Eu Queria Que Não Fosse Assim
30 Alec
Eu sabia que chorar compulsivamente não fazia o meu estilo. Mas você não viu a cara dela, eu vi, e se tem uma coisa que eu sabia agora é que ela não ia voltar. De certa forma eu estava feliz por isso porque quando eu explodisse ela não ia estar aqui pra ver, nunca é bonito ver alguém morrer por mais patética que seja a morte.
Eles não me prenderam por muito tempo no hospital. De novo todos estavam lá quando eu sai, mas só pedi pra ir pra casa, queria descansar. Quando chegamos na frente do prédio, Jack estava do lado de fora. Pronto para me ajudar.
– Não preciso da sua ajuda – digo me livrando de suas mãos e passando para dentro.
Fiz questão de levar minhas coisas, e me trancar no quarto antes que dissessem algo. Minha cama estava estranhamente vazia, mas eu sabia porque.
– Abre a porra dessa porta senão eu juro que vou arrombar – Jack grita furioso do lado de fora.
Eu não respondi, mas ouvi o estrondo quando Jack arrebentou a porta. Jack não se moveu mais, eu não sei porque já que estava de costas. Mas eu ouvi quando ele respirou fundo.
– Se você quer morrer, beleza, vai em frente, se mata! Mas enquanto você estiver aqui, eu não vou deixar o mais perto que eu tive de um irmão se ferrar, ta entendendo ? Eu não vou deixar isso acontecer.
– Ela foi embora...
– A Mindle vai voltar, e eu não estou falando dela...
– Eu cansei, Jack. Não vou viver uma vida sem graça pra viver mais tempo, eu não quero sobreviver como o meu pai... E eu não queria que a Mindle vivesse uma vida infernal sabendo disso, e olha como acabou.
– Ela vai voltar.
– Não vai, eu espero que não volte, pelo menos.
– Alec, mas que porra! Para de ver o mundo só pelo seu ângulo! Você não é o único e vive nesse inferno! Todo mundo vive com você, dá pra parar de tentar viver sozinho ? Porque eu já vou te adiantando, você não vai conseguir.
– Jack, será que eu posso ficar sozinho ?! Por favor.
Jack cessou os gritos porque eu, claramente, não fiz o que eles esperava. Ele esperava que eu o xingasse de todos os nomes possíveis e batesse a porta quebrada na sua cara. Mas eu não tinha mais força pra fazer isso.
Passei três dias apenas não fazendo nada. Não falei com ninguém e Jack desistiu de tentar me tirar do quarto.
–...Ele está enlouquecendo... – ouvi ele dizer para Amy.
– Isso não é fácil, Jack. Dá um tempo pra ele.
– Ele viveu a vida inteira com isso, Amy!
– Mas ele não viveu a vida inteira sem a Kate! Sabe que ele está assim por causa dela, não sabe? Ela não quer nem falar comigo!
– Amy, ele é meu irmão, mas eu não sei mais o que se passa com ele.
– Eu também não sei de mais nada. Mas isso a gente não pode mudar.
– Eu sei.
Voltei pra faculdade e voltei trabalhar no bar. Mindle não apareceu mais em nenhum dos dois lugares e nem eu fui procurá-la.
...
Ouvi a campainha, Jack não estava em casa por isso eu sai do quarto e fui atender.
– Oi – disse Felipe.
– Oi.
– Podemos conversar ?
Dei um passo para o lado, permitindo que ele entrasse. No sentamos um de frente para o outro nos sofás de sala.
– Kate me contou...
– Claro que contou.
– Ela ama você, Alec.
Fiquei em silencio.
– Eu não quero ouvir.
– Quer, quer sim... No dia que ela descobriu, chegou na minha casa chorando tanto que eu achei que alguém tinha morrido, depois que eu fiquei sabendo a verdade, então, eu tive certeza que ela te amava.
– Por que está aqui, exatamente ?
– Porque ela precisa de você.
– Não sei se é uma boa idéia.
– Minha irmã está um caco...
– Eu não estou muito melhor...
– Estou pedindo pra que você vá falar com ela.
– Eu não posso falar com ela! Ela não quer me ver!
– Ela quer, só não consegue vir e te encarar depois do que aconteceu. Ela quase te viu morrer!
– Por isso mesmo, acho melhor que ela fique longe. Eu não quero que ela viva isso, não é obrigação dela.
– Não é, mas isso não quer dizer que ela não esteja disposta a fazer disso sua obrigação.
Felipe se levanta.
– Eu só espero que você entenda isso. Que ela te ama e mesmo sendo um baque forte, ela vai agüentar com você.
– Como você sabe ?
– Ela me disse.
...
Já era de noite e eu ainda estava pensando no que Felipe tinha dito, não ia conseguir dormir. Peguei as chaves do carro, e mesmo contra todas as restrições sobre dirigir, eu fui até a casa de Mindle. Todas as luzes estava, apagadas, mas eu via pela janela a luz da TV da sala. Ela também não conseguia dormir.
Voltei ao portão três vezes antes de bater na porta. Quando eu bati, ninguém ouviu, bati uma segunda vez e nada, depois da terceira, já me preparei para ir embora, mas eu ouvi a tranca da porta abrindo. Mindle levou um susto quando me viu.
– Oi – eu disse.
– Oi – ela respondeu ainda me choque.
Ela estava dormindo, usava uma camiseta minha e um short curto do pijama que eu só via a barra. Ficamos um tempo assim, apenas nos olhando, eu não consegui falar e nem ela.
– Podemos conversar ? – finalmente me movi.
Ela assentiu e deu um passo pra trás. Ela fechou a porta atrás de mim assim que entrei, dei uns passos para longe e a olhei, ela tinha encostado as costas na porta e me fitava.
– Então ? – ela perguntou.
– Na verdade, eu não sei bem o que te falar. Acho que eu falei tudo e bem...eu não sei, mas eu precisava ver você, precisava saber se...
– Se... ?
– Eu não sei. Eu não sei de mais nada, Kate. Estou perdido.
Foi difícil admitir isso em voz alta, eu estava tão perdido! Quero dizer, eu quase morri e isso me afetou pra caralho. Me afetou tanto que quando Mindle foi embora do quarto, eu pude sentir meu coração implorando para parar de bater.
– Você está perdido, Alec? – ela disse incrédula – Imagina, eu, então ?! Você desmaiou em cima de mim! E pior do que isso, eu não sabia o que fazer! E se você tivesse morrido? O que eu faria sabendo que você morreu? Nos meus braços ? – a voz dela tinha subido e tomado um som desesperado e agudo – Eu... mas que droga! O que eu faria se você morresse, Alec ? Eu morreria junto, provavelmente. Você não tem idéia do que se tornou pra mim! Eu não posso perder você, não assim... mas... eu...eu...estou tão perdida quanto você.
– Kate, eu não ...- eu estava deixando as lágrimas caírem e ela também.
– Me deixa terminar, por favor... Eu não posso perder você! Eu perdi gente demais pra me dar ao luxo de te perder, e nem sequer posso mudar isso! Isso é tão...frustrante! Eu não posso salvar a única pessoa que eu amo!
– Eu também não – ela parou – eu não posso te salvar disso e isso acaba comigo.
Paramos por alguns minutos sem saber o que fazer. Eu não tinha idéia de como as coisas acabariam, mas eu tinha que tentar.
– Eu amo você, Kate Mindle, e não tem nada nesse mundo que vá mudar isso. Eu quero proteger você, seja pelo tempo que for, eu quero amar você, em todos os sentidos que a palavra amar implica.
Eu não esperei nenhuma reação, eu apenas me aproximei e a abracei.
– Eu sinto muito que tenha que ser assim, mas eu não posso mudar o que acontece comigo.
– Eu sei, eu também não e isso é uma pena – ela diz ainda chorando.
Não tenho certeza de quanto tempo nós ficamos assim, mas eu sei que não foi pouco.
– Eu preciso que você me prometa uma coisa – ela disse.
– O que ?
– Promete...promete que vai tentar, vai tentar ficar comigo pelo máximo de tempo que conseguir.
– Eu prometo.
Ela levantou a cabeça e sorriu pra mim, eu precisava beijá-la e foi o que fiz. Eu a beijei com toda o amor que eu sentia, e a conduzi até o quarto, onde nós passamos a noite juntos. Aquela noite eu só tive certeza de duas coisas. Um: eu amava Kate Mindle. Dois: ela me amava do mesmo jeito.
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