Notas iniciais
Boa leitura, tchutchuquinhos ♥

Oi, Miranda. Antes de qualquer coisa, me desculpe por essa letra horrível. Eu teria escrito isso tudo no Word, mas lembrei de que você vivia reclamando de como a tecnologia tirava o encanto das coisas. Então sinto muito, mas terá que aguentar essa letra que deixa qualquer médico com inveja.

Pensei inúmeras vezes sobre o que escrever aqui. Você me contou uma vez que gostava de extravasar seus sentimentos através de cartas que nunca seriam enviadas para alguém. Na época eu achei aquilo bobo, confesso. Mas é isso que estou tentando fazer no momento. Extravasar os meus sentimentos através de uma carta. Mesmo que minha voz racional e cética repita incessantemente que isso é inútil. Escrever uma carta te trará de volta pra mim? Pergunta ridícula e retórica.

Eu realmente não sei como fazer isso. Você provavelmente irá revirar esses seus olhos perspicazes — aquela palavra difícil que você me ensinou, lembra? — e me dizer que não é assim que se inicia uma carta, mas nós dois sabemos que eu nunca terei um terço daquela sua inteligência que muitas vezes me intimidava. Ora, a quem eu quero enganar? Garota, você me intimidava o tempo todo e eu... adorava isso.

Acho que eu poderia passar todos os dias da minha vida apenas te ouvindo falar difícil e discursando sobre livros intelectuais dos quais eu nunca ouvi falar. Porque nós dois sabemos que todos os livros que li foram por obrigação, aqueles que os professores me obrigavam a ler, sabe? É impossível não me lembrar da sua expressão indignada quando ouviu essa frase ser proferida, orgulhosamente, por mim. — e olha, estou falando, ou melhor, escrevendo difícil! Acho que foi a convivência com você. Ou talvez eu tenha pesquisado um pouco no dicionário online pra te impressionar.

Eu lembro, como se fosse hoje, o dia que te conheci. Lembro, na verdade, de todos os dias que eu passei ao teu lado.

Eu não queria morar em Búzios. Largar a agitação do Rio, meus amigos e tudo a que eu estava acostumado? Não, obrigado. Mas o que um adolescente de dezessete anos, dependente dos pais, poderia fazer nessa situação? Nada, óbvio.

Então passei o caminho inteiro com fones de ouvido, emburrado, sem querer conversar com ninguém. Minha atitude foi tão ridícula que é até vergonhoso escrever sobre isso, mas... sei lá! Estou colocando aqui tudo que surge na minha cabeça, então não repare as minhas bobagens.

Nossa nova casa ainda não estava pronta e por isso ficaríamos hospedados em uma pousada por alguns dias. Chegamos à tal pousada e meu pai e eu pegamos as malas enquanto minha mãe e irmã se encarregavam de buscar as chaves dos nossos quartos. Elas estavam demorando e isso, somado à minha irritação imatura de antes, fora o bastante para me fazer bufar a cada cinco minutos, com exagero e tudo.

Fiquei olhando ao meu redor, sem muito interesse, porque o meu egoísmo era grande demais para me permitir apreciar a beleza do local. E então, quando eu menos esperava, você apareceu no meu campo de visão e eu fiquei encantado com sua beleza. Tudo à minha volta pareceu sumir, ficar em segundo plano. Até mesmo a música alta em meus fones de ouvido eu já não ouvia mais.

Sim, eu sei que isso é extremamente clichê, mas não posso evitar.

A primeira coisa que prendeu minha atenção foi o seu cabelo azul. Eu nunca tinha visto ninguém com o cabelo colorido e eis que você me surge com aquele azul claro que em você ficou lindo. Ele destacava sua pele branca e os seus olhos castanhos. Para ser sincero, sempre achei castanho a cor mais sem graça, mas em você parecia ser a tonalidade mais linda do mundo. E eu tenho ciência de que pareço uma garota de treze anos falando de algum ídolo de uma boy band, mas o que posso fazer?! Você sempre teve a capacidade de trazer à tona um lado da minha personalidade que eu mesmo não conhecia.

Você estava sentada no chão, de pernas cruzadas, debaixo de uma árvore, aproveitando a sombra que ela lhe oferecia. Usava um short jeans e camiseta preta, grande demais no seu corpo. Assim como eu, também estava com fones de ouvido e muito concentrada na sua leitura. Por incrível que pareça, eu realmente me lembro da roupa que você usava.

No meio daquela correria, pessoas andando pra lá e pra cá, você estava sentada tranquilamente, lendo aquele livro que adorava. O Pequeno Príncipe. Claro que eu não sabia o título naquele dia, mas você me contou depois. Aliás, você andava com aquele livro o tempo todo. Eu achava isso muito curioso. Para mim, uma pessoa não muito adepta da leitura, ler o mesmo livro diversas vezes era pra lá de estranho. Eu quase posso sentir suas mãos pequenas distribuindo tapas no meu ombro no dia que eu te disse isso. Ou melhor, quando eu disse que uma garota de dezoito anos era velha demais para ler um livro de criança. Caramba, você quase cortou relações comigo e depois me deu um sermão, me falando o quanto Antoine de Saint-Exupéry era incrível e que eu deveria respeitar suas obras.

Você me atazanou um bom tempo pra ler esse livro e eu nunca cedi. Sua mãe o deu para mim depois que você foi embora. Ele está com suas anotações e alguns trechos coloridos com o marca-texto rosa. Confesso que me recusei a tocá-lo durante um bom tempo, mas ele ficou ali, olhando pra mim e eu podia ouvir sua voz me dizendo: “você poderia lê-lo qualquer dia desses...”. Então, durante uma madrugada insone, eu o abri e comecei a ler sem muito interesse.

Você ficaria feliz se eu te dissesse que hoje, O Pequeno Príncipe é o meu livro de cabeceira? Eu o carrego comigo pra todo lugar. As aventuras daquele garotinho loiro me conquistaram. Parte pelo livro ser realmente muito bom. Mas o meu apego maior se deve ao fato de eu me sentir mais perto de você cada vez que leio e vejo sua letra pequena em algum canto, com suas observações sobre determinado trecho.

Apesar de morar no Rio de Janeiro a minha vida toda, eu nunca tinha sido um adorador de praias. Mas depois que te conheci, até mesmo a areia grudada no corpo era motivo de alegria pra mim. Foi na praia que tudo aconteceu. Foi na praia que eu finalmente falei com você pela primeira vez, depois de passar dias te observando pela janela do “meu” quarto.

Era o meu passatempo favorito. Te observar. Tudo o que eu mais queria era me aproximar de você, mas eu não fazia ideia de como colocar os meus desejos em prática. Você estava o tempo todo absorta — mais uma palavra difícil que aprendi com você — naquele livro, que eu tinha receio de te atrapalhar. Então eu me contentava em apenas te olhar. Minha vida naquela pousada se resumia a isso: te olhar todos os dias. Eu fingia ainda estar chateado com os meus pais, mas, no fundo, aquilo nem mexia mais comigo. A única coisa que me importava era poder de te ver. E só agora me dou conta de que eu me parecia com um maldito voyeur. Vergonhoso.

Então um dia você não estava lá, e isso foi o suficiente para estragar o meu humor. Eu resolvi sair da pousada e conhecer um pouco de Búzios, tentando de alguma forma parar de pensar em você. Não preciso dizer que foi uma tentativa fracassada.

Fiquei andando sem rumo por um bom tempo, até que parei num pedaço deserto da praia. Eu me sentei na areia e fiquei observando a imensidão do mar, curtindo o silêncio que aquele local me proporcionava. Estava tão perdido em minha própria mente que só te ouvi quando você já estava ao meu lado e se pronunciou.

“Você está no meu lugar, intruso.” Sua voz arisca me sobressaltou, e acho que nem preciso dizer que você me assustou, não é mesmo? Tenho certeza de que se lembra muito bem do pequeno show assustado que dei naquele dia.

“Não vi nenhum nome por aqui,” eu retruquei, um pouco irritado pelo seu ataque de riso.

Você bufou, revirou os olhos e posicionou sua cadeira de praia quase colada ao meu corpo. Fincou a haste do guarda-sol e, deliberadamente me ignorando, sentou-se e começou a ler. Eu reconheci a capa do livro. Aquele que eu sempre via na sua mão. Sim, O Pequeno Príncipe.

Eu vi naquele momento minha chance de me aproximar de você. Dane-se que você tinha rido da minha cara assustada, eu estava finalmente com minha chance em mãos, não poderia desperdiçar.

Mas você não me deu trela. Não respondia a nenhuma das minhas tentativas de conversa, e, como o moleque que era, comecei a cantarolar a primeira música irritante que me veio á cabeça.

“Diga aonde você vai, que eu vou varrendo. Diga aonde você vai, que eu vou varrendo. Vou varrendo, vou varrendo, vou varrendo...”

Quanto mais eu cantava, mais vermelhas suas bochechas ficavam e com mais força você folheava as páginas do livro.

“Pare de cantar essa maldita música!” você gritou.

Contive minha vontade de rir e assumi a melhor expressão ultrajada que consegui naquele momento e disse:

“Não fale assim da minha música favorita!”

Eu ainda não consigo aceitar que você realmente tenha acreditado que Dança da Vassoura era a música que eu mais gostava de ouvir, porque... sério? Existe alguém que realmente classifique essa canção como sua favorita? Mas minha pequena mentira valeu a pena. Poder apreciar sua indignação? Melhor momento ever! — e sim, eu acabei de falar/escrever como minha irmã caçula, e confesso que fiz isso apenas para arrancar um sorriso seu.

Como o bom PhD em pentelhice, eu te disse que só pararia de cantar se você conversasse comigo e, soltando um sonoro e exagerado suspiro, você cedeu às minhas tentativas. Quando nos demos conta, tínhamos passado quase o dia inteiro ali, conversando sobre tudo e sobre nada ao mesmo tempo.

Depois disso, a gente passou a se encontrar todos os dias. Por insistência minha, é claro. Eu admito que te seguia como um maníaco. Acordava cedo, me arrumava e ficava olhando pela janela, aguardando você sair. No fundo, acho que você sempre soube disso, não é?

Sei que estou escrevendo coisas um pouco sem nexo, coisas que você já sabe do que se trata, mas é a única maneira que encontrei de criar essa carta pra você. O que poderia colocar aqui? Pedir pra você voltar? Você não atenderia meu pedido, teimosa como sempre.

Passamos todas as nossas tardes juntos. Você me contou que morava ali e que seus pais eram os donos da pousada. Aí eu entendi o porquê de você dedicar o seu tempo às suas leituras ao invés de aproveitar a praia. Já estava acostumada com aquele paraíso. Eu te contei minha recusa inicial de ir para Búzios e que muitas vezes os meus pais me irritavam pra caralho. Você me corrigiu pelo palavrão e, olhando no fundo dos meus olhos, disse que eu deveria dar mais valor às pessoas ao meu redor. Seu tom de voz estava tão sério que não abriu espaço para nenhum questionamento ou brincadeiras bobas da minha parte.

Não sei se te contei isso, mas quando voltei pra pousada naquele dia, a primeira coisa que fiz foi abraçar os meus pais e minha irmã. Nós jantamos juntos e, quando estava rindo de alguma piada contada pelo meu pai, eu percebi o quanto tinha sentido falta daquilo. De apenas curtir minha família. De dar mais valor às pessoas ao meu redor. Obrigado por isso Miranda.

Os dias passaram rapidamente, e quanto mais perto de você eu ficava, mais meu encanto aumentava. Você era, de longe, a garota mais diferente que eu já tinha conhecido na minha curta vida. Inteligente, com um humor ácido, sempre tinha uma resposta na ponta da língua. Não tinha frescuras típicas de garotas da sua idade, como fugir da chuva para não molhar o cabelo. Muitas vezes — sempre —, eu me sentia um idiota ao teu lado. Sei que já disse isso, mas sua inteligência me intimidava.

Sabia que foi isso que me motivou a me dedicar aos estudos? Hoje sou considerado um dos melhores alunos da classe. Incrível, não é? Sempre penso em você e na sua inteligência intimidante quando tem prova de física. Você sabe que nunca gostei dessa matéria, mas então eu me lembro do seu rosto animado quando me falava sobre a teoria da relatividade. Eu estaria mentindo se dissesse que a matéria em questão entrou para o meu hall de favoritos, mas gosto de imaginar que você ficaria orgulhosa de mim por, pelo menos, me esforçar para entender o assunto.

Finalmente minha casa estava pronta e minha família e eu nos mudamos. Não era muito longe da pousada, mas você disse que não queria que eu fosse te visitar. E não me explicou o porquê. Pediu meu telefone, eu te passei o meu número e você se recusou a me passar o seu. Mas não estranhei. Você gostava das coisas do seu jeito, eu não tinha a menor chance. Nunca tive.

Criei o péssimo hábito de roer as unhas, que na minha cabeça era a única coisa que eu poderia fazer enquanto esperava uma possível ligação sua. E você não ligou.

Uma. Duas. Três. Quatro semanas. Um mês e eu já estava a ponto de enlouquecer. Nada me divertia. Nada prendia minha atenção.

Sim, eu poderia ter ido até a pousada, ter ligado o foda-se e deixado de lado sua “ordem”, mas sempre que eu pensava em ir, acontecia alguma coisa que me impedia. Até que eu simplesmente decidi deixar que o destino resolvesse minha situação. Sei que você nunca acreditou nisso de destino... às vezes eu também não concordo muito, mas nós, seres humanos, temos essa mania de colocar as coisas nas mãos do destino sempre que alguma situação foge do nosso controle. Eu não poderia ser uma exceção à regra.

Já tinha perdido minhas esperanças completamente quando do nada o meu celular apitou, com aquele barulhinho de uma nova mensagem, aquele som que você odiava, lembra? E meu coração, por mais piegas que isso possa soar, quase saiu pela boca quando li suas palavras, curtas e grossas, assim como você.

Búzios. Luau. 13 de março, às 19 horas. Não. Se. Atrase. M.B.

A única coisa que me impediu de gritar de alegria naquele momento foi o fato de já ser madrugada e todos da casa já estarem no sétimo sono. Eu fiquei lendo e relendo aquela mensagem, o sorriso pateta nunca abandonando o meu rosto.

Por falar nisso, sabia que guardo até hoje todas as mensagens que nós trocamos? E talvez eu também as tenha anotado num pequeno bloco de papel, mas isso eu nunca assumirei publicamente.

Eu passei todos aqueles dias que antecederam o luau praticamente morrendo de ansiedade. “Fico Assim Sem Você” foi trilha sonora da minha vida naquele período.

13 de março finalmente chegou e trouxe com ele uma ansiedade nunca antes sentida. Com o coração aos pulos e me perguntando quando tinha me tornado tão molenga, eu fui ao seu encontro.

E toda minha saudade, tudo que senti longe de você, tudo, absolutamente tudo, valeu a pena no momento em que eu te vi.

Miranda, você estava tão linda que mais parecia um anjo, uma miragem, alguém saído diretamente de um conto de fadas. E sim, pode revirar os olhos. Você sempre fazia isso quando eu começava a ficar meloso demais. Uma mania sua que me irritava. E hoje, tudo o que eu mais queria era ver esses seus lindos olhos se revirando pra mim.

Você usava um vestido longo e branco, com alguns detalhes no que acho ser renda. Uma tiara de flores enfeitava o seu cabelo, que estava rosa claro. Mais linda impossível. Quando me viu, sorriu largamente pra mim e veio em minha direção. Lembra que nós ficamos em silêncio, apenas olhando um para o outro? Eu queria dizer que tinha sentido sua falta, queria dizer tantas coisas, mas nada parecia apropriado no momento. Então você me abraçou e ficamos parados ali, apenas curtindo o aconchego que aquele abraço nos proporcionava.

Alguém gritou o seu nome, nos tirando daquele momento. Você segurou minha mão e me arrastou pela multidão, cumprimentado algumas pessoas, me apresentando para os seus amigos.

Uma roda foi feita em volta de uma enorme fogueira, e alguns se sentaram em tocos de árvores, pedaços de madeira e bancos dobráveis. Eu optei por me sentar na areia e você me acompanhou, se sentando ao meu lado.

Havia um violão e alguém o tocava, mas tudo em que eu conseguia prestar atenção era você.

Em um timing perfeito, Apenas Mais Uma de Amor começou a ser tocada.

Eu gosto tanto de você
Que até prefiro esconder
Deixo assim ficar
Subentendido

E foi como se naquele instante, um filme de nós dois passasse na minha cabeça. Eu tentei, mesmo que involuntariamente, camuflar os meus sentimentos, mas ali, naquele momento, estava mais claro do que nunca tudo o que eu sentia por você. Tudo o que eu sentia desde o primeiro dia que te vi. Tudo que eu sentia e que preferi deixar... subentendido. Até mesmo pra mim.

Eu sentia o seu olhar me perfurando e te encarei de volta. Sua expressão era indecifrável e creio que a minha também era. Ficamos naquela disputa de “quem pisca primeiro” e você perdeu. Fechou seus olhos fortemente e quando os abriu, eles estavam rasos e úmidos. Abri a minha boca para perguntar o porquê do seu quase choro, mas você balançou a cabeça negativamente e se levantou. Sua mão se estendeu na frente do meu rosto, num convite mudo, me chamando para dançar.

O violão tinha sido posto de lado e a música que tocava era outra, saindo de um pequeno rádio.

Nada foi dito. Meus braços envolvendo sua cintura, seus braços envolvendo meu pescoço, nossos olhos conectados enquanto nos balançávamos no ritmo lento da canção.

“Essa é minha música favorita, sabia?” você sussurrou.

“Qual o nome?”

“Wait.”

Eu nada disse e você começou cantar baixinho.

“Give your tears, to the tide, no time, no time...”

Fiz uma nota mental de pesquisar a tradução da letra, pois, ao contrário de você, eu não sabia falar inglês. Mas comecei a fazer o curso! Legal, né?

Traduzi o pequeno trecho que você cantou:

Dê suas lágrimas
Para a maré
Sem tempo
Sem tempo

Naquele momento, você já queria me dar uma espécie de aviso? Você já deveria saber que eu não era esperto o suficiente para captar mensagens subliminares.

Meus olhos se desviaram para seus lábios, livres de qualquer batom, e ali ficaram. Quando voltei a te olhar, você também analisava minha boca. Nos aproximamos lentamente, quase inconscientemente, mas antes que nossas bocas se tocassem, você colocou sua mão sobre o meu peito.

“Eu só quero que me prometa uma coisa,” você me isse, com aquele tom altivo, tão conhecido por mim.

“O quê?”

“Apenas prometa!”

Suspirei, mas obedeci. “Eu prometo.”

“Pedro... não se apaixone por mim.”

E, sem me dar tempo para processar corretamente sua frase, você fez o que tive vontade de fazer desde a primeira vez que coloquei os meus olhos em você. Me beijou.

E, Miranda, minha promessa foi quebrada antes mesmo de existir.

...

Um. Dois. Três. Três meses em que nós estávamos juntos. Nossa relação não tinha um nome. Nós apenas estávamos juntos e era isso que importava. Estar com você, beijar você, abraçar você... nada mais me importava se eu pudesse fazer todas essas coisas.

Você me ensinou tanto em tão pouco tempo.

Me apresentou aos livros de Harlan Coben, um dos seus autores favoritos e acho que nem preciso comentar sobre o quão viciado eu fiquei. Passei madrugadas inteiras lendo e dando palpites sobre a história, e ficando completamente pasmo quando o final se revelava totalmente diferente do que eu imaginava. Você apenas dava risada dos meus surtos, com o conhecimento de quem já era fã e sabia o que eu estava sentindo. Sinto muita falta dessas nossas conversas bobas.

Descobri que você amava músicas antigas, como as canções de Simon & Garfunkel e que era fã declarada de Johnny Cash e Elvis Presley.

Você também tinha os seus “prazeres secretos”, como adorar as músicas da Katy Perry. Se bem que, “secretos” não é um termo adequado, já que você nunca tinha vergonha das coisas que gostava. Vivia dizendo que não tinha tempo para se preocupar com o que terceiros pensariam sobre o que você gostava ou deixava de gostar.

Eu só não fazia ideia de que sua falta de tempo seria tão literal.

Eu deveria ter prestado atenção nos sinais. Suas tonturas, enjoos, palidez... como eu pude deixar tudo isso em segundo plano? Você sempre dizia que estava bem, que apenas não estava se alimentando direito ou dormindo adequadamente, e eu acreditava.

Tudo estava indo tão bem, e então você passou mal. Do nada. A gente estava rindo e correndo na areia da praia quando você parou e caiu de joelhos, com as mãos na cabeça. Inicialmente eu pensei que era mais uma das suas brincadeiras idiotas, como quando você fingia se afogar. Mas não era.

Eu fiquei tão desesperado e você não conseguia falar, apenas chorava enquanto segurava sua cabeça.

A única coisa que eu pude fazer naquele momento foi te pegar no colo e correr com você em meus braços, em direção ao hospital. Você não parava de chorar e eu estava em choque. Você sempre pareceu tão forte pra mim, que te ver naquele estado era estranho e angustiante. Tudo que eu queria era te ver sorrir novamente e soltar uma das suas piadas de nerd.

Quando chegamos ao hospital, tudo aconteceu muito rapidamente. Te tiraram dos meus braços e sumiram com você. Eu não podia te acompanhar, apenas alguém da família. Atordoado, liguei para os seus pais e contei o que aconteceu. Eles chegaram em questão de minutos, com os olhos vermelhos, mas muito mais compostos do que eu.

E então, eles me falaram aquilo que eu nunca pensei que iria ouvir na minha vida. Câncer. Você tinha um fodido tumor maligno no cérebro. Você estava com câncer em estágio terminal.

Eles continuaram falando, falando e falando. Mas tudo que gritava na minha cabeça era que você, a garota mais forte que eu tinha conhecido, estava morrendo. Porque é isso que um câncer em estágio terminal significa, não é? Morte. E eu fiquei cego de raiva. Como você nunca pensou em me contar aquilo? O que você estava esperando? Morrer e eu só saber disso quando estivesse velando o seu corpo? Era isso que você queria?

Saí correndo de lá, sem direção. Seus pais gritavam o meu nome, mas eu não dei ouvidos. Se permanecesse ali, gritaria com eles coisas das quais eu provavelmente me arrependeria depois.

Só parei quando me dei conta de que estava na praia, no mesmo lugar em que nos falamos pela primeira vez. Eu apenas me sentei e ali fiquei durante todo o dia. Só me dei conta de que chorava quando os soluços sacudiram o meu corpo. Eu estava com tanta raiva e dor. E, para ser sincero, ainda estou. Todos dizem que um dia nós superamos a tristeza, que um dia deixa de doer, mas, se esse dia realmente existe, ele se recusa a aparecer pra mim.

Eu voltei para a minha casa e encontrei os meus pais sentados no sofá, conversando com seus pais. Todos me olharam, mas ninguém disse nada sobre meus olhos vermelhos e inchados. Sua mãe se levantou e me abraçou apertado, me dizendo que você queria me ver.

“Hoje não.” foi o que eu respondi.

Fui para o meu quarto e não consegui dormir. Fiquei remoendo a madrugada inteira sobre você. Sobre nós. E aos poucos me dei conta de como estava sendo egoísta, preocupado com os meus sentimentos, sem me dar conta de que você era a que mais sofria em toda aquela situação.

Levantei cedo no outro dia e a primeira coisa que fiz foi correr para o hospital. Quando cheguei lá, sua mãe estava na recepção e me deu um sorriso pequeno, mas feliz. Eu não precisei dizer nada, ela apenas me disse o número do seu apartamento e eu fui.

A imagem de você naquela maca nunca vai sair da minha cabeça. Você estava tão pequena e frágil, tão diferente de... você. Estava pálida, com olheiras fortes sob seus olhos e parecia mais magra.

Seus olhos estavam fechados e assim ficaram durante um bom tempo. Você sabia que eu estava lá e mesmo assim não se manifestou.

“Quando pretendia me contar?”

Você suspirou, finalmente abrindo os olhos e me encarando fixamente.

“Nunca,” disse por fim.

“Por quê?”

“Eu não queria ver esse olhar de pena que você está ostentando nesse exato momento!” cuspiu com raiva.

“Eu não estou com pena, eu estou com raiva! Eu pensei que fosse importante pra você, mas pelo visto me enganei.”

Me virei pra sair, mas sua voz chorosa me parou.

“Pedro, espera... me desculpe.”

Eu me arrependi do meu ataque de raiva quando vi os seus olhos molhados das lágrimas que você tentava inutilmente conter.

Eu suspirei e me sentei na cadeira ao lado da maca, tomando sua mão que estava livre das agulhas e a beijando suavemente.

Não sabia o que dizer. Eu ainda tentava assimilar as coisas, e o que poderia te perguntar naquele momento? Se você estava bem?

Eu fiquei o dia todo com você. Segurei sua mão quando o médico disse que nada mais poderia ser feito, que você tinha pouco tempo de vida. Eu me irritei com aquele doutorzinho. Quem ele pensava que era pra estipular o tempo de vida de alguém? Quem ele pensava que era pra falar aquilo tão friamente, como se estivesse falando sobre o clima? Eu apertei sua mão, tentando te passar um pouco de força e tentando me fortalecer ao mesmo tempo.

Você teve alta e a primeira coisa que disse para os seus pais e para mim era que não queria aquele clima de velório. Em suas palavras, você ainda estava viva e queria aproveitar todo o tempo que te restava.

E foi isso que nós fizemos. Aproveitamos cada segundo, cada minuto e cada hora de cada dia.

Você me fez cortar os seus cabelos e eles ficaram curtos e horríveis. Você pintou meus cabelos de laranja e ficamos o casal de estranhos, mas quem ligava?

Nós passamos madrugadas inteiras acordados, assistindo episódio atrás de episódio daquela série que você adorava, How I Met Your Mother. E também assistimos, pela milésima vez pra você e primeira vez pra mim, 500 Dias com Ela. Acho que foi a primeira vez que brigamos e você se lembra do motivo? Eu achava que o Tom era um babaca e você afirmava que a Summer era uma meretriz. E por mais que eu não goste de discutir com você, todo mundo sabe que ele era um perdedor, por favor!

Comemos todas as besteiras possíveis, principalmente as batatas fritas do McDonalds, que antes você condenava veementemente.

Assistimos o nascer e o pôr do sol naquele lugar só nosso lá na praia. É incrível como uma coisa tão simples tem a capacidade de ser tão bela.

Como a grande fã de Woody Allen, você me arrastou para o cinema para assistir Magia ao Luar. Confesso que nem sei do que se trata o filme. Passei as quase duas horas dentro daquela sala fria, apenas olhando pra você e o sorriso que você ostentava o tempo inteiro.

Brincamos de corrida com os carrinhos do supermercado e todos nos olhavam como se fôssemos loucos, mas quem ligava? Também me tornei adepto da sua filosofia: eu não tinha tempo para me preocupar com o que as pessoas pensavam ou não de mim.

Nós nos amamos pela primeira vez... na praia. Foi lindo, mágico e perfeito. Sei que pareço uma garota falando dessa forma, mas é a mais pura e única verdade. Foi especial porque foi com você. Nós éramos inexperientes nesse assunto, fizemos nossas descobertas juntos e não poderia ter acontecido de outra forma. Tudo que tinha o seu nome no meio se transformava imediatamente em algo incrível. Você sempre teve esse poder.

O tempo é uma coisa engraçada. Sempre o comparei a uma criança birrenta, que faz o contrário de tudo aquilo que lhe pedem.

Se desejarmos que ele passe mais depressa, os ponteiros do relógio se movem tão lentamente, que quase alcançam a capacidade de nos matar de tédio. Como quando estamos em uma fila, olhando o relógio a cada cinco segundos e os ponteiros sempre aparentam estar no mesmo lugar.

Se desejarmos que ele passe mais devagar, você pisca o olho e o dia já acabou.

Era nesse segundo grupo que nós nos encaixamos. Por mais que passássemos quase todos os dias juntos, eu nunca tinha o suficiente de você. Mesmo que eu aproveitasse cada pequena oportunidade, eu sempre tinha a sensação massacrante de que o tempo escorria rapidamente pelos meus dedos, levando você junto com ele.

Eu tentava não pensar nas palavras do médico, mas tinha medo de dormir todos os dias, porque eu tinha a certeza de que um dia poderia acordar e você não estar mais comigo.

Eu não podia suportar a ideia de nunca mais escutar o seu riso. Sim, essa é minha versão de um trecho daquele nosso livro.

Naquele dia você não quis sair de casa. Disse que queria apenas assistir filmes e comer pipoca, mas eu sabia que a verdade era que você estava cansada. Eu tinha a certeza esmagadora de que aquela seria a última vez que você se sentaria ao meu lado no sofá.

Um mal-estar súbito, uma ida ao hospital, e você estava numa maca novamente, com fios e mais fios ligados ao seu corpo.

Miranda, você não sabe o quanto foi difícil me fazer de forte pra você. Você negava, mas eu sabia que estava com medo. E não precisava ter vergonha disso. Você foi forte, mesmo quando não era seu dever. Você permaneceu firme e segura, mesmo quando muitos no seu lugar já teriam desabado.

Eu me recusei a sair daquele quarto. Era madrugada, seus pais tinham ido à lanchonete do hospital e você pediu que eu me deitasse ao seu lado. Estávamos abraçados, apenas ouvindo a respiração um do outro. Eu te apertava com força, numa tentativa de te deixar mais tempo ao meu lado. Mas você não reclamava.

“Pedro,” sussurrou, “você manteve sua promessa, não foi?”

“Que promessa?”

“De não se apaixonar por mim.”

Eu me virei um pouco, para poder te observar melhor. Você me olhava com expectativa, seus olhos brilhando com as lágrimas não derramadas.

“Não, Miranda. Eu não me apaixonei por você. Eu não fiquei ansioso esperando você me ligar. Eu não fiquei com o meu coração trovejando a cada vez que estava perto de você. Eu não sentia aquele friozinho na barriga a cada vez que a gente se beijava. Eu não sentia aquela sensação gostosa no peito, cada vez que apenas pensava em você. Eu não ficava alerta a cada vez que apenas ouvia o seu nome. Eu não me senti destruído quando descobri que iria te perder. Eu não fiquei desesperado com a descoberta de que não veria mais esse sorriso lindo que você tem. Eu não choro cada vez que lembro que em breve eu não poderei mais te ter em meus braços. Não se preocupe, Miranda, eu não me apaixonei por você.”

“Hum... bom saber disso. Eu também não me apaixonei por você, saiba disso. Na verdade, eu te acho um chato, Pedro Henrique,” você sussurrou, enquanto eu enxugava suas lágrimas e você fazia o mesmo com as minhas.

“Eu não me apaixonei por você, Miranda Beatrice,” eu sussurrei enquanto beijava sua testa.

Eu queria poder escrever que você permaneceu viva naquele dia. Eu queria escrever aqui, nesse papel amassado, que você fechou os olhos e apenas dormiu. Eu queria escrever aqui que, por algum milagre, os médicos descobriram a cura definitiva do câncer, alguma injeção poderosa capaz de te curar instantaneamente.

Mas, como você tão sabiamente dizia: querer não é poder.

Naquela noite, apertada entre os meus braços, você fechou os olhos e partiu. Eu senti que você não estava mais ali comigo, mas não queria aceitar. Continuei te abraçando, continuei te apertando, beijando sua testa e alisando os seus cabelos. Eu ignorei o som estridente do bip. Eu ignorei os médicos e enfermeiros que andavam pelo quarto apressados, eu ignorei os braços que tentavam me puxar dali.

Eu achava que de alguma forma, se continuasse abraçado a você, eu te teria de volta novamente.

Mas você nunca voltou.

Eu nunca mais vi os seus olhos castanhos brilharem novamente.

Eu nunca mais ouvi a sua risada.

Eu nunca mais senti o seu cheiro, porque um dia suas roupas perderam sua fragrância natural.

Eu nunca mais senti o toque dos seus lábios nos meus.

Nunca mais ouvi sua voz.

Lembra aquele famoso trecho de O Pequeno Príncipe, que você adorava?

“Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas.”

Você me cativou, Miranda. E você foi embora. Você acha isso justo? Acha justo me deixar pra trás? Acha justo apenas ir, quando tudo que eu mais queria era que você ficasse?

Eu só queria que você soubesse que eu menti pra você. Eu quebrei minha promessa.

Eu me apaixonei por você, Miranda Beatrice.

Eu me apaixonei por você desde o primeiro dia em que eu te vi.

E eu quero que você saiba que eu nunca vou esquecer você. Eu nunca vou esquecer aquela garota linda de cabelo azul e sorriso irônico que virou todo meu mundo. Que mudou minha cabeça, meu coração. Você me marcou da melhor forma possível, Miranda.

Não tem um minuto sequer em que eu não sinta saudades. É tão sufocante que dói. E eu sei que essa dor nunca vai acabar, porque a única coisa capaz de me dar alívio, seria ter você de volta. Meu consolo é ter a certeza de que você está feliz. Em paz.

Como Johnny tão lindamente cantou, você é o meu raio de sol. E eu me apaixonei por você.

Notas finais
E aí, meus amores? Gostaram? Deixem suas opiniões nos comentários, afinal de contas, todos vocês são leitores do bem, que sabem que não custa nada comentar, não é mesmo?

Beijos ♥
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!