Eu, ela, e o fim do mundo.

5 Capítulo 5 - Alice.


Notas iniciais
Vooooooltei

Pov Eduarda

Sabe quando você amanhece ao lado da pessoa mais incrível e importante da sua vida? Era difícil acreditar que um Apocalipse era o mentor daquilo tudo. Se as coisas estivesse na sua devida ordem, talvez eu não teria essa perfeita noite. Lembro do que Max havia me dito. Eu não podia morrer com aquele sentimento entalado. A única coisa de ruim que poderia acontecer era ela me dar um tapa na cara e ir embora da minha vida. Só isso, pouca coisa né?

Dormir de conchinha não era muito meu forte. Sempre que eu estava com uma mulher, ou nós estávamos transando ou estávamos conversando sobre que horas iriamos fazer sexo. Ah não ser com Ana, com ela eu podia conversar sobre tudo. Até mesmo de sexo. Mas apenas conversar mesmo. Nunca fiz nada que prejudicasse a nossa amizade, mas agora eu estaria pondo ela em jogo arriscando por pra fora todo meu sentimento por ela. Era a primeira vez que eu apenas dormia com uma mulher, eu tinha me dado conta disso. E eu trocaria todas as outras noites de sexo por uma noite de conchinha com Ana.

— Bom dia, que horas são? — Ela acorda sonolenta.

— Ainda não sei pequena. Estava esperando você acordar. .

— A quanto tempo tá acordada aí? — Ela me pegou de surpresa com essa pergunta. Eu deveria estar parecendo uma criancinha olhando para um perfeito doce.

— Não muito tempo. — Me levanto da cama sem jeito. — Vamos encontrar os meninos?

— Ah não! Será que eu não poderia dormir mais um pouquinho? Estava tão bom aqui. — Acho que não era só eu que havia dormido bem. Isso era ótimo. — Volta pra cá. Eles nem devem ter acordado ainda.. — Ana diz toda dengosa. Eu poderia muito bem me acostumar com ela acordando assim todos os dias.

— Mais uma hora? — Sugiro.

— Perfeito! Vem! — Me deito ao seu lado novamente da mesma forma em que estava.

— Sabia que eu nunca fiz isso antes?

— Isso o que?

— Dormir de conchinha com alguém. .- Ana se vira em meus braços e me encara surpresa. Aquilo não foi uma boa idéia. Agora estávamos frente a frente. Perto demais. Acho que ela percebe o que fez e se vira rapidamente para o lado aposto. — Sério pequena. Acredita?

— Não muito. Até por que você já pegou bastante mulher. Impossível que tenha ficado só no sexo.. — Ficamos alguns segundos em silêncio e ela percebe que não, não era impossível. — Mentira Eduarda! Minha nossa!

— Não sei por que o espanto! — Morro de ri da reação dela, e aperto muito Ana em meus braços. — Sinta — se premiada!

— Tô sentindo medo agora! Você é uma depravada. — Ela tenta se soltar dos meus braços mas eu não permito. Me acabo com o seu bom humor logo pela manhã. — Como você consegue ficar a noite toda? — Ana pergunta curiosa.

— Muito preparo físico. Se quiser eu te mostro. — Ana rapidamente se vira e começa a me estapear. Como se tivesse sido ofendida. — Meu Deus! Eu tô só falando do preparo físico! Se quiser eu mostro como faço exercícios, corridas, malhaçao! É só isso! — Começo a gargalhar.

— Ah... — Ela estava vermelha. — Tudo bem. Nada de imoralidades né?

— Sim meu bem. Nadinha. — Ela fica sem graça, é muito divertido.

— Tudo bem. . Posso pensar.. Agora me deixa dormir! — Não digo mais nada, apenas aproveito a sua boa companhia.

Escuto batidas desesperadas na porta do quarto. Ana ainda dormia profundamente. Levanto apressadamente, sem me preocupar com a roupa. Pego o revólver que se encontra em cima do criado mudo.

— Quem é?

— Max né, retardada.

— Ah, é você. . — Fico menos preocupada e guardo o revólver na cintura.

— Nossa, que decepção por me ver. Nem parece que transou a noite toda. — Não respondo nada à Max que já estava dentro do quarto. — Ah! Sério que não rolou nada?

— Da pra você falar mais baixo? Se não tá vendo ela está ali. — Aponto para a cama. — Às vezes você é pior do que uma mulherzinha fofoqueira.

— Tá bom, tá bom! Por que ainda estão na cama? Vocês sabem que horas são?

— Não faço a mínima idéia. Meu celular deve estar na mochila.

— Uma hora Eduarda.

— Minha nossa! Passou voando!

— Sim. Eu tive uma idéia para evitarmos uma catástrofe. Vamos descer, tem uma padaria aqui perto que está aberta. Conversamos enquanto você toma um café.

— Ok. Só vou trocar essa roupa. Te encontro lá em baixo daqui alguns minutos.

— Certo.

Eu e Ana nos arrumamos e deixamos tudo em ordem no quarto. Descemos e Max já nos esperava na recepção do hotel. Um tímido sol iluminava a tardezinha de Nova Jersey.

— Cadê o Jonas? — Ana pergunta.

— Oi Ana, bom dia, estou aqui tá vendo? — Max diz fingindo — se de indignado.

— Bom dia príncipe! — Como passou a noite? E a melhor pergunta.. Com quem? — Max me olha como se estivesse pedindo ajuda. Com certeza ele tinha inventado aquela história.

— Ah pequena, você sabe que ele não é de ficar contando essas coisas...

— Exato! Não vou dizer nadinha. — Ana se irrita.

— Ok. Eu só estava curiosa. Você ontem estava do meu lado! — Ela olha pra mim em desaprovação. Dou de ombros.

— Respondendo sua pergunta... O cavalheiro ainda dorme. Deve estar exausto já que não dormiu nada na noite anterior. — Max ri.

O loiro estava certo, a padaria não ficava muito longe. Tinha coisas gostosas lá ainda, presumo que um pequeno grupo de pessoas tivessem ficado fora da construção, assim, alguns alimentos foram poupados. Peço um café duplo e Ana um pedaço de bolo de chocolate, bem enorme aliás.

— Vai que eu não como mais isso né. . — Ana se explica pelo pedido do bolo. — Divido com você. — Sorrio em agradecimento.

— Então Max? — Digo ao loiro que também pede um café duplo.

— Seguinte. . Acho que deveríamos falar com o presidente. Ele pode não saber o perigo que aquelas pessoas correm mesmo com tantos soldados armados. Sabemos que o número da população infectada é bem maior . — Nossos pedidos chegam.

— Certo Max. Mas como ele iria nos ouvir? Nem sabemos onde ele está. Duvido muito que ele acredite em nós. De qualquer forma ele não pararia a construção do muro, até por que pode ser a única esperança de salvação.

— Mas aquilo só vai servir para atrair muitos deles. Você viu a barulheira que estava naquele local. Agora imagine milhares e milhares de máquinas em torno de toda Nova York. Aquilo é uma bomba relógio.

— Olha, eu acho que o Max tem razão. Pequena, devemos pelo menos tentar nos comunicar com o presidente. Conte a ele como chegamos até aqui, pelo que tivemos que passar, talvez ele seja um retardado igual a mim que não sabe merda alguma sobre zumbi. Talvez não saiba nem o que é um zumbi. Se ele chegou ao ponto de colocar toda população para construir um muro, é por que está mais perdido que cego em tiroteio. — Ana diz e logo em seguida da uma grande garrafa em seu bolo. Max e eu olhamos pra ela. — Que foi?

— Sua boca tá toda suja. — Rimos. — Tome. — Entrego um guardanapo para a ruiva. — Bom, não custa nada tentar. Mas onde o presidente está? Você já sabe Max?

— Sim. Eu ando pesquisando na Internet, o sinal está bem ruinzinho mas deu pra ver. Parece que ele está visitando cidade por cidade. E como temos sorte, amanhã ele estará aqui perto.

— Amanhã já pode ser tarde demais. — Fico pensativa. Podemos não ter muito tempo. Quanto mais rápido resolvermos isso será melhor.

— Bom Duda, fora isso eu não faço a mínima idéia de onde ele possa estar. E de qualquer forma, se fôssemos ao encontro dele, também iríamos demorar para acha — lo.

— É. Vamos ter que esperar até amanhã. Não temos escolha. É só torcer para que tudo dê certo.

— E o que fazemos até lá? — Ana pergunta.

— Eu não sei, mas acho que você disse que iria dividir comigo ... — A ruiva já havia devorado todo o bolo.

— E você confia em mim Duda? Meu Deus! — Max ri da minha cara assim como Ana. — Compro outro pra você pequena. Aceita?

— Não, muito obrigada, palhaça. Acho que tive uma idéia. Que tal nós comprarmos algumas roupas? Algumas outras mochilas também para colocar as roupas. Não tá dando ficar só com duas mudas de roupa. — Era uma peça de dormir e uma de usar durante o dia. É horrível viver assim, nessas condições.

— Pra mim não dá. Eu tô quase sem dinheiro. Devo ter algo no banco, mas meus cartões não estão comigo.

— Max, e você?

— Pouquíssimo também. Acabei não trazendo nenhum cartão na pressa de sair de casa. Muito menos documentos.

— Ai complica. .. mas acho que sei quem pode nos ajudar!

Pov Ana

Foi muita consideração da Eduarda trazer a gente logo pra uma loja em que a dona era uma das suas ex conquistas. A intimidade das duas estava me matando.

— Juliana, esses são meus amigos. Precisamos de um enorme favor. — A tal Juliana comprimenta ela quase com um beijo na boca.

— Pra você, qualquer coisa meu amor. Fiquem a vontade. Mas eu e você vamos colocar o papo em dia! — A mulher era linda. Uma morena que deixaria qualquer pessoa apaixonada. Menos eu, eu estava com nojo da simpatia enorme que ela tinha com Eduarda.

— Claro. Já voltamos. Podem escolher. — Duda diz e some com a morena para dentro da loja.

— Meu Deus! Que mulher!

— Max, me poupe né. Não sei nem se quero mais alguma coisa. A Eduarda vai pagar como isso? Tenho até medo de saber.

— Ei. Do que tá falando? Ela não é assim, você sabe. — É eu estava exagerando, Eduarda não era assim.

— Ok. Eu sei. Mas eu não quero nada.

— Isso tudo é birra, Aninha? Por que está assim? Elas são amigas, e ela parece gostar muito da Duda. Por que não fazer um favor para ela? Talvez seja só isso. Um favor. — Tento acompanhar com os olhos as duas, mas logo elas somem da minha vista. A loja estava com pouquíssimas pessoas. Era bem grande o espaço, e divididas em duas seções: masculina e feminina.

— Olha Max, eu não vou querer nada, não vou me sentir bem assim. Mas eu posso te ajudar a escolher.. Se quiser. — Sugiro. Eu amava fazer compras, mas não daquela forma. Então resolvi ajudar Max a escolher.

— Então vamos chatinha. Escolha algo para Eduarda também. É sempre você que escolhe as melhores coisas pra ela mesmo.

— Ela pode muito bem pedir à Juliana. — Falo secamente. Até o nome dela me causava irritação.

— Minha nossa! Vamos logo antes que eu te dê um soco. — Max diz brincando, mas acho que eu não estava sendo uma boa companhia.

Fomos direto à seção masculina, vi várias coisas com a cara da Eduarda, mas resisti ao desejo de separa — las para ela. Duda geralmente usava bastante coisa masculina, como blusas, jaquetas, calças. E ficava linda de morrer.

— Que tal? — Sugiro um conjunto para Max. Como ele é forte acho muito importante valorizar aqueles músculos.

— Você sabe que eu não uso coisas apertadinhas.

— Mas é importante mostrar seus músculos, e essa blusa iria dar um contorno maravilhoso. Prove ao menos.

— Tá, mas calça colorida Ana? Nem pensar. Não é nenhum pouco minha cara.

— Relaxa, eu só tô te zuando com essa calça. Prova essa. Neutra. Tá bom assim?

— Bem melhor. Eu provo, mas não estou aprovando nada.

— Você é mais fresco do que a Duda. Meu Deus.

— O que tem eu? — Eduarda ressurge do nada atrás de mim.

— Ué? Cadê sua amiguinha?

— Opa, acho que vou ir provar essas mesmo. Fui. — Max foge dali como se algo fosse sobrar para ele.

— Ela teve que atender uma ligação e vai demorar um pouco. Podemos escolher qualquer roupa. Contei pra ela como vim parar aqui novamente, e ela nos cedeu esse favor. Não escolheu nada ainda?

— Não e nem vou.

— Ué? Por que não, meu bem? — Eduarda fica confusa.

— Não fui com a cara da sua "amiga".

Faço aspas no ar. Sou direta. Sempre fui. Se algo não está me agradando eu falo mesmo.

— Mas, por que? Ela foi tão gentil conosco.

— Com você né Eduarda. Gentil até demais.

— Ei, calma. Eu só quis arrumar um jeito pra gente ter roupas limpas e novas. Não sabia que iria ficar assim. — Ela é sincera.

— Tá, tudo bem, você e o Max podem escolher a vontade. Mas eu não vou me sentir bem com isso. De verdade pequena. ..

— Eu entendo ...eu acho. Posso pelo menos te emprestar esse dinheiro ? E aí você compra algo pra você. Não dá pra muita coisa, mas pelo menos um conjunto dará. — Eu estava com muito ciúmes, admito. Não fazia idéia do por que. Mas eu não iria fazer a Duda gastar nossas últimas notas comprando roupa para mim quando eu podia pegar algo na loja da Juliana.

— Não, não precisa. Eu estou fazendo tempestade em copo d'agua. Posso pegar uma muda de roupa ao menos. Não vai me arrancar o braço. Mas que eu não gosto dela, eu não gosto. — Eduarda me dá aquele lindo sorriso, então me sinto bem melhor.

— Ótimo princesa! Vamos escolher então?

— Vamos, antes que a sua amiguinha volte e te leve daqui. Afinal, como você conheceu ela? — Olhamos algumas peças na área masculina, ajudo Duda a escolher.

— Bom, você sabe que eu já fiz alguns trabalhos como fotógrafa.

— Sim, você é ótima. — E era mesmo.

— Pois então, eu fui convidada pelo pai dela a cobrir um de seus eventos de moda. Não sei se lembra, mas algumas vezes eu fiz alguns trabalhos aqui por Nova Jersey. E um desses era para ela. E foi aí que acabamos nos envolvendo, e..

— Já pode parar por aí. Eu entendi.

— E eu dei um fora nela Ana.. eu não quis. — Tá, confesso que fiquei chocada com isso. E muito contente também. Uma alegria inexplicável.

— Você deu um fora nela? Mas por que? — Fico bem curiosa.

— Naquela época eu estava gostando de uma pessoa, então eu meio que não estava com cabeça para aquilo.

— Gostando de quem? Você nunca me falou disso! — Agora me sinto triste novamente. É inexplicável também.

— Já passou isso. Foi por isso que não te disse nada... Podemos nos concentrar na escolha da roupa? Quanto mais rápido fizermos isso, mais rápido sairemos daqui senhorita. — É evidente que ela não quer falar sobre o assunto. Mas aquilo fica martelando na minha cabeça. Resolvo não pressiona — la, pois talvez eu possa me decepcionar com a história.

Pov Eduarda.

Encontrar Juliana depois de algum tempo foi bom. Confesso que ela não é de se jogar fora, mas minha cabeça já estava em Ana quando a conheci. A ruivinha ficou bem brava, com ciúmes na verdade. Mas acho que era apenas por que eu não estava mais dando tanta atenção a ela na loja.

Max ficou feliz da vida com as roupas que escolheu. Não era somente eu que estava com agonia de usar poucas roupas. Ana escolheu somente um conjunto, assim como tinha dito. Em nenhum momento ela mudou de idéia. E nem iria. E eu já sabia disso. Por isso peguei algumas roupas a mais, para ela usar. Max fez o agrado de levar algo para Jonas, só não sabíamos se ele iria gostar.

Chegamos ao hotel por volta das quatro horas e a bela adormecida estava louca atrás de nós. Ele pensou que tivéssemos ido embora e deixado ele lá. Bom, vontade não nos faltou.

— Você não sabe perguntar não? O senhor Aldo ficou aí na recepção. Acho q se tivéssemos ido embora daríamos baixa na conta né gênio. — Max diz.

— Era obrigação de vocês me informar!

— Ah! Tá bom donzela. Toma! — Max joga as roupas que pegou, em cima dele. -Presentinho pra você.

— O que? Isso tá com pó de mico? — Jonas revira as roupas como se procurasse algo de ruim escondido.

— Boa idéia. Da próxima eu coloco. — Max pisca para ele e sobe para o quarto.

— Por que ele me deu isso? Por onde vocês andaram?

— Longa história Romeu. Mas estou muito cansada para te contar agora. — Digo a ele.

— Mas eu mereço uma explicação não acha? Vocês praticamente me abandonaram aqui. — Ana ri da cara dele.

— Você também merece um soco mas nem por isso eu te dou. Vou subir Ana, você vem?

— Claro. — Subimos para o quarto com as nossas novas roupas. Agora sim eu poderia tomar um banho e vestir uma boa roupa. Como Ana havia comprado uma roupa simples, ela poderia usar tanto de dia como de noite. No que precisasse mais no caso.

— Você sempre anda com essa arma?

— Nesses últimos dias sim. Nunca se sabe quando vamos precisar. — Retiro a arma da cintura e ela repara. — Vem cá. Toma! — Entrego a arma em sua mão, retirando antes a munição. Ela pega meio sem jeito.

— Pesada ..

— Essa é. Está descarregada, não precisa ter medo. Pode segurar direito.

— Mas tô segurando, não?

— Tem que segurar mais firme, pequena. Isso pode matar alguém, então tem que tomar cuidado. Vem, deixa eu te mostrar.

Me posiciono atrás do seu corpo e ajudo ela a segurar a arma corretamente. — Dedo no gatilho somente quando tiver certeza de que irá atirar. Caso contrário você deve posicionar ele para fora, pois qualquer deslize, ou momento de distração e você pode matar alguém sem querer.

— Entendi. — Sua voz sai baixa. Saio de trás dela e ela continua lá. — Viu como eu aprendo rápido? É só me ensinar. Parece que agora você está bem encrencada mocinha. — Ela aponta a arma para mim. Levanto as mãos participando da brincadeira.

— Sim, aprende muito rápido. Só se esqueceu que ela está descarregada. — Trocamos sorrisos bobos. Sua maneira de segurar a arma agora é bem diferente.

— Eu já sabia, só tô brincando, chata. Vou tomar um banho, depois podemos descer para jantar.

[•••]

Jantamos numa área reservada do hotel, onde geralmente eram servidas as refeições.

— Senhora, pode aumentar o volume? — Max diz a uma mulher que trabalhava no local. Havia uma pequena TV suspendida na parede. A imagem não estava muito boa mas podíamos ver que se tratava da construção do muro.

" Essas imagens foram feitas hoje a tarde, quando mais pessoas chegaram à entrada da cidade. " — Vimos as imagens feitas de um helicóptero.

" O presidente dos EUA, que amanhã estará aqui em Nova Jersey, fará um pronunciamento rápido sobre a nova construção. Em seus discursos anteriores, ele se refere ao muro como "Ceifador", tendo base bíblica, esse nome se refere aos anjos de Deus, que separariam o trigo (bons), do joio ( mals)."

— Ceifador? Nome criativo. Pelo menos para isso o presidente serve né. — Ana diz assim que termina de jantar.

— Duda, por enquanto está tudo em ordem, segundo essas imagens feitas.

— É. Mas elas são de hoje a tarde. Já é noite. Por que eles não fazem transmissão ao vivo? — Era curioso isso, achei que eles ficassem o tempo todo no local fazendo cobertura de todos os acontecimentos.

" Um homem andando com roupas rasgadas e se movimentando de maneira estranha chamou atenção dos soldados.

— Quando nós vimos ele estava todo cheio de sangue, caía e levantava, mas não parava de vir até nós. Então um dos meus homens atirou em seu abdômen e mesmo assim ele continuou andando.
— Continuo andando? — A repórter entrevistava um dos militares.
— Sim. Demos um segundo tiro, dessa vez na cabeça, e só então ele caiu e não levantou mais. Chegamos perto depois e comprovamos que se tratava de uma das aberrações. Agora sabemos que eles morrem com um tiro na cabeça. "


— Eles já estão por perto Duda. É melhor nos prepararmos. — Max estava preocupado, assim como eu.

— Mas, tiro não atrai eles?

— Sim Ana. Só que eles não fazem idéia disso. Acho que não vamos ter tempo para falar com o presidente. Vamos ter que partir essa noite.

— Mas eles não vão ter chance alguma se nós não avisarmos. E ai sim começaria o verdadeiro Apocalipse. — O Max estava certo. Mas se continuássemos ali, estaríamos correndo um grande perigo.

— Acho que devemos encontrar um lugar alto, que tipo, tenhamos saída em caso de emergência. — Ana sugere. Era uma excelente idéia.

— Mas onde Ana?

— Ai você me pegou pequena. .Não faço idéia.

— Que tal... Na loja da Juliana? — Ana revira os olhos. Era engracado, mas se eu risse, era um tapa na cara que eu levaria.

— Ah pelo amor de Deus Eduarda. Tem lugar melhor não?

— Não, é sério pequena. Eu notei que lá atrás, depois da sala em que ficamos conversando, tinham uma garagem. A loja tem uma altura considerável. E se ficarmos encurralados podemos sair com o carro pelo portão da garagem.

— Excelente Duda! Mas a gostosa da Juliana vai topar?

— Bom Max, se todos concordarem, eu posso ir agora mesmo conversar com ela. — Eu e Max olhamos para Ana esperando alguma resposta.

— O que?

— Bom, só falta você decidir.. precisamos do seu alvará.

— Tá Max, tá. Não vamos arrumar rápido um melhor lugar mesmo. — Sorrio contente por ela ter concordado. — Mas faltou o Jonas também. Que tá atrasado pra jantar.

— O Jonas vai onde formos. Se não, ele não iria ter escolhido ficar com a gente. — Max tinha razão. Bom, parece que já havíamos chegado a um acordo.

— Vou agora mesmo falar com ela.

Ana pediu para ir comigo, ela já estava exagerando com esse cuidado todo quanto a Juliana. Era uma implicância boba. Mas, eu nunca reclamaria ou negaria sua companhia.

— Isso tudo é ciumes? — Pergunto com receio da sua reação.

— É. Algum problema? — Ana responde seca e diretamente. Sua cara não era uma das melhores. Toda hora ela me olhava e olhava para a estrada, roendo as unhas. — E não vim só por ciumes não. Se está pensando assim. Vim pra garantir que você chegue bem.

— Eu sei pequena. Mas não precisa ficar com ciumes. Só vamos lá pedir um favor a ela.

— Outro né.

— Eu amo você, viu? Obrigada por me fazer companhia.

[•••]

Voltamos ao hotel e já era tarde da noite. Juliana havia cedido a sua loja sem fazer muitas perguntas. Eu não ia pedir o carro também emprestado, isso seria abusar da boa vontade dela. E também tínhamos um carro; roubado, mas iríamos usar aquele mesmo. Colocamos ele na garagem e deixamos tudo em ordem.

— Lá em cima deve fazer um frio do cacete. — Jonas pronuncia.

— Podemos ficar aqui dentro, a loja tem alarmes, eles podem muito bem servir como um despertador caso algo saia errado.

— Perfeito Ana. Ô Romeu, tu gostou da roupinha?

— Gostei Max. Valeu. — Era engraçado ver os dois conversando. Jonas ainda tinha uma raivinha de Max e isso era perceptível em sua voz.

— Então galera. Podemos nos ajeitar aí no chão mesmo, ou nos sofás. Como tem dois, vou deixar que a Ana se ajeite em um, e vocês decidam quem vai dormir no outro.

— O Romeu pode ficar com um. Não quero que ele acorde com dorzinha nas costas e atrase nossa caminhada até o presidente.

— Como se esse sofá não fosse me deixar com dores nas costas.

— Tá reclamando então fica no chão.

— Já chega vocês dois! Meu Deus. Parecem duas crianças. Nem eu e Eduarda que somos mulheres ficamos brigando assim o tempo inteiro. — Ana grita e os dois ficam calados.

— Por que vocês são amigas.

— Não interessa Jonas. É melhor pararem com isso. — Ana estava certa, aquilo não ia levar a lugar algum. As implicâncias eram bem infantis.

— Ok. Por mim tudo bem. . Eu não digo mais nada.. — Max é o primeiro a se "render".

— Ok. Eu também não digo mais nada.

— Ótimo. — Ana passa por mim, em direção ao sofá. — Achei que eu ia precisar usar sua arma. — Começo a ri da cara dos meninos.

Mal consigo pregar os olhos, eu queria ter certeza de que nada de errado aconteceria. Deixo a TV da saleta ligada, porém, sem som, não queria acordar os outros. Os implicantes dormiram no chão e me deixaram com o outro sofá. Ana dormia profundamente, não importava a situação, se ela estivesse com sono ela iria dormir sem se preocupar com nada.

— Você gosta dela não é? — Levo um susto com Jonas.

— Quase você me mata do coração.

— Desculpa, mas eu estava a um bom tempinho aqui vendo você olhar pra ela.

— Sério? Eu nem percebi. Respondendo sua pergunta.. eu só me preocupo com Ana. Ela é minha amiga.

— O Max também é seu amigo, e você não olha assim pra ele...

— Do que está falando Jonas? Você nem nos conhece direito.

— Tem razão. Me desculpe. Sabe, eu estou bem interessado nela, por isso eu só quis ter certeza .. — A minha vontade a essa altura era pegar a minha arma e dar um tiro na cabeça dele.

— Você não faz o tipo dela.

— E qual seria o tipo dela?

— Pergunte você mesmo à ela amanhã. Vou dormir. — Aquela conversa estava me dando nos nervos. Um conquistador barato como Jonas, com certeza não era o tipo dela. Depois daquele papo estranho eu apago totalmente.

[•••]

— Então está me dizendo que não foi uma boa idéia costruir aquele muro? Ah, por favor. Eu estou perdendo tempo com você!

— Senhor, pode sim ter sido uma boa idéia, mas a forma na qual ele está sendo construído. .

— Além de tudo ainda tens coragem de criticar o trabalho dos nossos conterrâneos?

— Não! De forma alguma! Só que, nós viemos lá de dentro. Enfrentamos vários deles, e podemos afirmar que o barulho só os atrai mais ainda. E no momento, o muro que estão a costruir, servirá como atração para eles. Se o senhor não tira — los de lá...

— Chega! Eu não quero mais ouvir. Se você e seus amigos se preocupassem tanto com aquelas pessoas, estariam lá, ajudando-as a terminar a construção. Tenho um pronunciamento daqui a pouco, se não se importa.

Deixo a sala do presidente acompanhada por dois seguranças.

— Como foi lá? Pela sua cara, acredito que tenha dado tudo errado. — Ana pergunta.

— Bom, pelo menos nós tentamos. Não teve jeito...Ele mal me ouviu. — Max fica enfurecido. Anda de um lado para o outro pensando em alguma coisa.

— Ei irmão! Não fique assim! Nós fizemos o que podíamos. Ele é a autoridade aqui. Não podemos passar por cima dele.

— Ele está sendo responsável pela maior desgraça da humanidade. Vamos embora daqui.

— Ei Marcos. Deixa que eu os acompanho. — Uma mulher diz ao segurança que não saía do nosso pé. Ele se retira.

— Nós já conhecemos a saída. — Max diz secamente.

— Eu ouvi o que você disse lá dentro. Sou Alice. Chefe da segurança pessoal do presidente.

— Veio aqui pedir desculpas por ele?

— Desculpa senhor, mas estou falando com ela. — Alice da uma patada em Max, que se fosse em outra hora, em outras circunstâncias, eu iria ri da cara dele. Jonas já é mais indiscreto.

— Gostei dela.

— Fica quieto Jonas. Bom Alice, como meu amigo Max disse, nós já estamos indo embora. Não precisa se incomodar.

— Eduarda não é? Para onde vão agora?

— Sim. Ainda não sabemos. Mas pra bem longe daqui.

— Eu quero lhe dizer que não concordo com a decisão que ele tomou, acredito em vocês. Meu pai foi irracional.

— Espera, achei que tivesse dito que é chefe de segurança.

— Sim, do meu pai.

— Não sabia que o presidente tinha uma filha, muito menos que ela é uma gata. — Jonas ataca novamente.

— Quase ninguém sabe. Ele me teve fora do casamento, e isso poderia não ser bom para as eleições.

— E ai ele te deu um cargo suicida. Que pai amoroso.. — Ana diz sarcástica.

— Até que eu gosto bastante. Mas a questão é que eu quero ajudar vocês e ajudar todas aquelas pessoas que estão se sacrificando na construção da única possível salvação.

— Aquilo lá não seguraria os mortos vivos por muito tempo. É isso o que o seu pai não entendeu. O que ele está fazendo é atrair todos para esse lado do país. — Explico calmamente a ela.

— Sim. Eu sei. Vocês têm razão. Eu e mais dois da minha equipe sobrevoamos de helicóptero a área que será fechada. A situação é pior do que pensávamos, a população das quatro cidades depois de Nova York praticamente surtaram com a construção do muro.

— Pois é. Ninguém gosta de ficar excluído.

— O problema foi que, de tanto pânico, as pessoas começaram a correr contra o relógio para chegarem até Nova Jersey. Uma minoria conseguiu. Agora Nova York encontra — se infestada além do normal. — A loira em seu uniforme habitual mostra desaprovação em sua voz. Com o pai provocando a catástrofe, eu também teria total desaprovação.

— E você contou a seu pai?

— Contei. Mas como você viu, as fichas dele estão depositadas ali.

— Isso é por que o babaca tem seguranças armados até os dentes. Por isso ele não se preocupa. Loirinha, desculpa falar assim, mas seu pai é um idiota. — Jonas tem seu momento sincero.

— Ok. Então como você pretende nos ajudar? — Ana pergunta, voltando nosso foco.

— Bom, o pronunciamento dele deve estar quase começando, e vai ser transmitido em todo país. Claro, onde ainda há energia e o sinal esteja bom. As pessoas que estão na construção podem escutar a transmissão por meio de alto falantes que foram colocados para as instruções das tarefas.

— Tudo bem Alice. Uma pergunta.. Quando você sobrevoou as cidades, o quão perto eles estavam? — Pergunto curiosa.

— Bem perto. Talvez nem tempo nós tenhamos. — Olho para Max que até então se manteve calado, sem demonstrar nenhuma expressão.

— Ok. Continue.

— Posso colocar vocês antes dele na sala. Mas isso se sairmos em dois minutos. — Ela olha para seu relógio no pulso. — E aí nós hackeamos o sistema de transmissão e podemos fazer com que vocês sejam ouvidos no lugar dele. Mas, aí está o problema.

— Qual?

— O cara que conheço, que saberia fazer isso, é fiel demais ao presidente e não agiria dessa forma. — Ah, não é um problema tão grande assim.

— O Max faz. Não faz, Max? — Todos olhamos para o mesmo.

— Ué. Agora estão falando com o "Senhor" aqui? — Ele faz aspas no ar. Ana ri alto e Alice fecha a cara. Sabia que tinha algum motivo pra ele tá quieto. Orgulho ferido. — Claro que faço Duda.

— Ótimo, então vamos. — Alice diz, se vira e nos mostra o caminho.

— Mas. A senhora Segurança Total, me deve alguns pedidos de desculpa. — A loira para, se vira novamente e o encara com sangue nos olhos.

— Ok. Está certo. — Ela se aproxima dele, os dois são praticamente da mesma altura. Eles ficam frente a frente, olho para Ana e ela segura o riso assim como Jonas. — Vou ser bem clara. — Ela olha eles nos olhos. Alice tira uma faca afiada e não muito pequena da sua cintura colocando-a no pescoço de Max, num piscar de olhos. — Tá bom pra você o pedido de desculpas? — Max sorri como se estivesse amando aquilo.

— Hum...Não. — Ele responde na maior tranquilidade.

— Max, você tá pedindo pra ser esfaqueado e eu vou deixar. — Falo secamente.

— O seu amigo, Marcos não é? Acho que deve estar sentindo falta de alguma coisa.

Max coloca uma arma na cintura da loira. Puta que pariu. Alice engole o seco.

— Idiota.

— O Marcos foi mesmo. Tem razão. — O loiro responde brincalhão. Ok, devo admitir que por essa eu também não esperava.

— Alice vamos logo com isso, não temos muito tempo. — Ana lembra, tentando disfarçar que estava adorando o showzinho.

— Ok. Me desculpe. Senhor. Agora será que podemos ir? — Seus olhos fervem mas ela se mantém controlada, colocando a faca novamente no seu devido lugar.

— Agora sim. O 'senhor' foi meio exagerado, mas eu relevo. Vamos. — A loira da uma última olhada no sorrisinho vitorioso de Max e se vira indo na frente para nos mostrar o caminho.

A sala dos computadores e de onde seria feita a transmissão não ficava muito longe.

— Acho melhor vocês irem andando e esperarem lá fora Eduarda. Assim não chamaria muita atenção. Eu acompanho ele até lá e damos um jeito.

— Ok. Max é contigo. Só tentem não se matar.

— Não garanto nada. — Alice responde sincera e faz Max sorrir.



Notas finais
Comentem! Preciso saber o que estão achando da história! Bjs e até mais :*