Eu eles e Nós
16 Capítulo 11.1 - Lana
Notas iniciais
Como todo mundo um dia, tive a minha crise de desespero, mas como tudo na vida, passou. Ela também me ajudou a colocar a cabeça no lugar e tomar uma decisão quanto a minha vida. Decidi enterrar fundo esse sentimento doido por Matt, era impossível e ficar remoendo isso só ia trazer sofrimento. Continuei a tratá-lo como meu amigo e nada mudou entre nós, também tentava não parecer tão triste para nenhum dos três, mas não deu muito certo.
— Você está começando a me preocupar garota, Matt percebeu que você está meio deprê. – Dom falar em uma de nossas conversas no Skype – Que história é essa de não vir mais para Devon?
— Ainda depende de muita coisa Dom! Estou com uns problemas aí... Não sei por que Matt quer insistir com isso, se Natálie souber que vou, ela vai ficar fula da vida!
— Agora que ela esta cheia de dedos por causa da gravidez, Natálie anda insuportável! – ele fez uma careta – Mas depois que você estiver lá, ela não vai poder fazer nada.
— Isso não vai dar certo Dom...
— Você promete que vem?
— Vou ver...
— Prometa que vem – ele se remexeu no sofá – Sei que leva suas promessas a sério e por isso tem que prometer que vem... Eu vou parar de falar com você, como fiz da última vez.
— NÃO DOMINIC!
— Experimente...
— Dominic!
— Eu não ouvi... Quem será que está falando mesmo?
— Eu vou, eu vou! – gritei – Eu juro! Agora pare de me ignorar! A gargalhada dele saiu pelas caixas de som, cheia de felicidade.
As coisas foram se ajeitando com o passar dos dias. Fiquei tão envolvida com as minhas amigas que me esqueci dos meus problemas, um bom remédio para isso é se preocupar com os problemas dos outros. Minhas amigas também estavam passando por problemas e podiam ser diferentes dos meus, mas ainda sim eram problemas. Patrícia estava enfrentando problemas no namoro:
— Ah Lana, tenho medo de pressioná-lo e ele me deixar! – ela me contou seu drama numa das vezes em que a gente fugia para lanchar numa franquia perto da faculdade.
— Eu já disse para você trocar de namorado – Roberta tomava o suco indiferente. Ela (assim como todas nós), já ouviu todo esse vai ou não vai de Patrícia e o namorado dela. A verdade é que Júlio era um grande safado e fazia nossa amiga de boba.
— Eu amo ele Roberta!
— Mas ele não ama você! Quantas vezes vou ter que dizer isso? Se ele se importasse realmente, faria você feliz! – Roberta grunhiu – As coisas que ele faz chegam a ser absurdas!
— Tenho que concordar com Roberta. Poxa Patrícia, você quase não sai com a gente e ele vive no Pimenta Café! Sem falar que ele é um estúpido – Ângela falou contrita.
— Eu não vou falar nada – mordisquei a esfirra – Só queria saber Paty se está valendo à pena. Acha que você se martirizar desse jeito e não falar tudo que está pensando ajuda? Vocês precisam conversar minha amiga ou então isso vai ficar pior.
— O problema Lana é que ela conversa demais! Quantas vezes ele disse que ia mudar e não mudou?
— Roberta, para você é tudo a ferro e fogo!
— Para mim é assim, ou vai ou racha! Esse negócio de ficar empurrando com a barriga só dá problema! Continuo achando que você devia trocar de namorado.
— Roberta!
Ai, ai o amor.
Como se já não bastassem os problemas que tenho, acabei arrumando mais um só que foi sem querer. Uma noite dessas, encontrei meu antigo gerente da época que eu trabalhava na Conte. Foi num sábado que saí com a turma para um barzinho que gostávamos muito, onde a gente jogava bilhar e conversava, escutando um rock legal. Poucos lugares na cidade eram assim.
— Lana, que bom vê-la! – Farias disse quando me viu entrar – E sem uniforme o que é melhor ainda.
— Você não toma jeito mesmo!
— Ei vem sentar um pouco aqui com a gente! – falei para Roberta avisar que eu já ia sentar com eles e depois acompanhei Farias até a mesa dele.
— Como está a Conte? — O mesmo caos de sempre e você garota como está? Andas fazendo o que da vida?
— Eu precisava estudar, por isso não dava mais para trabalhar em tempo integral. E você? Fazendo um happy hour depois do trabalho?
— A gente tem que viver!
Nós rimos. Chegamos à mesa e Farias me apresentou a mais dois amigos dele que eu conhecia vagamente da Conte, que se chamavam Hélio e Fernando. Sentei e começamos a conversar sobre a Conte e como tudo ia por lá.
— Ah Lana, é bom ver você fora do escritório! Pelo menos agora não posso ser acusado de assédio sexual.
— Agora é atentado ao pudor – gargalhei.
Farias sempre dava essas tiradas, das quais me safava elegantemente. Ele até tinha certo charme, um homem bem apessoado (acredito que o ponto fraco dele seja a altura, por que o resto está ótimo), mas ele é um quarentão solteiro que adora uma aventura e desses estou fugindo (não mudei de opinião mesmo depois de Dom, só que com ele era diferente).
— Lana como sempre escorregadia! – ele tomou a cerveja. Olhei para as minhas amigas e Ang levantou os braços, irritada.
— Eu tenho que ir acabar com aquelas garotas no bilhar!
— Você joga bem?
— Que nada! – comecei a rir – Provavelmente elas vão acabar comigo se eu não tiver um parceiro muito bom!
— Vou aparecer lá para jogar. Posso?
— Claro. Despedi-me deles e fui para a mesa dos meus amigos. As meninas já tinham decidido quem dos três era mais bonito e qual deles seria um possível candidato para um jantar despretensioso. Só depois que eu respondi seus milhões de perguntas nós começamos a jogar. Um tempo depois, Farias e os amigos vieram jogar. A maioria dos meus amigos já tinha ido e só sobraram eu, Roberta, Ang e o Hugo. Eles fizeram dupla com Ângela e Roberta, assim a disputa melhorou bastante. A gente acabou perdendo a hora:
— Caramba Lana eu vou dormir no ponto de ônibus! – Roberta exclamou olhando o relógio.
— Não seja exagerada Rob!
— Eu levo vocês para casa depois – Farias estalou a língua – Levo todas vocês! Moram perto da casa da Lana?
— Nem um pouquinho – Ang começou a rir.
— Não tem problema.
* * *
— Obrigado por me deixar em casa e as meninas também – agradeci a Farias quando ele parou na frente da minha casa.
— Foi um prazer, espero vê-las mais vezes. Gostei das suas amigas!
— E não sobra nenhum comentário para o meu amigo Hugo?
— Ele é legal – ele revirou os olhos – E eu gostei de ver você de novo, queria repetir a dose, pena que tem o seu namoradinho...
— Eu e Rodrigo não estamos mais juntos. – falei distraída.
— Hum... Isso até que é uma boa notícia!
— Para quem? – eu o olhei de soslaio – Você não pode parar de bancar o galã por um minuto?!
— Tudo bem, tudo bem... — Obrigado de novo e a gente se vê por aí! — Eu ligo.
Desci do carro e entrei em casa, sem esperar que ele fosse embora. Homens! Será que eles não conseguem conversar com uma mulher sem dar em cima dela? Na semana seguinte ele me ligou para sairmos, mas desconversei e disse que ia pensar. Farias não desistiu e eu já estava a ponto de ser grossa com ele quando Roberta me disse:
— Que mal pode fazer se você aceitar? Vocês podem sair comer alguma coisa e conversar! Se pintar de ficar, então fique com ele e pode até ir para cama com ele se você quiser – ela apontou para mim – Só se você quiser querida!
Sendo assim por que não tentar? Quem eu estou tentando proteger? Marcamos no sábado e Farias me levou para jantar perto do cais, na orla da nossa cidade. Ele foi tudo, menos sutil e só me decepcionou. Peguei-me comparando-o com Matt e percebi o absurdo do que estava fazendo. Isso só me trouxe mais frustração! Fiquei imaginando o que Dominic diria quando eu contasse a ele. Pedi a ele que passeássemos e ele aceitou meio relutante. Isso pareceu melhorar um pouco as coisas e ele colocou seu lado divertido para trabalhar. Mas Farias tinha que estragar tudo.
— Você parece meio entediada – ele comentou – Acho que posso melhorar esse seu humor.
— Ah, desculpe – eu voltei a mim e o fitei – Estava pensando...
— Espero que o mesmo que eu. – ele me pegou pela cintura e me deu um beijo no pescoço – Vamos movimentar as coisas por aqui.
— Ah! Claro que você não deixaria de tentar. – ri irônica.
— O que foi? – ele me olhou desconfiado – O que você esperava? Que eu não tentaria nem um beijo? Quem é o santo puro por aqui?
— É que eu estou mal acostumada – e estava mesmo.
Lembrei-me de Dominic e percebi que Farias nunca chegaria aos pés dele. Nem Matt com toda aquela imaturidade no dia que a gente quase ficou, era tão ogro quanto Farias! Eu estava usando todas essas justificativas só para admitir que eu não quisesse “ficar” com Farias. A verdade é que eu queria alguém como Matt, se não o próprio!
— Eu quero ir embora.
Farias foi me deixar em casa não muito feliz. De madrugada, eu conversava com Chris e Matt sobre o ocorrido.
— É meio deprimente ficar assim aos 40 anos – falei tomando meu insubstituível iogurte – O que faz vocês terminarem assim! Medo?
— Não há problema nenhum em viver como se quer Lana – Chris interveio – Alguns acham que a vida é melhor assim... Ter a garota que quiser e não se amarrar...
— E você está no meio dos que queriam essa vida não é?
— Chega um dia que isso cansa! – Matt estalou a língua – É como ter uma vida vazia, impessoal... Não ter alguém para partilhar seus anseios, suas conquistas... Dormir com alguém que talvez você nunca mais veja e de repente acordar aos 40 e ainda estar nessa vida! Não quero estar assim aos quarenta anos.
— Você não pode casar só por que tem medo de ficar sozinho Matt! – Chris e eu nos olhamos – Tem que ser por amor!
— E com uma única pessoa e para sempre!
— Essa é a sua opinião Lana – Chris cruzou os braços e se recostou na cadeira — Ei garota, você poderia ir para Devon logo no final de novembro não pode?
— E as minhas provas, bonitão?! Já prometi que vou Matt, pode ficar descansado.
— Lana você disse que suas provas terminam dia 22! Você pode muito bem vir antes, lembre-se de que o aniversário de Chris é dia sete e Dominic é dia nove.
— Ih! Nem tinha me tocado disso! Você tem razão. Se eu esquecer o aniversário de Dom, estou ferrada! Ele vai pedir no mínimo escravidão eterna como pagamento.
— Você tem que resolver isso aí!
— E Natálie? Ela vai para Devon? – ainda havia uma possibilidade de eu desistir.
— Vai, mas não pense que você vai se safar assim.
* * *
Parecia que tudo estava conspirando a favor. Em novembro eu já sabia que não precisaria fazer as provas substitutivas e as finais eram apenas para cumprir tabela (nada de louvores para a minha inteligência. Estudei feito uma louca só para tirar Matt da cabeça e os meus outros problemas) Havia apenas um empecilho.
— Ir passar o Natal com eles é ir longe demais Lana! – mamãe já não estava tão condescendente com o Muscle. Isso era basicamente devido ao fato de eu ter deixado o emprego, Rodrigo e por Leo destilar o seu veneno sempre que pode.
Eu e Leo nunca íamos chegar a viver bem uma com a outra. Parecia que tudo que eu fazia a feria profundamente e só fazia aumentar seu ódio por mim. Leona não achava justo nosso pai ter morrido e me culpava por isso, afinal eu sobrevivi o acidente e ele não. Talvez por remorso de ser sobrevivente eu aguente tudo que ela me faz até hoje. Mas não tem sido mais assim, eu não ando mais tão conformada com essa situação e estava a ponto de explodir. Eu não tinha culpa da vida que ela levava.
— Mãe, qual é a diferença de eu passar o natal aqui ou na China?! – falei irritada – Faz quatro anos que não passamos o natal juntas. Da última vez que tentamos foi um desastre!
— Já se passou algum tempo, será diferente agora.
— Mãe, o que posso fazer melhor do que ir a Devon? Ângela vai para Bariloche com a família dela, uma viagem que eles planejam há anos! Eu terminei com o Rodrigo... Como é que eu vou ficar?
— Vai para casa da sua avó com a gente!
— Ah ta, da última vez nem você gostou da ideia de me ter lá! Tive que pedir ao Rodrigo que fosse me buscar no meio da noite por que todos os tios resolveram me colocar na cruz por causa do curso de fotografia que eu estava fazendo. Sem falar no ar reprovador deles depois que Leo “deixou escapar” – usei todo meio estoque de sarcasmo nessas duas palavras – Que eu dormia na casa de Rodrigo de vez em quando. Não, definitivamente não! Imagina se a boca grande dela diz que viajo com o Muscle?
— Então faça como achar melhor. – ela fez uma careta de desagrado – Só não diga que não lhe avisei.
Uma semana antes de viajar fui ver papai. Mês de novembro na minha cidade a maioria dos dias é dias de chuva (se bem que chove quase todo dia por aqui). Foi num dia nublado que eu decidi ir visitar o cemitério onde papai está enterrado.
— Oi pai – sentei no granito da lapide. Papai estava enterrado num dos cemitérios mais antigos da cidade, com lápides do período da borracha! – Vim vê-lo antes de viajar, vou passar as festas fora do país... Você sabe que desde que... Nós não passamos o natal juntas. Ultimamente tem sido difícil... Leo sempre me culpa por tudo na vida dela dar errado e a inveja dela está passando dos limites! Que merda! O que eu tenho de tão melhor que ela? A vida dela é uma droga por culpa dela, quem manda não pensar! Ela ainda é jovem, é linda, mais bonita do que eu poderia ser e tem um futuro pela frente... Ela não conversa comigo e eu nunca sei se está triste ou feliz e quando fala comigo é para me espezinhar! – respirei fundo – Sabe para onde eu vou? Devon, na Inglaterra.
Comecei a contar para ele sobre o Muscle e sobre as minhas viagens. Não havia quase ninguém no cemitério de modo que estávamos bem à vontade. Eu fazia isso às vezes, dava uma ilusão de proximidade com ele que eu nunca tive e me fazia guardar um pouco das lembranças dele comigo, já que eu não conversava sobre ele com mais ninguém.
— Mamãe disse que eu ainda vou me arrepender do que estou fazendo... Tanto melhor se arrepender do que fez, do que não fez não é?! – eu me levantei – Aqui estão suas flores. Sei que não gosta, mas acho uma gafe terrível vir aqui e não trazer nenhuma...
Cheirei as flores e coloquei sobre a lápide.
— Me deseje sorte pai e peça a deus para levar meus pedidos com a chuva. Há um em cada flor, todos para melhorar o mundo. Eu te amo.
* * *
— O que você fez hoje garota? – Dom me ligou ás quatro horas da manhã só para conversar. Eu já esperava pelos telefonemas dele ou por um deles estar on-line e por isso ia dormir bem cedo para não virar um zumbi de sono no dia seguinte.
— Fui ver meu pai, mas antes fui para faculdade.
— Ver seu pai?
— Dominic, ele morreu mais ainda é meu pai. O epitáfio na lápide não é só uma frase bonita. – suspirei – Podem ter se passado um tempo, mas eu ainda sei que de alguma forma, ele cuida de mim.
— Você gosta mesmo de se torturar – ele estalou a língua – Parece uma coisa natural sua.
— Só por que você não quer admitir, não significa que eu também deva fazer a mesma coisa Dom! – ele ficou em silêncio e eu percebi que tinha mexido em casa de marimbondo. Com a voz mais suave, eu disse – Dominic, matar ele dentro de você é pior do que a morte dele em si.
Esperei por uma praga bilíngue, um “Vai se danar”, mas o que surgiu foi o silêncio dele. Tocar na morte do pai era sempre um ponto delicado e eu não deveria ter jogado tão baixo. Só que eu também ficava furiosa quando alguém caçoava de mim por eu tentar guardar um pouco da memória do meu pai.
— Então vai lá, me conte como estão os preparativos para a viagem! – ele falou depois de um tempo – Nada de biquínis garota, não quero ninguém atropelando vacas por sua causa.
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