Notas iniciais
Yeva

Saber que Richard cantaria me deixara alegre, eu queria muito poder escutá-lo, Vlad estava comentando a cada instante que ver o amigo daquela forma era o melhor que poderia acontecer, eu concordava. Quando estavamos trabalhando era possível ouvir o violão e a voz desafinada que subia pela escada e entrava pelas frestas da porta. Minha irmã parecia estar sendo bem rigida em relação aos horários de treinos dos dois e as práticas das músicas antigas e que eu reconhecia como serem as mais famosas, lembrava da Yara cantando e ouvindo e dançando várias e várias músicas daquelas.

– É hoje — Richard se espreguiçou e aproveitou para terminar o café.

– Nervoso? — Vladimir perguntou.

– Não sei se nervoso, mas — ele me olhou — com medo...

– Medo? — eu o olhei — Eu já te ouvi sem você ter nenhuma prática, você está com medinho de eu te ouvir? — Yara e Vladimir riam.

– Não é medo, é... — ele pensou.

– Medo — falei rindo — Ei, Richard, se for problema então não te escuto, quero dizer, teremos um show daqui alguns meses, então, acho que posso esperar até lá.

– Nã... Não, Yeva, não quis dizer isso, eu só...

– Ela vai te ouvir — Vladimir falou rindo — Dá para ver no olhar dela.

Eu ri.

Nos arrumamos para sair, no carro um clima tenso, Richard se sentia nervoso em voltar a cantar, mas nós tentavamos animá-lo. Eu estava meio tímida em relação a ele, mas tinha tomado a decisão de ser como eu era com os outros, com Cítro eu era daquela forma mais relaxada. Para minha irmã ver aquilo parecia ser meio assustador, como se eu não conseguisse ser uma pessoa divertida.

Depois de montada a máquina fotográfica de Yara fomos para o quarto de Lara. Vladimir e eu ficamos de for,a podíamos ouvir a voz de Richard e acompanhar o comportamento da menina que parecia estar extremamente feliz por ouvir o irmão, ouví-lo me alegrava, eu sentia um rebuliço em meu estomago, um calor correr por minhas veias, e as lágrimas queimarem meus olhos como óleo fervendo. Limpei as primeiras lágrimas que escorreram, até que meus soluços foram aumentando. A música que o astro tocava se encaixava no que eu sentia, cada parte minha despedaçada parecia começar a se reconstruir, até que meu corpo não aguentou, eu explodi. Sem perceber dei um pequeno soco no vidro, empurrei Vladimir que abraçava meus ombros desde o primeiro instante em que comecei a chorar. Ele quase caira, mas pude ouvi-lo correr atrás de mim. Quase atropelei todas as pessoas que tentavam saber se eu estava bem. A letra da música circulava em um looping infinito em minha mente.

Estrei no banheiro com as imagens do acidente, o carro, eu me curvando o outro carro nos atingindo, no mesmo instante colidi com a pia, sentia a lateral do meu corpo doer, despenquei ao chão se tanto chorar. Meu corpo tremia, me encolhi em meus joelhos. O tremor foi abafado, olhei para quem me segurava, Vladimir me abraçava, eu o olhei, permitindo que ele se afastasse. Ele me encarou tentando entender o que tinha acontecido, contei a ele e depois de relatar percebi que estavamos no banheiro feminino, nós dois.

Vladimir me ajudou a levantar, me amparava enquanto encontravamos a dupla. Yara nos encarava, mas logo mudou a direção do olhar.

Na casa eu me sentia cansada, minhas lembranças me matavam de pouco em pouco, eu sentia falta dos meus pais.

Vladimir foi até meu quarto, eu não esperava encontrá-lo ali, o escritor se sentou a minha frente e aos poucos começou a me puxar para si, deitou minha cabeça em seu colo e começou a mexer em meu cabelo, ele falava para eu relaxar e esquecer tudo o que tinha acontecido. Cochilei em seu colo, sonhei com o acidente, acordei assustada, ofegando, Vladimir me olhou assustado, eu ofegava, ele pediu para eu relatar o que tinha acontecido, contei e ter aquilo tudo em minha mente me fez surtar, eu precisava tomar um ar, o quarto me parecia apertado. Respirei fundo tentando me recuperar, um apito indicando a entrada de um e-mail novo, peguei o celular e li, era da minha tia "É tudo mentira, sua mãe era uma safada e enganou a todos". Não pude resistir mais.

Corri pelas escadas, eu sentia os pés de Vladimir quase me pisando, mas quando saí percebi que estava sozinha, sentei na varanda sentindo o vidro gelado me atingir e refrescar minha mente e meus últimos soluços.

A porta abriu, olhei para quem saía, Richard me olhou parecendo preocupado, se sentou ao meu lado, e começou a perguntar sobre como estava a faculdade, se eu tinha voltado a ONG, e tantas outras perguntas que me fizeram esquecer do meu trauma, paramos de conversar quando não aguentavamos de tanto frio.

Acordei antes de todos, tomei a liberdade de começar a preparar o café. Cítro bateu a porta, abri para ele e lhe entreguei uma caneca quente, logo Richard desceu e pareceu se assustar em ver o amigo ali. Logo os empresários chegaram, achei aquilo estranho, mas quem eu era ali para falar que aquela reunião era esquisita... Servi uma caneca para Richard, os empresários negaram beber do meu café. Fiquei sentada nos bancos da bancada, os empresários começaram a contar.

Lara estava bem, porém após todas as visitas do dia anterior ela teve uma aceleração dos batimentos cardíacos, olhei para Richard enquanto ele escutava ao que diziam, Cítro estava apreensivo, os dois lado a lado, por algum instinto me posicionei entre os dois, era como se eu tivesse previsto o que aconteceria logo a seguir.

– Foi internada com urgência, fizeram todos os procedimentos para que ela se recuperasse — eu podia ouvir os soluços que subiam pela garganta de Richard — porém, ela não resistiu...

– Não! — ele gritou — Não! Ela estava bem, todos os dias que eu a visitei em nenhum ela teve complicações — ele se virou para Cítro, coloquei a caneca na bancada e segurei Richard — A calpa é sua, se você não tivesse ido visitá-la ela estaria bem, a culpa é sua, seu desgraçado, tudo isso é culpa sua.

– Richard, para... — falei o afastando de Cítro — Richard, para, não é culpa dele — eu tentei ficar de frente para ele, porém não obtive resultado.

A cada grito culpando Cítro eu me lembrei de quando recebi a notícia, eu gritava para Yara que a culpa da morte de nossos pais era o showzinho idiota para o qual ela tinha ido.

Os gritos vinham do lugar mais fundo daquele cantor, por alguns segundos me peguei pensando que aqueles gritos ficariam ótimos em uma música de heavy metal. Voltei ao que acontecia na sala.

Yara e Vladimir surgiram assustados na escada e Cítro começou a explicar o que era que realmente acontecia. A cada grito, Richard avançava um pouco e eu era arrastada, sentia minha meia deslizar pela madeira bem lustrada, droga, eu não ia conseguir pará-lo, não sozinha.

Ouvi-lo dizer que eu não sabia o que era perder alguém foi pior do que receber um golpe de bastão de beisebol na cabeça, eu me senti tonta, achei que poder apoiá-lo naquele instante seria bom, eu iria esquecer meus próprios problemas, mas nunca imaginei em receber um golpe traiçoeiro desse.

Subi a escada, bati a porta do quarto, eu podia ouvir os murmurios de todos lá embaixo, mergulhei o rosto no travesseiro, virei para as malas agradeci que voltariamos hoje agradeci demais, até Vladimir entrar na no quarto, fechar a porta e se deitar ao meu lado. Era estranho como ele estava atencioso comigo, mas eu sentia que a morte de Lara não seria boa para nossa relação, porém eu não tenho o poder de devolver a vida as pessoas, se tivesse teria frito isso há alguns anos, fechei meus olhos. Vladimir me abraçou e apoiou a cabeça no alto da minha, senti meus óculos entortarem, as lentes embaçadas como nas últimas horas me ajudou a relaxar e cair no sono.

Notas finais
Espero que estejam gostando :D