–Você não vai me falar o que é isso?

–Não até você provar, não quero que tenha preconceitos.

No prato tem uma espécie de carne meio acinzentada com folhas verdes enfeitando o prato e tomate fresco ao redor. Era horrível a visão, as entradas tinham sido todas lindas apesar de ele me falar depois que eu comi ovas de pato e barbatana de tubarão, mas estavam gostosas.

–Então já sei que é esquisito. – encaro o prato novamente. -Onde você aprendeu isso?

–Na verdade foi com meu pai.- ele desvia o olhar por um momento.

–Como ele esta?- pergunto com cuidado, nossos pais nunca foram um assunto muito legal de se falar. Apesar dos dois serem totalmente diferentes, eles tinham algo em comum, não ligavam muito pra gente. Nós crescemos aprendendo que nosso amor bastava, eu cuidava dele e ele de mim e nós da mamãe.Eu cresci com ele, apesar de um dia mamãe me contar que ele não era meu irmão de sangue, eu não liguei continuei chamando ele de irmão. Então apareceu de viajar pra Itália estudar o que ele mais gostava, era tudo que ele queria então foi.

–Faz tempo que não vejo, ele foi à Itália me visitar uma vez, mas depois que mamãe morreu eu nunca mais soube dele.

–Entendi.

–Agora, prova. Te garanto que está bom, se não estiver não faça careta ofende o chefe.

Coloco o garfo no pequeno circulo escuro e pego um pedaço da carne que por dentro é meio branca, olho depois fecho os olhos e coloco na boca. Ouço-o rir, mas concentro e sinto o sabor.

–É bom. – assinto abrindo os olhos. – O que é?

–É algo com penas que faz cocoricó.

–Está brincando que você fez todo esse suspense pra fala que é frango?- olho incrédula pro prato.

–Não ia perder a piada quando você falou que o prato parecia esquisito.

–Besta. – digo jogando o guardanapo do meu colo em seu rosto, derrubando seu chapéu.

–Que coisa feia, uma irmã com inveja do chapéu de chefe do irmão.

–Inveja? Ta doido? Você que se acha demais.

–Não me acho eu sou, tenho certificado falando que eu sou um super chefe.

–E com toda essa ladainha de chefe você ainda não conseguiu uma italiana?

Ele abaixa a cabeça e tira o avental.

–Até teve uma. Annabelle. Mas não deu certo então eu voltei.

–Então você só voltou porque uma italianazinha de nada te deu fora. Bom saber que eu não to valendo nada mesmo.

Ele ri. E começa a tirar os pratos.

–Como ela era? Usava óculos?

–Loira como todas as italianas, dos olhos azuis e não usava óculos.

–Então era esse o problema, ela não enxergou o partidão que ela perdeu. – ele ri e me olha apoiado no balcão. Eu me levanto e vou até ele.

–Obrigado! Eu tinha me esquecido como é bom ter uma irmã.

–Por nada e da próxima vez que passar tanto tempo longe eu te busco pela orelha. – abraço-o por um momento e vejo a torneira a minha frente.

Ligo e inclino em sua direção ele logo sai correndo e volta com o jato de espuma do outro lado. O chão fica molhado em minutos e eu escorrego, ele pega a torneira e me molha, eu não resisto apenas deixo a água escorrer. Ele logo se senta ao meu lado e ficamos lá olhando a vista por um tempo em silencio.

–Esse apartamento é seu?

–Digamos que sim, comprei ele á distancia mas num gostei muito quando cheguei.

–Não achei que fosse seu estilo mesmo.

–Me ajuda a decorar?- ele me encara confiante.

–Ok, eu te dou uma ajuda. — Me levanto e vou até a varanda com uma linda vista. – Então você está desempregado?

–Por enquanto sim. Mas quero montar meu próprio restaurante.

–Ui, ele vai ser empresário agora.

–Na verdade eu queria que alguém cuidasse da parte chata pra mim, mas não conheço ninguém aqui.

–Não seja por isso, sua irmãzinha aqui tem a solução para seus problemas.

–Eu pensei que não gostasse de contas e papelada.

–E não gosto, mas conheço alguém que ama um desafio e está louca pra sair do serviço de estagiaria escrava.

–É de confiança?

–Totalmente, estou com o carro dela.

–Não vai me dizer que ainda anda com aquele negocio que a mamãe te deu.

–Não fale assim do meu clássico.

–Ok, não falo. Mas amanhã você me apresenta sua amiga e aproveita pra me mostrar a cidade.

–Não mudou muito, só as pessoas.

–Você continua não sendo popular né?

–Não como você!

...

Acordo ouvindo os gritos da Amy no quarto do lado, não foi à melhor idéia falar que ela poderia trazer o Jack pra cá. Levanto e troco de roupa, ontem cheguei muito tarde eu até queria ficar mais tempo na cama, mas tenho que trabalhar.

–Bom dia! – digo pro casal se agarrado na pia da cozinha.Eles rapidamente se distanciam rindo.

–Ok, casal feliz já vou sair, só preciso tomar meu café em paz.

–Vou tomar uma ducha. – diz Jack e sai.

Pego as panquecas e coloco no prato jogando calda de chocolate por cima, Amy se senta ao meu lado e começa a comer também.

–Fizemos muito barulho ontem? – ela pergunta com tom de vergonha, o que vindo da Amy era estranho.

–Eu apaguei, não ouvi nada.

–Que bom. – ela diz enfiando um pedaço de bacon na boca. – Por que você chegou junto com Alec ontem à noite? Pensei que tivesse saído com Felipe?

–E sai. Aquele idiota estava ai na porta quando cheguei.

–Jack disse que vocês estavam estranhamente perto quando ele abriu a porta.

–Seu amigo é muito exagerado, ele só estava me enchendo o saco.

–Ok.

–Vai pro trabalho hoje?

–Escravidão você quer dizer.

–Ok, escrava. Acho que arrumei um estagio melhor que esse ai pra você. Então me encontra na hora do almoço pra discutirmos.

–Como assim? Me conta!

–Agora não dá, tenho que ir! – deixo ela sorrindo sozinha na cozinha. Tenho que levar meu carro na oficina e ir trabalhar, hoje o dia vai ser longo.

...

Amy está nos esperando na frente do grande edifício Roberts, ela até gostava de falar que trabalhava lá porque é uma grande empresa, mas ela trabalha demais.

–Oi! – eu digo e Amy se vira.

–Oi. – ela me olha feliz e logo percebe que Felipe está atrás de mim. – Quem é seu amigo?

–Felipe.

–Ah o famoso Felipe.

–Famoso?

–É Amy falava muito do irmão que estuda na Itália.

–Me deixem fazer as apresentações? – eles param e olham pra mim. — Obrigada. Essa é a Amy. Amy esse é o Felipe. – aponto respectivamente, eles sorriem. –Esse é o cara que possivelmente te de sua carta de alforria.

–Estou ouvindo. – ela diz animada

A conversa flui, e Felipe explica com detalhes como vai ser seu restaurante, o que Amy vai ter que fazer. Ela fica radiante ao saber que vai cuidar de toda a parte administrativa, e fica repetindo que vai ser chefe enquanto rimos dela. Por fim ela aceita o emprego, apesar de eu entender que ela vai trabalhar bem mais que onde ela está mas ela parece adorar a mudança.

Deixamo-la animadíssima pra pedir demissão e dizendo que agora eles vão ter que comprar outra escrava.

Passamos o resto do dia passeando pela cidade, paramos em algumas lojas de artesanato local pra comprar peças de decoração pro seu apartamento. Pelo fim de tarde paramos em uma cafeteria e comemos felizes.

–Ah meu Deus!- falo olhando no relógio.

– O que foi?

–Eu tenho prova hoje, e eu vou me atrasar. Estou morta!

–Vamos, eu te dou uma carona. – eu assinto, Felipe deixa dinheiro em cima da mesa, bem mais do que daria o café mas estou ocupada demais correndo pra questionar. Entramos no carro e ele acelera e quando percebo estamos na garagem do seu apartamento.

–O que estamos fazendo aqui?

–Você quer chegar rápido?

–Preciso.

–Então vamos rápido. — ele me puxa pela mão até mais a frente, me entrega um capacete e mota numa moto incrivelmente linda.

–Vamos de moto?

–Tem medo?

–Não. – sim! Subo na moto, e ele acelera.

Literalmente voamos até a faculdade, a moto era muito rápida e todos olhavam enquanto passávamos. Vejo Amy e peço pra ele parar. Ele me deixa e logo vai. Agora percebo que ela não está sozinha, Jack e todos os seus amigos estão me encarando com olhos arregalados eu paro em Alec que parece mais surpreso que todos.

–Felipe?- Amy pergunta sorrindo.

–Sim.

Falei com ela rapidamente eu fui pra sala. Faço a prova tranquilamente, às vezes meus pensamentos voavam pro dia com Felipe, fazia tempo que eu não tinha um dia tão feliz e depois quando cheguei o Alec me encarando com cara de espantado foi perfeito. Aquele garoto se acha, tudo bem que ele é lindo o mais bonito da turma em minha opinião, mas isso não faz dele o ultimo homem na terra. Falta vergonha na cara, senso do ridículo, falta conteúdo, falta alguém acabar com a marra dele.

Estava esperando Amy acabar a aula pra ir embora com ela, mas então pensei que ela sairia com Jack, e decidir ligar pro Felipe.

–Você já acabou a prova?

–Já. E tava esperando a Amy sair da aula mas..

–Em cinco minutos chego ai. — e desligou.

Ele chegou tão rápido que não deu tempo de contar. Ele parou a moto do meu lado e eu olhei pra ela direito, clássica apesar da visão moderna.

–Espero que não tenha ficado com medo, quando veio pra cá.

–É, pra falar a verdade não tenho uma experiência com motos.

–Então vamos, vou te mostrar o meu lado motoqueiro.

Pego o capacete e subo na moto, ele me leva pelas ruas da cidade com calma dessa vez. Eu apenas aprecio a vista, andamos pela praia e tomamos sorvete. Depois de um bom tempo conversando sentado na areia, decido ir embora então vamos até minha casa. Chegando em casa Amy está sentada no sofá em esperando com uma cara de gato molhado na chuva.

–O que foi Amy?

– O idiota do Jack acha que besteira minha sair de uma empresa grande como a Roberts pra trabalhar no restaurante do Felipe.

–Eu acho que alguém tá com ciúmes de mim. – diz Felipe ao entrar.

–Ciúmes? Você acha?

–É isso ou ele é um idiota mesmo? Se bem que uma alternativa não impede a outra. – ele ri logo depois dela. — Então é aqui que você se esconde? Pequeno igual você.

–Sou eu que pago, ok. – digo fechando a aporta e deixando as chaves no balcão. – Vem ver o resto.

Logo depois disso ouvimos um barulho da cozinha, e depois um grito da Amy. Corremos até lá e ela tá no chão da cozinha com a mão sangrando e vidro pra todo lado. Felipe me segura pra eu não pisar e com cuidado recolhe os cacos, eu vou até ela.

– O que você fez?

–Fui pegar um pote pra colocar o sanduiche mas ele caiu e eu me cortei.

–E está sangrando muito por sinal, vamos pro hospital. – diz Felipe examinando o corte.

–Você também é medico agora? – pergunta Amy com tom de deboche.

–Não só tenho experiência em cozinha. Demorei um pouco pra aprender a usar facas. – ele fala e mostra uma cicatriz no braço.

Saímos imediatamente no carro da Amy pro hospital. Tento estacar o sangue com uma toalha mais não para. Quando chegamos lá, minha roupa já esta toda suja e a dela também. Ficamos esperando até que a enfermeira veio até nós.

–Amy Klein está bem, mas vai precisar ficar em observação essa noite. Vocês podem vê-la, quarto 103.

Entramos no quarto e ela nos recebe com um sorriso apagado. Está tomando soro e a mão enfaixada.

–Tiveram que dar ponto, foi profundo. – ela diz.

–Tá doendo? – pergunto.

–Não muito, mas quem vai passar a noite aqui comigo?

–Eu né, pergunta boba. Só preciso que Felipe fique aqui até eu ir em casa trocar de roupa.

–Sem problemas. — Felipe diz.

Vou até em casa e tomo banho e visto uma roupa confortável. Volto pro hospital e dou de cara com o Jack falando com a recepcionista.

–Mindle, fala pro seu amiguinho sair de lá e deixar a minha Amy em paz, eu tenho que falar com ela.

–O que está acontecendo?- pergunto confusa.

–Ele disse que ela não quer me ver.

Entro no quarto e logo Amy grita:

–Não deixa ele entrar, eu não quero vê-lo.

Seus olhos estão cheios de água e ela segura pra não chorar.

–Felipe muito obrigado, mas agora você já pode ir.

–Ok, qualquer coisa me liga, qualquer coisa mesmo.

–Obrigada Felipe- Amy diz.

E da o recado pro valentão lá fora, diz que ele deu mancada e não vai ver ela. Pede pra ele deixar a gente em paz.

– Pode deixar.

...

No dia seguinte fui levar Amy em casa depois fui trabalhar, Felipe me ligou dizendo que queria sair e já tinha um lugar em mente, estou de calça, camiseta e sapatilha. Ouço a buzina da moto, fecho a porta e vejo seu sorriso com o capacete na mão.

–Aonde vamos? – pergunto subindo.

–Não muito longe, mas vamos chegar de moto que é pra dar o que falar.

–Felipe, sempre querendo ser o centro dos comentários.

Ele acelera mais logo para, em frente ao bar do Alec. Eu olho com receio pra fachada.

–Algum problema?- ele pergunta vendo minha cara.

–Como descobriu esse lugar?

–Observei quando vim te deixar, tem algum problema aqui?

–Não vamos. – não queria entrar mas também não podia desapontar Felipe.

Sentamos numa mesa de canto, a meu pedido, logo o bar começa encher, e Jack chega me olha, mas não me cumprimenta. Logo depois chega Alec que me encara incrédulo, eu aceno e sorrio provocando-o. Ele me encara e sai.

O show de sertanejo trouxe bastante gente e já está lotado depois de um tempo, quando a dupla se despede a turma começa a reclamar e logo Jack sobe em cima do palco e anuncia que o Karaokê está aberto.

–Algum voluntário? – ninguém se manifesta. –Então vou ter que dar uma sugestão. – ele olha diretamente pro Felipe, e eu começo a rezar. Não faça isso, não faça isso seu idiota! –O casal ali da ponta, vocês parecem ótimos cantores. – todos olham pra nós e eu me sinto mudar de cor umas três vezes, Felipe me olha com um sorriso e eu balanço a cabeça dizendo não sem som. – Vamos casal, subam aqui. – Felipe levanta e me puxa pela mão eu levanto de cabeça baixa.

Subo no palco e Felipe sorri e acena e eu só tentando me esconder. A musica começa e eu conheço a melodia logo a letra aparece no visor no chão. Jack sorri com satisfação lá do fundo, Felipe começa a cantar e logo as pessoas riem, Felipe sempre foi melhor cozinheiro do que cantor. Ele me olha com vergonha e diz sem som:

–Canta por favor!

Então eu começo todos se calam e voltam à atenção pra mim. Fecho os olhos pra não travar, lembro-me da mamãe falando como minha voz parecia de um anjo e isso me acalma, abro os olhos e vejo Alec com cara de bobo prestando atenção em mim. Me da vontade de rir, mas seguro. A musica acaba e no final todos batem palma e Jack sobe no palco com cara de poucos amigos. Saímos direto pro caixa, Felipe não para de me elogiar e eu ria sem graça. Eu gostava de cantar mas tinha muita vergonha.

–Mesa cinco. – Felipe diz e eu observo Jack no palco.

–108,40 reais. – reconheço a voz e viro, vejo Alec atrás da mesa.

–Não ganhamos desconto, minha musa arrasou no seu karaokê.

–Não. – ele diz serio e me encara. Felipe tira o dinheiro do bolso e paga.

–Pode ficar com o troco. – ele diz e antes que Alec reclamasse ele me abraça e saímos.

Subimos na moto, quando chegamos ao portão eu pergunto curiosa:

–Por que sempre deixa dinheiro a mais? Tá tão rico assim?

Ele fica pensativo e começa a rir.

–É um costume, na verdade quem não deixa é mal educado na Itália. – rimos e eu me despeço.