Eu, Virtuoso

3 Terceiro disparo - Justiça e sangue


Notas iniciais
khada Jhin é um campeão que tive interesse desde o dia que assisti o trailer "Deadeye". Sua psicopatia e visões únicas sobre morte me trouxeram fascínio e curiosidade. Essa é uma homenagem que faço para esse campeão. Espero que goste. "Aos seus lugares... Vamos começar o espetáculo".

Quantas peças eu já apresentei? Os sons dos aplausos estão abafados, quase não os ouço. A plateia não me parabeniza apenas críticas e mais críticas. Falta um reconhecimento em meu trabalho. Há quanto tempo que venho fazendo isso? Por que eles não compreendem minha beleza? Eles não entendem... Devo fazer com que entendam.

Oh, você estava aí, ajudante de palco. O que foi? Você não me parece muito contente. O que? Eu também não? Impressão sua, estou apenas pensando. Hã? Se a morte de Sona me afetou? Claro que não! Já performei muitas pessoas parecidas. Hum? Por que estou deprimido? Olha, sei que você estar comigo há um leve tempo, mas isso não te dar intimidade. E não, não estou deprimido. Como eu disse, só estou pensando.

Enfim, vamos? Temos uma nova apresentação para exibir. Hum? O que houve com você, ajudante de palco? Eu lhe disse, não sou muito bem visto pelo público. Cabe a nós, revelar ao mundo sobre a arte da vida... A derradeira beleza de viver.

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Passaram-se dois dias desde a morte de Sona Buvelle, mas algumas pessoas ainda sofriam em luto. Principalmente sua mãe adotiva, Lestara Buvelle, que havia se trancado no quarto da filha e passado dias e noites chorando, sem encontrar consolo pela perda da filha, que ela considerava ser do próprio sangue.

Demacia se tornou uma nação em movimento, soldados vasculhavam com rigidez cada rua e ruela que patrulhavam. Não só eles, mas os próprios cidadãos de Demacia ajudavam nas patrulhas, noite e dia. Os principais suspeitos foram, logicamente, os turistas que não seguiam a risca as leis da nação, o código moral “tolerância zero”. Logo, eu iria me tornar um suspeito. Mesmo que minha aparência não mostre o que sou por dentro, se vasculhassem meu quarto seria inevitável encontrarem minha mascara e sussurro.

Para piorar a situação, os sobreviventes da taverna, onde performei Sona, viram minha aparência. Não demorou a meus cartazes de procurado fossem pregados nas paredes. Eu não podia usar minha, preciosa, máscara de couro confeccionada. Nem mesmo minhas roupas, da qual já sou acostumado a usar em minhas peças. Eu tinha que mudar meu visual por completo. Ainda havia mais um alvo para abater. Terei que ficar na cidade por mais alguns dias... tomarei cuidado para não ser descoberto.

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Havia um esquadrão de soldados formado para procurar o assassino impune. Eram vinte homens vestidos de armadura prateada, onde os raios do sol refletiam no metal brilhante. Os elmos embaixo dos braços, revelando suas faces jovens, olhares maduros e firmes em alguns, e em outros havia uma hesitação anormal para um soldado.

Frente à fileira do esquadrão, havia um homem aparentava ser o comandante. Estava usando uma vasta armadura, no peitoral, ordenhada em dourado. Leves filetes azuis nas ombreiras e uma echarpe, grossa, da mesma cor caindo sobre suas costas. Diferente dos demais soldados, ele usava uma calça de pano, cor marrom. Assim tinha mais mobilidade, reza os rumores que ele era um dos mais velozes na dianteira do exército demaciano. Por fim, o mais chamativo, se não o principal, que era sua espada de lâmina dupla, longa, quase do mesmo tamanho que ele. No metal havia um desenho, estilo tribal, esculpido. A guarda da espada tinha um adorno dourado com uma pedra azul e verde.

— Demacia chora pela perda de alguém insubstituível. — ele começou seu discurso — O sangue de nosso povo foi derramado de forma covarde e impiedosa. Nós, soldados de Demacia, não podemos permitir que tal mau caminhe livre por nossa nação. — dizia com a voz firme e confiante, como um derradeiro líder deve agir — Nunca se esqueçam pelo que lutamos... Pelo que damos nossa vida! Somos a vanguarda de nossa nação... — Ele se auto interrompeu ao ver um dos jovens, aparentemente, nervoso. Devia ser novato, o que não seria estranho tal reação — Garoto, vejo em seus olhos hesitação.

— Me desculpe, senhor! — o garoto encheu o peito, tentando mostrar coragem.

Mantenha a fé em sim mesmo — disse pondo a mão em seu ombro, depois voltou a atenção aos demais — Nossa coragem jamais deve tremular. — Medo é traiçoeiro, mas não se esqueçam, combatam a infâmia. Sejam ousados, sejam justos! Para proteger nosso país, mostrem a esse vilão a força de Demacia! — tais palavras criaram coragem nos corações dos jovens soldados. Sentiram-se energizados, antes que a guerra começasse já se sentiam vitoriosos. — Somos a mais poderosa força militar de Valoran, se mexerem com um de nós, então terão que encarar a todos! Demacia marcha como uma só... Justiça pela lei ou pela espada!

Justiça pela lei ou pela espada! — repetiram em tom grave e estrondoso, enquanto vestiam seus elmos e empunhavam suas armas.

Então esse é Garen Crownguard, o poder de Demacia. Um dos campeões da Liga das Lendas, sinceramente é fascinante seu poder de convencimento. Os soldados que, antes, estavam hesitantes, agora tinham uma chama em seus peitos, ardente e jovial capaz de iluminar até a caverna mais escura e aquecer o corpo mais gélido... Interessante.

Estou num dos andares de uma das torres, tão altas que aparentavam riscar os céus. Usava a mira de minha sussurro, agora transformada em um mega-canhão a longa distancia, para visualizar melhor meu alvo. Graças aos cartazes de procurado, tive que mudar meu visual completamente. Tive que substituir minha, preciosa, máscara por um pano vermelho e óculos de armação funda e lentes amarelas. Um chapéu de cowboy servia para cobrir meu cabelo. Minha roupa não foi diferente, agora eu vestia uma camisa branca colada ao meu corpo, e um manto de cor laranja escuro no ombro. A calça negra, entrava em locais que eram desconfortantes, me pergunto como as pessoas conseguiam andar com isso? As luvas e botas de couro faziam meus membros suar tanto que irritava. Aos meus pés estava uma carta que eu havia recebido de meus clientes, logo após completar com êxito a missão anterior:

“Acreditamos que com a morte da espião, Sona Buvelle, nossas informações devem estar seguras. Mas como deve saber, seu trabalho ainda não acabou. Seu próximo alvo será alguém de grande nome para a nação demaciana: Garen Crownguard. Temos desconfianças de que Garen possui envolvimentos com uma das assassinas da nação rival, Noxus. Seu nome é Katarina Du Couteau, a lâmina sinistra. Caso eles tenham um relacionamento, é possível que Garen esteja transmitindo informações ionianas para outra nação. E como você bem sabe, Ionia teve suas terras destruídas por Noxus. Não podemos permitir que tal conspiração aconteça novamente! Esse é seu alvo final em Demacia, após volte imediatamente para Ionia Haverá um barco no porto esperando por você, basta comparecer e voltará para nossa amada terra”.

Como pode ver, meu próximo alvo é Garen, o poder de Demacia. Quem diria que um dos símbolos da nação seria um traidor. Não se pode mais confiar em ninguém hoje em dia. Sona, uma ex-ioniana, recolhia informações e entregava para Garen, que por sua vez presenteava a assassina noxiana, isso que é conspiração. Bem, não me cabe julgar; Apenas devo cumprir com minha meta. Se eu posso performar, não há razão para ficar me questionando quem são meus atores.

Enfim, não posso me mover livremente pela cidade, presumo que terei que me virar com esse cenário espalhafatoso. Novamente, observo Garen pela mira de sussurro. Ele estava afastado dos soldados, pelo jeito preferia agir sozinho, o que me era bem conveniente. O momento esplendoroso antes que a cortina seja aberta é sempre emocionante, não importa quantas apresentações eu já tenha regido, sempre fico nervoso antes de cada performance. Agora vamos... o espetáculo não pode esperar!

Ajustando a mira de sussurro, com muita delicadeza, puxo o gatinho permitindo que o primeiro projetil cortasse o ar e voasse em direção ao coração de Garen. Mas não foi muito eficaz, sua armadura no peito era, incrivelmente, resistente. Sem dar tempo para ele reagir, disparei o segundo projétil, novamente em vão. Tudo o que consegui foi lhe chamar a atenção para mim. Agora ele sabia onde eu estava. Fiquei nervoso, fiz meu terceiro disparo precipitadamente, o que atingiu o chão há centímetros de distanciado do alvo original. Pela mira, vi que ele empunhou sua espada e se preparava para marchar em minha direção. Mas ele não esperava que eu estava no meu quarto, e mais poderoso, disparo.

O projetil mágico percorreu o cano de sussurro e explodiu o ar, numa velocidade sobrenatural. Era morte certa, pensei. Entretanto, fui surpreendido quando o soldado demaciano investiu com a espada e interceptou minha munição mágica. Era impossível isso acontecer. Fiquei paralisado por segundos, enquanto ele se aproximava.

Voltando para o tempo atual, eu tinha que correr antes que Garen me alcançasse. Com muita habilidade, desmontei meu mega-canhão e corri para fora da torre. O local era um ponto turístico de Demacia, era fácil se esconder na multidão. O problema eram minhas roupas chamativas demais, quem foi o designer disso? Enfim, olhando de relance, vi uma armadura se destacar na multidão, Garen corria abrindo caminho erguendo sua enorme espada. Ele gritava: “Demacia! Demacia!”, feito um idiota. Hilário, quem diria que usa pessoa assim seria um campeão.

— Senhor? — me chamou um guarda.

­— Hum? — virei meu olhar para ele, mas sem querer revelei minha sussurro no coldre.

— O que seria isso que o senhor carrega? — perguntou desconfiado, principalmente por causa da minha aparência.

— Ah isso? — vi no olhar do guarda, para ele eu era um suspeito e, provavelmente, só estava ganhando tempo para chegar reforços. Não tive outra escolha.

O som do disparo ecoou pela torre, fazendo com que alguns cidadãos se abaixassem em desespero, outros poucos correram de medo, criando uma confusão do jeito que eu queria.

— Pare! Patife! — gritou Garen, vindo em minha direção.

— Opa, aqui não — falei, jogando uma armadilha de lótus no chão; e sem perder tempo saí do alcance de seus olhos.

Eu sabia que ele continuaria a me perseguir, então foi inevitável a explosão em seguida. Minha armadilha, invisível, foi acionada, fazendo com que pétalas de lótus serrilhadas florescessem e explodissem, capturando e matando quem estivesse próximo. Eu falei que a torre estava cheia de civis? As paredes devem estar tingidas de um vermelho vibrante agora. Hummm, sobre Garen, se não tiver o matado, pelo menos um dos seus membros fora decepado, certeza disso.

Praga desprezível! — ouvi a voz de Garen.

Ele corria em minha direção, intacto. Até parece que minha armadilha não lhe fez nenhum dano. Eu tinha que fugir, e procurar um local amplo e espaçoso. Enquanto eu corria, jogava minhas armadilhas para atrapalha-lo, percebi que se fosse para elimina-lo, teria que usar algo mais potente.

Fiquei pouco tempo na cidade, mas consegui estudar bem a região, o suficiente para conhecer algumas áreas boas o suficiente para me esconder e ficar seguro.

Chegamos ao porto da capital, onde há alguns metros meu barco, para Ionia, me esperava. Obviamente, eu não poderia embarcar até meu alvo ser eliminado.

A multidão, sendo demacianos e turistas, era o melhor local para me “camuflar”. Me posicionei dentro de uma residência em construção, as pedras brancas formavam um pequeno muro, grande o suficiente para eu me abaixar e armar minha sussurro, agora transformada num mega-canhão, novamente. Os civis ficavam na frente de minha mira, me impossibilitando de ter uma visão nítida de Garen, que continuava me procurando. Diferente da outra vez, agora eu estava numa distância onde meus tiros seriam mais impactantes.

Eu não tenho o dia todo, sabe? Respirei fundo e puxei o gatilho, liberando o primeiro disparo contra Garen, porém um comerciante surgiu na frente no momento errado. O projétil lhe atravessou o corpo, diminuindo a força do impacto ao atingir meu alvo. A atenção do soldado demaciano veio para mim, pude observar a raiva nos olhos dele. Cerrando os dentes, furiosos, avançou gritando sua celebre frase:

— De...mah...see...a!!!

Mesmo longe, eu pude ouvir sua voz. Meu corpo arrepiou, assustador. Em resposta, liberei meu segundo disparo, que dessa vez não tinha ninguém para atrapalhar, atingiu sua armadura no peitoral. Garen apenas cambaleou para o lado e logo voltou a avançar, como se minha investida não fosse nada. Rapidamente, fiz meu terceiro disparo, mas Garen em seu rápido reflexo defendeu, pondo a espada na frente como um escudo.

— Aproxime-se... você encontrará honra na morte — ele me ameaçou num grito.

Não nego que sorri, era inacreditável existir alguém como ele. Pela primeira vez que alguém sobrevivia por tanto tempo, mas logo iria acabar. Não podia ficar em Demacia por mais tempo, esse seria meu adeus para essa nação. Senti o vento tocar minha pele, aproveitei para respirar. Garen estava na mira, a multidão corria na direção oposta. O vento cessara e minha respiração parou junto. Estava tudo em silêncio, minha concentração era impecável. Era agora!

— Ouça minha aclamação final! — o quarto disparo mágico, e mais potente, voou num estrondo poderoso.

Não houve tempo de reação, Garen apenas arregalou os olhos surpreso e recebeu o disparo em cheio. Uma enorme cortina de fumaça surgiu chamando a atenção de todos que fugiam. Quem estava mais próximo dele, não conseguiram sobreviver à explosão que se propagou ao redor. Contei pelo menos quatro corpos extras... perfeito!

Finalmente consegui! Queria poder ter lhe proporcionado uma performance mais bela, mas não posso vacilar. Alguém que sobreviveu, tanto, aos meus disparos não deve ser subestimado. Dou um sorriso satisfeito, agora me deixe observar minha arte finalizada... Mas o que está acontecendo aqui?

Enquanto puder me levantar... eu lutarei — sua voz era fraca.

Eu via uma silhueta máscula surgindo da nuvem de fumaça. Imediatamente, pus meu olho na mira de sussurro. O corpo ofegava forte, mas ainda era viril, cheio de energia. Alguns filetes de sangue desciam sobre o olho de Garen. Era um monstro! Com muita dificuldade deu um passo para frente, em seguida outro. Pouco a pouco, seguia mais um passo.

Avançar! — ele rugiu.

Como se a natureza estivesse ao seu lado, vento veio com violência, levando toda a fumaça para longe. Agora o campo de visão estava aberto, Garen começava a correr em minha direção. Dessa vez não havia tempo de desmontar o mega-canhão por completo. Apenas retirei sussurro e virei para correr novamente.

Eu não vi você aí — me surpreendi com sua voz atrás de mim. — Atacar!

Ele era muito mais rápido do que eu imaginei. Um golpe de espada passou centímetros do meu peito, pude sentir o vento de sua lâmina me tocar. Recuei dois passos, no mesmo instante que ele dava um novo ataque pela lateral, esquivei por sorte. Os blocos de pedra, da construção inacabada, dificultavam suas investidas. Sua espada ganhou uma leve aura amarela, e começando a dar giros consecutivos, ele foi destruindo tudo ao redor. Consegui sair do local a tempo, e aproveitei para carregar minha sussurro. Aquele monstro saia dos escombros de pedra e me encarava determinado a me executar.

— Você não vencerá, vilão — ele disse.

Minha arte não pode ser impedida — respondi lhe mostrando o cano de sussurro.

— Você é um noxiano?

— Por favor — recebi essa pergunta como ofensa. — Noxianos tratam o ato de matar como esporte... É uma arte.

— Você é louco.

— Ora, você não é o primeiro que fala isso. Me chamam de louco, mas todos os artistas são loucos. E você não é diferente, quantos disparos terão que ser feitos para você cair?

Eu posso fazer isso por horas, sério.

— Impossível.

Eu “Garento”.

— Piada, sério? Que singular.

— Você matou civis inocentes... Matou Sona! Pelo que?

Nunca feri ninguém, minha performance que é de matar. E vamos dizer que, sirvo uma clientela distinta.

Patifes pagarão — ele disse me atacando com sua espada, mas eu havia previsto tal investida, eu o estava provocando, claro que iria me atacar. Me esquivei recuando alguns passos.

— Me diga, não tem medo de morrer?

Medo é o primeiro de muitos inimigos — respondeu com uma força anormal. — Eu não posso morrer, pois também luto por aqueles que não podem.

— Que heroico — falei ironicamente. — E quem seriam esses que não podem? Até onde sei, vocês são obrigados a servirem na guerrinha de demacianos e noxianos.

O que fazemos é certo ­— ele disse apertando o cabo de sua espada com mais firmeza — Nossos feitos mudam o futuro, diferente de você, um falso assassino que usa máscara para matar inocentes.

Qual é a farsa, a máscara ou meu rosto?

— O que?

Todos vestimos máscaras, apenas escolhi criar a minha própria.

— Está tirando sarro de mim, verme desprezível?

— Olhe bem, a minha é bem confeccionada. Diferente da sua que é tão... como posso dizer... normal?

— Do que está falando?

— O campeão de Demacia tem um relacionamento com uma assassina de Noxus — tentei usar seus sentimentos contra ele. — Isso é no mínimo curioso... Um amor proibido, que romântico.

Flagelo Vil — ele disse num tom irritado. — Meu coração e espada sempre por Demacia!

Garen avançou, mais firme que antes. Conseguindo efetuar um corte, de raspão, em meu peito, destruindo minha roupa. Não podia deixar barato, disparei um tiro que, finalmente, lhe atingiu o ombro. Ele gemeu de dor, mas rapidamente contra-atacou, contudo eu já tinha me distanciado o suficiente, fazendo seu golpe passar no vazio.

— Chega dessa conversa comigo, isso é tão entediante — voltei para as provocações, estava funcionando. — O que o conselho de Demacia vai fazer quando souber de sua traição?

— Ela não tem nada haver com isso! Você não entende, estou carregando o mundo nos ombros.

É prazeroso matar um homem, principalmente tirar tudo que tinha, e poderia ter... Como é mesmo o nome dela? Katarina...

— Maldito! — Invocando uma fúria, Garen avançou contra mim de forma selvagem.

Vendo que sua frente estava aberta, dei um segundo disparo atingindo seu peito esquerdo, entretanto ele ignorou a dor e avançou com tudo. Garen deu um salto e gritou, com a ponta da espada contra mim. Agilmente consegui esquivar para trás, a espada parou centímetros, fincando no chão como uma parede que nos separava. Dei um terceiro disparo, mas com a espada na frente, o projétil passou de raspão em sua face, liberando apenas um filete de sangue de sua bochecha direita.

Sua cena final começa agora — falei, pronto para o quarto disparo.

Porém fui surpreendido, novamente, pela aura amarela que emanava dele. Dessa vez, a cor era mais pura e brilhante. Por causa da espada na frente, eu não podia ver seu rosto. Garen cerrava os dentes, como se estivesse pondo todas suas forças num último movimento. Um grito repentino me fez ficar em alerta, mas era tarde demais...

Acima da minha cabeça, havia uma espada colossal flutuando. Ela tinha a mesma cor que a aura de Garen, era linda, faltando apenas um par de asas para se chamada de celestial. Então percebi que vinha dele, antes que eu pudesse disparar para impedi-lo, ele sorriu:

Eu não hesitarei — sua voz tinha um tom firme e confiante, como se quisesse a dar a própria vida para ceifar a minha. Não! Ele não queria... Ele iria dar sua vida para me impedir. O urro de Garen foi tão alto, e poderoso, que meu corpo sentiu as ondas como socos no estômago. Pude ver em seus olhos, seria nosso ato final. — Eu trago a justiça!

A espada caía em nossa direção, iria atingir ambos, praticamente um ataque suicida. Até que ponto ele iria para me parar? Até onde ele iria pela sua nação? Eu não resisti, rugi junto dele, fazendo com que nossas vozes misturassem em único som. Em seguida, apenas silêncio.

Abro meus olhos com dificuldade. Eu estava numa cratera com alguns, poucos, raios de sol iluminando o buraco. Minha visão era turva e confusa, olhei para o céu de relance. Talvez tenha sido minha impressão, mas eu vi duas silhuetas me observando. Uma era alva como a neve e a outra tão negra quanto à escuridão. Pisquei meus olhos para enxergar melhor, mas as assombrações haviam sumido. Será que eram eles? Me pergunto.

Tento me levantar, mas num movimento em falso, volto a cair, só então percebo que meu braço esquerdo estava decepado, na região um pouco acima do cotovelo, com dificuldade ponho meu manto para diminuir o fluxo sanguíneo, que já havia diminuído bastante. Meu corpo estava dolorido, e era obvio que senti as dores do braço, mas o corpo pesava tanto que a dor não vinha na força total. Além de que, eu não conseguia pensar em muita coisa. Foi tudo rápido demais, pelo menos acabou. Essa apresentação chegara ao fim...

A vitória nos aguarda.

Espantado, ouvi a voz vinda dos escombros. Algumas pedras começavam a se mover, um corpo másculo emergia sob elas. Garen estava ofegante e, assim como eu, praticamente morto. Porém ele não recebeu tantos danos quanto eu, foi o que pensei. Mas Garen tinha dificuldades para se aproximar, ele vinha em passos, muito, lentos. E como sempre, em sua mão estava sua poderosa espada com a lâmina brilhante, mesmo na escuridão.

Parando poucos centímetros de mim, ele não conseguia erguer a espada por causa do peso que ela tinha. Mas isso não o parou. Garen abaixou-se, sentando no meu estômago. Admito que era desconfortável, ele é muito pesado, ênfase no pesado.

— Você não desiste? — perguntei espantando com tamanha determinação em querer me matar.

Perca a esperança e o mal terá vencido — foi sua única resposta. Ele também estava nas “últimas”.

— Vencer? — repeti dando um, dificultoso, sorriso. — Não se preocupe, seu final será um dueto.

— O que disse?

— Depois que eu terminar aqui, irei atrás de sua namoradinha... não se preocupe. Eu entendo a dor de um amor proibido.

— Demônio miserável! — ele rugiu. — Não ouse encostar um dedo nela!

Pessoas assustam-se melhor quando estão morrendo.

Justiça! — vociferando, juntou suas forças erguendo a espada. Estufou o peito para o golpe final. — Pela causa!

Assim como ele, juntei as forças que eu tinha restante para esticar meu braço direito e sentir o encaixe perfeito de sussurro em minha mão. No momento exato que ele ergueu os braços para ganhar força e estufou o peito, ergui minha arma para seu peito. Dessa vez seria um tiro a queima-roupa. Garen me olhou espantando, agora... era ele quem não tinha o que fazer.

Tocarei seu coração — disse minhas ultimas palavras para ele.

O quarto disparo explodiu em seu peito numa cor esverdeada, e como vidro, Garen foi se quebrando em fragmentos. A cor era linda dentro daquela cratera escura. Pequenos fragmentos verdes iluminando a escuridão... Fabuloso. O impacto fez seu corpo ser lançado alguns metros de distância. Pude respirar novamente, seu peso sobre mim, estava me asfixiando.

A glória de Demacia... nunca... se apagará — ouvi sua voz fraca, mas nenhum movimento. Depois disso, apenas um silêncio súbito.

Agora acabou, certo? Sim, finalmente o espetáculo acabou.

Num último recurso de força, me levantei com o peso do mundo nas costas. Estou bem ofegante, não sei se conseguirei dessa vez. Olhei para trás, onde o corpo de Garen jazia inerte, o verde vibrante ainda brilhava forte. Minha obra estar feita, isso era tudo que um artista poderia querer.

Minhas pernas não param de tremer, não tenho forças para continuar. Ponho minha mão no bolso, perto do meu coldre onde estava sussurro. Lá estava ela, minha máscara. Retirei essa “farsa” de pano vermelho e óculos, e pus meu real rosto, minha máscara de couro que suprimia minha respiração de maneira... Magnifica.

Finalmente me rendo para a fraqueza e caio ao chão, de costas para cima. Pelo menos morrerei completo, um verdadeiro artista morre com seu melhor figurino. Eu segurei sussurro firmemente, não iria soltá-la de forma alguma. E como quem recebe um livro novo; aspirei sobre minha máscara de forma a me tranquilizar. Sim, o espetáculo acabou, as cortinas se fecham, ninguém para aplaudir, droga! Eu deveria ter buscado uma plateia maior. Talvez fique para a próxima.

Meus olhos pesavam, me sentia fraco. Os batimentos mais lentos e um cansaço anormal surgiram, me fazendo ter uma enorme vontade de dormir. Estava tão cansado, acho que tenho direito de uma pausa até o próximo espetáculo. Sim, é isso. Não irei morrer, apenas descansar um pouco...

— Aqui não ­— ouvi uma voz estranha —, ainda não.

Enquanto meus olhos fechavam, avistei uma pelagem alva e olhos brilhantes me fitando, algo parecendo uma fumaça negra estava me rodeando. Talvez fosse impressão minha, ouvi uma risada cruel junto de uma voz suave.

Não aguentei mais, a visão escureceu, em seguida silêncio absoluto. Eu não sentia mais nada.

Notas finais
Aqui encerro este conto. Vejo em você uma beleza artística única. Devo lhe proporcionar uma ópera de morte ou preferirá uma peça melodramática? “— Meu talento justifica qualquer ação”.