Eu O Mato,

1 Conto - Tédio


Notas iniciais
Tá, ok, eu realmente escrevi este conto quanto estava entediada. Ócio gerando algo bom para variar.
Algo sobre ele é que eu não soube exatamente em qual gênero colocar, mas Angst simplesmente pareceu certo.

Quando eles estão dormindo e tudo lá fora está quieto. Não há carros, música de baixa qualidade no último volume, não há vozes. É silêncio. Algumas pessoas não sabem fazer silêncio. Elas gritam ao mundo as suas merdas, expõem o desnecessário e esquecem toda a essência do silêncio. Elas não o entendem. Mas tudo bem, está quieto.

Mas às vezes nem o silêncio é o bastante.

Falta de atividade.

Inércia.

Tédio.

Chama-me de Rodrigo. São quatro e cinco da manhã. Está escuro e silencioso lá fora. Aqui dentro também. Não há nada para fazer, eu me entrego ao tédio. Ele me ama, eu o adoro. Somos um casal perfeito. Ele me completa.

Eu encaro o teto do quarto e imagino se não há nada para fazer. Realmente, eu preciso fazer algo, o tédio, eu o adoro, mas eu preciso de espaço. Eu preciso de ar. Eu o adoro, mas não o quero por perto todo o tempo. É assim que relações são, não é? Juntos o tempo todo não deixa espaço para saudade. Saudade é bom, é uma dor boa. É uma dor necessária.

Algumas dores são necessárias.

Tendência de amor-dor.

Ele me ama, mas ele me causa dor. Eu terei que matá-lo.

Eu mato o tédio para ele não me matar.

Sair do tédio não é algo fácil. Exige-se uma situação, algo interessante. Então eu me levanto e percorro meus olhos pelo quarto. As coisas erradas escondidas, eu as perco. Enlouqueço tentando fugir desse amor doentio. Ele tenta me prender, as correntes ao meu redor e me sufocam. Eu canso. Eu quero desistir.

Continuar é a saída.

Faça o seu coração bater.

Faça a sua respiração valer a pena.

Fuja do tédio para que a batida seja recompensada.

Inércia mental. Perda. A merda que a vida trás. Pés descalços nas escadas, fones nos ouvidos, chá mate com hortelã. Silêncio. Passos mudos pela varanda, subindo em móveis para chegar ao alçapão do sótão. Escuridão maldita que me cega e me amedronta, ela é nada, mas o racional tornou-se idiota. A razão foge pelos poros e nada mais faz sentidos. Como religião, esse medo me torna animal irracional. Mas o que é o medo senão a novidade?

Passos incertos neste piso frio que me alegra. Uma batida ali, uma queda aqui, eu levanto, eu me supero. Esse devia ser o ideal humano: superação. Eu tenho o isqueiro para me iluminar o caminho, mas para que finalidade? Uma ajuda quando posso fazer algo sozinho? Não é orgulho, não é ego, eu apenas tenho fé em mim.

Eu chego ao meu destino: o telhado. Eu me sento e observo o céu acima de mim. Neste momento somos apenas nós. O resto não passa de matéria.

Meus ouvidos com música e nada mais é perfeito, o chá é levemente ardido e a nicotina torna-se deliciosa. As estrelas, longe, tornam-se perfeitas. A lua é o centro. O tédio se foi.

Eu o matei para ele não me matar.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!