Eu Queria que Você Falasse
1 1. Aoi
Notas iniciais
E aqueles pequenos olhos castanhos me fitavam de novo e o mesmo sorriso de uma hora atrás estava brincando em seus lábios, me obrigando parar de ler os kanjis da parte de esporte do jornal que eu estava tentando terminar mais toda hora o pequeno vinha perguntando a mesma coisa só que em uma língua diferente.
— Yuu-chan… — ele chamou pela primeira vez aquele dia. Eu não iria trabalhar, era meu dia de folga e tudo o que eu queria era descansar um pouco, ganhar carinho do meu loiro mel. Mas, este desde a hora que eu acordei já estava trancado em seu ateliê. Parecia ocupado, ocupado demais para cuidar de mim e das minhas birras por ele ser tão focado no trabalho ou na bagunça que fazia quando tentava pintar mais uma tela — Koi… — Chamou de novo, dessa vez me tirando de meus pensamentos.
— Hm… — ergui meus olhos para encará-lo. Céus, ele estava tão fofo! Usava roupas mais largas e bem maiores que ele. Velhas e completamente sujas por tintas multicoloridas. Os cabelos desalinhados presos de qualquer jeito por um rabo de cavalo que já não estava tão firme como antes.
— Como fala “eu te amo” em chinês? — perguntou curioso e com os olhinhos pidões.
— Wõ ãi ni. — respondi.
— Como escreve? — perguntou me estendendo um papel para que eu escrevesse ali as palavras em mandarim e assim o fiz, logo entregando para ele de novo.
Depois de ter o papel em mãos ele me deu um selinho demorado logo dizendo um “Obrigada Yuu.” manhoso depois, correu para seu ateliê.
Algum tempo se passou e ele continuou trancado lá, mas depois senti que alguém me olhava e dei de cara com a figura dele me encarando. Quando nossos olhos se cruzaram ele sorriu e corou.
— Yuu, como fala “eu te amo” em inglês, mesmo? — perguntou corando mais um pouco. Kouyou nunca fora muito bom em decorar palavras, principalmente em inglês, elas caiam no esquecimento e não importava quantas vezes ele já tinha praticado, sempre esquecia aquelas palavras. E eu não podia negar que achava absurdamente fofo quando ele esquecia de algo, quando este algo não era a data de nosso aniversário de namoro. Mas, para minha sorte ele não se esquecia disso e quando questionado sobre isso, o loiro simplesmente falava que isto devia ao fato de ser algo muito importante para si. Algo como o melhor dia da vida dele.
— I love you, Kou, eu te amo em inglês é I love you.- eu disse paciente e sorrindo com ternura enquanto já pegava o papel para escrever as três palavras antes que ele me pedisse para fazer isso. Sei que ele iria precisar daquela pequena colinha.
— Yuu. — Kouyou retirou o jornal de minhas mãos e fez eu me levantar. Logo sua mão já segurava levemente a minha me guiando até o ateliê — Feche os olhos, Yuu e dê um passo para frente — ele sussurrou com a voz levemente rouca causando leves arrepios em minha pele. E eu fiz o que ele pediu, fechei os olhos e dei um passo para frente quando eu ouvi a porta sendo aberta —Agora pode abrir.
Abri os olhos na mesma hora que ele pediu para que eu os abrisse. Umas das paredes do ateliê estava coberta por um pano e eu não conseguia entender o porque daquilo. Meu cenho se fechou levemente mostrando a minha perfeita confusão e o loiro só conseguiu abrir um lindo sorriso quando já estava ao lado daquela parede.
— Pronto? — perguntou e eu apenas afirmei com a cabeça. Seja lá o que for que aquele pano escondia, eu apenas queria acabar com aquela curiosidade que estava me corroendo por dentro. O loiro puxou o pano e o mesmo foi caindo levemente pelo chão revelando o que escondia.
Naquela parede dava para ver apenas três palavras “eu te amo” em todas as línguas — contando as que ele me perguntara. — de várias cores vibrantes e diferentes. Mas não foram elas que me fizeram sorrir que nem um bobo apaixonado, que fizeram meus olhos se encherem de lágrimas, meus joelhos fraquejarem e o meu coração bater descompassado no meu peito. As palavras que me fizeram ficar assim foram as seguintes ”Casa comigo Shiroyama Yuu?”, aquilo era um pedido de casamento no mínimo original, do tipo que eu nunca imaginei o loiro fazer. Mas, eu ainda não estava acreditando naquilo de tão feliz que eu estava, tão feliz que eu nunca imaginava ser um dia. Quando os meus olhos se desprenderam daquele pedido e os meus olhos acharam um Kouyou ajoelhado segurando uma caixinha em mãos e dizer:
— Casa comigo Shiroyama Yuu? — sorriu, ele estava levemente trêmulo-acho que ele que ele estava com medo de que eu não aceitasse aquele pedido, o pedido mais doce da minha vida e a minha falta de ação não estava ajudando em nada a acabar com o sofrimento por antecipação do loiro.
Com as pernas ainda levemente bambas eu me encaminhei até ele e me ajoelhei a sua frente sorrindo.
— Aceito. — e no momento em que ele colocou aquelas belas alianças de ouro em cima da de namoro eu soube que aquilo não era um sonho, ele estava mesmo me pedindo em casamento. E eu não pude evitar de deixar as lágrimas descerem pelos meus olhos trilhando caminhos aleatórios por minha face. Trocamos nosso primeiro beijo como noivos naquela noite.
Alguns meses depois…
Eram 17:59 e eu ainda não estava pronto. Minha mãe ainda estava dando um jeito de fazer as rosas pararem no bolso do meu terno sem muito sucesso pois as duas rosas vermelhas — favoritas minhas e do Kou — não queriam parar quietas no lugar. Mas eu não iria me preocupar com aquilo, afinal eu era o que podia ser chamado de noiva em uma relação heterossexual e me diz qual noiva nunca chegou atrasada ao próprio casamento? Tirando a princesa Diana e a Kath? Ok, admito que é maldade, mas eu posso dizer que eu imagino a cara de frustração de Kouyou fitando o caminho de pétalas de rosas trilhado justamente para a minha travessia que dava em meio a duas tochas de fogo, esperando me ver ali com esse terno branco e sorrindo para logo me tornar o senhor Shiroyama Takashima — ou ao contrario, como o loiro preferir.
— Está pronto, filho, pode colocar o terno. — a voz doce de minha mãe soou ao meu lado me tirando de meus devaneios. Levantei-me do sofá e ela me ajudou a colocar o terno e apertou o nó da minha gravata preta — Você está absolutamente lindo, pequeno.
Ela disse com carinho logo me estendendo o braço para que eu o entrelaçasse ao meu para enfim caminharmos até o jardim daquele belo hotel onde iria acontecer meu casamento com aquele loiro que eu namorava a longos oito anos. Os oitos anos mais felizes de minha vida. Claro que como qualquer casal tivemos altos e baixos, mas nunca largamos um ao outro, conseguimos sempre contornar todos os problemas, porque no fundo sabíamos que algum dia iriamos estar em algum lugar nos casando e nós não iriamos trocar esse destino feliz juntos para qualquer um em qual estaríamos separados.
Eu e minha mãe caminhávamos em passos lentos e em silêncio. Logo já estávamos no meio das tochas acesas e a musica escolhida para aquele momento começou a tocar -nos não queríamos ser tradicionais e entrar com a tão manjada e conhecida marcha nupcial.- a musica que tocava era cantada por uma mulher e um homem. Esta musica era From This Moment, a musica que marcara meu primeiro beijo com aquele que em alguns minutos seria meu marido.
— Eu juro que eu sempre estarei ao seu lado… — minha boca silenciosamente balbuciava aquelas palavras e eu pude ver os olhos do loiro levemente marejados e um sorriso bobo escapar de seus lábios e quando já estava entregue para ele pela minha mãe os lábios dele balbuciaram em silencio assim como eu havia feito.
— Eu te amarei a cada batida de meu coração. — Kouyou disse meio atrapalhado em seu inglês e eu sorri.
Logo a musica havia sido parada pelo leve sinal de mão do pastor a nossa frente.
— Estamos aqui reunidos para juntar Takashima Kouyou e Shiroyama Yuu como um só, se há alguém aqui que tenha algo para dizer que impeça essa união que fale agora ou cale-se para sempre. — o homem disse olhando para as pessoas que assistiam a cerimonia. E nesse momento, tudo exatamente tudo ficou em silêncio — Continuando, Kouyou, pode ler os seus votos.
— Eu não vou ler meus votos pois eu não os escrevi. — ele sorriu sem graça. — Mas eu irei fala-los para a pessoa que eu mais amo no mundo, que é esse moreno a minha frente. — ele sorriu doce e segurou minha mão. — Sabe Yuu quando eu te conheci eu nem imaginava que eu estava diante do amor da minha vida. Daquele que me faria feliz e que me levaria as nuvens com um único beijo. Aquele que me daria amor eterno e eu daria o meu amor eterno. Aquele que faz meu coração disparar com apenas um sorriso ou um toque de suas mãos quentinhas contrastando com as minhas mãos frias. — sorri com o comentário — Alguém que por mais que tenha mania de organização se apaixonou pela minha desorganização e é isso que me faz querer te ter para sempre Yuu. — uma lágrima escorreu pelo belo rosto — Você conseguiu amar até meus defeitos, os mesmos defeitos que até a minha mãe reclamava quando eu era adolescente. E eu te amo também Yuu, te amo muito, aliás te amo mais que tudo desse mundo e é por isso que eu te pergunto: você aceita ser meu marido perante o pastor e a todos os convidados?
— Aceito. — sorri verdadeiro. Kou então pegou as alianças com o seu padrinho que era Kai-chan seu melhor amigo desde sempre e a colocou no meu dedo anelar da mão esquerda observando as três alianças* que ele já havia me dado que simbolizavam o nosso amor — Bom… — sorri, eu já estava ficando um pouco nervoso pois era a hora de ser tão espontâneo quanto o ele — Eu não sei o que dizer, Kou-chan. — sussurrei para ele e o vi balbuciando um “tenta”, não me dando qualquer alternativa a não ser fazer o que me fora sugerido por ele — Esses oito anos que passamos juntos, namorando eu pude ter certeza daquilo que eu senti assim que você entrou naquela loja de tintas completamente sujo pois a sua água rás havia acabado — ele me olhou confuso. — Ora, eu nunca te disse meu amor? Quando eu te vi, algo em meu interior gritou “É ele, não deixa ele escapar” por isso eu te deixei meu telefone escrito na lata de água rás. — ele sorriu sapeca. — Mas, mesmo assim, eu não imaginava que a cada dia eu iria te amar mais e chegar aonde estamos agora. Claro que eu sonhava em casar com você e ter uma bela filhinha. — o sorriso dele se alargou mais — Kou-chan, o que eu quero te dizer é que eu te amo e te prometo que eu farei de tudo para te ver feliz, para te ver sorrindo. Eu prometo a você meu amor eterno. E é por isso eu te pergunto, Takashima Kouyou aceita ser meu esposo?
— Aceito. — logo eu já colocava a aliança dourada no dedo anelar da mão esquerda dele. O loiro assim como eu usava as três alianças pois a muito tempo prometemos nunca as tirar do dedo. Depois de feito isso o mesmo nem esperou o pastor autorizar o nosso beijo e já tomou os meus lábios para si de forma apaixonada mas ainda assim desejosa.
Depois da cerimonia fomos direto para casa pois decidimos passar a noite de núpcias no ateliê de Kouyou Takayama**pois foi lá que o pedido fora aceito. Depois, de nos amarmos apaixonadamente estávamos deitados ao chão aninhados um ao outro, um ouvindo a respiração do outro e eu me dei conta que: de todas as formas escritas de “eu te amo” ele só me perguntou duas e as outras como ele conseguiu?
— Kou…- chamei ele em um fio de voz e só continuei quando ouvi um ‘que?’ levemente sonolento — Você só me perguntou duas formas de ‘eu te amo’ e o resto? Da onde tirou?
Ele riu levemente com aquela pergunta e me fitou com os olhos de uma criança arteira.
— Bem, na verdade Yuu, eu já tinha todas as formas de ‘eu te amo’ pesquisadas e devidamente impressas em folhas. — ele abriu um lindo sorriso e tocou meu nariz.
— Mas porque você me perguntou então? — franzi o cenho encarando os olhos dele.
— Simples. — ele me deu um selinho e me puxou um pouco para cima para sussurrar em meu ouvido — Eu queria que você falasse.
— Baka…- murmurei roubando os lábios do meu esposo para mim o beijo foi quebrado e eu me arrumei de novo em seu peitoral, e nós dois adormecemos.
* Eles usam três alianças: a de namoro, a de noivado -na mão direita — e na esquerda a de casamento.
** Junção de Takashima com Shiroyama
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