Eu Te Amo
1 Capítulo Único
Olhava para a pessoa tocando violino com um triste e belo sorriso nos lábios. Tudo se resumiria naquele último momento, naquela última música, mas por hora iria apenas aproveitar o momento. Pelo menos enquanto não fosse percebido por ele, enquanto não fosse recebido por aquele caloroso sorriso que tanto o mata por dentro, que era direcionado a todos que conhecia, sem brilho algum nos olhos. E foi o que fez, aproveitou. Ouviu, fechou seus olhos, deixou aquele sorriso adornar sua face um pouco mais. Deixou que fosse levado para uma utopia dos sonhos, flutuando nas notas tristes que saiam do violino, obra de uma pessoa tão pura que seria pecado maculá-la. Deixou que seu amor fluísse por seu ser por mais um momento, um único momento tão sofrido... Saberia por esse último momento o que era o amor e depois apagá-lo ia de sua vida, junto com sua essência.
- Yuki? O que faz aqui?
A música para, assim como todo o ar à sua volta. Sente-se sufocado por um tempo que pareciam segundos, mas também anos, quando seus ouvidos são agraciados por notas suaves e lágrimas ameaçam escorrer por sua face. O ar então volta, o tempo corre normalmente e abre seus olhos para somente ver ele, ele e nada mais. Reprime as lágrimas e o sorriso, deixando sua face impassível. Não se daria ao luxo de ser frágil diante de tal ser, não daquela vez. Daquela última vez... Novamente reprime as lágrimas, só então se dando conta que ele esperava uma resposta.
- Nada. Continue a tocar.
A resposta corta como gelo, mas não satisfaz o menor. Sabia que teria de ser mais convincente se quisesse que ele continuasse a contar, mas nada vinha à sua mente, nem uma mísera palavra. Era sempre assim, afinal. Os dois não conversavam, não tinham nada em comum. Nem se gostavam, ou era isso que todos pensavam. Gostava sim, e muito, do outro, mas sabia que seria rejeitado, e não suportava isso. Preferia velar por sua segurança de longe, sem lhe trazer problemas. Afinal, o que poderia lhe trazer de bom? Nada, afinal só o que sabia fazer era trazer problemas para os outros. E agora se afastava ainda mais dele, antes que seu fatídico destino o afetasse também.
- Continue a tocar, Sawyer.
Queria apenas a melodia de volta. Queria apenas poder continuar a observar seu amado de longe. Queria apenas participar de sua vida, nem que fosse como um observador. Mas sabia que isso não poderia acontecer. Ele tinha uma namorada, afinal. Uma bela namorada que não lhe traria problemas, nem faria com que fosse alvo de preconceito, assim como Julian. Ah, Julian. O quanto sofrera quando Julian morreu. Antes tão alegre, enclausurou-se em sua casa, tornando-se fechado e envolto por uma parede tão grossa de gelo que chegou a pensar que nada mais o atingiria. Mas estava errado. Sawyer fora capaz de quebrar o gelo com um único olhar, com uma única nota.
Conheceram-se no primeiro ano da faculdade de música. Aquele primeiro dia onde os alunos poderiam se apresentar e mostrar o que sabia fazer ou o que desejavam aprender. Ele foi o primeiro, conquistando a atenção e admiração de todos na classe. Desde então se viu apaixonado pelo garoto pequeno e de um sorriso tão alegre que por um momento pensou que poderia voltar a ser feliz ao seu lado. Mas nunca imaginaria o quão estava errado por pensar assim. Alguns meses depois, Sawyer começou a namorar uma garota, parecia feliz com ela. E passou apenas a observá-lo, com sua alegria contagiante e risada melodiosa. Afinal, que escolha tinha? Queria que ele fosse feliz, apesar de tudo. Mas a felicidade dele não bastava, e isso aos poucos o consumiu por inteiro. Não aguentava mais.
Surpreendentemente, Sawyer apenas lhe dirigiu um sorriso e continuou a tocar, olhando-o como se tocasse em sua homenagem. Tocou como se pusesse o coração em cada nota que saia do violino, até que a música acabou. Continuou a tocar por o que pareceram horas a fio, até que parou. Parou e o olhou. Percebendo a atenção ser subitamente voltada a si, abre novamente os olhos, mostrando o cinza tempestuoso de sua íris.
- Yuki... O que houve? Por que está assim?
Desvia seu olhar, não querendo olhar para os olhos dele. Aqueles olhos que transmitiam tanta pureza, tanta sinceridade... Sabia que não aguentaria se ficasse olhando para tais olhos por mais tempo. Afinal, o amava. Não conseguiria lhe esconder as coisas, nem que fosse para o bem dele. Não... Se fosse para o seu bem, poderia falar que o sol era um deus e lhe amava. Mas nunca mentiria sobre nada se não fosse para protegê-lo, nem que sua vida dependesse disso. Por isso, apenas desviou seu olhar, mantendo sua boca fechada para não machucar o que estava à sua frente.
- Por tudo o que é mais sagrado, fale alguma coisa!
Ele era sempre assim, espalhafatoso. Não aguentava o silencio nem por alguns segundos. Era uma das coisas que mais gostava nele, essa animação natural que em nada parecia forçada. Isso conseguia lhe aquecer por dentro de uma forma que nada mais fazia, e tinha certeza que nada mais faria. Seu coração não suportaria duas perdas, tinha certeza. Quase não suportara a perda de Julian e não suportaria a perda de Sawyer. Não sabendo que ele continuava vivo e fora de seu alcance. Então apenas se permite sorrir tristemente por alguns instantes, mostrando uma laca de sua alma afundada em tristeza.
- Sawyer... Ah, doce Sawyer, não se preocupe com alguém como eu. Sabes o que falam sobre mim por esse lugar, não seria bom se alguém te visse falando comigo. Você estava tocando tão perfeitamente... Apenas continue, sim?
- Não continuarei enquanto não falar o que tem de errado, Yuki.
Seu sorriso desafiador era tão perfeito... Sabia que revelar o que sentia iria apenas trazer uma carranca de desgosto para aquele rosto tão belamente esculpido, então balança sua cabeça negativamente e deixa a falta de expressão novamente dominar sua face. Se de um jeito ou de outro iria magoar seu amado Sawyer, pelo menos faria isso da forma menos dolorosa.
- Sawyer, Sawyer... porque pensas que podes resolver meus problemas? Ninguém pode resolvê-los, o preço para isso é alto demais.
- Então deixe-me tentar... Deixe-me tentar, Yuki. Não me importo com o preço.
Ri com escárnio, lágrimas brilhando em seus olhos. Que ideia tola ter vindo falar uma última vez com ele. Nada de bom poderia sair disso. Mas mesmo assim insistira em ir, ver no que aquilo iria dar. Apenas para tornar ainda mais dolorosa sua partida. Mas seu egoísmo era grande demais e implorava por essa última conversa. Maldito egoísmo, ainda iria mata-lo. Isso se já não estivesse morto.
É surpreendido por um abraço do pequeno à sua frente, ficando sem reação. Ele sussurra pedidos, sussurra seu nome e repete, repete, continua a repetir até que tudo o que consegue fazer é abraça-lo de volta, com força, deixando quentes gotas escorrerem enquanto soluços deixam seu frágil corpo, que treme. Deixa com que toda a tristeza contida em seu corpo seja levada pelas lágrimas, deixa com que sua alma seja mostrada, deixa toda a sua essência aparecer e preencher a sala.
Ele o ampara, acariciando seus cabelos e deixando toda sua tristeza fluir. Beija carinhosamente sua testa e limpa suas lágrimas, sorrindo calorosamente. Aquele sorriso, aquele momento, ficaria gravado em sua mente para o resto de sua pobre existência, e sabia que nada no mundo poderia apagar a lembrança dos lábios encontrando sua pele.
Não resiste, beija-o. Um selo carinhoso de lábios que sentiria por toda a eternidade de sua alma. Um ósculo tão cálido, tão apaixonado, que faz com que mais lágrimas sejam derramadas e se misturem ao carinho. E então a sensação de preenchimento aparece quando o beijo é retribuído e se transforma em algo necessitado, triste, com tom de despedida. Algo com gosto de lágrimas e de tristeza que nunca seria apagado de seu coração, gravado a ferro em sua alma.
Se afasta, acariciando o rosto do garoto, e sorri. Um sorriso cheio de amor, mas também cheio de tristeza. Vira suas costas para o garoto em choque, sabendo que não conseguiria fazer nada mais se não se afastasse naquele momento.
- Eu te amo, Sawyer. Com todo o meu ser.
Sussurra enquanto se afasta, as palavras tão puras e tão sujas flutuando no ar. Tudo o que podia esperar era que não chegassem aos ouvidos daquele que amava, mas era pedir demais com a sorte que tinha. Continua sua caminhada com passos lentos e pesados, desejando com todo seu coração que algo o fizesse parar. As lágrimas continuam a escorrer pesadas, mas silenciosas por sua face, tão tristes quanto seu coração, mas com certeza menos solitárias.
- Yuki, espere!!
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