Eu Odeio Gatos

2 Capítulo 1: Bola de Pelos


Notas iniciais
Confesso que ri muito escrevendo. Espero que gostem e peço desculpas pelo imprevisto que me fez demorar a postar. Beijinhos ♥

Nome: Amélia. Idade: 28 anos. Ocupação: Gerente de Telemarketing. Maior aversão: Gatos. Maior amor: Torrada com manteiga e geleia.

Sempre odiei terças. Poderia dizer que é como se eu acordasse com o pé esquerdo, mas seria muito pouco; desconfio que toda terça eu caio com o lado esquerdo inteiro no chão e volto sonâmbula de volta pra cama. É como se uma força maior dissesse “Sim, Amélia, pelo menos em um dia da semana você vai se ferrar mais do que nos outros”.

Esta terça, em especial, tinha tudo para ser uma de minhas piores.

Começando porque eu acordei completamente atrasada para o trabalho. Levantei com o cabelo todo emaranhado e me dei conta de que não tomara banho ou sequer separara a roupa na noite anterior. Pra piorar, dentro de três horas teria uma reunião extremamente importante com um gerente demoníaco.

Caminhando como um vampiro desnutrido enquanto pegava minha toalha largada no chão, me direcionei até o chuveiro, pronta para aquele banho matinal relaxante, que nos proporciona os famigerados minutos de devaneio.

Foi então que eu, no sentido mais literal da palavra, tropecei em um gato.

A minha vida inteira mantive pelo menos três metros de distância de todos os gatos do mundo, afinal eu tinha uma rinite pronta para atacar com qualquer poeira ou pelo flutuante no ar, o que me causava certa repulsa a eles e impossibilitava de todos os modos de encontrar um bichano desses em casa. Ou não todos...

O gato olhava para mim e eu olhava para o gato. Seus olhos meio amarelos, meio verdes me encaravam com um desdém tão grande que eu não me surpreenderia se ele começasse a rir da minha cara, mas ao invés disso ele sentou preguiçosamente e começou a lamber sua pata dianteira.

— Isso só pode ser brincadeira... – Exclamei irritadamente.

Após alguns minutos de surtos de desespero, peguei o bigodudo desajeitadamente e caminhei até a cozinha, carregando-o o mais distante possível de mim. Tentei soltá-lo cuidadosamente em cima da minha pia, mas ele se contorceu em meus braços e pulou diretamente para o chão.

“Em pé, que clichê.”

Peguei um pote de sorvete no armário e coloquei um pouco do meu leite de soja, para ver se o gato bebia e eu conseguia fechá-lo ali, para conseguir tomar banho.

Falho. O gato esnobou o pote como se aquilo fosse a coisa mais ridícula do mundo e caminhou com o seu andar pomposo até o sofá da sala.

Olhei para o relógio da cozinha e percebi que os 15 minutos de atraso haviam se transformado em uma hora, o que me fez olhar fulminantemente para aquela bola de pelos branca em cima de meu sofá. Eu definitivamente tinha que arranjar um jeito de me livrar daquela coisa.

Depois de tomar banho e me aprontar, peguei uma caixa de sapato qualquer e abri um monte de buraquinhos. Caminhei na ponta do pé em direção à sala e abri sorrateiramente a porta, vendo que o gato me aguardava em cima do sofá, deitado de barriga pra cima e rolando de um lado pro outro. Presumi que ele tinha pressentido que eu o colocaria na caixa e estava anunciando um ataque.

Eu tentei encostar no ser, mas ele tentou agarrar meu dedo brutalmente com aquelas garras amedrontadoras. Afastei-me em um pulo e, quando estava quase desistindo de pegá-lo, eis que o bigodudo derruba a caixa com a pata e pula pra dentro, como se fosse uma caverna incrível pra se desvendar.

— Você é estranho, gato. Realmente estranho. – Comento, fechando a tampa com o maior cuidado do mundo praquela fera não arrancar meu braço fora ou coisa pior.

Antes de eu fechar a tampa, o gato me lançou um olhar tristonho que, embora tenha sido completamente de quebrar o coração, ignorei. Coloquei minha bolsa tiracolo que sempre levava para o trabalho, peguei a caixa e saí em direção à porta. O gato não parava de miar, tinha um miado agudo e irritante. Meu nariz coçava, minha cabeça explodia e eu não tinha ideia do que faria com o bigodudo.

Cheguei ao trabalho, desesperada, e pulei pra fora do carro. O gato miara o caminho inteiro, sem cessar, já não aguentava mais. Entrei na empresa com a caixa debaixo do braço e rezando para ninguém ouvir os miados quase abafados pela caixa, exceto pelos buracos. Irina, minha subalterna, olhou de modo estranho para a caixa e abriu a boca para perguntar algo relacionado, mas logo que viu meu rosto de poucos amigos desistiu da ideia. Eu continuei caminhando e, assim que pisei em meu escritório, tranquei a porta, dando a deixa para o gato pular olimpicamente pra fora da caixa. Perguntei-me quando ficaria acostumada com essa coisa de felinos não se machucarem quando caem.

“Você não precisa se acostumar, Amélia, não vai ficar com essa coisa.” Pensei e afastei a ideia da minha cabeça imediatamente, dando lugar à de me livrar do bigodudo.

Deixei o gato caminhando pela sala, abri meu notebook e comecei a procurar locais de doação de gatos, grupos no Facebook sobre o assunto, páginas, blogs, tudo o que me vinha na cabeça. Já estava enlouquecendo, quando lembrei da vez em que vi a página de uma mulher louca que vivia com mais de trinta gatos e acabou por criar uma ONG. Imediatamente pesquisei sobre ela no Google e achei a fulana, retratada em um desenho onde era metade humana, metade felina. A personificação do pesadelo das rinites, a versão humana do ser que agora estava correndo de um lado pro outro em minha sala, atrás de uma bolinha de papel amassado. Encontrei o telefone da mulher e liguei. Assim que ouviu o tom urgente em minha voz, a mulher se comoveu e perguntou no que eu precisava de ajuda.

— É um felino, não sei mais o que fazer, socorro! — Exclamei ofegante. – Ele está correndo por todo meu escritório, bagunçando tudo...

— Espera, ele invadiu o seu ambiente de trabalho? – Ela indagou.

— Não, ele invadiu meu apartamento, eu não soube o que fazer com ele e precisava trabalhar, agora ele está...

Um barulho interrompe minha fala. O gato endemoniado jogou meu porta canetas no chão e agora me olhava com os olhos insanamente arregalados, aguardando a minha reação maquiavelicamente.

— Por favor, me ajude! – Implorei para a mulher.

— Moça, qual é o seu nome?

— Amélia. Amélia Peres.

— Amélia, você já teve algum animal na vida?

— Peixes contam? – Minha pergunta faz a mulher engasgar em uma gargalhada do outro lado da linha e eu fico realmente irritada.

— Olha, acho melhor eu ligar para outra instituição, muito obrigada. – Esbravejo.

— Não, senhora, perdoe minha falta de profissionalismo, é que eu realmente nunca vi uma situação assim. – Ela diz, se recuperando. – Sinto muito, mas estamos lotados no momento e não temos como realizar nenhum resgate, acho que agora o único jeito é procurar pessoas próximas que estejam dispostas a adotar um gatinho. Você tem algum familiar ou amigo que tenha filhos? Normalmente são os que mais se interessam com a adoção.

— Tenho, tenho sim. Você pode me ajudar com a divulgação? Pelo menos postar em sua página o caso, por favor? Eu realmente não posso ficar com esse negóc... Gato, desculpa, esse gato.

— Olha, eu posso sim criar um post, mas grande parte das pessoas que me acompanham já possuem gatos, então acho que é melhor você também comentar entre seus conhecidos. A senhora mora em prédio?

— Sim, moro, por quê?

— Você pode deixar cartazes, principalmente em elevadores e halls de entrada.

— É, faz sentido. Muito obrigada pela ajuda, deixarei meu contato por e-mail e uma foto da bola de pelos com você. Quando uma pessoa se interessar é só entrar em contato comigo e eu levo até a residência hoje mesmo.

— Senhora, a maioria das adoções leva pelo menos uma semana para ocorrer, acho bem improvável que o gato vá embora hoje mesmo.

Eu praguejei instantaneamente ao ouvir as palavras e rezei em nome de todas as entidades que conheci para que a mulher estivesse errada. Agradeci e desliguei a chamada, correndo para tirar foto do gato antes que ele terminasse de destruir meu escritório.

Postei imediatamente no Facebook: “Gato perdido na zona sul. Entrar em contato em (11) 99979797. Gosta de brincar com bolas de papel. Foto abaixo.”

Agora era só esperar alguém entrar em contato.

Notas finais
Não deixem de comentar o que acharam! Beijinhos ♥
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.