Notas iniciais
*Por favor...

-Mamãe... Porque meu nome é tão diferente? O que significa Aika? – A pequena garota disse com uma expressão preocupada e fofa. A menina de apenas cinco anos estava sentada numa cadeirinha enquanto sua mãe fazia uma linda trança em seus longos cabelos negros.

-Aika... Seu nome é Japonês. — A mãe da criança falou paciente e delicada.

-Japonês? Porque meu nome é japonês mamãe? – A pequena garota disse ainda mais confusa.

A mãe dela riu um pouco e disse com o mesmo tom calmo: — Sua avó era japonesa, ela morreu um pouco depois de você nascer... Ela me pediu pra escolher seu nome. No dia que você nasceu ela olhou pra você e disse: “Eu gosto do som do choro do teu bebê minha filha, o nome dela será Aika!”. — A mãe de Aika foi dizendo sem se importar e continuava penteando os cabelos da filha.

-E o que significa Aika? – Os olhinhos dela brilhavam em curiosidade e em seus pequenos e rosados lábios se formou um sorriso.

-Aika... Canção de amor. — A mãe de Aika falou em um sorriso.

-Serio? — Ela falou abrindo seu sorriso e se virando para olhar nos olhos da mãe.

-Hai.

1. Onegai... [Por favor...]

-Cadê minha mãe? -A garota que parecia ter seus 16 anos ficava repetindo e repetindo naquele corredor frio. As enfermeiras passavam, olhavam e sentiam pena. A menina não aguentando mais ser ignorada naquele hospital por todos os enfermeiros possíveis, acabou caindo na tentação de sentar na velha cadeira de plástico que lhe fora oferecida.

-Aika Nakazume Santos? — O medico falou num tom quase alto, quase baixo, sem vontade de realmente ter proferido aquele som. Nos seus olhos tinham cansaço e sua expressão era triste e pensativa.

A menina quase pulou da cadeira derrubando alguma coisa, seus olhos arregalados fitavam a pessoa vestida de branco a sua frente.

-Sou eu! — Aika disse um pouco alto demais. Suas mãos estavam meio tremulas e seu rosto um pouco pálido. Ela estava em casa três horas antes esperando sua mãe chegar, mas foi surpreendida por saber que sua mãe a única família que lhe restava tinha sofrido um acidente de carro.

-Você poderia me acompanhar Aika? — O médico disse com a mesma expressão tristonha, fazendo um gesto com a mão.

-Sim! — Ela disse medrosa, não queria ir, não queria ir... Mas foi. Seus paços um pouco infalsos, mas quase não se notava. Demorou um pouco até ver o cansado médico parar e dizer: “Entre!”. A garota estava cada vez mais nervosa ela meio que olhou o lugar, era uma sala branca, pequena e desarrumada que cheirava a álcool.

-Então... Aika. Qual o telefone do seu pai? — O médico disse tentando parecer simpático.

-Eu... Meu pai morreu há muito tempo atrás, meus avós... Toda a minha família... Sou só eu e minha Mãe. A senhora Akemi Nakazume. Então seja lá o que minha mãe tiver pode me dizer, eu vou entender completamente. — Aika falou tentando parecer o mais segura e firme possível.

Desde que se entendia por gente ela morava sozinha com sua mãe numa casinha pequena, mas acolhedora. Sua mãe sempre foi muito carinhosa e Aika nunca passou necessidades com nada. Ela sabia que sua mãe e seu emprego de professora, não podiam dar a melhor vida do mundo e por isso sempre compreendeu e ajudou sua mãe com os afazeres domésticos e com trabalhos de meio período.

-Aika... Você e sua mãe têm um advogado? — O médico falou um pouco apreensivo em discutir com uma garota de 16 anos.

-Nós... Bem... Nós nunca precisamos de um. Porque doutor? — Aika disse. Ela estava cada vez mais confusa, ela não queria explicar sua situação familiar nem saber sobre advogados e dinheiro, só queria saber se sua mãe estava bem.

-Aika... — O médico começou, mas travou ao olhar nos olhos esperançosos da garota. Ele respirou fundo tirou os óculos de grau do rosto e disse tristemente: — Aika... Eu não queria que fosse eu a te dar uma noticia tão difícil, mas infelizmente... A situação não me deixa escolhas. A senhora Akemi Nakazume... Faleceu. -

- Co... – A menina de cabelos longos e negros tentou terminar a frase “Como assim?”, mas sua garganta falhou. Aika Nakazume a menina que se fazia de forte e que sempre falava que tudo ia ficar bem. A garota que nunca perguntou o nome do pai para não magoar os sentimentos da mãe, a menina que com 12 anos começou a trabalhar em uma loja de conveniência para ajudar nas despesas e apesar de tudo sempre voltava com um sorriso pra casa. Sem nunca pedir nada em troca, sem nunca reclamar nem mesmo em pensamento, a garota que pensava que se trabalhasse duro e continuasse sorrindo tudo ia ficar bem. A garota que nunca teve um motivo sequer pra chorar a não de felicidade. Estava com seu coração partido em mil pedaços. Ela não escutava mais a voz do doutor, não escutava nem mesmo a própria respiração ela apenas continuava com seus grandes olhos castanhos abertos. Olhando o nada. Pensando em nada. As lágrimas começaram a cair e o desespero por conhecer um sentimento que nunca antes havia sentido fazia Aika tremer. Sua visão ficou escura e ela só conseguia escutar a voz histérica de alguém gritando “Emergência! Emergência”...

-É essa a garotinha? – Aika ouviu alguém com uma voz doce falar. Aika sentiu uma forte pontada no seu braço. Ela não sentia a menor vontade de tentar abrir seus olhos e a dor de cabeça aguda que ela estava sentindo não ajudava muito. Desde pequena Aika gostava das pessoas pela voz. Ela tinha esse estranho dom. Quando ela não gostava do som da voz de alguém ela não tinha muitas esperanças com relação à pessoa. A voz que ela mais amava escutar era a de sua mãe. E usando esse sexto sentido ela deduziu que a voz feminina que ouvia era de uma pessoa doce, bondosa e bonita. A curiosidade foi enchendo a mente e o corpo dolorido de menina, que sentiu uma enorme necessidade de abrir os olhos e olhar de quem era tal voz. Ela tentou abrir os olhos uma vez, mas não deu certo. Em vez disso a dor na cabeça ficou um pouco mais forte. Mesmo assim tentou de novo dessa vez uma imensa luz feriu seus olhos. Ela passou um tempo sem entender nada, até conseguir enxergar direito.

-Aika? – Uma mulher um pouco velha disse. Ela era a dona da voz doce, tinha cabelos pretos grandes e usava roupas bonitas, seus dentes extremamente brancos faziam os olhos de Aika doerem mais um pouco.

-Aika você já está melhor? – Uma mulher que tinha uma voz rígida disse através dos seus óculos.

-Sim... Eu já estou bem. – Aika disse baixo ao mesmo tempo em que movia seu corpo tentando se sentar. Ela sentiu uma pequena dor na mão e quando viu, sua mão estava enfaixada, mas ela não se preocupou com isso. Isso era o menor dos seus problemas.

-Bem... Essa é a senhora Martha! Ela é uma prima de sua mãe que nós conseguimos achar! Ela vai ser sua tutora de agora em diante! – A mulher de voz firme falou rapidamente.

-O que? – Aika falou confusa, ela não queria ir pra casa de prima, irmã ou tia nenhuma. Queria ir pra casa, a sua casa.

-Não se preocupe querida eu vou cuidar muito bem de você! – A mulher de voz doce falou.

-É... Martha? Desculpe, mas eu não duvido que você cuidaria muito bem de mim e eu agradeço muito sua generosidade, mas eu não vou a lugar nenhum! Eu tenho minha própria casa e... – Aika tentou terminar o pensamento, mas foi interrompida.

-Sua própria casa? Você é menor de idade Aika Nakazume e eu como advogada não deixarei uma criança morar sozinha. – A mulher com os óculos falou rudemente dando ênfase na palavra “criança”.

-Criança? Eu já trabalho e estou quase terminando meu segundo ano do ensino médio. Sei que tenho apenas 16, mas eu posso muito bem cuidar de mim mesma. – Aika falou firme olhando nos olhos da tal advogada.

-É mesmo? Pois eu tenho uma má noticia para a senhorita. A tal casa que você diz ter. Vai ser vendida para quitar dividas e mesmo assim a senhora Martha ainda vai ter que pagar uma quantidade alta por você e sua mãe. Não me importa se você acha que pode se cuidar sozinha. Você não vai e acabou. Se sua mãe não conseguiu te educar com qualidade não é minha culpa. — A advogada quase cuspiu olhando a garota com desprezo.

Aika já ia responder poucas e boas para a advogada que ousou tocar no nome da sua mãe, mas foi interrompida por um som alto e estridente de pele com pele e pela marca de cinco dedos na cara da advogada.

-Eu espero que a senhora daqui para frente escolha melhor a suas palavras! Eu pagarei com muito orgulho, seja lá o que Aika precisar e a casa dela será mantida sim! – Martha disse olhando com desprezo para a advogada.

-Isso é desacato a autoridade! – A advogava falou arrumando seus óculos que revelavam olhos furiosos por trás.

-Sim, eu cometi “desacato à autoridade” e você “abuso de poder”. Quem será que sofrerá mais conseqüências? – Martha disse com um sorriso sínico no rosto.

A garota poderia até rir se seu coração permitisse.

A advogada saiu do quarto com fúria ela sabia que não poderia fazer nada afinal a família de Martha era uma das mais ricas do país.

-Muito obrigada! – Aika disse baixinho para Martha.

-Sem problemas... Aika eu queria te dizer. Que sinto muito, muito mesmo por sua perda. Eu já perdi pessoas importantes também e sei como dói, mas eu quero que você fique na minha casa comigo. Eu vou te dar do bom e do melhor, vou te trocar de escola, vou te levar pra outro lugar. Te fazer conseguir viver com essa perda. Saiba que não é nenhum peso pra mim a sua vinda. Confesso que é repentino, mas você é bem vinda. Então Aika... Aceita morar com a tia Mah? – Martha falou de um jeito tão gentil que fez a menina chorar de novo.

-Sim... — Ela disse devagar e baixinho.

Martha limpou as duas lágrimas do rosto de Aika e lhe entregou um sorriso doce.

Quem sabe fosse melhor assim.

A Japinha se surpreendeu ao perceber que além de doce e corajosa, Martha era também muito feliz e ativa. Assim que ela saiu do hospital já estava em um carro preto grande que, aliás, já tinham suas coisas dentro. Deixou-se levar naquela paz estranha e nova, mesmo não sorrindo ela estava se sentindo um pouco melhor em ouvir sua tia tagarelar sobre sua escola nova e sobre como o uniforme era lindo.

-Aika você vai amar conhecer meus filhos! – A mulher falou sorridente.

-Você tem filhos tia Mah? – Estava curiosa sobre esse assunto afinal iria viver com essas pessoas daqui pra frente.

-Sim! Tenho três. Os três garotos mais bonitos que você já conheceu! – Martha falou animada.

-Serio? – A japonesinha se deixou sorrir pela primeira vez fazendo seus olhinhos puxados ficarem ainda menores.

-Sim! Eles são quase da tua idade. Tem o Lucas que tem 16 que nem você e vai estudar junto contigo. Ele ama cantar. Tem o Miguel que tem 18, mas não faz nada da vida, quer dizer ele toca vários instrumentos, mas não quer fazer faculdade nem nada, garotos. Eu ainda vou convencê-lo a estudar. Ele quer fazer uma dupla com Lucas imagina só. E tem o Felipe, ele tem 16 também, vai estudar junto com você. – Martha falava rápido de tão animada por perceber que Aika estava interessada.

-Nossa... Eles parecem ser boas pessoas! – A garota disse devagar.

-Sim eles são sim! São ótimas pessoas. – A tia disse animada.

Aika olhou para a janela do carro quando percebeu que a velocidade estava diminuindo e lá estava à casa dos sonhos de qualquer menina. Uma enorme mansão com dois andares cercada por um jardim enorme e belo. Abastecidos com uma família de quatro pessoas e vários e vários empregados.

-Chegamos Aika, essa é sua nova casa! – Martha disse.

-É linda! – Ela disse um pouco mais animada, agora que estava de fato lá estava meio tremula. Medo.

Martha desceu do carro feliz e foi andando até a grande porta que seguia de uma sala e depois uma grande escadaria. Aika se surpreendeu quando o homem bem vestido abriu a porta do carro para ela. Ela timidamente agradeceu e foi ate a parte de trás do carro pegar suas coisas.

-Aika o que está fazendo venha logo! – Martha disse parada no meio da porta.

-Eu só vou pegar minhas coisas! – A japinha disse apressada tentando desvendar como se abria o porta-malas do tal carro.

-Não, minha querida os empregados pegam! – Martha disse.

-Eu mesma posso pegar! – Aika disse um pouco mais aflita, não queria dar trabalho de jeito nenhum.

-Aika querida, por favor! – Martha disse meio ansiosa estendendo a mão pra Aika de longe.

Aika esqueceu suas coisas e em passos lentos foi até Martha e pegou sua mão. A mulher fazia questão de lhe mostrar tudo, era a maior casa que a menina já tinha visto. Tudo grande e bem decorado. Lindo. Então der repente a mais velha parou no meio do corredor.

-Então Aika. Esse será seu quarto! – Ela disse entregando uma chave a garota. – Eu sei como você deve estar confusa, cansada e triste. Então pode descansar o quanto quiser que amanhã nós terminamos de arrumar tudo. – Martha rapidamente seguiu pelo corredor se espreguiçando e deixando Aika para trás com a chave na mão.

Aika olhou para a chave por alguns segundos, meio que sem expressão. Agora que sua tia não estava ao seu lado tudo parecia tão vazio e silencioso. O que isso quer dizer? Ela sentiu uma lágrima escorrer pelo seu rosto, seguida de outras e outras. Não entendia. Porque estava chorando? Ela secou suas lágrimas e olhou a chave mais uma vez. Ela lentamente a colocou e rodou e então abriu a porta. O quarto era lindo. Com uma grande janela de frente para a porta com lindas cortinas que se mexiam com o vento e tudo tão bem organizado e lindo. Tinha um grande guarda roupa num rosa quase branco, e uma cama grande digna se princesa, com uma linda coxa rosa cheia de frufrus. Ela se permitiu sorrir e finalmente entrou no quarto, fechando a porta atrás de si. Precisava mesmo daquele tempo sozinha, já eram quase cinco horas da tarde e ela não tinha visto o tempo passar. Tudo o que foi acontecendo sem deixá-la respirar a fez não sentir dor, mas agora que estava sozinha quase podia ouvir a voz de sua mãe de novo, A voz que ela tanto amava.


Notas finais
E então? Um pouco triste né? T..T Mereço reviews?