Eu queria saber como ficar
1 A mulher que sou #1
Notas iniciais
Era de tarde, estava chuviscando lá fora, e eu estava correndo para o banheiro. Abro a porta do banheiro de pressa, me abaixo e coloco pra fora todo o meu almoço de R$19,90 do pequeno mercado no final da avenida de onde eu trabalho. Dou descarga, me levanto e lavo minhas mãos sem desgrudar meu olhar do espelho barato e de forma oval.
— O que têm de errado comigo? — resmungo baixo com medo de ter a resposta.
Volto pra sala em que estava, me sento na cadeira macia e abro um pacote de bala de hortelã que faz um barulho extremamente chamativo, que faz absolutamente todos me olharem por um momento.
— Descul... — resmungo um pouco mais alto desta vez colocado/escondendo o pacote barulhento em minha bolsa.
A reunião volta de onde parou e todos voltam a observar a tela grande aonde o presidente da nossa empresa está tentando, dando voltas e voltas, mostrar alguns dos nossos avanços e prejuízos como empresa.
Fecho a porta do meu pequeno apartamento, jogo a chave neste pequeno pode onde deixo guardada todas as coisas mais importantes pro meu dia a dia e deixo minha bolsa na bancada de granito interligada com a cozinha, espaço que sempre vou quando chego do meu trabalho.
Ligo para minha mãe que sempre demora uma década para atender o telefone, mas desta vez atende:
— Alô?
— Oi mãe, tudo bem?
— Você sabe, seu pai ainda tá passando por algumas dificuldades, frequentando a igreja e... — um silêncio rápido e doído — não tem muito o que falar. Você se mudou para uma cidade bem maior, você tem alguma novidade?
Fecho os meus olhos por um momento e engulo seco, porém respondo:
— O mesmo de sempre, trabalho e mais trabalho — respondo rápido depois do meu intervalo dramático.
— Algum namorado? — ela pergunta pela décima quarta vez.
— Eu já falei que não estou à procura — e reforço — E MUITO MENOS A FIM! — finalizo com tom de leve deboche.
O silêncio constrangedor fica a e então finalizo dizendo:
— Okay mãe, eu te amo e amo papai, tenho que ir! Boa noite!
Eu sempre ficava muito decepcionada como o tom que a minha mãe decidia comandar a vida dela. E... ela nunca me respondia se ela estava bem, pois tudo o que ela sempre quis pra mim era um marido rico, e infelizmente, ela sempre viveu para fazer o meu pai feliz. Eu entendo que é importante o casamento e blá blá blá, mas eu sei que, como qualquer outra mulher, temos muitas outras coisas acontecendo nas nossas vidas para a gente focar em outra.
Como algo rápido e me deito na minha cama. Abro meu laptop rapidamente para ver algumas das notícias da cidade de São Paulo e não me fico surpresa, o mesmo de sempre.. violência, mentiras, corrupções e por aí vai. Fecho meu laptop, coloco em cima da minha pequena escrivaninha e vou dormir.
~
Acordo com num salto com uma pequena dor no peito, ofegante, suada e um pouco tonta. Respiro fundo três vezes lentamente e aquele sentimento começa a ir embora. Meu corpo se sente exausto de tantas manhãs mal começadas. Coloco minha roupa, saio e fecho a tranca do meu apartamento e vou até o café mais próximo do meu apartamento. Meu carro é um carro simples, não muito velho e nem muito novo. Chamo-a de potranca. Eu e o Potranca já passamos por muitas coisas juntas.
Tais como o começo do meu primeiro namoro, e depois, o término do meu primeiro namoro, a minha ida atrasada a minha formatura do Ensino Médio, a minha choradeira por saber que meu pai foi diagnosticado com demência estado 1 e assim por diante. Apelidei eu carro de potranca, por que acredito que essa palavra simbolize a imagem de uma pessoa forte ou de algo que consegue segurar uma barra pesada.
Estou na fila do café e vejo este moço jovem na lateral, bem dizer na porta de entrada e saída dos funcionários pedindo ajuda para conseguir um emprego no pequeno café. Não consegui ouvir direito, mas acho que ele tinha acabado de chegar na cidade. O desemprego era alto.
— Por favor moça, eu realmente preciso desse emprego. — falou desesperado.
Os dois conversaram na porta suja e escura dos funcionários. Começo a ver o que eu gostaria de pedir. É ridículo na verdade, pois eu sempre peço a mesma coisa.
— Eu não tenho nem para onde ir moça! — o menino exclama.
Eu tento não colocar meus sentimentos naquela conversa, pois realmente não é problema meu. Minha mãe me liga desesperada e fico um tanto preocupada:
— Oi, filha? — ela fala chorando.
— Por favor, não... — fecho meus olhos e foco para não chorar.
— Eu ligo pra você final do dia. — concluo nossa conversa desligando o telefone e tentando procurar na minha cabeça aonde eu possa achar a força na minha mulher pra continuar a minha rotina
Peço meu café com a voz trêmula e começo a beber depressa por conta da ansiedade que se instala no meu corpo. Para sair da fila observo o menino suplicando para a gerente do café por ajuda e tudo mais. Por um segundo eu começo a pensar comigo mesma se eu deveria fazer alguma coisa sobre o assunto e então em um salto, pulo pra roda dos dois e a gerente me olha estranho. Um pequeno silêncio se instala e então ela pergunta sem papas na língua.
— Mais uma? — rápida e grossa fala.
— Uh.. — ainda estou com a voz trêmula — não, posso falar com você lá fora? — olho para o homem que parece extremamente assustado e deslocado.
Vamos para fora do café e o pergunto:
— Oi, meu nome é Júlia Azevedo e tenho 22 anos de idade. Moro num pequeno apartamento e... gostaria de saber se você gostaria de ficar lá em quanto você não tem nenhum lugar pra morar. Não é muito, mas... — engulo a saliva ou o choro, era difícil de diferenciar — é alguma coisa já.
Com muito nervosismo e a mão trêmula ele responde:
— Eu aceito, pois eu realmente não tenho pra onde ir. Agradeço muito a gentileza. Ainda não tenho dinheiro pra ajudar no aluguel, mas assim que eu tiver, quero te ajudar!
Ligo para o meu trabalho e falo que vou me atrasar. Vamos para o meu cafofo super humilde e lá ele se instala. Coloca primeiro sua mochila no chão e depois deita no colchão sem lençol. Quando estou para falar adeus pelo dia ele fala com a voz mais tranquila:
— Arthur. Arthur Souza. E — o nervosismo o ataca de repente — eu tenho 23 anos e sou da cidade de Rio Grande do Sul.
— Bah — falo para cortar o clima tenso. Ele ri.
— Bom eu tenho que ir, antes que a minha chefe me ligue pela terceira vez hoje. — falo tentando ser menos ansiosa desta vez.
Pego meu carro e dirijo desta vez direto para o meu trabalho.
Tenho o meu dia longo de trabalho e volto pra casa. Arthur ainda continua no quarto dele. Eu tomo um banho e me arrumo para sair com as minhas amigas. É sexta-feira, dia de barzinho.
Eu sempre gostei muito de tomar banho quando eu era pequena e mais jovem. Mas tudo mudou quando eu comecei a ficar mais velha e toda vez que eu ia entrar no banho eu sentia esse sentimento ruim dentro de mim. Esse sentimento de.......
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