A baranga continua me encarando e eu não estou gostando nem um pouco disso, não que outras barangas não ficassem me olhando, mas essa em especial me irritava. Odeio o modo como ela desvia o olhar quando me vê, ou quando seus olhos param em mim com uma expressão surpresa quando nossos olhares se cruzam. Na verdade odeio ainda mais o fato deu ter me sentido envergonhado pelo meu comportamento no dia da inauguração do bar.

– Alec, onde você está ? – minha mãe grita do outro lado da linha – Prometeu que ia almoçar conosco! Você tem dez minutos!

Minha mãe desliga na minha cara e eu juro que o próximo que me acordar ligando no meu celular vai morrer. Me arrasto para fora da cama e tomo um banho rápido, em seguida me visto. Saio do quarto e em vez de pegar as chaves do carro, pego as chaves da moto de Jackson.

‘’Peguei sua moto, prometo que trago inteira’’

Depois de deixar o bilhete colado na porta da geladeira saio do apartamento. A Shadow vermelha reluz ao sol do meio dia enquanto eu vou para a casa dos meus pais que fica a dez minutos de casa.

A casa dos meus pais continua do mesmo jeito, o jardim na frente, as janelas gigantescas no segundo andar. Deixo a moto embaixo da sombra de uma árvore no jardim e me dirijo a porta, na segunda batida Ranfrey atende.

– Alec! – ele exclama e abre os braços.

Abraço o velho mordomo fortemente, ele ri quando eu o levanto do chão.

– Onde está a Mag e a Lena ? – pergunto.

– Na cozinha, as duas.

Mag é a cozinheira e Lena a arrumadeira, esses três são minha verdadeira família nessa casa. Meus pais raramente estavam em casa por causa do trabalho. Ranfrey me ensinou andar de bicicleta, Mag trocava meus dentes por moedas e Lena beijava meus machucados. Antigamente tínhamos uma piscina nos fundos de casa, ela era grande demais pra mim, com oito anos, nadar nela, então pedi ao meu pai pra me ensinar a nadar, no outro dia eu acordei e ele mandou que colocassem uma piscina menor ao lado da grande. Lembro que fiquei tão irritado que pulei na piscina grande, imaginando que ia aprender nadar sozinho. Se Ranfrey não tivesse pulado na água eu provavelmente teria me afogado. No dia seguinte após este, as duas piscinas foram tampadas.

Vou até a cozinha e encontro Mag e Lena cozinhando.

– Minhas meninas! – exclamo assustando-as.

– Alec! – elas gritam juntas.

Mag corre até mim e me abraça, ela é muito magra, os cabelos um dia castanhos estavam brancos, mas ainda era possível ver que era foi muito bonita. Quando me solta, Lena me abraça, Lena já é morena, os cabelos ainda pretos, ficando brancos, um pouco mais cheia, ela é casada com Fred, o jardineiro, que também faz parte da minha família. Fred deu uma rosa para Lena uma vez, que foi colocada em uma vaso, agora toda vez que a rosa começa murchar ela é substituída por uma nova. A rosa ainda está na janela.

– Anda, vai que seus pais estão te esperando – Mag diz.

Dois um beijo na alto da cabeça de cada uma e vou para a sala de jantar. Nunca gostei deste cômodo, ele sempre foi meio grande demais. A grande mesa no meio, o lustre no teto, as janelas no fundo.

– Filho! – minha mãe exclama e me abraça.

– Oi, mãe.

– Alec – meu pai diz da mesa.

– Pai – digo me sentando.

Basicamente o jantar foi silencioso como sempre, nós três parecemos estranhos sentados aqui, sem assunto algo pra conversar.

– Comprou um bar – meu pai diz de repente.

– Comprei, com Jackson.

– Por que ?

– Pra faculdade.

Mais um momento de silencio. Eu odeio isso, por isso nunca venho aqui.

– A namorada do filho dos Hapburn morreu – minha mãe diz.

– A magrela esquisita ? – pergunto.

– Ela estava doente, Alec – ela diz me censurando.

– Está explicado – murmuro.

– Você e Jason eram amigos. Deveria, pelo menos, dizer que sente muito.

– Nunca fui amigo do Jason.

– Claro que foi.

Dou de ombros e volto a comer. O final da refeição foi em silencio, quando acabei fui direto para fora.

– Alec ! – Ranfrey grita da porta e dá uma carreira lenta até mim.

– Sim – digo.

– Apareça mais vezes, estávamos com saudades.

– Claro, por vocês eu venho – sorrio.

– De uma chance a eles – Ranfrey dá um sorriso triste.

– Já tiveram muitas chances, Ranfrey, meu velho.

Abraço-o e vou embora. Não demora muito pra voltar pra casa, mas eu pego o caminho mais longo, a estrada que passa pelo cemitério. O sol da tarde reflete em um carro, e vejo que há alguém encostado no carro. É uma mulher, ela usa um vestido todo preto e ao lado do carro há uma placa de sinalização, o carro está quebrado.

Um pouco mais perto percebo que já vi aquele carro antes.

A baranga acena com os braço quando percebe alguém vindo, passo reto por ela e tenho certeza que ela me reconheceu. Olho pelo espelho retrovisor e vejo seu olhar de incredulidade.