Eu sabia que ela estava no banco porque eu tinha acabado de sair quando ela entrou. Ia dar partida na moto, mas minha cabeça começou rodar e doer.

– Não, não — resmungo.

Volto cambaleando para o banco, mas eu vez de entrar eu fico do lado de fora, tentando chamar a atenção da Mindle.

Ela segue as instruções de Jack, e quando a ambulância chega, tenho a impressão de que vou desmaiar a qualquer minuto.

– De zero a dez. O quanto esta doendo ?

Levanto nove dedos. Isso não era um dez. Um dez é quando dizem que você vai morrer a qualquer minuto sem aviso prévio. Procuro a mão de Mindle, quando acho ela permite que eu entrelace seus dedos nos meus. Sinto uma pontada aguda e os gritos que eu tentava não dar saíram todos de uma vez num som gutural.

– Sh! Calma! — Mindle levou a mão aos meus cabelos — Já vai passar.

– Alec, vamos sedá-lo...

Não foi preciso, outra pontada e eu desmaiei.

...

Abri os olhos e vi o teto do quarto do hospital. Senti algo na minha mão e quando olhei, os dedos frios de Mindle estava entrelaçados aos meus, ela estava sentada torta, havia adormecido e cabeça estava tombada em cima do braço que segurava minha mão.

Ainda sentia os reflexos das dores, minha cabeça doía um pouco.

– Mindle — chamei.

Ela levantou a cabeça e me olhou sonolenta.

– Que bom que acordou. Está melhor ?

– Bem melhor. Hm...Obrigado, por me ajudar.

– Não foi nada — ela diz no meio de um bocejo.

– Você devia ir pra casa, está cansada.

– Não, tudo bem, eu vou ficar mais um pouco.

– Se tem certeza...

Ela apenas sorriu, seus dedos ainda estavam juntos com os meus.

– Alec?

– Sim?

– Você vai me contar ?

– Não.

– Por que?

– Porque é pessoal.

– Você tem câncer ? — pergunta receosa.

– Não — sou obrigado a rir — não tenho câncer.

– Não é engraçado. É a segunda vez em menos de uma semana!

– Mindle — volto ao meu tom sério — não vou te contar. Não há nada para contar.

– Há sim. Mas estou cansada demais para discutir sobre isso.

Ela boceja de novo e deita a cabeça na maca.

– Você devia ir descansar.

– Tá, tá — ela diz balançando a mão livre.

– Toc, toc — Jack entra pela porta.

– Oi, cara.

– Oi. Como você tá ?

– Melhor.

– Mindle ? — Jack chamou.

– Fala, Jack.

– Você está péssima.

– Sua sinceridade é comovente.

– Estou brincando — ele diz rindo — você já ficou aqui o dia inteiro, vai pra casa descansar.

– Eu não esto...

– Mindle, ele está certo — digo.

Mas que horas eram ?

– Ok — ela diz depois de alguns segundos com um suspiro.

Mindle solta seus dedos dos meus e me dá um beijo no rosto.

– Tchau. Tchau, Jack.

Ao passar por Jack ela lhe dá um tapão na cabeça, sou obrigado a rir.

– Infeliz — ele resmunga se sentando onde ela estava — sua cabeça ainda está doendo.

– O que ? Não, não est...

– Está sim, você está fazendo caretas quando mexe muito.

Não respondo.

– Seus pais estão aí — ele diz — disseram que querem te levar pra casa hoje.

– Eu não quero ir...

– Eu sei, são um saco. Os dois, sempre foram. Mas você sabe, tudo isso... — ele aponta para mim na maca — está mexendo com eles, principalmente com seu pai. No outro dia você evitou falar com eles, e agora que passou mal de novo...Não sei cara, talvez vocês devessem conversar... Seu pai sabe o que você está passando...

– Me ignoraram por anos e agora...

– Se não quer ir por eles vá pelo Ranfrey, por Mag e Lena, estão doidos querendo saber como você está, aliás, estão todos aí.

Bufo. Uma enfermeira aparece e me dá alta, não há mais nada para fazer aqui. Quando chego na sala de espera todos estão lá, meus pais, Ranfrey, Mag, Lena...

– Graças a Deus! — Mag diz e me abraça.

– Está de esmagando, Mag — sorrio.

– Querido! — Lena exclama trocando de lugar com Mag.

– Estou bem, Lena.

Lena me larga e Ranfrey me olha com olhos molhados.

– Ah, garoto, você me assustou.

– Desculpa, Ran.

Ran me soltou e meus pais vieram até mim, minha mãe estava me examinando inteiro enquanto me abraçava e meu pai apenas me olhava.

– Está bem ? — ele perguntou.

– Estou.

– Melhor irmos para casa, precisamos conversar.

Não discuto, apenas vou para casa com eles. Jack se despediu de cada um e foi embora também. Em casa, meu pai me acompanhou até um escritório no primeiro andar, nos sentamos a mesa e ele me olhou, pensativo.

– Está bem ? — perguntou de novo.

– Estou.

Ficou em silêncio um tempo me analisando, depois olhou para a próprias mãos. Eu nunca vi meu pai desse jeito, tão...vulnerável, frágil.

– Sabe que apesar de ser um péssimo pai, eu te amo, não sabe ?

Se meu pai já tinha dito que me amava em alto e bom som? Nunca.

Assenti sem conseguir ter outra reação.

– Alec, dessa vez a coisa foi fei...

– Pai, para. Eu to bem. Eu não vou...morrer — digo — quero dizer, você viveu com isso até agora. Eu não aceito viver menos que você — digo sorrindo.

Ele força um sorriso.

– Eu queria ser mais presente...

– Não precisa.

– Preciso. Ranfrey foi seu pai. Mag e Lena suas mães. Eles são mais sua família do que eu e sua mãe, e eu sei que...isso é nossa culpa.

– Por favor, para de falar como se eu fosse morrer amanhã. Eu não sou o único com essa porcaria na cabeça — digo um pouco irritado.

Ele fica em silêncio.

– Me desculpa por isso — ele diz.

– O que ?

– Você sabe, é hereditário.

– Eu sei. Isso não quer dizer que a culpa é sua.

Ele assentiu.

– Pai — ele me olhou — não é sua culpa.

Ele assentiu de novo.

– Fique bem — ele disse por fim e se levantou — posso te dar um abraço ?

Eu me levantei e o abracei forte, do jeito que eu nunca fiz antes. Quando nos afastamos seus olhos estão molhados, ele se afasta e vai em direção a porta.

– Pai ? — ele se vira pra mim — Vai devolver meu dinheiro ?

– Não — ele sorri.

Incrivelmente eu sorrio de volta e assinto.

Subo para o andar dos quartos e me deito na cama que antes era minha, o quarto estava do jeito que eu tinha deixado, quer dizer, não estava exatamente do jeito que eu tinha deixado porque estaria uma bagunça, mas ainda tem uma bateria no canto e as miniaturas de carros clássicos ainda estão na estante de livros.

Quase adormeço.

– Filho ? — minha mãe me chama na porta. Ela tinha trocado a roupa do trabalho por um short jeans e uma camiseta da universidade que ela estudou — posso ?

– Claro, mãe.

Minha mãe vem até a cama e se deita ao meu lado, exatamente como ela fazia quando eu era pequeno e tinha pesadelos. Okay, ela fez isso uma vez, mas eu lembro disso. Ela esticou o braço e eu deitei perto dela enquanto ela passava a mão no meu cabelo.

– Te amo, querido.

– Também te amo, mãe.

Eu dormi com minha mãe cantarolando a musica que ela cantou naquele dia do pesadelo.