Eu Queria Que Não Fosse Assim
24 Alec
Eu sabia que ela estava no banco porque eu tinha acabado de sair quando ela entrou. Ia dar partida na moto, mas minha cabeça começou rodar e doer.
– Não, não — resmungo.
Volto cambaleando para o banco, mas eu vez de entrar eu fico do lado de fora, tentando chamar a atenção da Mindle.
Ela segue as instruções de Jack, e quando a ambulância chega, tenho a impressão de que vou desmaiar a qualquer minuto.
– De zero a dez. O quanto esta doendo ?
Levanto nove dedos. Isso não era um dez. Um dez é quando dizem que você vai morrer a qualquer minuto sem aviso prévio. Procuro a mão de Mindle, quando acho ela permite que eu entrelace seus dedos nos meus. Sinto uma pontada aguda e os gritos que eu tentava não dar saíram todos de uma vez num som gutural.
– Sh! Calma! — Mindle levou a mão aos meus cabelos — Já vai passar.
– Alec, vamos sedá-lo...
Não foi preciso, outra pontada e eu desmaiei.
...
Abri os olhos e vi o teto do quarto do hospital. Senti algo na minha mão e quando olhei, os dedos frios de Mindle estava entrelaçados aos meus, ela estava sentada torta, havia adormecido e cabeça estava tombada em cima do braço que segurava minha mão.
Ainda sentia os reflexos das dores, minha cabeça doía um pouco.
– Mindle — chamei.
Ela levantou a cabeça e me olhou sonolenta.
– Que bom que acordou. Está melhor ?
– Bem melhor. Hm...Obrigado, por me ajudar.
– Não foi nada — ela diz no meio de um bocejo.
– Você devia ir pra casa, está cansada.
– Não, tudo bem, eu vou ficar mais um pouco.
– Se tem certeza...
Ela apenas sorriu, seus dedos ainda estavam juntos com os meus.
– Alec?
– Sim?
– Você vai me contar ?
– Não.
– Por que?
– Porque é pessoal.
– Você tem câncer ? — pergunta receosa.
– Não — sou obrigado a rir — não tenho câncer.
– Não é engraçado. É a segunda vez em menos de uma semana!
– Mindle — volto ao meu tom sério — não vou te contar. Não há nada para contar.
– Há sim. Mas estou cansada demais para discutir sobre isso.
Ela boceja de novo e deita a cabeça na maca.
– Você devia ir descansar.
– Tá, tá — ela diz balançando a mão livre.
– Toc, toc — Jack entra pela porta.
– Oi, cara.
– Oi. Como você tá ?
– Melhor.
– Mindle ? — Jack chamou.
– Fala, Jack.
– Você está péssima.
– Sua sinceridade é comovente.
– Estou brincando — ele diz rindo — você já ficou aqui o dia inteiro, vai pra casa descansar.
– Eu não esto...
– Mindle, ele está certo — digo.
Mas que horas eram ?
– Ok — ela diz depois de alguns segundos com um suspiro.
Mindle solta seus dedos dos meus e me dá um beijo no rosto.
– Tchau. Tchau, Jack.
Ao passar por Jack ela lhe dá um tapão na cabeça, sou obrigado a rir.
– Infeliz — ele resmunga se sentando onde ela estava — sua cabeça ainda está doendo.
– O que ? Não, não est...
– Está sim, você está fazendo caretas quando mexe muito.
Não respondo.
– Seus pais estão aí — ele diz — disseram que querem te levar pra casa hoje.
– Eu não quero ir...
– Eu sei, são um saco. Os dois, sempre foram. Mas você sabe, tudo isso... — ele aponta para mim na maca — está mexendo com eles, principalmente com seu pai. No outro dia você evitou falar com eles, e agora que passou mal de novo...Não sei cara, talvez vocês devessem conversar... Seu pai sabe o que você está passando...
– Me ignoraram por anos e agora...
– Se não quer ir por eles vá pelo Ranfrey, por Mag e Lena, estão doidos querendo saber como você está, aliás, estão todos aí.
Bufo. Uma enfermeira aparece e me dá alta, não há mais nada para fazer aqui. Quando chego na sala de espera todos estão lá, meus pais, Ranfrey, Mag, Lena...
– Graças a Deus! — Mag diz e me abraça.
– Está de esmagando, Mag — sorrio.
– Querido! — Lena exclama trocando de lugar com Mag.
– Estou bem, Lena.
Lena me larga e Ranfrey me olha com olhos molhados.
– Ah, garoto, você me assustou.
– Desculpa, Ran.
Ran me soltou e meus pais vieram até mim, minha mãe estava me examinando inteiro enquanto me abraçava e meu pai apenas me olhava.
– Está bem ? — ele perguntou.
– Estou.
– Melhor irmos para casa, precisamos conversar.
Não discuto, apenas vou para casa com eles. Jack se despediu de cada um e foi embora também. Em casa, meu pai me acompanhou até um escritório no primeiro andar, nos sentamos a mesa e ele me olhou, pensativo.
– Está bem ? — perguntou de novo.
– Estou.
Ficou em silêncio um tempo me analisando, depois olhou para a próprias mãos. Eu nunca vi meu pai desse jeito, tão...vulnerável, frágil.
– Sabe que apesar de ser um péssimo pai, eu te amo, não sabe ?
Se meu pai já tinha dito que me amava em alto e bom som? Nunca.
Assenti sem conseguir ter outra reação.
– Alec, dessa vez a coisa foi fei...
– Pai, para. Eu to bem. Eu não vou...morrer — digo — quero dizer, você viveu com isso até agora. Eu não aceito viver menos que você — digo sorrindo.
Ele força um sorriso.
– Eu queria ser mais presente...
– Não precisa.
– Preciso. Ranfrey foi seu pai. Mag e Lena suas mães. Eles são mais sua família do que eu e sua mãe, e eu sei que...isso é nossa culpa.
– Por favor, para de falar como se eu fosse morrer amanhã. Eu não sou o único com essa porcaria na cabeça — digo um pouco irritado.
Ele fica em silêncio.
– Me desculpa por isso — ele diz.
– O que ?
– Você sabe, é hereditário.
– Eu sei. Isso não quer dizer que a culpa é sua.
Ele assentiu.
– Pai — ele me olhou — não é sua culpa.
Ele assentiu de novo.
– Fique bem — ele disse por fim e se levantou — posso te dar um abraço ?
Eu me levantei e o abracei forte, do jeito que eu nunca fiz antes. Quando nos afastamos seus olhos estão molhados, ele se afasta e vai em direção a porta.
– Pai ? — ele se vira pra mim — Vai devolver meu dinheiro ?
– Não — ele sorri.
Incrivelmente eu sorrio de volta e assinto.
Subo para o andar dos quartos e me deito na cama que antes era minha, o quarto estava do jeito que eu tinha deixado, quer dizer, não estava exatamente do jeito que eu tinha deixado porque estaria uma bagunça, mas ainda tem uma bateria no canto e as miniaturas de carros clássicos ainda estão na estante de livros.
Quase adormeço.
– Filho ? — minha mãe me chama na porta. Ela tinha trocado a roupa do trabalho por um short jeans e uma camiseta da universidade que ela estudou — posso ?
– Claro, mãe.
Minha mãe vem até a cama e se deita ao meu lado, exatamente como ela fazia quando eu era pequeno e tinha pesadelos. Okay, ela fez isso uma vez, mas eu lembro disso. Ela esticou o braço e eu deitei perto dela enquanto ela passava a mão no meu cabelo.
– Te amo, querido.
– Também te amo, mãe.
Eu dormi com minha mãe cantarolando a musica que ela cantou naquele dia do pesadelo.
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