Eu, Virtuoso
1 Primeiro disparo - Luz e trevas
Notas iniciais
Sua psicopatia e visões únicas sobre morte me trouxeram fascínio e curiosidade.
Essa é uma homenagem que faço para esse campeão.
Espero que goste.
"Aos seus lugares... Vamos começar o espetáculo".
Olá, creio que essa é a primeira vez que nos encontramos.
Prazer, meu nome é Khada Jhin. Talvez confunda meu nome com de outro alguém (o que seria um grave erro). Você deve ser meu novo ajudante de palco, então já vou avisando que ficará apenas observando meu trabalho. Não quero que me atrapalhe. Olha não leve para o pessoal, mas a arte requer perfeição.
Primeiramente você deve saber que não sou uma pessoa qualquer, sou um artista. E também saiba que meus serviços não são, vamos dizer, muito admirável pelo público. Mas só até compreenderem a verdadeira essência da beleza.
Enfim, não vamos demorar aqui, tenho uma apresentação para preparar. Estou ansioso por isso. Você também? Maravilhoso. Então, o que está fazendo ai parado? Vamos logo! O público não pode esperar.
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Estamos na nação ioniana, mais precisamente na cidade de Zhyun.
Como é bom voltar às origens. Sabe, foi nessa cidade que ganhei fama e fiz meu nome, é até engraçado falar disso. Ainda posso me lembrar de todos correndo depois de minhas óperas de morte. Infelizmente foi aqui onde, também, fui preso.
Já se passaram alguns anos desde a guerra, mas vejo que os efeitos ainda assolam a cidade. Tamanho desastre fez com que a população esquecesse sobre mim. Isso é ultrajante! Esquecerem-se de minha arte? Impossível. O que tem de errado com essas pessoas? Minha arte não pode ser esquecida.
Enfim, logo irão se lembrar. Devo me focar na peça. E antes de procurar meu alvo, preciso saber o que mudou por aqui. Procurar buscar informações, conhecimento é tudo, crianças. E não há local melhor do que uma taberna para viajantes.
“La fuente de las piedras”, um local rochoso, feita de pedras das próprias montanhas de Ionia. Havia duas lanternas apagadas na entrada, ainda era de dia. Existia apenas uma janela que dava visão para o interior do estabelecimento. E como sempre está lotado, tenho até uma pequena dificuldade para encontrar um lugar vazio. As pessoas esbarram em mim e me ignoram como se eu fosse qualquer um. Isso é decepcionante.
O balcão dava de frente pra porta, observando quem entrava e saía. Aparentemente as cadeiras eram organizadas, mas os beberrões retiravam-nas do lugar, o que dificultava o caminho das garçonetes. Huummm... a mesa é de madeira pura. As árvores de Ionia são boas por serem mais resistentes que nas demais regiões, e obviamente eles só usavam as árvores que caíam pela força do tempo. Ionianos são conhecidos por sua personalidade espiritual e pacífica, não fariam mal nem para uma mosca... Ah sim, nem todos os ionianos são assim. Eu sou exceção, é claro.
— Posso anotar seu pedido — perguntou a garçonete.
Fico em silêncio, observando-a. Seus cabelos loiros liso caindo nos ombros, ponta ou outra cobrindo seus olhos verdes claros bem nítidos em sua pele clara. O corpo magro, liso, totalmente simétrico. Seus seios não são grandes, estavam bem guardados em seu vestido longo com algumas manchas de bebida no tecido branco. Sua presença quase como uma obra de arte.
— Senhor? — ela me chamou a atenção com seu sorriso tímido.
— Me desculpe. O que foi?
— Vai pedir algo agora? — sua voz era doce e inocente.
— Dei-me a melhor garrafa que vocês têm.
— Está comemorando algo, senhor?
— Vamos dizer que sim.
— Que bom — ela deu as costas e foi avisar sobre meu pedido. Mas antes de partir, voltou-se para mim repentinamente. — O senhor vai beber aqui ou vai levar?
— Apenas traga, e então decidirei o destino — respondi de um jeito que a fiz abrir um sorriso, então ela voltou para o balcão.
No canto do bar, havia um grupo animado. Cinco homens aventureiros e empolgados, falavam em voz alta para que todos ouvissem o quanto bravos eram. Ao redor deles, aventureiros novatos, animados com tamanhas histórias e lendas; o brilho nos olhos como se estivessem vendo heróis... Era cômico. A conversa me interessou quando citaram alguém que eu procurava:
— Dizem que a caixa permanece intacta até hoje — terminou o homem sobre seu conto.
— Você é louco — comentou o segundo. — Eu soube que nesse templo há uma Ordem das Sombras. Assassinos brutais que seguem o caminho da escuridão...
— Liderados por Zed — complementou um terceiro. — Dizem que ele matou o antigo mestre para ter poder.
— Até eu não sou louco de ir até lá — falou o primeiro dando outro gole em sua bebida.
— Cavaleiros — me aproximei curioso —, esse tal mestre que foi assassinado, por acaso seria Kusho, da Ordem Kinkou?
— Correto — respondeu o segundo homem me encarando suspeito. — Kusho foi morto por um dos seus alunos; agora seu filho Shen e o assassino Zed são rivais mortais.
— Interessante — murmurei. — E aonde encontro esse tal Zed?
— Você é louco? — Disse o terceiro. — Para que procurar aquele homem? É suicídio. Todos que o perseguem, morrem.
—Só preciso saber como encontra-lo.
— Bem, fica no mesmo local do antigo templo da Ordem de Kinkou, agora chamada de Ordem das Sombras, não muito longe daqui, fica numa ilha a noroeste.
— Obrigado — me distanciei do grupo indo para a saída quando fui chamado atenção.
— Senhor, sua bebida! — a jovem angelical se aproximou de mim.
— Ah, claro — recebi a garrafa sem tirar meus olhos dos dela. — Me diga, onde posso comprar lâmpadas fortes? É para minha apresentação.
— Lâmpadas? — ela repetiu pensativa. — Há uma loja, aqui próximo. Com certeza lhe indico.
— Isso irá me ajudar bastante. Sabe dizer onde posso encontrar ajudantes de palco? Sabe, não conheço muito bem a região e nem as pessoas daqui.
— Claro! — respondeu animada. — Tenho três amigos que poderiam ajudar.
— Nem sei como agradecê-la — aproximei meu olhar, fitando-a intensamente.
— Bem, eu poderia ajudar também — respondeu um pouco sem jeito, tentava desviar o olhar, aparentemente parecer estar envergonhada. — Isso se não for problema.
— Seria maravilhoso — agradeci jovialmente. — Aqui, vou lhe mostrar o material que necessito e o que precisam fazer.
Do meu bolso, retirei um pedaço de papel e escrevi o que seria necessário para minha apresentação. Normalmente eu faria isso, mas fica mais fácil se fizerem o serviço por você. Além de que tenho outros assuntos para resolver.
A garota recebeu minhas instruções atentas, sem piscar os olhos. Eu não conseguia resistir, ela é linda, tão simétrica... Ah tão perfeita. Não consigo parar de pensar nela como uma derradeira obra de arte viva.
— Tudo bem, pode contar comigo. — sua voz era determinada e confiante. — Estou tão animada! Por sinal qual será a apresentação?
— Ainda estou pensado numa apresentação digna. Mas confie em mim, prometo que será de tirar suspiros.
— Isso parece emocionante — ela deu um sorriso gentil. — Ah, meu nome é Amanda. E o seu?
— Jhin — respondi rapidamente. — Apenas me chame de Jhin. Agora preciso me despedir, estarei esperando para quando terminarem.
— Sim, pode confiar em mim e meus amigos — Amanda deu outro, doce, sorriso. — Também tenho que ir, se não o chefinho vai me dar bronca. Até mais, Jhin.
Apenas a observei dando as costas em direção ao balcão. Voltei-me minha atenção aos aventureiros que permaneciam contando suas aventuras e lendas, energéticas.
— Senhores — lhes chamei atenção. — Obrigado pela informação anterior, aqui como forma de agradecimento — entreguei a garrafa que havia pedido mais cedo. Em seguida saí do bar num clima de missão cumprida.
Agora que não tinha ninguém me vendo, pude sentir a irritação que há muito não sentia. Enquanto dentro do bar, tentei manter a compostura, mas descobrir sobre a morte de Kusho foi realmente frustrante. Foi por causa dele que fui preso, sendo impedido de continuar minhas apresentações, e agora não terei minha vingança.
Ah, mas isso não ficará assim. Irei ter minha vingança, e se não será contra quem me pôs na prisão então será contra quem o ajudou e o matou. Sim, o próximo protagonista da minha peça já está decidido... Irei atrás de Zed.
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Quando cheguei a meu quarto, fui surpreendido com uma pequena carta sobre minha mesa de madeira. Estava escrito um “K.J”, de Khada Jhin, no verso. Na fronte da carta tinha um selo do governo de Ionia, pelo jeito decidiram meu próximo alvo. Acho que terei minha vingança adiada, penso. Abri a carta e comecei sua leitura:
“Como você sabe a guerra nos deixou consequências e preocupações em demasia, não temos como administrar as perdas com questões de desordem em nossa terra. As forças militares estão muito ocupadas protegendo nossas fronteiras de ameaças externas. Tendo dito isso, sua missão é assassinar o líder da Ordem das sombras, Zed. E trazer um pouco de alívio para a nação ioniana”.
Isso é maravilhoso! Nem sei como disfarçar minha felicidade, estou tão animado. O protagonista da minha apresentação é uma ameaça para o governo, coincidindo meus desejos. Eu não poderia ter tirado sorte melhor.
Preciso de ar fresco, vou aproveitar a noite para andar pela região. Acho que vou visitar esse tal templo. Preciso conhecer a casa do meu ator, seria muito egoísmo pedir para entrar? Acho que sim. Mas não custa nada passar por perto.
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Não quis arriscar, preferi observar de longe, E era aterrorizante a aura escura que vinha do templo. Eu não conseguia, nem ao menos, imaginar a luz de esperança brilhar naquele lugar. Deprimente, o que fizeram com esse lugar? Se Kusho ainda estivesse vivo estaria decepcionado.
Zed, o mestre das sombras. Que patético... O que há de bom em viver somente nas sombras? Típico de ninjas, essas coisas de escuridão. Qual a graça em matar alguém sem apreciar o momento? A morte jamais deveria ser rápida, ela deveria ser uma ópera.
Matar é uma arte que deve ser apreciada, como um bom vinho deve-se degustar lentamente antes do gole final. As expressões que os atores demostram, medo e desespero, tristeza e sofrimento... Eu não estou errado. A arte requer certa... crueldade.
Já chega, devo ir embora. Não quero que me percebam e venham atrás de mim. Não enquanto o palco estar sendo preparado. Só então poderei me revelar e, finalmente, poderei trazer a real beleza para esse mundo.
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Quatro dias depois, volto ao bar da cidade em pedido de Amanda.
O local permanece lotado, o som das conversas e cantorias eram alto. Como conseguem tanta energia? Será que esse povo nunca se cala? Deveria ter escolhido outro local para encontro. Tudo bem, espero que ela não demore... E falando no demônio.
Amanda vinha em minha direção com sua aura angelical. Seu cabelo loiro liso estava amarrado num rabo de cavalo, deixando cair apenas duas mechas para frente. Seu vestido agora era uma mistura de azul com verde, semelhantes às essências da floresta e dos mares, típico de ionianos essa coisa de espiritualidade.
Ela permanecia sorridente, e quando me avistou sentado no canto alegrou-se mais ainda. Acenei com mão em resposta ao seu sorriso. Amanda veio até mim:
— Fiz tudo que pediu — ela disse. — Meus amigos também ajudaram bastante. Graças a eles que terminamos logo, por falar nisso, desculpe a demora. Desde que a guerra acabou e as ruas ficaram perigosas que as coisas ficaram meio... agitadas, sabe?
— Tudo bem, obrigado — não tem como eu me irritar com alguém como ela. — Irei lhes proporcionar um teatro de matar.
— Que empolgante. E quando será a apresentação? — Amanda estava animada, os olhos brilhantes.
— Logo — respondi pondo seu cabelo loiro atrás da orelha. — Adeus.
Me despedi saindo do bar deixando-a sozinha, ali parada, sem entender nada. O palco estar pronto. Agora só falta o ator principal... Hei de enviar o convite.
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No antigo templo de Kinkou, agora conhecido como o Templo da Ordem das Sombras, Zed treinava suas artes marciais escuras contra sua própria sombra. Os mesmos movimentos que fazia, sua sombra copiava.
O combate encerrou quando, ambos próximos o suficiente do alcance de seus golpes, fizeram um giro com a lâmina, embutida na parte superior do braço. A lâmina atingiu os dois dissipando a sombra.
Zed apenas observou a fumaça da sombra desaparecer, então se pondo novamente em posição de combate, evocou uma nova sombra para continuar o duelo.
Seu treinamento foi interrompido por um dos seus discípulos das sombras, abrindo a porta da sala onde seu mestre estava. O ninja ajoelhou-se esperando pela permissão de falar:
— Fale — permitiu Zed.
— Senhor, precisa ver isso — sua voz era serena, calma, mas num tom agitado.
Ao lado de fora do templo, outros ninjas se amontoavam frente numa arvore antiga, onde as folhas verdes resistiam à escuridão. Zed passou pelos seus discípulos, quase os ignorando. Aproximando-se do local, observou o motivo de tal alvoroço.
Um de seus discípulos estava, completamente, despido e preso sobre os galhos da arvore, como uma crucificação: os braços abertos, os pés juntos e a cabeça pendendo para frente. Na sua boca um pequeno papel, que ninguém pegou, esperaram para o mestre recolher. Ao retirar o papel e ler o que estava escrito, Zed logo associou o assassinato ao seu passado:
— Ninguém escapa a própria sombra — sussurrou observando o desenho de lótus no papel em sua mão. Voltando a analisar o corpo de seu discípulo, fitou o mesmo desenho, do lótus, pintado no peitoral do morto. — Ele voltou.
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Frente ao espelho, olhei uma última vez para meu rosto humano, olhos castanhos misteriosos e cabelos negros caindo para trás. Vesti uma touca ninja, a única coisa que eu gostava deles, que ia até o pescoço, guardando meu cabelo. Abri a maleta prateada onde eu tinha meus dois bens mais preciosos. Uma é minha arma, sussurro, foi me dada especialmente para a execução de minhas obras, a outra era minha máscara de couro feita à mão, bem confeccionada. Como de costume, limpei sussurro quatro vezes, era a única maneira de saber que estava limpa antes de guarda-la no coldre. Por fim, pus minha máscara onde eu escondia minha face humana e agora me tornava um derradeiro artista, pronto para me apresentar.
Respirei fundo, agora me encarando no espelho com a verdadeira aparência de Khada Jhin. O público não pode esperar, disse para mim mesmo abrindo a porta e sentindo a brisa que a noite trazia.
O trabalho feito por Amanda e seus amigos foram excepcionais. As lanternas foram postas exatamente onde eu havia indicado pontos estratégicos para meu desafio de hoje à noite, tudo que eu precisava fazer era apertar um botão e todas se iluminariam em potência máxima. As armadilhas também estavam posicionadas e o palco esperava, assim como eu, ansioso pelo ator que iria proporcionar uma a ópera de morte.
O céu noturno não me agraciava com a presença da lua, tudo bem assim não ofusca meu brilho. Já as estrelas eram diferentes, era como se todos se reunissem para apreciar minha volta para os palcos. Eu ouvi um conto que essas estrelas haviam sido criadas por um dragão estrelar, já imaginou? Um dragão criando estrelas, que cômico. As pessoas não tem mais imaginação para boas histórias, nem para assustar crianças serve. É hilário, me faz querer rir.
Senti uma brisa forte, quase me congelando. As ruas estavam desertas, já era tarde da noite. Por causa da guerra, havia mais soldados que o normal, mas boa parte deles se concentrava nas fronteiras, não se importavam em ficar rondando ruas.
Hoje faz, exatamente, quatro dias desde que enviei o convite para meu ator. Seria ultrajante se ele faltasse à apresentação. É uma falta de educação recusar um convite tão lindo que fiz, talvez eu devesse ter feito isso na frente deles... Não, não, muito arriscado.
Acho melhor eu voltar para meu quarto, penso em algo quando chegar. Talvez eu deva usar mais cores, isso! Usar mais tons de vermelho. Não. Acho que não será preciso. Uma das lanternas se quebra ao vento, deixando um pequeno pedaço da rua na escuridão.
— E agora as cortinas se abrem — murmuro, já me preparando mentalmente.
Começo a andar. Não consigo ser rápido por causa das minhas armas e o peso que proporcionam. Tenho que ir com passos lentos e atentos, aliás, é de um ninja que estamos falando. Não quero ser pego de surpresa... Opa!
Uma shuriken passou centímetros de distância do meu pescoço. Isso foi perigoso. Olho para o lado que veio a arma, uma ruela escura, claro. Dou um suspiro penoso:
— Devia me encarar pessoalmente, Zed — digo enquanto continuo caminhando. — Só um amador para errar uma shuriken dessas.
— A mais insignificante das minhas sombras é suficiente para lhe derrotar — a voz vinha da escuridão.
Discretamente dou um passo mais longo, no trecho do caminho. Uma nova brisa fria arrepiou minhas costas, não tinha dúvidas, tinha alguém atrás de mim. Um ninja apontava sua lâmina para mim, quando se aproximou mais um passo, no mesmo local que dei um passo mais longo, pode-se ouvir um pequeno timbre.
— Você não devia ter pisado aí — eu disse me afastando mais alguns passos, logo depois me virando e encarando-o. — Audiência cativa.
Uma de minhas armadilhas foi acionada com sucesso. O lótus invisível florescia lindamente, instante depois uma explosão de pétalas serrilhadas mata o ninja que não teve chance de reagir.
— Ver Zed? — eu voltei a andar atento para as sombras. — Com minha técnica matar transforma-se em arte — não obtive nenhuma resposta. Certamente, ele estar me observando. Preciso o fazer falar, assim posso, talvez, localiza-lo pelo som. — Você ajudou a me prender... Tentou impedir meu trabalho! — permaneceu em silêncio. Eu já estava ficando impaciente. — Soube que você usurpou o templo Kinkou, como foi à sensação de ter poder?
— Equilíbrio é a maestria dos tolos... Equilíbrio é fraqueza — Finalmente respondeu. Pela voz, não estava muito longe, preciso tomar cuidado.
— Você errou ao matar seu mestre, eu precisava dele apara essa apresentação! — falei num tom irritado, renovando a raiva de não poder me vingar. — O que fez aos outros alunos? Tenho certeza que os matou.
— Eles seguiam o mestre errado — disse Zed. — Não perceberam que a verdade estar nas trevas.
— Lembro-me do seu mestre, ele é digno de ser lembrado — tentei provoca-lo para uma das minhas armadilhas escondidas, próxima de mim.
— As sombras me iluminaram — sua voz se distanciava.
— Só um tolo ver beleza na escuridão — tive que ficar atento, algo estava por vim. Eu podia sentir.
Usando minha visão periférica, avistei um vulto negro, parado, me observando. No instante que o percebo, uma lâmina voa em minha direção. Não hesitei, empunhei minha sussurro, nome da minha arma mágica, muito semelhante as usadas com pólvora, exceto que sussurro é carregada por munições de magia.
Meu primeiro disparo atingiu a lâmina, destruindo-a. A sombra de Zed, que antes estava inerte, arremessou duas shurikens negras. Agilmente desferi um disparo, interceptando apenas uma. Por sorte, consegui esquivar da outra que passou centímetro de distância.
Sem perder a sombra de vista, desferi um terceiro disparo destruindo-a. A fumaça negra dissolvia devagar. Instintivamente vire-me, já posicionando sussurro, para trás, bem a tempo de avistar Zed nas minhas costas, pronto para desferir outra shuriken mortal.
O que ele não esperava era que meu quarto disparo seria... Estrondoso. Percebendo o perigo, Zed mudou de lugar com uma nova sombra fazendo-a ser destruída assim como parte do chão, onde se abriu uma pequena cratera.
— Droga — sussurrei, enquanto carregava minha arma o mais rápido possível.
Zed voltava para a escuridão, silencioso, para me observar. Eu tinha que me apressar, chegar ao ponto estratégico logo. Talvez a próxima investida seja mais perigosa. Algo me diz que isso só foi para me testar. A próxima seria mais mortal:
— Me diga, Zed, o que te fez enlouquecer desse jeito? — eu usava a estratégia da conversa para descobrir sua localização. —Não vai me dizer que era o ciúme pelo favoritismo do mestre. Eu soube que você trapaceou para ganhar.
— Nenhuma técnica é proibida — respondeu rudemente.
— Oh, claro. Mas Kusho não ensinaria artes tão perversas como essas.
— As trevas vêm de dentro.
— De novo com esse papo de escuridão — dei um suspiro, mexendo a cabeça negativamente. — A obra é o que importa. Pessoas como você não entendem a beleza de matar, que desperdício. Você ajudou a me prender... Tentou impedir meu trabalho! Não percebe o quanto eu quero te matar e te performar, Zed. Só então, entenderá o que é beleza.
— Não me importo com beleza, demônio dourado. Só quero te matar.
— Viu, é isso que não aprovo. Aprecie a arte de matar, aprecie o momento.
Ouvi uma explosão, uma de minhas armadilhas, provavelmente Zed acionou uma delas. Será que funcionou? Me pergunto. O silêncio veio como um peso, deixando-me ansioso. O que acontecerá agora? Qual direção virá? Consegui minha vingança? Eu não parava de me perguntar. Olhando para frente, avistei o local que queria estar. A Praça de Placidium.
Provavelmente deve haver alguns guardas de patrulha, mas não serão incômodos. Os eliminarei rapidamente. Preciso ficar atento em Zed, qualquer lugar será propicio para um ataque. Vamos, Zed. Apareça.
Quando cheguei à praça, me surpreendi por não haver ninguém. Completamente vazia quanto os desertos de Shurima. O que houve com os guardas? Será que... Preciso me apressar. Não estou muito longe.
— Desafie as trevas... Encontre a verdade.
Não pude reagir à sombra de Zed que surgiu, atrás de mim, repentinamente. Um giro com as espadas, cortaram minhas costas vorazmente. Graças a minha roupa, e os equipamentos metálicos das armas, não foi tão grave. Contudo, minha mobilidade ficou mais precária ainda. A sombra desapareceu. E agora eu estava ferido. Nada bom, pensei.
— Sem nenhum ruído — ele disse, num tom provocante.
Ainda bem que tenho minha máscara, não queria lhe mostrar minha expressão de dor. Havia um lindo monumento branco de pedra, a cor alva significando paz, que foi colocada logo após o fim da guerra. Mas todos sabiam que era uma falsa paz, isso não importa. Agora, o monumento estava sujo com meu sangue, precisei dele para apoiar minhas costas.
Respirei fundo, estou aonde queria estar. Estava tudo como planejado, só mais um pouco e então... Eu poderei salvá-lo. Sim, já estava decidido em salvá-lo no momento que carreguei sussurro. Não vou falhar:
— Tenho planejado sua apresentação final já algum tempo, Zed — eu ofegava, teria que acabar com isso logo. — Você quis me matar, não é? Você vai aprender. A arte não pode se morta. Kusho foi alguém com honra e dignidade, não sei por que ele resgatou alguém como você, ele deve estar decepcionado.
— Cale-se — minhas palavras, aparentemente, faziam efeito.
— Não é atoa que Shen sempre foi e será o preferido. Não importa o quanto treinasse, nunca iria superá-lo. Você pertence às sombras, nenhum publico pode te amar.
— Não necessito disso — Finalmente ele surgia pessoalmente na minha frente.
— Vejo que usa uma máscara. Isso é moda agora? — dei um sorriso forçado, ainda sentindo minhas costas. — Por trás de toda máscara, há outra máscara, o que esconde Zed?
Ele nada respondeu, apenas girou suas lâminas para me intimidar. Ficou me analisando, sabia que eu não conseguiria fugir, nem reagir. Estava completamente encurralado. Será que ele estava seguindo meus conceitos? Talvez ele estivesse apreciando o vinho antes do gole final. Não posso negar, senti um arrepio... não quero morrer e deixar minhas obras inacabadas.
— Não tema o caminho obscuro — ele disse.
— Você mudou muito desde nosso último encontro — falei, tentando não mostrar insegurança.
— Naquele dia, quando não pude te matar, sabia que tinha que fazer isso...
— Mas Kusho lhe parou... Ele o censurou assim como fez comigo.
— Ele se dizia um ninja, mas não tinha a determinação das trevas.
— O mundo já é cruel, ele não precisa ser frio — respondi pondo minha mão no coldre. — Acho que já é hora de encerrar essa peça.
— O que eu fiz não pode ser desfeito — Zed mostrou as lâminas afiadas, ele também sentia que a apresentação já durara demais. — Eu sou a lâminas na escuridão.
Isso mesmo, falei mentalmente. Venha... Tente tirar o meu foco do palco, irei te fazer se arrepender pela última vez. Ele não pode ver minha outra mão posicionada para o momento certo.
— Zed! A vida não tem sentido, mas a sua morte terá — deixei meu corpo ereto, suportando a dor. Era hora de eu mostrar como se faz uma derradeira ópera de morte.
—Aceite a escuridão... — Zed ficou em posição de combate, o pé firme, ao chão, o esquerdo na frente e o direito para dar impulso. As mãos posicionando as lâminas na minha direção. Silêncio... De repente ele se joga para frente, duas outras sombras surgiram, pelas laterais, avançando contra mim. Eu estava totalmente cercado, —... Ou morra nas trevas.
Ele não podia ver, mas eu estava sorrindo. Apertei o botão que tanto ansiava em fazer. Simultaneamente todas as lâmpadas acenderam com energia máxima. As mesmas lanternas que eu havia pedido para Amanda e seus amigos posicionarem na cidade. Tudo para esse momento.
As luzes acenderam! As trevas transcendiam para a luz! As sombras de Zed desapareceram, e a iluminação repentina o cegou por segundos, o que foi suficiente para eu agir. Eu sabia que ele estava na minha frente, apenas precisei posicionar sussurro e dar o primeiro disparo.
A munição mágica percorreu o trajeto do cano da arma, cortando o vento, até atingir o peito esquerdo de Zed. Dei um segundo disparo que atingiu sua coxa esquerda, impedindo-o de fugir. O momento antes do disparo é doloroso, eu disse para mim. O êxtase de sentir os projéteis performarem minha obra... Finalmente aquela pintura escura ganha cor... e era um vermelho lindo.
— Sua vida não tinha valor antes de mim. — elevei minha voz — Você achou que podia impedir minha apresentação? Cada bala é uma obra da minha alma, cada disparo um pedaço meu!
O terceiro disparo atingiu seu joelho direito, forçando-o a se ajoelhar perante mim. Seus gemidos de dor me excitavam bastante. A forte iluminação o impedia de criar sombras, as lâmpadas foram posicionadas de forma que sombra alguma pudesse dar forma. Finalmente minha vingança... Eu já ansiava por isso há muitos anos. Mas eu não posso esquecer meu real objetivo:
— Por muitos anos você viveu nas sombras, Zed — me posicionei alguns centímetros do seu lado. Posicionei sussurro, próximo, ao flanco dos olhos. — Você irá transcender...
— Você fala que eu vivo nas trevas, mas você também estar envolvido nelas.
— O que disse? Como ousa... As trevas lhe cegaram para o caminho da escuridão... Irei liberta-lo para o descanso eterno!
— Não nege a mim! — disse Zed em alto tom. — As trevas residem em mim.
— Um ator substituto não pode me ofuscar!
O quarto, e último disparo, ansiava para ser revelado. O gatilho de uma arma carregada pede por ações. O projétil voou pelo cano até os olhos de Zed, fazendo o forte brilho azul acender dentro de sua armadura. As pétalas rosa surgiram num espetáculo magnífico. Raízes nasciam do local do disparo e cobria-lhe a face, exteorizando para fora do elmo.
Ah não posso esquecer! Novamente apertei o botão das lanternas, transformando toda a brancura por duas novas cores, que pedi para Amanda comprar especialmente para esse momento. Essas lâmpadas eram personalizadas, diferente das demais. Quando foram ligadas, no ponto exato onde o corpo de Zed jazia, surgiu à imagem de uma flor de lótus florescida, tingidas de vermelho e roxo.
— Divino — abri meus braços, admirando a cena final dessa peça. — Me superei dessa vez.
Droga. A dor nas costas voltava com tudo, eu tinha que ir. Minha volta aos palcos, foi sem dúvidas, de forma transcendental. Mas o espetáculo não acabou; ainda há mais para se apreciar. Contudo, a peça principal chegou ao seu fim. Olhei uma última vez ao corpo inerte de Zed:
— Eu não perderia sua performance — dei as costas e andei, cansado, para o alojamento. — Matar você foi um dos meus melhores trabalhos... Zed.
E então como sempre faziam, eles surgiam no final de minha apresentação. Eu não sabia de onde vinham, nem quem era. Apenas ficavam calados, me observando. Dois vultos de aparências tão opostas que chegavam a ser sinistro vê-los juntos. Não era a primeira vez que eu os via, entretanto eu permanecia sentindo calafrios quando estávamos nos encarando:
— O rosto do seu algoz é idêntico ao meu — falei esperando alguma resposta, mas recebi apenas um sorriso macabro daquela assombração negra. E da outra presença, que tinha uma silhueta branca, recebi um aceno de mão como se dando adeus. Bem... meu trabalho aqui acabou. Talvez eu siga esse conselho, irei embora. Eu sei que iremos nos encontrar novamente.
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Acordei pela manhã com os gritos dos ionianos. Estavam aterrorizados com minha obra. Além do corpo de Zed que eu havia deixado na praça, as várias armadilhas que deixei plantadas pela cidade haviam sido acionadas pelos moradores da cidade.
As explosões causadas, mortes de inocentes, paredes tingidas de vermelho vivo... Toda minha obra estava completa. Num massacre floresço como uma flor no amanhecer. Meu retorno não podia ser melhor. Me sinto ótimo, tirando o incômodo nas costas. Sabe o quanto é ruim dormir de costas para cima? Eu nem dormi, apenas dei alguns cochilos. Se eu dormisse perderia o show da minha janela.
O que será que meus clientes falarão sobre isso? Conclui a missão que me foi posta com sucesso, eles não podem me censurar por isso, podem? Claro que não!
Pela janela, ouvindo os gritos e choros, também escutei comentários dos meus feitos. E sinceramente nada agradável. Insultavam minha arte chamando-as de demoníacas ou de mau gosto. Por favor, sou mal compreendido, beleza não pode ser maligno. A arte deve existir além da compreensão. Ver o quão limitado é a mente desse público me faz sentir melancolia, tão triste quando um artista não é compreendido.
Com muita dificuldade, me levantei da cama. A máscara sobre o criado mudo era uma tentação para usar novamente, mas só depois que me recuperar. Naquela manhã onde a brisa fresca entrava pela janela, fazendo meu cabelo dançar ao movimento, ouvi duas batidas na minha porta. Suspeitei ser alguém, talvez um vizinho, querendo me informar do massacre ocorrido. Porém quando abri a porta não tinha ninguém, apenas uma carta no chão, muito semelhante a anterior, eram meus clientes, provavelmente me parabenizando pelo trabalho perfeito. Abri a carta:
“Zed estar morto, assim como ordenamos. Porém o trabalho ainda não acabou. Seu próximo destino será Demacia, lá você receberá mais informações sobre seus alvos. Você tem quatro dias para chegar às terras demacianas”.
Sério isso? Nenhum obrigado. Pessoal mais mal agradecido, isso parte meu coração. Mas tudo bem, minha nova apresentação será em Demacia, uma das maiores nações de Runeterra, estou tão nervoso, meu estômago chega a doer. Bem, acho que é meu adeus às terras de Ionia. Eu só tenho uma última coisa a fazer, antes de ir. Prometo que será rápido.
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Já se passaram quatro dias e o público permanecia falando sobre minha obra de arte. É maravilhoso saber que não se esqueceram de você. Terei que viajar para Demacia em poucas horas, mas antes disso tenho uma dívida em débito. Eu não teria conseguido se não fosse uma pessoa em especial. Por isso, convidei Amanda e seus amigos para se encontrarem comigo em frente ao bar, exatamente as 16h.
Ali estar ela, Amanda, como é linda. Seus cabelos loiros lisos formavam tranças como uma coroa de louro, tão semelhantes as ninfas dos contos. Os olhos verdes brilhantes não perderam o brilho mesmo com a notícia dos assassinatos na região. Seu longo vestido era cor de creme com bordado, de flores, nas extremidades. Seu sorriso tão lindo que poderia hipnotizar qualquer homem. Talvez tenha feito isso com algum dos seus amigos que sorriam para cada palavra que ela dizia... Não os quero perto dela. Ela é minha obra de arte! Não permitirei que façam mal algum à ela.
Da janela do meu quarto, ajustei a mira do meu sussurro, que agora estava transformado em um mega-canhão de longo alcance. Eu tinha que me posicionar bem, caso contrário o recuo me faria cair. Eu já estava acostumado a usá-lo, estava tudo bem.
Pondo meu olho na mira para a última observação, respirei fundo. Muito devagar apertei o gatilho, podendo sentir toda a pressão que minha arma fazia antes do disparo ser feito. O projétil explodiu do cano e avançou contra um dos homens frente ao bar, sua morte foi imediata, bem no coração. Tentando entender o que havia acontecido, seu amigo aproximou-se do corpo. Antes que pudesse fazer algo, também caiu inerte no chão com meu segundo disparo.
Em cada disparo eu vejo a fumaça saindo do cano de sussurro, é lindo. A felicidade é uma arma fumegante. Amedrontado o terceiro homem tentou fugir, obviamente eu não permiti. Que tipo de diretor seria eu se permitisse que o ator saísse da peça em plena apresentação? Tive que lhe punir com meu terceiro disparo, novamente um tiro certeiro no coração. Esse era um dos meus lemas, se você atira pra matar, é bom acertar o coração.
Respirei fundo, o último disparo era especial. Observei atentamente o rosto da garota em lágrimas, soluçando em choro. Não chore, eu queria lhe dizer. Vai desmanchar a maquiagem, pensei. Amanda estava paralisada ao ver seus amigos mortos, não sabia o que fazer... Apenas chorava. Realmente ela é linda:
— Sorria... Todos estão assistindo — sussurrei, apreciando o momento de puxar o gatilho final. Me surpreendo quando Amanda abri os olhos e, de alguma forma, olha em minha direção. Olhos penosos me fitavam numa súplica... Ah, não consigo resistir. Esse é meu amor.
O quarto disparo é feito com perfeição, atingindo-a no coração. A luz azul iluminou seu corpo e pétalas, cor de rosa, saiam do local atingido. O impacto a fez ser arremessada contra a parede, no golpe as raízes prenderam seu corpo as paredes rochosas do bar. Ela ficou ali como um quadro em exibição... Magnifico.
Todo meu corpo treme no êxtase, me sinto tão bem... Tão vivo. Isso sim é beleza de verdade. Meu trabalho aqui estar encerrado. Enquanto a multidão, apavorada, observava minha mais nova obra de arte, eu me despedia pegando o primeiro barco para Demacia.
Me pergunto: quais atores terei nessa nova peça?
Notas finais
Vejo em você uma beleza artística única.
Devo lhe proporcionar uma ópera de morte ou preferirá uma peça melodramática?
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