Eu desistiria da eternidade para te tocar...
1 “If you're still BREATHING, you're the lucky one”
Notas iniciais
O que não te mata, te faz desejar estar morto, mas se você continua RESPIRANDO, você tem sorte.
Antissocial, nerd e introvertida. Esses eram alguns dos adjetivos constantemente empregados a ela. Parando para pensar na carga de expectativas que lhe eram impostas como gentileza e conduta impecável, não deixava de pensar que poucos que a conheciam, e poucos realmente procuravam a conhecer. Afinal nem mesmo ela parecia interessada em se compreender.
Era uma mera espectadora da vida, uma stalker, uma observadora. Vivia em função de acompanhar a vida das outras pessoas, e julgava a própria como desinteressante e dispensável. Vivia seus dias no piloto automático sem realmente se importar. A realidade era que a menina via muito mais apreço pela vida fictícia, do que a vida desse mundo de mesmice e solidão, como ela mesma o descrevia. Sua alma ansiava por algo que não sabia ao certo o que era, sentia-se vazia mas não sabia exatamente por quê. Sentia que as coisas não deveriam ser assim.
No momento encontrava-se em seu quarto completamente escuro, exceto pela luz fraca que saía de seu computador, às 2 da manhã, em uma noite simplesmente corriqueira.
— Tem que acontecer alguma coisa, algo que faça tudo valer a pena. — reclamava alto, sem realmente notar. — Eu só quero que algo épico aconteça, se não, qual a graça? Tudo é tão mais legal nos jogos... — a vida era só isso? Nada além de vazio e de sonhos frustrados? Indagava-se ao mesmo tempo em que sua perna balançava inquieta em uma tentativa frustrada de arrancar toda aquela dúvida e euforia que atormentavam seu coração.
A verdade arduamente escondida pela menina era que na surdina da noite era atormentada por crises de choro e pânico. Sua “válvula de escape” de sua realidade conturbada, eram os livros, os animes e os games.
Então, em seu habitual tempo disponível, lá estava novamente procurando por novos jogos com as melhores avaliações e críticas.
Um título saltou sobre seus olhos: “O novo conceito de RPG – UNDERTALE”. Mas não fora isso que mais havia lhe chamado a atenção, era sua descrição:
“Há muito tempo, dois povos reinavam sobre a Terra: Humanos e Monstros.
Um dia, cegos pela sede de poder os Humanos hostilizaram os Monstros, e os aprisionaram no subsolo.
Megalomaníacos. Essa era a palavra que melhor definia o que os seres humanos haviam se tornado”.
Megalomaníacos? Pensava. Havia lido sobre Megalomania enquanto estudava Freud no colégio, então sabia que de acordo com ele essa definição era empregada a seres humanos que possuíam ilusões de superioridade e que seriam capazes de passar por cima de todos em busca de poder.
Não pôde evitar rir ironicamente pensando nisso. Se não contar a existência de monstros talvez a história não fosse tão fictícia assim, uma vez que retratava algo que ela indubitavelmente concordava. Por experiência própria tinha uma visão de uma humanidade cruel, e esse era um dos motivos pelos quais ela preferia jogos e livros, em vez de gente.
Por que parecia que os seres humanos tendiam a serem maus com ela? Ela já fora deixada à mercê na escuridão, inclusiva por isso o sol agora, de alguma maneira, parecia mais frio quando roçava sua pele. A menina já sentira tanta dor que seu coração quase parou, o medo e a cólera quase a despedaçaram...
Sacudiu a cabeça em uma tentativa frustrada de afastar aqueles pensamentos, afinal, por que trazer tal sofrimento à tona? Já mal lembrava-se qual fora a última vez que a haviam feito perder o controle, oras! Tudo ficaria bem.
—Só joga, j-o-g-a – convencia-se. Ao finalizar seu download e abrir o jogo, deparou-se com uma introdução escrita exatamente como havia lido mais cedo enquanto pesquisava sobre o jogo, e por instinto chacoalhou a cabeça novamente, pois mal conseguia evitar pensar em como acreditava verdadeiramente que os humanos reagiriam exatamente como o descrito numa situação real, totalmente desprezíveis e egocêntricos.
Quando acabou a introdução e finalmente se viu mais calma, o iniciou ansiosamente e mais do que depressa, afinal, estava cheia de expectativas de que o jogo a surpreenderia, pois possuía uma história especial.
Mal sabia que todas as suas expectativas seriam superadas e ainda mais, causariam coisas que poderiam ser descritas por pessoas normais como delírios ou aberrações...
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