Eu Pertenço a Você!
1 Eu pertenço a você!
Notas iniciais
Porque não importa quantos anos se passarem, eu vou sentir o mesmo frio na barriga e o nó na garganta quando te ver, aquele mesmo frio do primeiro toque, e o mesmo nó das palavras não ditas.
Já haviam passado nove meses desde a sua partida para a Europa e eu continuo aqui, esperando por algum dia que a sorte batesse a minha porta e ele voltasse. algo em mim esperava que isso acontecesse, alguma parte esperançosa que devo ter criado enquanto o tinha do meu lado. Porque eu sempre iria esperar por ele, mesmo sem notar, eu estaria esperando. Eu já me peguei tantas vezes imaginando esse dia. O dia que minha vida voltasse. As palavras não ditas estavam me sufocando, e a sensação de solidão estava me destruindo, esse amor, lindo, estava me destruindo. De certa forma meu lado de razão sabia que ele não iria voltar, mais o lado da emoção, o lado dele, tinha esperanças e elas não iriam morrer nunca.
O motivo das minhas noites mal dormidas, dos meus choros, do meu comportamento estranho e da minha mais profunda dor, chamava-se: Uruha.
Meu relacionamento com Uruha tinha que dar certo mais não deu. Até hoje as pessoas não acreditam que acabamos por nos separar sem motivos algum, talvez esses motivos não estivessem visíveis, mais existiam.
Nosso relacionamento já se início conturbado, por ele eu deixei minha namorada e minha heterossexualidade, e ele por mim deixou nada. Ele era livre e desimpedido, poderia sair daquele jogo de “Espera mais um tempo Uru, prometo que termino com ela” quando quisesse mais ele permaneceu.Demorei seis meses para decretar o fim do namoro e me assumir homossexual. Ele aguardou por seis meses pacientemente.
Então tudo estava perfeito. Eu havia deixado minha namorada, me assumido homossexual e tinha o amor da minha vida ao meu lado.
Não. Não estava tudo perfeito.
Uruha e eu sempre disputávamos o cargo de “chefe” no relacionamento. Brigávamos por coisas realmente idiotas. Para não mostrarmos que éramos dependentes um do outro, nós resolvemos que a indiferença iria falar mais alto. Abrimos feridas incuráveis um no outro. Feridas que duraram pra sempre.
A ferida que ele abriu no meu coração vai durar pra sempre, vai machucar por toda a minha vida, pouco ou muito, ela machucara. Mais eu quero que ela doa mesmo, que fira lá no fundo da alma, pra mim em algum momento infeliz da minha vida, lembrar que já fui feliz. Quero que as lágrimas corram pela minha face, desesperadas e ardentes, pra mim lembrar dos toques quentes que ele tinha. Quero que as feridas do nosso amor não cicatrizem nunca, só pra mim saber, quando elas doerem, que isso realmente existiu. Quero que aquela ferida de uma briga boba doa, pra mim lembrar do jeito que você me calava. Essas feridas que nosso amor construiu no meu coração, prova, que esse amor realmente existiu. Porque quando ele não me machucava, eu não amava, porque quando eu não chorava por ele, eu me sentia vazio. Eu não quero que elas cicatrizem jamais, porque, querendo ou não, te quero inapagável nas minhas lembranças e só essas feridas tão abertas podem fazer isso.
Eu sempre acreditei que quem havia me machucado tinha sido o Uruha. Que ele era mais grosseiro e frio do que eu. Outros diziam que não, mais quem iria jogar a culpa pra si mesmo? Eu? Eu não.
Antes de conhecer ele eu tinha uma imagem do amor totalmente falha, inútil, o amor na minha imagem era sutil e nada doloroso. Então ele, maldito ele, apareceu e desfez por completo essa doce ilusão que criava-se no meu coração e sabe o que é mais doentio? Eu gostei. Eu viveria submersa aquela dor se ele tivesse aqui, eu iria ao inferno e queimaria lá, se ele estivesse lá. Eu não desejava o céu, eu desejava o lugar que ele estivesse, se era o céu ou não? Pouco me importava. Mais ele tinha que estar lá, tinha que estar lá me esperando com os braços abertos. Porque ele me apunhalava sempre, mais cuidava depois. Ele fez tanto por mim, e eu queria ter feito tanto por ele, mais eu estava tão enrolado nessa nova projeção do amor que acabei por apunhalar ele e a mim mesmo com a faca mais afiada; a indiferença. Eu não fazia idéia do porque era assim com ele, eu tinha tanto amor pra dar, e não dava. Eu queria tocar ele com a mais pura inocência e delicadeza, eu queria sussurrar palavras lindas, e não fiz mais, eu tinha tantas pra fazer. No nosso relacionamento eu queria ser o forte, eu queria mostrar a ele que minha vida não estava rodando entorno dele, e ela não estava mesmo, ela era ele agora. Eu reclamo das feridas que ele me causou, mais agora, parado aqui, eu penso, quantas eu causei nele?
Às vezes acho que nós merecemos outra chance, mais ai eu paro e penso melhor, eu não mereço outra chance.
Eu queria, mais que tudo, dizer aquelas três palavras que o meu bebê ansiava por escutar. Eu devia ter dito.
Porque eu queria dizer tantas coisas pra ele, mais a verdade é que eu desejo com todas as minhas forças que um dia ele me veja passar, olhe nos meus olhos e veja tudo que eu desejava falar, só assim eu vou parar de chorar.
Ou talvez, eu não pare nunca de chorar.
— Aoi? Aoi, você ta me ouvindo? — Reita, meu melhor amigo, diz me tirando de todas as lembranças dele.
— Como? Você pode repetir? — Pergunto envergonhado por ter deixado-o falando sozinho. Ele revirou os olhos e voltou a encarar o computador a sua frente. Digitava rapidamente e murmurava algumas coisas incompreensíveis. Aposto que está me xingando. Reita não gosta muito de ficar no famoso vácuo.
— Ontem à noite, enquanto Ruki e eu jantávamos, decidimos por revelar a você que Uruha retornou a Tóquio na semana passada. — Diz sem desviar os olhos do computador.
Uruha retornou a Tóquio na semana passada. Ele está aqui, novamente.
Aquelas palavras de Reita invadiram meus ouvidos, estouraram meus tímpanos e fizeram meu coração dar um dos maiores solavancos da vida. Uruha havia retornado a Tóquio. A chance que eu tanto esperava havia aparecido, as palavras poderiam deixar minha garganta.. Eu poderia tê-lo novamente, pra sempre dessa vez.
— Hum — Me limitei a dizer.
Reita empurrou o teclado com força, fazendo-o bater contra o “pé” do computador, e me encarou bravo.
— Hum? É isso que tem pra me dizer Aoi? “Hum”, um maldito “Hum”! — Diz irritado gesticulando freneticamente com as mãos. — Que merda Aoi! Eu acabo de revelar que aquele que você diz que é amor da sua vida retornou e você me vem com uma porcaria de “hum”?
— Desculpe-me.
Reita não compreendia minha ação, nem eu mesmo compreendia. Eu tinha medo daquele amor. Tinha medo dele não me amar.
Eu queria saber os seus pensamentos, não por curiosidade, apenas pra acalmar meu coração e saber que já estive entre eles.
— Você é um merda, Aoi! Um puta de um merda entendeu? Estou aqui lhe dizendo que aquele filha da puta que você ama voltou, e você não vai fazer nada? Vai ficar se desculpando? Chego de desculpas, eu quero ação, Aoi, AÇÃO! — Grita, chamando a atenção de todos no escritório. Reita já estava em pé dando socos na própria mão.
— Ei será que as bichinhas podem dar a louca em outro lugar? — Perguntou Kai, um dos meus amigos e de Reita também.
— Não me chame de bichinha Kai, e cale essa maldita boca, não estou pra brincadeiras sem graça hoje, esse merda do Aoi acaba de descobrir que Uruha voltou à cidade e sabe o que ele me diz? Ele diz um merda de “HUM”. Escutei esse idiota reclamar por nove meses a ausência dele e agora ele me diz Hum!
— Uruha retornou a Tóquio? — Kai pergunta aproximando-se de nós.
Suspirei cansado. De algo Reita tinha razão, eu era um merda.
Senti mãos de Kai me pegarem pelo colarinho de me fazerem levantar. Tudo bem que sou mais alto que ele e estamos dando um vexame na frente de todos.
— Aoi.. O que está esperando? Quer que ele vá embora com outro novamente? Faça algo dessa vez, não deixe sua felicidade ir assim, de novo.
— Eu.. — Mordi o lábio inferior tentando conter as lágrimas imploravam para cair. — Você.. Acha que ele quer me ver Kai? Acha que ele me ama?
— Claro que ama, Aoi. Vamos, pegue suas coisas e vá até a casa dele. Se por acaso ele lhe der um pé na bunda, lembre-se que você tentou. — Kai disse me soltando e alisando minha camiseta. — Agora vai antes que a bicha louca do Reita mate você.
Ri.
Logo uma onda de confiança me invadiu. Kai estava certo. Reita estava certo. Eu sempre disse aos outros para lutarem por sua felicidade e então porque diabos eu não estava lutando pela minha?
Juntei minhas coisas e saí em disparada do escritório. O transito hoje conspirava a meu favor, pouco tempo depois, eu estava lá. Parado em frente a sua casa. Minhas mãos alisavam-se freneticamente, eu estava suando frio, meu coração iria voar pela minha garganta se eu esperasse mais um segundo sequer. Minha boca já estava seca, e o nó na minha garganta aumentava. Fiquei minutos me preparando apenas para tocar a campainha, e do nada, completamente do nada, a porta se abriu. Ele estava lá, mais lindo do que antes.
Os cabelos levemente úmidos. A boca entre aberta. Os olhos arregalados. A face retorcida em completo espanto.
— Aoi? O que faz aqui? — Pergunta indiferente. Uruha sempre foi bom em demonstrar ou não os sentimentos. E ele não estava, naquele momento, querendo demonstrar algum.
— Precisamos conversar — Digo caminhando para adentrar na casa, mais ele coloca seu corpo na frente, me proibindo de adentrar no recinto.
— Não. Nós não temos nada para conversar. — Diz olhando por cima dos meus ombros. Será que me encarar nos olhos dói para ele? Como dói pra mim.
— Errado Uruha, talvez você não tenha nada para me dizer, mais eu tenho muito que falar e não irei embora até dizer, agora com licença — Digo o empurrando levemente para o lado e entrando na casa.
— Tenho que ir ao super mercado — Diz de costas para mim.
— Tudo bem, eu espero você o tempo que for, mais embora eu não vou. — Me sento no sofá, relaxadamente.
Não vou correr, não dessa vez.
“— Por favor, não vá com ele.
— Por quê? Dê-me um motivo.
— Porque você não quer.
— Não é suficiente.
— Porque eu não quero também.
— Não é suficiente.
— O que mais é?
— O motivo verdadeiro para eu ficar onde estou e não entrar no carro. Três palavras. Sete Letras. Diga e eu sou seu, pra sempre.
— Eu.. Eu..
— Obrigada Aoi. Isso era tudo o que eu precisava ouvir. — Ele disse, e partiu. “
— Porque está aqui? — Pergunta ainda com a porta aberta.
Levanto-me e caminho até ele. Meus braços ficam envoltos da sua cintura, possessivos. Minha respiração bate contra a pele alva do seu pescoço e o vejo arrepiar com o gesto. Minhas mãos deslizam pelo tórax coberto dele, as mãos gélidas de Uruha tentam me parar, mais acho que podem desistir, porque não irei parar. Logo minhas mãos vão para o seu quadril e o aperto levemente contra mim.
— Porque estou aqui? Porque eu amo você. — Digo. Nossa! Se eu soubesse que era assim fácil..
— Você tem noção de quanto tempo ansiei por essas palavras? Dizê-las uma vez não vai me fazer voltar pra você. — Diz se afastando de mim e virando-se para me encarar. Olhos marejados e cheios de dor.
— Tudo bem. — Me aproximo novamente. — Eu te amo um, eu te amo dois, eu te amo três, eu te amo quatro, eu te amo cinco..
— Aoi! — Protesta não contendo mais as lágrimas..
— Eu sempre te amei, antes mesmo de te conhecer, eu sempre te amei bebê e sempre vou amar, goste você ou não. — Digo o puxando pela barra da sua blusa e colando meu corpo ao seu — Eu pertenço a você.
Eu acabava de assinar minha sentença de fraqueza. Minha armadura tão sólida e indestrutível acabava por cair aos pedaços. Meu coração agora não pertencia mais a mim, mais sim, a ele. Aquelas palavras demonstravam toda a necessidade que eu tinha quando se tratava de Uruha. Agora, todos poderiam dizer que eu dependia dele.
Ficamos com silêncio por um logo tempo. Nossas respirações mesclavam-se no ar. O cheiro dele ainda era irresistivelmente bom.
— E eu pertenço a você — Diz.
Palavras não se faziam mais necessárias.
Ainda é difícil para mim dizer as palavras \"eu te amo\", mas eu as direi agora.
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