Notas iniciais
24 de Junho de 1830.

Em uma pequena cidade do interior da Inglaterra, uma garota chora por tudo que perdeu. Sua mãe morta. Seu pai terá o mesmo destino. Sua madrasta a obrigará a casar. Com o único garoto que já amou.
" Sim, mãe. Eu o amei. Mas nunca queria vê-lo novamente. Ele quebrou meu coração. Não sei nem se eu ainda tenho um."
Ela não queria nada disso. Apenas sua vida antiga de volta. Uma vida feliz. Porém, não era isso que o destino desejava. Ela tem um casamento pra planejar. Um pai doente. Uma madrasta que a odeia. E... uma mensagem em uma pedra, que pode ser de sua mãe.
A sua vida não podia estar mais complicada. E além de tudo isso, uma rede de assassinatos começa a acontecer na cidade. E a principal suspeita é ela.

24 de Junho de 1830.

Lágrimas corriam por seu rosto. Como isso ainda a afetava? Depois de tantos anos. Ela havia o esquecido. Não havia? Ela era apenas uma criança quando tudo aconteceu. Tinha o que? Catorze anos? Por que ele ainda tinha esse efeito nela?

Ela ouvia as vozes:

— Quando o casamento será marcado?- sua madrasta exaltava-se de alegria na sala ao lado. – Senhor Pacheco, o meu marido está muito doente. Devemos apressar a marcação da data. Não queremos que ele perca um evento de tal porte.

Ela ria das palavras proferidas pela mulher. Tudo que ela queria era livrar-se do peso que o marido e a filha a proporcionavam. Como inúmeras mulheres do século XIX, Carina havia se casado apenas pela fortuna do Senhor Oliveira. O homem era apaixonado por ela, mas ela o tratava como lixo. Assim como a sua filha.Na verdade, ela a odiava.

A inveja pela sua beleza e por como todos os homens a punham em um pedestal. Manoela não ligava para tudo isso. Só queria ser feliz. Não queria se casar. Queria sua vida antes de Carina. Queria sua mãe de volta.

— Claro que sim. – ouviu a voz do pai do seu futuro marido – Ao sair daqui, passaremos direto na Igreja, senhora Oliveira.

— Perfeito. – a voz falsa de Carina chegou-lhe aos ouvidos novamente- Desculpe-me a ausência de minha enteada. Ela não está passando bem.

— Sem problema algum. – disse-lhe o Senhor Pacheco.- Vamos indo agora. Obrigado pela hospitalidade.

A garota se levantou e correu até o pequeno quarto localizado abaixo das escadas. Como isso havia acontecido? Manoela tirou a pequena chave de seu bolso e trancou-se no minúsculo aposento. Sentou-se na escrivaninha ao canto do quarto e pegou imediatamente a pena e o papel.

Mãe,

Eu ainda lhe escrevo depois de cinco anos. Eu ainda sinto a sua falta. Papai piora cada vez mais. Não se levanta mais nem sequer fala comigo ou com a cavala da Carina. Não agüento mais tudo isso. A senhora sabe que ela não o ama. Ela só deseja a nossa fortuna. Não duvido que esteja rezando para que papai se vá o mais rápido possível. Agora ela ainda quer se livrar de mim. Quer me casar com Bernardo Pacheco.

A senhora deve se lembrar há uns anos atrás, papai comprava cavalos com a família Pacheco. Um garoto, um ano mais velho que eu, sempre vinha junto a seu pai. Olhos castanhos. Cabelos claros. Um sorriso inesquecível. Ele era apaixonado por animais. Nós éramos melhores amigos. Eu falava sobre tudo com ele. E vice-versa.

Um sorriso apareceu em seu rosto enquanto escrevia.

Eu lembro de uma vez, foi no verão, nós fugimos para a adega de seu pai. Eu só o assisti ficando bêbado. Falava baboseiras sobre como Luana era linda e como estava apaixonado. Sim, essa Luana. Minha melhor amiga há quinze anos. Eu falava sobre o garoto que morava ao nosso lado na época, Guilherme. E nos acabávamos de rir.

Todos os empregados achavam estranha nossa amizade.Tanto de nossa família quanto a dele. Nenhuma garota tinha amizade com um garoto do jeito que nós tínhamos. Achavam que isso era desrespeitoso. Por isso escondíamos de nossos pais. Desculpe, mãe.

Enfim, eu fui me apaixonando por ele. Eu me apaixonei por meu melhor amigo. Eu tinha apenas catorze anos.

- Onde você está sua...?!- os gritos de sua madrastas irromperam pelas paredes do quarto.

Ela dobrou o pequeno papel e o colocou na pilha ao lado. Saiu sorrateiramente do aposento.

- Graças a Deus você vai sair desta casa. Pequena peste. Finalmente vou me livrar de você.- ela continuou os seus gritos assim que encontrou Manoela- Vá trocar de roupa. Já basta não ter aparecido para o encontro com o senhor Pacheco. Temos que resolver todo o casamento. O mais rápido possível.

- Eu não quero me casar.- Manoela disse com a voz falha.

- Você realmente não entende. Não importa, querida. Seu pai vai deixar tudo para mim. Você sabe disso. E quando isso acontecer eu vou embora dessa cidade medíocre. Você vai morar nas ruas e eu tenho certeza que não é isso que a senhorita Pacheco quer.- um sorriso falso tomou conta de seu rosto.

- Eu te odeio.- lágrimas corriam pelo rosto da garota.

Ela se virou e subiu as escadas lentamente.

- A carruagem está sendo preparada, querida.

As lágrimas embaçavam sua visão. Pegou o primeiro vestido que achou. Azul com pequenos detalhes em branco. Fechou os olhos. Deixou as lágrimas rolarem por alguns minutos até que ouviu um estrondo. A janela de seu quarto havia sido atingida por uma pedra.

Abaixou-se para se proteger dos cacos afiados de vidro. Então, olhou para a pedra. Um pequeno bilhete.

Tudo vai ficar bem. Eu prometo, querida. Nem tudo é o que parece ser. Vou tentar ao Maximo lhe proteger. Eu te amo. Boa sorte, ursinha.

O papel escorregou de suas mãos. Ursinha... Sua mãe estava viva.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.