Notas iniciais
Eu voltei para casa, não iria a casa de Vlad, até porque ele não estava em casa. Droga! Como sou egoísta, pensei apenas em meu sofrimento, pensei apenas nas minhas lembranças doloridas e o abandonei, ele perdeu uma amiga, uma irmã, eu deveria tê-lo apoiado e não o fiz. Droga!
Joguei minha mala em um canto me joguei no sofá, eu queria que ele tivesse vindo atrás, queria que Vladimir tivesse vindo atrás de mim, mas ele não vir não foi uma surpresa, eu não viria. Adormeci ali deitada coma roupa de viagem a televisão ligada em algum documentário sobre elefantes. Acordei com meu celular vibrando indicando bateria fraca, levantei para conectá-lo, liguei o computador e resolvi ir trabalhar, peguei os documentos e lá encontrei a certidão de Richard, caramba, como o nome do meu pai poderia estar naquele papel velho? Digitei algumas páginas e larguei tudo, quando cheguei não peguei as cartas, desci até a portaria, peguei tudo o que era direcionado ao meu apartamento, uma das cartas era da minha tia, eu tinha ignorado todos os emails que ela me mandara. Abri a corta deixando as contas de lado, preciso arrumar emprego, não posso mais ficar parada.
"Você não me respondeu em nenhum dos dez emails que te mandei, então resolvi que uma carta seria lida. Recorri sobre o testamento de seu pai, o processo está em andamento, espero que fique na lama quando eu roubar tudo aquilo que é seu, com amor, sua tia querida."
Joguei a carta de lado e gritei um palavrão. Olhei as contas, peguei minha bolsa e saí de casa. Caminhei até o local onde minha irmã fazia uns bicos. O dono do bar estava no balcão ao me ver ele veio até mim, conversamos por alguns minutos e ele concordou com que eu trabalhasse todos os finais de semana, e não seria nada sério, apenas para que ele pudesse me ajudar, logo se eu precisasse faltar poderia fazê-lo sem problema algum, apenas tendo de avisá-lo para preparar a equipe.
Agradeci e voltei para casa, uma mensagem de Vladimir avisando que voltaria dali dois dias. Agradeci que poderia ficar sozinha, poderia pensar um pouco, eu precisava de mim comigo.
Levantei no dia seguinte pronta para ir a faculdade, minha mochila parecia mais pesada que o de costume. Na sala todos perguntavam como minha irmã estava, achei legal que todos se preocupassem com ela, mesmo que não fossem próximos, ela deveria saber disso. Mas também me perguntaram sobre Vladimir, diziam que eu e o professor tinhamos algum envolvimento e era uma grande mentira, apenas trabalhavamos juntos e nos tornamos grandes amigos, mas nada além disso, pelo menos, para mim.
Em casa trabalhei mais, rendeu bastante, agora não me distraia com nada.
Eu estava almoçando quando uma bandeja foi posta a minha frente, não prestei muita atenção ao que aconteceu, estava com meus fones, tinha gravado uma parte das anotações e tentava ver se tinha algum erro em minhas palavras. Ficamos em silêncio, eu e a pessoa, até eu me levantar e ver quem era, Vladimir me olhou como se já tivessemos nos cumprimentado e tivessemos conversando enquanto comemos.
– Algum problema? — ele perguntou.
– Eu só... Desculpa, não vi que era você. — falei voltando a me sentar.
– Tudo bem, percebi que estava distraída com algo importante — ele apontou para meus fones, pausei minha própria voz.
– Fez boa viagem? — perguntei.
– Foi bom, um pouco de turbulência, mas nada demais. E você?
– Foi bom, dormi todo o tempo. — dei de ombros, o olhei — E como eles estão?
– Ric está arrasado, proibiu Citro de ir até a casa, Yara em compensação está se dando bem com a banda e com os dois cantores, ela é boa no que faz.
– Eu sei — sorri.
Nos levantamos, conversamos um pouco sobre o que ocorreu no Canadá, e sobre o que fizemos separados, comentei sobre como o trabalho rendeu, mas não contei da carta, ele não precisava saber dos meus problemas, e nem ter maiores preocupações.
– Quer comer lá em casa? — perguntei.
– Acabamos de almoçar — ele falou rindo — Já está com fome?
– Sei lá — dei de ombros — Aproveito e te mostro o que já consegui fazer.
– Certo.
Entramos no carro.
No meu apartamento preparei pipoca, servi refrigerante e entreguei a ele meu notebook, ele olhou tudo que eu já tinha digitado. Fui para meu quarto tirar a roupa da faculdade, eu precisava dos meus moletons. Quando voltei ele lia a carta da minha tia, ele me olhou pelo ombro e pelo sofá, coloquei as mãos no bolso, desviei o olhar par ao filme que começara.
– Você não ia me contar sobre isso? — ele se levantou preocupado.
– Não. — falei pegando o pote de pipoca. — Não tinha porque fazê-lo.
– Yeva, eu vou te ajudar com isso — ele falou, parecia chateado.
– Não, você não vai, Vladimir. — falei, ele me encarou eu senti aseu olhar sobre mim.
– Vou sim, eu estou tomando conta de você.
– Não! — eu o olhei — Você não está e sabe por quê? Porque eu não preciso, estou com você porque estamos trabalhando juntos, mas e quando o trabalho acabar, você ainda vai me deixar dormir na sua casa? Ainda vai cuidar de mim? Eu acho que não, Vladimir,então — eu respirei — não faça com que pareça que você queira me ter ao seu lado até mesmo quando tudo isso acabar, ok?
Ele olhou a carta, e suspirou, sentou ao meu lado e me tomou a pipoca. Ficamos assistindo o filme, ele se deitou e dormiu. Coloquei um cobertor sobre ele e fui tomar café, o telefone tocou, atendi, a voz era inconfundivel.
– Que bom que agora tem gente em casa — minha tia — Achei que você só retornaria quando já estivesse sem nada.
– O que quer? — apoiei na pia.
– Apenas te dar um aviso, comece a empacotar sua coisas.
Ela desligou, desliguei e encarei o telefone, Vladimir já tinha acordado, ele me observava, estava curioso.
– Você está pálida, está tudo bem?
– Está, eu só... — o olhei e sorri — Nada, acho melhor irmos dormir, o que você acha?
Ele confirmou.
Arrumei o quarto de Yara para ele dormir, tinhamos planejado andarmos um pouco no parque antes de nos condenarmos a outra maratona de escrita. E precisava focar no trabalho e me programar para trabalhar sexta, sábado e domingo. Eu adormeci como uma delicada rocha faria após rolar toda uma montanha.
Sentei ao balcão, estava com o uniforme, tinha saído mais cedo da casa de Vladimir para poder me aprontar para o primeiro dia. Servi algumas mesas, aprendi a arrumar alguns drinks, os servi.
Voltei para casa para dormir e acordar para trabalhar com Vladimir.
Ele estava dormindo quando cheguei, uma das empregadas foi quem me avisou, sentei-me a mesa e esperei até que ele acordasse, nada aconteceu até as nove, era estranho, ele sempre levantava as sete, eu chegava as oito, o escritor reclamava que eu chegava tarde, mas não hoje, subi a escada, bati na porta do quarto, ninguém abriu, bati novamente, um grunhido, bati outra vez e avisei que ia entrar, Vladimir estava enrolado em três cobertores ele me olhou, não me via sem os óculos, seus olhos inchados o nariz era uma bolota vermelha, me aproximei dele e agachei ao seu lado.
– Você está bem? — ele grunhiu e se encolheu — Você está queimando de febre — falei assustada — Onde você guardo o telefone dos seus médicos?
Ele apontou para a mesinha de canto, fui até ela, peguei uma agenda, ele me olhou. Procurei pelo número e o digitei. O médico pareceu preocupado, disse que logo chegaria a casa. Pedi para a empregada levar um café para Vladimir, esperei pelo médico e o segui até o quarto. Ele fez alguns exames no escritor, acompanhei curiosa da porta, Vladimir me encarou.
– Como ele está? — perguntei.
– Bem, é só um simples resfriado — o médico sorriu — Obrigado por ter ligado, esse garoto tem a imunidade baixa, se fosse qualquer coisa mais grave ele estaria internado. — ele me entregou a receita médica — Dê esses remédios para ele durante sete dias e ele deve melhorar.
– Obrigada, doutor. — fechei a porta, liguei na farmácia e pedi para entregarem na casa.
Fui trabalhar, Vladimir tinha de ficar de repouso.
Levei a primeira dose de remédios, foi uma luta até conseguir convencê-lo de tomar qualquer um deles. Preparei uma sopa e levei para ele, que me zoou e dos meus dons culinários, mas logo dormiu apoiado em meu ombro, passei o braço pelo seu pescoço e o cobri melhor, ele dormia cansado e parecia sonhar com algo ruim, em alguns momentos grunhia ou fazia careta, o que era hilário para quem assistia, mas parecia doloroso para quem vivia.
Adormeci o admirando.
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