Eu desejo que você seja feliz
3 Capítulo 3 – Eu prometo que farei você feliz
Notas iniciais
Capítulo 3 – Eu prometo que farei você feliz
Olhando para trás, buscando a fonte que o atingira com uma espada luminosa no peito, Ichigo sentiu até mesmo o fôlego faltar, e o desespero sufocante ser drenado de seu corpo. Sentiu sua temperatura oscilar repentinamente quando mil emoções se misturaram dentro dele. Há quanto tempo ele não via aqueles olhos?! Onde ela estivera o tempo todo?!
Rukia estava diferente, e continuava tão linda. Seu cabelo estava mais curto e um emblema de tenente da 13ª divisão prendia a manga esquerda do quimono em volta de seu braço. Seu olhar continuava o mesmo, misturando serenidade e força, mas parecia mais sábio, e também, especificamente para Ichigo, cheio de carinho e saudade. E ela não havia crescido um centímetro, Ichigo não perderia a chance de brincar com ela sobre isso mais tarde, se essa lembrança não se perdesse no meio de tudo que estava sentindo agora.
Rukia segurou a espada com mais firmeza e a luz se intensificou. Os dois sumiram na explosão de poeira e luz azul que aconteceu em seguida. A shinigami sentiu um aperto no peito com a emoção que a invadiu vendo aquilo pela segunda vez. A luz envolveu Ichigo, a partir do ponto onde o havia acertado, e depois se espalhou, munindo-o do quimono negro e de sua zampakutou, quando sua alma finalmente se separou do corpo. Como ela, ele voltou um pouco diferente, tendo proteções metálicas em volta dos pulsos, do pescoço e do peito, por dentro do quimono. O formato da espada e da faixa que a segurava nas costas também havia mudado. A única coisa que em nada mudou, e veio até mais intensa, foi seu orgulho por ele naquele momento.
Enquanto a poeira ainda voava ao redor deles e ofuscava a visão de quem estava fora, Ichigo se virou para ela com aquele sorriso e aquele olhar gentil que ela sentira tanta falta.
— Foi você, não foi?
Ele tocou a própria testa para lhe indicar do que estava perguntando, e Rukia sorriu timidamente.
— Depois da batalha nós vamos conversar. E você sabe que eu detesto ficar esperando. Então sobreviva, Ichigo.
— Eu também não gosto quando furam os compromissos comigo. Então esteja lá, Rukia.
Sorriram um para o outro, e Ichigo voltou a olhar na direção de Ginjou. E quando a poeira se dissipou, todos puderam ter certeza que o shinigami substituto estava de volta.
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— Por que mudaram de ideia de repente?
— Quando a batalha ficou mais perigosa e começou a atingir todo mundo, decidiram ficar.
— E vocês vão voltar agora?
— Daqui uns dias eu acho.
— Mas a missão não era só me ajudar?
— Inicialmente sim. Mas o comandante achou melhor que verificássemos o paradeiro dos fullbringers sobreviventes, se achamos mais algum e se os poderes de todos realmente desapareceram. Por isso eu, nii-sama, Renji e o capitão Hitsugaya ficamos pra trás.
— Todos vocês estiveram no meu quarto aquela noite?!
Rukia riu.
— Claro que não, seu tolo. Nem ia dar pra tanta gente se locomover direito lá dentro. Eu e Renji viemos primeiro, pra saber onde você estava, como estava, e como chegar ao esconderijo de Ginjou. Renji esperou na rua na frente da sua casa, só eu entrei.
— Por que só você? Achei que ele não perderia a oportunidade de conhecer meu quarto e encontrar alguma coisa pra me zoar.
— É exatamente isso que ele queria fazer, mas eu pedi pra ir sozinha, e ele respeitou isso. Não sabíamos como você estaria, como reagiria à presença de um shinigami, e eu... Queria ter certeza que não era um sonho. Por muito tempo jurei que nunca mais nos veríamos. E obrigada por cuidar do meu armário e guardar aquele desenho.
— Seu armário? – Ichigo riu, mas num tom carinhoso ao invés de zombeteiro.
— Morei nele por tempo suficiente pra exigir meus direitos sobre o imóvel, senhor Kurosaki.
Os dois riram juntos agora.
— Alguns dias, certo? Então não tenho muito tempo pra pensar e criar coragem.
— Ichigo...?
Rukia virou o rosto para olhá-lo, vendo-o sorrir enquanto o vento bagunçava seu cabelo. Estava grato por a escola estar vazia nesse dia, pois o telhado ainda era um dos lugares para onde eles fugiam para conversar. Os dois estavam como shinigamis, Kon em seu corpo na loja de Urahara.
— Você ainda não disse porque viemos aqui – Rukia falou, tentando descobrir o que ele estava pensando.
— Faz muito tempo que não conversamos assim. E tenho que te dizer uma coisa.
Rukia sentiu o coração palpitar com a forma como ele a olhou. Ichigo já a olhara assim muitas vezes antes, mas nunca com tanta intensidade, e não soube o que pensar ou sentir.
— Primeiro eu quero que saiba que aconteça o que acontecer, você ter cruzado meu destino foi uma das melhores coisas que me aconteceram, Rukia.
Rukia respirou fundo, sentindo o corpo aquecer.
— O que quer dizer com isso?
— Todas as vezes que levaram você embora... Eu fiquei mal por dias, mesmo que eu não dissesse a ninguém e não deixasse isso me paralisar. Embora eu ache que minha família, Chad, Orihime e Uryu sempre percebem. Estou perfeitamente ciente do nosso lugar, nossas vidas e nossas respectivas responsabilidades. Mas não ter mais você perto parece errado, fica muito vazio.
— Ichi...
— Eu sei que você não pode estar aqui sempre, e que ainda vai demorar muito pra que eu possa viver na Sociedade das Almas, apesar de eu estar tecnicamente meio morto depois de Urahara quebrar minha corrente do destino naquele treinamento. Mas a cada vez que algo acontece e depois você vai embora ou eu volto pra casa sozinho, eu passo semanas pensando se e quando vou te ver de novo. Não há ninguém em quem eu confie mais do que em você, Rukia. Mas queria que nosso laço ficasse mais forte. Se você também quiser.
Ela respirou fundo de novo, e seu coração disparou. Queria tanto falar as mesmas coisas pra ele, mas Ichigo sempre foi melhor do que ela em arriscar certas coisas, e em seus pensamentos sempre havia as leis da Sociedade das Almas os separando no fim.
— Desculpa por não conseguir falar claramente – ele disse embaraçado, escondendo o rosto entre as mãos por um segundo – Rukia, você acha que pode ser mais do que minha melhor amiga?
— Ichigo... Você nunca me disse que eu sou sua melhor amiga – ela sorriu.
— E eu precisava?
— Não. Porque eu também nunca te disse.
— Achei que fosse Renji.
— Vocês dois são. Mas você não é só isso, eu nunca consegui achar a definição adequada pra você.
— E o que mais você quer que eu seja? – Ele sorriu.
Rukia lhe mostrou o mesmo sorriso tímido de quando haviam se reencontrado na batalha, e caminhou até ele, tomando suas mãos nas suas e as observando por um momento. Ichigo fez o mesmo e achou fofo o contraste entre o tamanho e a cor de suas mãos, sendo a pele dela bem mais alva. Mas Rukia interrompeu sua observação o puxando para ficar mais próximo de sua altura e beijando demoradamente seu rosto. Ichigo suspirou, sentindo um choque agradável percorrer seu corpo, e fechou os olhos enquanto aproveitava aquele momento.
— Eu amo você – ela sussurrou.
Nesse instante Rukia sentiu seus pés deixarem o chão quando Ichigo a segurou num abraço. Ela suspirou e o abraçou de volta.
— Era pra eu ter dito isso primeiro, baixinha.
— Mas não disse. Então cansei de esperar pela sua lentidão.
Ichigo riu e a abraçou mais perto.
— Eu te amo, Rukia. E eu não sei como vamos fazer isso funcionar, mas cansei de deixar os dias passarem sem você saber disso.
— Vamos encontrar um jeito – ela lhe disse, tomando seu rosto entre as mãos e o encarando.
Ichigo lhe devolveu o olhar profundamente, então olhando brevemente para seus lábios e novamente para ela antes de fechar os olhos, no que Rukia o acompanhou, o ruivo diminuiu a distância entre eles quando finalmente a beijou. Suas mãos se enredaram nos cabelos um do outro. A mão livre de Rukia fechou os dedos ao redor do tecido do tecido do quimono dele, a de Ichigo manteve-se a segurando firme pelas costas, e o beijo se aprofundou, fazendo-a intensificar um pouco seu aperto nos cabelos do amado. Mas apesar dela temer machucá-lo e relaxar os dedos, Ichigo apenas suspirou e a beijou com ainda mais amor, e assim permaneceram até desejarem respirar outra vez.
— Byakuya vai me matar – Ichigo murmurou, ainda de olhos fechados e abraçando a shinigami, tendo sua testa apoiada na dela enquanto recuperavam o ar.
— É, ele vai...
— Vai?! – Ichigo questionou diante da resposta inesperada, e Rukia gargalhou.
— Tinha que ver sua cara agora – ela falou enquanto ria ainda mais – Ora, desfaça essa cara, estou só brincando. Embora eu não possa garantir que ele não vá desejar isso.
Rukia o beijou novamente e sentiu Ichigo sorrir no contato. O ruivo beijou sua testa antes de gentilmente devolvê-la ao chão.
— O nii-sama vai ficar perturbado sim, mas ele vai aceitar. Ele vai se lembrar.
— Dela?
— Sim. Ele não gosta de falar disso, como você já sabe, e provavelmente não o fará. Mas ele vai lembrar. A única parte dessa história que ele costuma relembrar em voz alta quando estamos em casa, em certos momentos, é que nem precisou me procurar quando chegou à academia naquele dia, porque eu estava passando pelo mesmo lugar que ele quando chegou, e eu era a imagem dela, ainda que um pouco diferente. Foi muito difícil pra ele também. Você já sabe como Yamamoto é com as leis.
— Ainda bem que aquele velho chato não tá aqui.
— Não deixa ele te ouvir dizendo isso, é pior que o nii-sama.
— Pode deixar.
Rukia entrelaçou seus dedos com os dele, e o encarou.
— Obrigada, Ichi.
Ichigo apenas sorriu.
******
— Rukia, eu gostaria de saber porque quiseram falar apenas comigo e do que se trata. Em poucos dias voltaremos pra casa. A fullbringer conhecida como Hiruka sumiu, os outros também. Não há mais rastros dos poderes de qualquer um deles, então nossa missão acabará assim que concluirmos mais algumas hipóteses.
— Eu entendo, nii-sama. Por isso não quisemos adiar isso.
— Adiar o que?
Esses dois bisbilhoteiros, Ichigo pensou ao sentir a pressão espiritual de Urahara e Yoruichi num local próximo fora da sala. Estavam na casa deles afinal, mas era uma situação séria e delicada. Ao menos, Ichigo esperava, se Byakuya realmente decidisse mata-lo, os dois poderiam intervir diplomaticamente em sua defesa, e evitar lutas e mortes desnecessárias dentro da casa.
— Ichigo Kurosaki, por que você também está aqui? Ainda tem alguma dúvida sobre tudo que aconteceu? Creio que eu não seja a pessoa mais adequada pra ajuda-lo, a depender do que você quer discutir.
Ichigo entendeu o que o capitão quis dizer. Talvez depois ele falasse com o próprio Ukitake sobre isso, mas cada questão a seu tempo.
— Eu entendo. Mas agora é exatamente com você que eu quero falar.
— Eu posso começar isso, Ichigo.
— Não. Desde que nos conhecemos você só fez coisas boas por mim, Rukia. E já teve problemas demais por minha causa. Eu sei com o que estou lidando, então quero tomar a iniciativa que me parece mais correta agora.
— Certo – ela disse com um pequeno sorriso.
— Capitão... Não se trata de nada sobre a batalha ou todo o resto. E eu sei que provavelmente a Sociedade das Almas será contra, mas eu acho que podemos encontrar um meio de conciliar as coisas. E em minha defesa eu já estou meio morto mesmo.
— Acho que seria mais claro se você começasse do começo. Mas então é verdade? Kisuke quebrou sua corrente naquela época e assim surgiu o hollow?
— Sim.
— Isso é a cara dele. Mas na época nos questionamos se chegaria a um extremo tão grande com um iniciante.
— Desespero foi pouco pra o que todos nós sentimos naqueles dias, acho que você entende isso depois do que aconteceu.
— Sim.
— Mas esse não é o ponto principal agora.
Quando o capitão da 6ª divisão não disse nada, Ichigo continuou. Trocando um olhar com Rukia, a viu com um leve sorriso e um olhar de surpresa e satisfação, no qual o ruivo pode ler perfeitamente: Você tendo uma conversa normal e tranquila com meu irmão? Quem diria?!
Olhando novamente para Byakuya, Ichigo começou.
— Eu acho que talvez não seja mais segredo que existe algo muito forte entre mim e Rukia desde que nos conhecemos.
— Não mesmo. Pra ninguém. Você tem uma forma escandalosamente enfática de demonstrar isso sempre que minha irmã corre algum risco.
— Que?! Eu, escandaloso?!
— Preferia que eu dissesse dramático? Também se encaixa bem.
Rukia riu, e os dois a olharam. Olhando rapidamente para Byakuya, Ichigo pode ver um pequeno sorriso cruzar seu rosto ao ver a irmã feliz, e isso o tranquilizou um pouco.
— Você devia ficar do meu lado. Foi o meu drama que salvou sua vida mais de uma vez.
Rukia riu ainda mais.
— Me desculpem. É raro que o nii-sama demonstre seu senso de humor, é adorável. E foi graças aos seus momentos dramáticos que estamos aqui agora, então sugiro que continue a cena, é sua vez de falar – ela disse, rindo novamente.
— Olha se era eu que encenava pra nos safar das broncas dos professores na escola. Você não mudou nada desde que te conheci – Ichigo falou.
Rukia deu mais uma risada e o encarou.
— Se você não terminar logo o que quer dizer, meu irmão vai perder a confiança na nossa capacidade de levar as coisas a sério.
— Então você ainda a tem? – Byakuya perguntou para Ichigo, e viu Rukia esconder mais um riso com uma das mãos, sabendo que após sua convivência melhorar, ela se tornara capaz de saber quando ele estava brincando.
— Eu não vou entrar em mais uma conversa paralela respondendo suas provocações, Byakuya. Se você mesmo já sabe, não tem porque eu ficar procurando palavras.
Rukia ficou séria agora, observando seu shinigami com orgulho.
— Eu amo a sua irmã. E ela me ama de volta. E já aguentamos suficiente de viver distantes sem contato algum o tempo todo, só nos reencontrando em momentos de crise em que algum louco ameaça alguém aqui ou na Sociedade das Almas. Nem depois que perdemos Rukia na batalha contra Iruma e o Batou isso mudou. Eu devia ter tido essa conversa com você naquela época, mas não o fiz, e já chega de adiá-la.
— Você sabe que isso não depende só de mim.
— Sim, eu sei. Estou perfeitamente ciente das nossas responsabilidades, das diferenças entre nossos mundos, de que meu corpo continua vivo apesar de eu ter morrido, e por isso preciso terminar de viver minha vida aqui, e de que ainda podemos enfrentar outras questões.
— Nós dois estamos – Rukia acrescentou.
— Todas as batalhas que lutei até hoje foram por ela e me sentindo motivado pelas forças que ela sempre me deu, eu fui até ao inferno trazê-la de volta, e consegui derrotar a Dark Rukia sem matá-la e sem destruir as almas das crianças. Posso lidar com isso também.
— Eu me lembro de tudo isso.
O silêncio se formou entre os três por alguns minutos, enquanto Byakuya parecia refletir. Por um instante em seus olhos, Rukia viu a mesma tristeza de quando ele lhe contara que a dado momento daquela batalha, não parecia haver outra alternativa além de destruir Dark Rukia, o que mataria as três almas unidas ali junto com o hollow. Mas Ichigo não permitiu, e fez o mesmo que ela fez por ele quando se conheceram, transferindo seu poder shinigami para ela e forçando o hollow a quebrar a união. E ela sabia o quanto seu irmão era grato a Ichigo por essa e por cada uma das vezes que Rukia voltara para casa graças a ele.
— Isso nunca aconteceu antes. Não nessas circunstâncias. Os casos de shinigamis vivendo fora da Sereitei são muito poucos. Seu pai, Ginjou, a garota conhecida como Senna, cuja história é muito confusa, e no máximo pessoas com nível de energia mais alto que possuem boas chances de se tornarem shinigamis depois que morrerem e seguirem para Rukongai, embora nenhuma até agora comparada a você. O que vocês estão sugerindo, no entanto, nunca aconteceu. Seu pai abandonou a Sociedade das Almas.
— Eu não quero que Rukia faça isso. Eu sei que não posso ficar lá permanentemente antes do devido tempo e que ela não pode ficar aqui o tempo todo. Mas ela sempre passa tempo aqui e eu lá de vez em quando. Até hoje conciliamos isso bem. E acho que podemos encontrar uma forma de equilibrar as coisas.
Byakuya ficou pensativo por mais um tempo e olhou para Rukia demoradamente sem sequer perceber, voltando a encarar o chão a sua frente quando retornou de suas reflexões.
— O comandante nunca fez objeções a uniões de shinigamis com não shinigamis, desde que isso não interferisse no funcionamento da Sociedade das Almas. A última senhora anfitriã do clã Kuchiki não era uma shinigami. E tudo que ela queria antes de morrer é que Rukia fosse feliz. Eu devo a vida de minha irmã a você, por muitas vezes, Ichigo Kurosaki, além da continuidade da própria Sociedade das Almas. Talvez não seja tão difícil.
— Nii-sama, então está tudo bem por você?
— Você está feliz, Rukia?
— Sim, mais do que eu poderia colocar em palavras se tentasse – falou com um sorriso.
— Então têm meu apoio.
— Eu agradeço, Byakuya – Ichigo lhe disse, tentando conter sua felicidade e mal acreditando no que acabara de ouvir.
— Mas que fique claro, Ichigo Kurosaki – o nobre começou, fazendo Ichigo gelar e quase enxergando a Senbonzakura apontada para sua garganta – Que se trouxer qualquer tipo de problema ou desapontamento a minha irmã, não deve esperar conversas tão pacíficas no futuro.
— Isso não vai acontecer. E se acontecer, eu vou fazer tudo pra que as coisas se ajeitem da melhor forma possível.
— Nós dois vamos – Rukia interviu outra vez, segurando sua mão sem se importar que o irmão estivesse presente para ver – Muito obrigada, irmão.
Ichigo teve outro susto quando viu Byakuya sorrir para ela, não ligando em deixar Ichigo ver um de seus raros momentos de maior sensibilidade.
— É o mínimo que eu podia fazer depois de encontrar você e de tudo que houve. Se estivesse aqui agora, ela ficaria muito feliz, Rukia.
A pequena sentiu o coração apertar e lágrimas arderem em seus olhos por um instante, ainda que não caíssem. Não se lembrava da irmã, mas nunca conseguia não se contagiar quando Byakuya falava dela, deixando mais do que claro o quanto a tinha amado.
— Vocês sabem que os demais têm que saber disso – o nobre falou ao se levantar – E que talvez ainda tenham que superar outros obstáculos. E que caso tudo dê certo, não podem negligenciar suas responsabilidades como shinigami ou permitir que seu relacionamento influa negativamente nas missões.
— Sim – os dois responderam juntos.
— Cuide de minha irmã, Ichigo Kurosaki, como tem feito até hoje. Isso é tudo que quero de você – Byakuya disse num tom muito mais acolhedor do que costumava usar com ele.
— Eu farei isso – Ichigo respondeu com um leve sorriso.
Byakuya encarou cada um deles em despedida e saiu, fechando a porta atrás de si.
— O que estão fazendo aqui? Essa conversa era particular – ouviram o capitão reclamar do lado de fora.
— Ah, Bya-kun, você não é o único que sabe disso há muito tempo, não deu pra segurar a ansiedade – ouviram Urahara dizer em seu melhor tom de cara de pau.
— Bya-kun...? – Ichigo segurou-se para não rir e continuaram prestando atenção à conversa do lado de fora.
— Nos conhecemos desde que você era um mini shinigamizinho, Byakuya-bo. Me sinto como uma mãe pra você, achei que poderia ficar por perto – Yoruichi falou no mesmo tom de Urahara.
Ichigo e Rukia riram juntos enquanto os três discutiam. Tendo certeza que ninguém entraria ali por ao menos alguns minutos, Ichigo sentou-se mais perto dela e tomou suas mãos.
— Ele aceitou e eu ainda tô vivo.
— Sim. Sim! – Rukia não conseguia conter sua alegria.
— Mas esse foi só o primeiro estágio. Ainda temos que aguentar meu pai fazendo escândalo quando contarmos pra ele mais tarde.
— Eu adoro aquele jeito dele.
— Porque não é você que acorda com um velho maluco pulando em cima de você pela janela do quarto de vez em quando.
Rukia riu, e enquanto os três shinigamis mais velhos discutiam lá fora, ela se ajoelhou para ficar numa altura mais próxima de Ichigo, enlaçando-o pelo pescoço e o beijando enquanto o ruivo a segurava carinhosamente pela cintura.
— Eu prometo que vou te fazer feliz – Ichigo sussurrou, e uniu seus lábios novamente.
******
— Para de chorar, seu bebezão! Já passou mais de meia hora que eles nos contaram – Karin dizia observando Ishin dramatizar diante do poster de Masaki.
— MASAKI, VOCÊ TEM IDEIA DO QUE KARIN ESTÁ FAZENDO COMIGOOOO???!!! Tentando obrigar um pobre velho a reprimir suas mais profundas emoções quando finalmente Ichigo deixou de ser um covarde e resolveu tomar alguma atitude com nossa terceira filha?! Em breve teremos muitos net...
Ishin calou-se ao levar um soco de um Ichigo indignado e vermelho.
— Ainda com essa história?! – Ichigo reclamou – Isso é jeito de agir quando finalmente seu filho lhe apresenta a namorada?
— MASAAAAAKIIIII!!! ESTOU TÃO EMOCIONADO!!!!
Rukia riu os observando, sentindo o coração se encher de emoção pelo forma como Ichigo a chamou.
— Eu tô tão feliz!!! – Yuzu dizia pela milésima vez, depois de ter chorado de alegria quando Ichigo e Rukia chegaram em casa com a revelação – Vou fazer um jantar especial hoje! – Ela exclamou, correndo para a cozinha.
— Eu vou com você. É melhor do que ficar aqui aguentando esse drama – Karin disse, seguindo atrás da irmã.
— Finalmente nossa querida Rukia será da família! E está tão linda com esse cabelo novo!! – Ishin dizia quando mais uma vez agarrou Rukia num abraço, enquanto a pequena ria na mais sincera alegria.
Ichigo sorriu ao vê-la feliz.
— Vou ajudar Karin e Yuzu na cozinha – ela disse quando Ishin a soltou – Sempre acabo aprendendo algo novo com Yuzu.
— Minha terceira filha é tão perfeita!!! – Ishin dizia chorando enquanto Rukia ia para a cozinha – Ichigo, é bom que você me dê muitos ne...
— Para com isso, seu tonto! – Ichigo falou após acertá-lo mais uma vez – Ainda vai demorar muito pra nos casarmos, e temos toda uma vida ainda pela frente antes disso.
— Então você vai casar com ela???!!! QUE ALEGRIA, MASAKIIII!!!!!
As três garotas riram da cozinha, vendo Ichigo suspirar de indignação e esconder o rosto entre as mãos. Rukia se aproximou do ruivo, também observando Ishin se acalmar de sua crise de alegria histérica. Ichigo viu que ela sorria.
— Eu realmente gosto dessa ideia – ela disse baixinho.
— Consegue imaginar isso? – Ichigo perguntou com o mesmo tom de voz.
Rukia deu de ombros.
— Até já dividimos um quarto.
Ele sorriu.
— Pelo amor de Deus, não deixa ele ouvir isso – sussurrou.
Rukia riu baixinho e tomou uma das mãos dele nas suas, deixando um beijo ali antes de olhá-lo mais uma vez e voltar para a cozinha. O sorriso de Ichigo aumentou.
— Tá bom, já chega, seu velho chato. Vamos ajudar também – Ichigo falou indo arrastar Ishin para a cozinha.
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— Mesmo depois de dois anos, eu ainda fico impressionado que tenhamos conseguido.
— É... Eu também. Naquela época eu cheguei a pensar que o comandante das 13 divisões faria de tudo pra nos impedir de ficar juntos. Minha irmã era uma pessoa comum do Rukongai. Apesar das dificuldades, foi muito mais fácil pro meu irmão conseguir lidar com isso e se casar com ela. Mas nós estamos separados por mundos e pelo resto da sua vida. Eu tinha certeza que muitos iriam se opor a isso.
— Felizmente tivemos bons advogados – Ichigo falou, passando o braço pelos ombros dela e a abraçando enquanto observavam as estrelas do telhado da casa dos Kurosaki.
Rukia riu em assentimento. Ela tinha chegado poucas horas atrás da Sociedade das Almas. Renji, Toushiro, Momo e Rangiku, alguns dos melhores amigos, agora dos dois, também estavam na cidade. A Sociedade das Almas tinha finalmente decidido aperfeiçoar seu trabalho na relação com outros tipos de almas, incluindo as humanas e todos os que por tanto tempo foram hostilizados, perseguidos e exilados pelos shinigamis. Conhecer de perto a situação em que estava o mundo humano era uma das coisas que faziam agora, portanto, periodicamente Ichigo ia até eles, às vezes acompanhado por Urahara e Yoruichi, para levar informações, e também passar algum tempo com Rukia. E quando ela vinha vê-lo, alguns shinigamis a acompanhavam pelo mesmo motivo.
No dia seguinte iriam todos a um shopping da cidade, onde poderiam se divertir e ao mesmo tempo observar o entorno e a quantidade de almas perdidas por lá. Uryu iria com Orihime, os dois estavam namorando há um ano, quando depois de muita força dos amigos o quincy tinha conseguido chegar no coração da ruivinha, já mais calmo e conformado por sua antiga paixão por Ichigo e aberto a algo novo. Chad buscaria os outros quatro shingamis na loja de Urahara e os guiaria até o local.
— Vamos realmente sair todos juntos amanhã? Estou doida pra ver como isso vai funcionar. Com exceção de Renji, os outros três ainda não estão muito familiarizados com esse mundo.
— Isso vai nos render umas boas gargalhadas. Especialmente se Toushiro tiver mais um surto por causa de sua altura.
— Isso foi uma ironia?
— Só porque também é uma anã, não quer dizer que isso foi uma ironia.
— Eu bateria em você agora se não me importasse de estragar sua cara.
Ichigo riu.
— Você não vai fazer isso. Já falou em voz alta que me acha bonito demais pra danificar minha aparência.
— Não fique se achando – ela brincou.
— Não fico. Especialmente porque estou na presença da estrela mais linda da noite.
Rukia não conseguiu evitar. Seu coração derreteu, e o encarou com um sorriso, antes de beijá-lo.
— Você estaria perdido na escuridão sem mim.
— Estaria sim – Ichigo disse, ainda preso aqueles olhos violeta, tão raros, belos e gentis – Rukia...
— Hum...? – Ela perguntou de onde estava agora, aninhada em seu peito enquanto ele a abraçava.
— Quando eu morrer pra valer... Você casa comigo?
Ela virou de lado e ergueu a cabeça para encará-lo.
— É claro que eu tornarei a falar com seu irmão sobre isso quando a hora chegar, e algumas vezes ao longo de todo esse tempo. Quero que ele continue confiando em mim e me deixando viver.
— Seu tonto. É comigo que você vai casar e não com ele. Eu tomo as decisões aqui.
— Deus me livre! – Ele falou imaginando a situação de qualquer um que tivesse coragem de casar com Byakuya, e Rukia gargalhou.
— Minha irmã derreteu o coração dele, nós vamos conseguir também.
— Se era mesmo tão parecida com você, eu não tenho dúvidas de que tenha conseguido derreter até Byakuya. Mas ainda estou esperando uma resposta, senhorita Kuchiki.
— É claro que eu vou, Ichigo. E tanto quanto eu quero que você tenha uma vida longa e plena, estarei ansiando por isso quando o momento chegar. Está gravado em nossas almas.
O sorriso que ele lhe deu foi um dos mais lindos que Rukia já vira. Havia tanta paz e felicidade naquele sorriso. E seu coração se sentiu forte, preenchido e confortado, exatamente ao contrário do vazio que ela sentiu ao conhecer Ichigo e perceber que qualquer relação verdadeira que ela tivera, ficou para trás em sua adoção e na morte de Kaien. E Ichigo a fez viver, levando-a a conseguir criar uma relação verdadeira e feliz até mesmo com o irmão, a reconstruir sua amizade com Renji, se tornar mais próxima de seu capitão e colegas da Sereitei, e criar muitos amigos novos.
— Obrigada.
— Pelo que?
— Pela minha vida.
— Eu posso te dizer o mesmo, baixinha. E eu te amo, anã.
Rukia riu, sentindo os olhos marejarem de emoção.
— Eu te amo, sua cenoura ambulante.
Foi Ichigo quem riu dessa vez, puxando-a para outro beijo.

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