Notas iniciais
Olá meninas... Hj tive uma folga, então capítulo novo! Provavelmente eu só vou postar novamente no FDS, ok? Espero que gostem...

Encaro o quadro a minha frente, é uma pintura abstrata, bastante colorida e nem parece cópia... Seria um Kandinsky? Se for um original esse povo é rico mesmo... Há uns vinte minutos o casal imperial Comendador Medeiros e D. Maria Marta estão aos berros na suíte da imperatriz... Tem uma foto de uma montanha, sei lá, uma foto gigante na parede atrás da mesa... Seria o tal monte Roraima? Penso em perguntar ao Lucas, mas prefiro continuar em silêncio, acho que esse é um dos poucos cômodos dessa casa que eu não conhecia: o escritório do Comendador. O Lucas está sentado na poltrona à minha frente de cabeça baixa, encarando os próprios pés, não abriu a boca na última meia hora; eu também não sei o que falar, eu prefiro continuar em silêncio fingindo que estou jogando no meu celular.

De repente os gritos ficam mais próximos e escuto a porta se abrindo:

– Pronto, agora é a nossa vez de conversar, sou todo ouvidos... Diz o Comendador

O silêncio na sala continua sepulcral

–Vamos menina, diz logo o que você quer, afinal ninguém joga uma bomba dessas no colo de uma família á toa, não é? A raiva na voz da mãe do Lucas é indisfarçável...

Respiro fundo e digo com firmeza:

Me desculpe, eu não pretendia estragar a noite de vocês com uma “bomba”, aquela era uma conversa entre mim e o João Lucas, essa não era a minha intenção, a minha decisão já está tomada e por mim ninguém teria ficado sabendo...

– Se a sua decisão já estava tomada veio fazer o que aqui? Ah, tá... Se a mocinha estivesse realmente decidida teria feito esse aborto e meu filho nunca teria ficado sabendo. Ela grita com fúria.

Chega Marta... Já falei que essa “solução” eu não admito – O comendador interfere.

– É... No seu mundo tudo se resolve facilmente mesmo D. Marta, mas no meu as coisas são um pouco diferentes... Fazer um procedimento desses com o mínimo de higiene e segurança nesse país é bem caro... Eu não tenho como pagar, como esse problema não é só meu, vim pedir essa grana ao Lucas, afinal eu não fiz esse filho sozinha... Respondo de queixo erguido, não, eu não vou deixar essa mulher me humilhar tanto assim...

Nesse caso, problema resolvido, é só dizer o valor que eu faço o cheque – Ela diz aparentemente mais calma.

– Quando eu acho que não me surpreendo mais contigo, você se supera... É do nosso neto que estamos falando Marta! Um neto! E aborto é crime! Quer ser co-autora?

– Se o problema é esse podemos mandar a mocinha para a França ou a Holanda, lá é legal e ela ainda pode aproveitar a viagem dar uma volta pela Europa, que tal?

CHEGAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAA! O Lucas explode! Sai daqui agora mãe, ou eu não respondo por mim...

Eu levo um susto tão grande com a reação do Lucas que preciso me sentar para não cair... A D. Marta sai da sala sem dizer uma palavra. Ficamos apenas eu, Lucas e o Comendador... Nessa hora não consigo mais segurar o choro, minhas lágrimas caem em abundância... O Comendador senta do meu lado, tira um lenço do bolso e me entrega. Eu enxugo as minhas lágrimas e ele começa a falar:

– Olha moça, parece que você e meu filho foram pegos de surpresa, eu sei que essas coisas acontecem, mas esse inocente aí na sua barriga não pode pagar pelo erro dos pais. Eu não vou deixar...

Eu sei que o senhor é um homem muito poderoso, que as pessoas estão acostumadas a obedecer às suas ordens, mas essa é uma decisão que só cabe a mim e ao seu filho... Colocar uma criança no mundo é uma coisa muito séria, de muita responsabilidade. Eu sei o que é ser uma criança indesejada... Nasci temporona numa família que já tinha três filhos adolescentes, o casamento dos meus pais já estava desgastado, meu pai não queria mais um filho e pediu para tirar, minha mãe achou que eu salvaria o casamento deles, mas meu nascimento só adiou aquela separação... Quando meu pai foi embora a minha mãe jogou em mim toda a frustração daquela história... Não pretendo repetir o mesmo erro...

– Pelo visto a moça não teve uma infância muito fácil... Mas a nossa história quem constrói é a gente, eu sou a prova viva disso! Vocês podem construir uma história bem diferente para o meu neto... E você João, não concorda com seu pai?

– Eu estou tonto ainda meu pai. Sinceramente não sei nem o que pensar, mas de uma coisa eu tenho certeza, se depender de mim esse filho vai nascer! Eu quero o meu filho...

– Sendo assim estamos conversados, e a moça vai me desculpando, mas nem que eu tenha que lhe trancar numa jaula essa criança vai nascer... Agora me dê licença que eu acho que vocês dois tem muito o que conversar.

Ficamos á sós e o Lucas finalmente me encara e diz:

–Acho que pela primeira vez na vida vou concordar com o velho, a gente precisa conversar...

– Eu concordo, mas antes eu preciso comer alguma coisa, sério... Com a gravidez, sempre que eu fico com muita fome me dá uma fraqueza... Uma sensação ruim, de desmaio...

Você tá passando mal? Ele pergunta preocupado...

Ainda não, mas se eu não comer nada em 5 minutos...

–Deita lá na minha cama que eu vou pedir para Rosa preparar alguma coisa para gente...

Eu realmente estou com fome, mas confesso que só disse isso para ganhar tempo. Estou muito cansada e essa conversa com o Lucas realmente promete ser puxada. Retiro as minhas botas e deito na cama, essa cama... Esse quarto, tudo está impregnado com o cheiro dele... Deito a cabeça no travesseiro e meu pensamento viaja, lembro da melhor noite que tive nessa vida, a noite em que eu estive nos braços dele... Eu esperei por aquele momento a minha vida inteira, foi intenso, mágico e pra variar, quando o assunto é João Lucas: unilateral... Eu até poderia dizer que tinha valido a pena, mas a conseqüência desse ato está aqui, crescendo na minha barriga e revirando a minha vida de cabeça para baixo.

Ouço a porta se abrir e o Lucas entra todo desajeitado carregando uma bandeja nas mãos...

– A Rosa já tinha ido dormir, mas consegui improvisar um sanduba de peito de peru e parti o bolo de cenoura que ela fez para o café da manhã.

Valeu Leke, passa essa bandeja pra cá que eu estou faminta... Devoro o sanduba na maior velocidade, realmente estava com muita fome mas quando coloquei a fatia de bolo na boca não me desceu... Senti uma náusea absurda e corri para o banheiro colocando tudo para fora... Respiro fundo, lavo o meu rosto e quando abro a porta do banheiro o Lucas está plantado lá e com a cara preocupada:

Você tá bem?

–Estou tentando, respondo já desanimada. Mas pode deixar, é só esperar mais alguns minutos e isso passa... Ah, por favor tira essa bandeja daqui, e me trás um copo d’água bem gelada...

Ele me obedece sem nem pestaneja... Solto uma risadinha, nunca vi o João tão cordeirinho, a náusea volta com força, volto para o banheiro e vomito mais uma vez, sento no chão e rezo para não sentir mais nada. O Lucas entra no banheiro, senta ao meu lado e me entrega o copo d’água...

–Tem sido sempre assim?

– Não, imagina? Tem dias muito piores... Tento fazer uma piada.

João Lucas me dá um sorriso sem graça, levanta e me oferece a mão. Ele me ajuda a levantar e me dá um abraço carinhoso... Eu aceito o abraço e novamente caio no choro, que patética essa situação... Já fantasiei tantas situações romanticas com o João, mas no banheiro depois de vomitar nunca foi uma dela... Não consigo segurar a risada ao pensar isso e logo ele está rindo junto comigo...

–Desculpa Leke, só que equilíbrio emocional e gravidez parecem ser coisas totalmente incompatíveis.

Bora combinar que equilíbrio emocional nunca foi o seu forte?

– Olha quem fala...

Tá me chamando de desequilibrado? Você vai ver quem é desequilibrado... Ele me pega no colo e eu começo a protestar batendo as pernas tentando me desvencilhar dele mas aí ele me joga na cama e começa a fazer cócegas na minha barriga... Depois de alguns minutos de brincadeira e boas gargalhadas ele se vira para mim, me olha nos olhos e com a cara mais séria que ele já me fez na vida pergunta:

–Se eu tivesse te dado essa grana você realmente teria abortado esse filho sem nem me contar que estava grávida? Ía tirar um filho meu sem eu saber?

–João...

–João... João o que Eduarda? Eu ainda não consigo acreditar que você não me contou assim que soube, e pior, que não me contaria nada se a minha grana não tivesse sido confiscada... Uma decisão desse tamanho a gente tinha que tomar juntos, entendeu? JUNTOS!

–João, eu tentei te contar, juro que tentei, mas não consegui... Desculpa!

–Logo eu, Du? Eu sempre achei que a gente não tinha segredos um para o outro...

Isso foi antes João, antes da gente transar...

–Quer dizer que o fato da gente transar anula tudo o que a gente viveu antes? Eu não entendo porque você problematiza tanto o sexo... Eu senti tesão por você, e não vou me sentir culpado por isso... Nós somos adultos e ambos queríamos, qual é o grilo?

O que pegou foi a maneira como você me tratou depois...

–Sim, eu fui o maior cretino do universo! Me perdoa! É que você era o meu melhor “amigo” estava acostumado a falar das mulheres com você naqueles termos, nem me toquei...

Que dessa vez a mulher era eu? Viu como isso é confuso? Falo enquanto rimos da situação

–Sério, Eduarda, nada justifica você me esconder que eu vou ser pai...

– Eu tentei LeKe, eu vim até aqui disposta a te contar tudo, mas quando cheguei não te encontrei por que o Sr. estava sumido há dias... Te procurei a noite inteira por essa cidade e te achei no pior lugar do mundo: caído nas Docas, desacordado, se drogando com moradores de rua, João... O que você queria que eu dissesse? Oi Lucas, parabéns você vai ser pai?

–Então foi isso que aconteceu? E por causa dessa merda que eu fiz você decidiu tirar o nosso filho?

–Não só por isso, mas por isso também... Que segurança nós dois podemos proporcionar a uma criança? E eu não estou falando de grana que isso eu sei que você tem, estou falando de segurança emocional... A gente ainda não encontrou nem o nosso lugar no mundo, vamos agora trazer mais um para esse caos?

– Essa não parece ser a solução mais fácil? Você não tem a menor vontade de lutar por ele?

–Claro que eu tenho, só que o medo me invade e eu mudo de opinião... Eu tô confusa, porque às vezes eu acho que isso é o melhor para todos nós, inclusive ele...

–Melhor não nascer? Não acho que cê acredite realmente nisso...

–Eu não sei de mais nada... Eu não consigo parar de pensar, eu estou exausta de tanto pensar... Digo voltando a chorar.

Ele me abraça apóia a minha cabeça no seu peito e me faz um cafuné:

Shiiiiiiiiiiiii. Então não pensa, não pensa em mais nada... Só descansa!

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.