava completamente bobo de paixão...

Invento mil acasos pra te esbarrar por aí

Na verdade, o desespero era tanto que, na sexta-feira, ele tinha cogitado seriamente criar um pretexto esdrúxulo para passar na faculdade de medicina onde Shun estudava, ou até mesmo inventar uma desculpa para dar uma passada no hospital onde ele fazia estágio em pediatria. Mesmo sabendo que Shun só atendia crianças, Hyoga tinha sentido uma vontade quase incontrolável de se infiltrar entre os corredores infantis só para antecipar o encontro deles em quarenta e oito horas.

Não sei o que eu faço, eu quero mais… Eu quero mais de ti.

Era uma sede constante. Uma necessidade que nunca cessava, não importava quantos domingos passassem juntos.

— Não preciso de força para te fazer falar, Hyoga — Shun disse, interrompendo os pensamentos dele. — Eu tenho meus métodos.

Hyoga engoliu o seco com ameaça.

— Então me deixe ver suas mãos — Shun pediu, dando leves batinhas na própria coxa, um convite claro para que Hyoga as apoiasse ali.

— Minhas mãos? — Hyoga ergueu as sobrancelhas e, em um reflexo rápido, escondeu as duas profundamente nos bolsos do sobretudo.

— Suas mãos — Shun insistiu, repetindo os tapinhas na calça. Pelo tom de voz, ele não estava exatamente pedindo; estava mandando.

— Por quê? — O loiro manteve os dedos bem guardados ali, protegidos pelo tecido grosso de inverno. — Desistiu da pediatria e agora quer virar quiropraxista? Ou podólogo? — Hyoga provocou, com o canto da boca elevado.

A gargalhada limpa que recebeu em troca quase fez valer o esforço da piada ruim.

— Não seja bobo. Só quero ver suas mãos. Agora! — Shun voltou a pedir, estendendo os dedos na direção dele.

— E por qual motivo, exatamente? — o russo quis saber.

— Porque você sempre fica mexendo os dedos quando está nervoso — Shun acusou, erguendo apenas a sobrancelha esquerda, com um olhar de quem já tinha ganhado o argumento.

— Isso é mentira… — Hyoga rebateu imediatamente.

Lá dentro do bolso, seus dedos estavam basicamente dançando um pagode frenético, batucando contra o forro do casaco como alguém tentando sambar descalço em um asfalto quente ao meio-dia. Era uma denúncia física do seu desespero.

— Não é mentira. Me mostra…

Shun avançou, disposto a obrigar o russo a se render, mesmo que precisassem entrar em uma quebra de braço ali mesmo no banco do parque. Vendo que não tinha escapatória sem causar um espetáculo público, Hyoga suspirou e cedeu.

Tirou as mãos do casaco, revelando os dedos longos.

Shun as acolheu imediatamente entre as suas. A textura da pele do amigo era macia, contrastando com as veias grossas de Hyoga, que pulsavam o sangue aquecido e apressado sob a derme.

Shun então começou a massagear as mãos do loiro, polegar com polegar.

— Você está tenso — comentou, concentrado no carinho. — Aconteceu alguma coisa no trabalho? Ou… — ele ergueu os olhos, com um brilho de curiosidade inocente — talvez seja alguma pessoa em quem você esteja interessado?

Hyoga sentiu a garganta secar.

— Não é nada disso — mentiu de novo, torcendo para seu nariz não se mover.

— Sabe, o Dia dos Namorados está chegando… — Shun continuou, num tom casual que quase machucava. — Tem certeza de que não está interessado em ninguém?

— Absoluta.

— Mas a Eiri gosta de você — Shun pontuou, olhando-o com aquela torcida de quem quer ver o amigo feliz.

Mas ela não é você, foi a frase que ecoou no peito de Hyoga. Eu não quero a Eiri, porque a Eiri não tem o seu cheiro, não tem o seu cabelo e não faz minhas pupilas dilatarem. Mas, engolindo o peso daquelas palavras, ele apenas desconversou:

— A Eiri é só uma amiga, Shun. Não viaja.

— Mas você precisa conhecer alguém, Hyoga — Shun insistiu, apertando de leve as mãos dele.

Eu já conheço, Hyoga pensou, os olhos fixos na boca do outro. Eujá conheço e já decidi com quem quero compartilhar cada segundo do restante da minha vida. É você. Sempre foi.

— Estou bem sozinho — limitou-se a dizer, desviando o olhar para o chão do parque, pigarreando para afastar a rouquidão da voz.

— Ah, mas é bom demais querer alguém, se apaixonar… — Shun suspirou, olhando para as árvores com uma expressão sonhadora.

E a música na cabeça de Hyoga atingiu o seu ápice, explodindo em um refrão que ele queria gritar para o mundo:

É bom demais querer alguém… e eu quero você. E eu quero você, e eu quero você, ah ah ah ah… É bom demais querer alguém, e é você que eu quero. E é você que eu quero, e é você, oh…

— Eu sou jovem demais para me amarrar assim — Hyoga disparou uma desculpa esdrúxula qualquer, tentando quebrar o clima poético antes que acabasse se declarando.

Shun soltou um som nasalado, desacreditado, e rebateu na hora:

— Você só não quer compartilhar sua vida com ninguém porque é apegado demais a essa sua liberdade marrenta. Você é igual a um urso-polar, Hyoga. Quer viver isolado no seu próprio gelo.

— Talvez eu seja mesmo — Hyoga concordou, aceitando o disfarce, mesmo sabendo que seu interior estava derretendo como magma.

Shun sorriu, um espasmo de cumplicidade brilhando nos olhos verdes enquanto soltava uma das mãos do loiro para lhe dar um toque leve no queixo.

— Mas tudo bem. Eu sou o único capaz de desvendar você.

Ah. Era exatamente aí que morava o perigo.

Se Shun se gabava de ser tão bom em decifrá-lo, se conhecia o tique do seu nariz e o batuque nervoso dos seus dedos… então por que diabos não conseguia perceber o óbvio? Por que aqueles olhos verdes e atentos não enxergavam a completa catástrofe emocional que causavam a cada aproximação?

A bagunça monumental que era o seu peito sempre que ele sorria. O desastre natural que suas mãos faziam ao tocá-lo. O colapso estrutural de toda a sua postura, desmoronando diante do som daquela risada.

Shun achava que o desvendava, mas nem desconfiava que já tinha o controle absoluto de cada batimento seu, sem precisar fazer o menor esforço para isso.

Eles seguiram ali, no banco da praça, lado a lado, vendo os pombos beliscando os pedacinhos de pão à frente deles. Shun puxava pequenos pedaços do pão francês e jogava com cuidado para as aves, enquanto Hyoga apenas o observava de soslaio. O loiro achava graça no jeito que o garoto esticava o indicador, com uma delicadeza quase infantil, tentando fazer carinho no bico de um dos animais.

— Ele vai beliscar você — Hyoga alertou.

— Não vai… — Shun respondeu, sem desviar os olhos do bicho.

— Por que tem tanta certeza? — o russo semicerrou os olhos. — Você também sabe desvendar a mente dos pombos agora?

Shun soltou um risinho soprado, finalmente olhando para ele.

— Claro que sim. Eu converso com crianças o dia todo no hospital, Hyoga. Pombos são basicamente crianças de penas, só que fazem menos birra e aceitam pão como suborno. É a mesma psicologia.

Hyoga balançou a cabeça, incapaz de conter o meio sorriso diante daquela lógica completamente sem sentido, mas genuinamente fofa.

— Já que você está aqui e está de bom humor… eu preciso da sua opinião — Shun emendou, mudando de assunto e puxando a revista de volta para o colo.

— Para quê?

— Você é ótimo em avaliar as pessoas. Você fala na lata, não ameniza o que está sentindo ou pensando — Shun explicou, olhando-o com seriedade, mas logo deixando o canto da boca subir. — E também porque você é um péssimo mentiroso. É uma testemunha confiável.

— Se eu sou um mentiroso tão ruim assim, por que faz questão da minha opinião? — o russo ironizou, arqueando uma sobrancelha.

Shun riu, aproximando-se um pouco mais.

— Porque você só mente quando tenta esconder o que sente, mas é sincero demais sobre todo o resto.

Dessa vez, Hyoga teve que rir junto.

— Olha aqui — Shun disse, virando a revista e apontando para uma das páginas de moda. — O que você acha desse corte de cabelo?

Hyoga olhou de relance. O modelo na foto era bonitinho, um rapaz com traços simétricos, mas nem sequer chegava aos pés do homem sentado ao seu lado.

— Estou pensando em pintar de uma cor parecida e quem sabe fazer um corte mais repicado, mais curto — Shun continuou, passando os dedos pelos próprios fios verdes.

— Não faça isso — Hyoga disparou imediatamente.

— Por quê?

Na mente de Hyoga, a ideia de cortar ou mudar a cor daqueles fios parecia um sacrilégio. Seria como podar uma árvore centenária e rara, ou apagar a tinta de um quadro histórico de propósito. Aqueles fios verdes eram o contorno exato da moldura que ele passava os dias admirando; eram a extensão da própria calmaria que Shun emanava.

— Cabelo cresce, Hyoga — Shun rebateu, minimizando com um dar de ombros.

— Eu sei que cresce — o loiro murmurou.

— Eu sempre me imaginei com os cabelos castanhos, sabia? — Shun confessou, olhando para o horizonte com um ar pensativo. — Uma cor mais comum, talvez.

— E eu sempre me imaginei sendo um cavalheiro medieval, mas o destino nos dá o que temos — Hyoga brincou, arrancando uma risada gostosa e aberta de Shun.

Enquanto a risada diminuía, Shun estendeu a mão livre e segurou os dedos de Hyoga novamente. Mas, dessa vez, ele não os massageou. Ele ergueu a mão do russo e a levou até a lateral de sua própria cabeça, afundando os dedos loiros em meio aos seus fios verdes.

— Sentiu? Está um pouco poroso — Shun comentou, fazendo os dedos de Hyoga deslizarem por ali para provar seu ponto. — E as pontas estão bem ressecadas. Acho que preciso cortar bastante.

Hyoga engoliu em seco. O contato direto com o cabelo de Shun fez seu peito dar aquela descarga elétrica conhecida. Está perfeito, ele queria dizer. Estão lindos, macios, têm cheiro de sálvia e eu passaria o resto da minha vida perdido nesse emaranhado.

Enquanto Hyoga lutava contra as palavras que insistiam em querer virar poesia verbal, Shun deslizou os dedos do russo um pouco mais para cima, marcando a altura exata, perto da orelha, onde pretendia passar a tesoura.

— O que acha de cortar bem aqui?

A proximidade era perigosa. O hálito morno de Shun, o toque da textura do cabelo entre seus dedos e o refrão daquela música voltou a martelar na mente de Hyoga, com uma urgência quase dolorosa:

Como que eu vou dizer pra ele? Que eu gosto do seu cheiro. Da cor do seu cabelo

Ficou encarando a boca de Shun por um milésimo de segundo a mais do que o recomendado para dois amigos em um banco de praça.

Eu quero dizer pra ele que eu amo o seu jeito… Que ele faz minha pupila dilatar…

— Deixe como está, Shun — Hyoga finalmente conseguiu formular a frase, a voz ligeiramente mais baixa, enquanto seus dedos ainda acariciavam inconscientemente a raiz dos fios verdes. — Castanho não combinaria com você. E você não precisa de um corte novo para chamar a atenção de ninguém.

— Não? — Shun perguntou, os olhos verdes fixos nos azuis de Hyoga.

— Não — garantiu, mantendo a mão ali por mais um segundo antes de se forçar a soltá-la, sentindo a falta imediata daquele calor. — Você já é… exótico o suficiente assim.

Shun sorriu, um tipo de sorriso diferente — mais lento, mais profundo —, que fez Hyoga se perguntar, por um instante apavorante, se o seu nariz tinha se mexido de novo.

— Exótico? — Shun repetiu, erguendo as duas sobrancelhas. — Você fala como se eu fosse um animal raro em extinção ou uma planta carnívora da Amazônia, Hyoga.

— Não foi isso que eu quis dizer! — o russo tentou se consertar imediatamente, mas a pressa só o fez se embaraçar ainda mais nas próprias palavras.

E, claro, o preço veio a galope. Seu nariz começou a tremer de um lado para o outro de forma frenética, como se estivesse com uma coceira insuportável ou participando de uma coreografia própria. Vendo que estava completamente desarmado e que seu corpo o traía sem piedade, Hyoga soltou um longo suspiro, deixando os ombros caírem. Decidiu chutar o balde do orgulho de uma vez por todas.

— Eu quis dizer que você é perfeito — disparou, olhando nos olhos dele. — Do jeitinho que é. O seu cabelo é perfeito, o seu rosto é perfeito… até o seu cheiro é perfeito.

Shun soltou uma risada surpresa.

— Meu cheiro? Hyoga, o Ikki vive dizendo que eu tenho cheiro de mato ou de chá de camomila por causa do meu sabonete de sálvia e do alecrim.

— O Ikki não sabe de nada — Hyoga resmungou, desviando o rosto de leve.

— Entendi… — Shun sorriu de um jeito manso, inclinando a cabeça para o lado. — Então talvez você não seja um urso-polar. Acho que você está mais para um cervo ou algum animal herbívoro, já que parece gostar tanto de grama e mato.

Hyoga bufou, mas não conseguiu evitar que o canto dos lábios subisse.

— Espera aí, deixa eu testar uma coisa — Shun disse, tateando o próprio casaco e puxando um par de óculos escuros que guardava com a perna enfiada no bolso. Ele os colocou no rosto e olhou para o loiro. — E agora? Continuo perfeito?

Os óculos eram absurdamente grandes para o rosto delicado de Shun. Ele parecia uma mosca estilosa ou uma criança brincando com os acessórios dos pais. Ficava quase ridículo, mas, para Hyoga, a cafonice só o tornava ainda mais adorável.

A música voltou a ecoar, exata e ritmada, na mente do russo: Que o seu óculos é maneiro… que ele faz minha pupila dilatar

— É — Hyoga admitiu, a voz suave. — O óculos é maneiro.

Shun sorriu por trás das lentes escuras, mas logo o sorriso ganhou um contorno mais sério, mais intencional. Ele ajeitou o acessório no nariz e soltou a bomba:

— Sabe… enquanto eu estava na faculdade esta semana, revisando alguns artigos de neurologia e fisiologia, eu descobri uma coisa muito interessante.

Hyoga engoliu em seco. Sentindo o perigo iminente, desviou os olhos rapidamente para o chão, focando em um pombo folgado que, naquele exato momento, parecia muito interessado em bicar o cadarço do seu sapato. Foque no cadarço, Hyoga. Não olhe para ele.

— Eu li sobre como o cérebro reage quando estamos perto de quem amamos — Shun continuou, a voz mansa flutuando no ar da manhã. — Sabia que o coração acelera por causa de uma descarga violenta de hormônios? Adrenalina e noradrenalina são injetadas diretamente na corrente sanguínea, deixando o corpo inteiro em um estado de alerta e euforia absoluta. É uma verdadeira tempestade química.

Hyoga manteve os olhos fixos na ave, mas sentia suas próprias veias pulsando mais rápido.

— O artigo chamava isso de "sintomas de afeição aguda" — Shun detalhou, aproximando-se um pouco mais no banco. — Inclui palpitações que parecem uma bateria no peito, as mãos suando ou tremendo do nada, e aquela sensação estranha no estômago, como se o sistema digestivo estivesse flutuando. Mas o sinal mais bonito de todos acontece nos olhos. As pupilas se expandem involuntariamente. O organismo faz isso para tentar absorver o máximo de luz possível da pessoa que está na frente dele.

Hyoga finalmente desviou os olhos do pombo e encarou o amigo, tentando manter a voz firme, embora seu peito estivesse prestes a explodir.

— Você está me diagnosticando? — perguntou, com um tom falsamente defensivo.

Shun deu um risinho curto, mas, em vez de responder de imediato, levou as mãos até o rosto e retirou lentamente os óculos escuros, revelando seus olhos por inteiro.

— Não — Shun sussurrou, inclinando-se até que seus rostos estivessem a poucos centímetros de distância. — Eu só estou dizendo isso porque… eu reconheço cada um desses sintomas. Eu sinto exatamente o mesmo. Todos os dias.

Ele abaixou levemente os olhos, olhando para a boca de Hyoga antes de voltar a focar nas esferas azuis do russo. E ali, na claridade daquela manhã de domingo, Hyoga pôde ver claramente: as pupilas verdes de Shun estavam completamente dilatadas, imensas, transformadas em duas galáxias profundas que pareciam querer engolir todo o azul do céu.

— C-como…? — Hyoga gaguejou.

Shun se aproximou um pouco mais, diminuindo ainda mais o espaço entre eles no banco, um sorriso terno e vitorioso brincando em seus lábios.

— Como você conseguiu disfarçar isso por tanto tempo? — Hyoga finalmente conseguiu formular a pergunta, a indignação amorosa transbordando em seu tom de voz. — Eu passei os últimos meses quase morrendo de um colapso venoso de amor, à beira de um colapso estrutural de paixão toda vez que você sentava perto de mim, e você… você parecia pleno! Como eu nunca percebi? Ou será que eu sou o cego dessa história?

Shun soltou uma risada baixa, uma melodia doce que aqueceu o ar frio da manhã.

— Na faculdade de medicina a gente aprende a manter a postura sob pressão, Hyoga — Shun explicou, os olhos brilhando com um carinho imenso. — Mas a verdade é que você nunca foi muito bom em investigar. Você sempre se gabou de ser frio, distante e de reprimir tudo o que sente, mas, para quem sabe olhar de perto, você é a pessoa mais transparente do mundo. Seu nariz entrega tudo. Seus dedos entregam tudo. Seu coração entrega tudo...

Hyoga bufou, mas não conseguiu desviar o olhar da boca de Shun, que agora estava perigosamente perto da sua.

— Bem… se você é tão bom assim em dar diagnósticos e se considera um médico tão excelente… — Hyoga murmurou, enquanto a música em sua mente atingia o compasso definitivo. — Devia saber qual é o único remédio capaz de estabilizar essa tempestade química no meu organismo.

Como que eu vou dizer pra ele, que eu quero aquele beijo? Que eu sei guardar segredo, ninguém precisa nem desconfiar…

Shun sorriu, os olhos semicerrados em uma provocação adorável. Ele estendeu as mãos e segurou a gola do sobretudo grosso de Hyoga, puxando o russo para si.

— Eu faço especialização em pediatria, Hyoga — Shun provocou, a respiração batendo contra o rosto do loiro. — Eu cuido de crianças, não de marmanjo teimoso.

— Até um homem crescido precisa de cuidados médicos de vez em quando — Hyoga rebateu.

Shun riu contra os lábios dele e o beijou.

Foi um beijo calmo, poético e transbordando o romantismo que vinha sendo guardado há anos em silêncio. Hyoga finalmente conseguiu descobrir o gosto exato dos lábios de Shun — um mistério que ele passava as noites em claro, deitado na cama, tentando decifrar. Era doce, quente e trazia uma calmaria que parecia curar qualquer arritmia no seu peito.

Quando se afastaram minimamente, para recuperar o fôlego, Hyoga soltou um suspiro profundo.

— Graças a Deus… — Hyoga resmungou, arrancando mais uma risada de Shun. — Porque eu já estava prestes a desmaiar de verdade por segurar o ar só para sentir o seu cheiro.

— Eu sabia — Shun brincou, acariciando a nuca do russo. — Eu só estava esperando você se sufocar um pouquinho mais, para ter o prazer de te socorrer com um beijo na boca.

Hyoga não aguentou a cafonice adorável daquela frase e o puxou para um abraço apertado, enterrando o rosto no emaranhado daqueles fios verdes com cheiro de sálvia, alecrim e mato que ele tanto amava. Sentiu os braços de Shun envolverem suas costas, selando o acordo biológico que seus corpos já haviam assinado há anos.

Eles se beijaram de novo, um toque mais demorado, sem pressa alguma de saírem daquele banco de madeira que agora pertencia oficialmente aos dois.

— Sabe de uma coisa? — Hyoga sussurrou contra a bochecha morna de Shun. — Eu já conheço a pessoa com quem quero passar o resto da minha vida. E ela acabou de me dar uma aula de biologia inesquecível no banco do parque.

Shun riu, abraçando-o.

— É bom demais querer alguém… — o russo completou, os olhos azuis fixos nas galáxias verdes do namorado. — E é você que eu quero. Sempre foi você.

Naquele ano, nenhum dos dois precisou passar o Dia dos Namorados sozinho, ou inventando desculpas esdrúxulas para se esbarrar no parque. A programação de sexta-feira à noite foi exatamente como o coração de Hyoga havia planejado em seus sonhos.

Eles ocupavam o mesmo espaço do sofá da sala de estar, as silhuetas perfeitamente moldadas contra as almofadas. Dividiam o mesmo par de fones de ouvido para escutar Pupila em looping. Como o fio do acessório era pequeno e curto demais, Shun acabou sentando-se confortavelmente no colo de Hyoga, encostando a lateral do seu rosto contra a dele para que a música não escapasse.

E ali, embalados pelo ritmo do tátátá, tátárá, com o coração batendo no mesmo compasso exato e bonito que ditava o universo, Hyoga finalmente pôde respirar em paz. Suas pupilas estavam dilatadas, seu peito estava em festa, e o remédio para a sua tempestade química estava bem ali, seguro em seus braços.

Fim.


Você chegou ao fim do livro. Parabéns!