Eu Lhe Darei O Meu Nome
1 Eu lhe darei o meu nome
Notas iniciais
Eram muitas às vezes em que ficávamos a sós, porém à uma distância considerável. Afinal meu dever era apenas protegê-la na ausência dos demais. Mas com o passar do tempo nos tornamos cada vez mais próximos e logo estendíamos as nossas noites com conversas e risadas hilariantes. Compartilhando bons momentos, como se fossemos melhores amigos.
Um dia, essa amizade ultrapassou um limite. Mas não em um mal sentido, acredito. Irei contar detalhadamente para que possam entender, e se possível sentir o que sentimos.
A noite estava fria, mas agradável. Eu podia sentir aquela brisa noturna bater em meu rosto e me confortar, quando ouvi Saori me chamando.
— Shun?
— Estou na varanda!
— Ah! Não gostaria de um casaco? Seus braços parecem congelados... – Ela perguntou, preocupada.
— Eu estou bem, já ia entrar. – Eu disse sorrindo e não tardei a voltar para dentro do quarto que usava na mansão Kido, fechando as portas da varanda que tanto usava para expandir meus pensamentos. Era muito mais agradável do que a cama.
A senhorita Kido havia se acostumado com a minha presença e sempre me procurava quando eu permanecia muito tempo afastado e eu também apreciava estar ao lado dela. Pode-se dizer que ambos nos sentíamos solitários. Seiya e os outros sempre foram os mais aptos para as lutas ou missões e não deixo de pensar que, por ser um incômodo, eu sempre era deixado para trás. Eu os atrasaria de certa forma, por isso sempre ficava ao lado da Srta. Saori. Caso acontecesse alguma coisa com ela, eu daria conta do recado.
— Eu fico muito solitária sem minha “dama de companhia”! – Saori riu ao terminar a frase e agarrou-se em meu braço esquerdo. Não faz muito tempo que ela começou a me chamar desse jeito, já que eu era tão igual a uma garota.
Eu não me incomodava, sabia perfeitamente que se quisesse, poderia me passar por uma tranquilamente. Mas claro que esse fato me rendia muita gozação por parte dos outros. Mesmo agora ainda é assim. Entretanto, percebi há tempos que no Japão isso não é de todo ruim. Um dia inclusive, fui parado na rua por uma mulher que trabalhava em uma agência de modelos. Ela me perguntou se eu estava precisando de emprego ou algo assim. Lembro que foi um sufoco para despistá-la. Uma tarde engraçada, eu diria. Mas vindo de Saori, era uma agradável e inocente brincadeira.
— Eu devo ser a babá mais eficiente de todas! – Brinquei, ao passo que a menina deu mais risadas.
— Shun, gostaria de fazer algo agora?
— Agora? Mas já está tarde da noite, acho que pessoas da nossa idade não tem muito o que fazer nessa cidade...
Pessoas normais na nossa idade estariam estudando ou esforçando-se para campeonatos esportivos. A maioridade no Japão é de 20, 21 anos e ainda tínhamos 16.
— Não precisamos sair, oras. Podemos fazer algo aqui, como de costume.
Ah sim, uma coisa que me esqueci de mencionar: Durantes essas estadias com a Senhorita, acabei por presenciar os poucos e felizes momentos em que ela se tornava uma adolescente comum, não uma deusa da guerra. Eu adorava poder ser o único que conhecia esse lado da herdeira do falecido Kido.
— E o que tens vontade de fazer?
— Hmm... Na verdade, tem uma coisa. Mas não sei se você vai gostar, Shun... – Ela respondeu acanhada.
— Mesmo? Por quê? O que seria? – Perguntei curioso. Saori sempre vinha com uma ideia divertida, mesmo que parecesse maluca demais.
— Uma troca!
— Troca? Que tipo de troca?
— Uma troca de papéis!
— Como?!
— Hoje, eu serei um garoto e você uma garota!
Para ser sincero, achei a idéia mais estranha que eu já havia ouvido. Mas ela parecia estupidamente empolgada, igual a uma criança. Não pude resistir.
— Iremos ser cross-dressingers esta noite. É isso?
— Exato! – Ela sorriu indo até o armário, pegando algumas roupas minhas. – Shun, você tem roupas tão bonitas, acho que podia parar de usar suspensórios. Pelo menos um pouco.
— Mas suspensórios são... Legais. – Eu rebati tão sem graça quanto fora a piada.
— Shun fica legal com qualquer roupa! Até mesmo com um vestido.
— Ahn... Eu ficaria fofo, não Legal!
— Eu ficaria se usasse terno e o cabelo curto?
— Você já é bonita, ficaria mais ainda com um bom corte.
— Fico feliz que você ache isso. Se importa se eu usar suas roupas?
— Claro que não, fique a vontade. – Dito isso, eu me sentei na beira cama, observando-a.
—Obrigada! – Elae se virou e passou a escolher qual peça usaria. Surpreendi-me quando, discretamente, a vi cheirando minhas roupas. Não sei por que, mas meu coração bateu extremamente forte naquele momento.
— Shun, suas camisas têm um aroma tão agradável! Igual ao de morangos... Vou escolher esta! – Saori quis usar uma camiseta social preta com listras verticais rosas que eu tinha, por que exalava um leve perfume da fruta preferida dela. O morango.
Saori comia morangos sempre que podia: No almoço, no jantar, café da manhã talvez, e mesmo os seus lanches eram todos com morangos. Uma vez, assistimos a um filme e dividimos um prato cheio dessas frutas com açúcar. Muito gostoso, recomendo.
— Shun... Você não vai se importar de usar roupas femininas?
— Não. Creio que será divertido fazer algo assim hoje! – Eu respondi. Não queria magoá-la, apenas satisfazer suas vontades como sempre fiz.
— Então... Tudo bem se eu arrumar você?
— Claro!
A senhorita sorriu e me abraçou, chamando-me de fofo. Eu sei que ela não tem nenhuma amiga como as garotas normais da idade dela têm , logo nunca experimentou tais brincadeiras do tipo. Talvez eu fosse uma válvula de escape para ela, mas não me importava afinal. Eu apreciava estar ao lado dela.
Saori fora até seu quarto por uns instantes e voltou com um vestido branco, daqueles cheios de rendas e um estojo de maquiagem. Chegara o momento de eu me tornar uma boneca.
Podem rir, eu deixo.
Cuidadosamente, ela se aproximou de mim e sem dizer nada foi “pintando” meu rosto. Mas lembro dela ter dito que eu não precisaria de muita coisa. Meus cílios eram longos e meus lábios eram iguais aos dela, ou mesmo mais bonitos.
— Shun, você poderia conseguir um emprego numa agencia de modelos, sabia?
— Já ouvi isso.
— Sério? Ah, mas você faria tanto sucesso... Eu compraria todas as revistas em que você saísse!
— Nesse caso, vou pensar no assunto.
— Waa!
Enquanto riamos perante essa brincadeira boba, senti algo muito estranho, porém muito bom. Senti como se fossemos dois irmãos brincando. Esse pensamento me deixou tão feliz que devo ter ficado em órbita por minutos. Para terminar, Saori enfeitou meu cabelo com uma fita preta e disse que ia se trocar enquanto eu colocaria o vestido.
Se os outros me vissem fazendo isso com toda certeza iriam debochar muito mais de mim. Mas eu não me importaria realmente. Era tudo por ela.
Eu estava gozado. Parecia mesmo uma garota e não resisti em fazer poses e caretas na frente do espelho. Decidi que quando me cansar de ser Cavaleiro, irei virar um modelo.
Brincadeira, eu sei que é impossível de isso acontecer.
Quando a senhorita voltou, trouxe uma câmera. Fiquei espantando como ela estava. Conseguiu se maquiar e ficar um pouco menos feminina, mas continuava com o cabelo solto.
— Shun! Você está lindo! – Ela disse, vindo até mim maravilhada.
— Você também está “lindo”. Mas se mudasse o penteado, ficaria mais elegante... Deixe-me ajudá-la. – Pedi para me dar um liga de cabelo e cuidadosamente fiz um rabo de cavalo nela, mas deixando duas partes soltas na frente.
— Pronto.
— Nossa! Estamos muito diferentes, Shun!
— Sim, estamos!
Ela me puxou para frente do espelho e pediu para que eu me abaixasse um pouco e em seguida começou a tirar fotos. Como se fossemos um casal, só que ao contrário.
— Shun... Shun... – Ela balbuciava.
— O que?
— Agora você não é mais Shun, e eu não sou mais Saori.
—... Não somos?
— Não. Agora, precisamos de um nome novo... Já sei! Eu te darei o meu nome! Agora você se chama Saori.
— Então eu também te darei o meu nome. Agora, você se chama Shun.
— Eu gosto desse nome!
— Eu gosto do nome Saori também.
Surpreendente eu diria. Uma deusa e um cavaleiro que trocaram de papéis. Esse foi o nosso segredo durante muito tempo. Éramos, aos olhos alheios, melhores amigos. Eu sabia como ela gostava de sua comida, ela sabia como eu gostava da minha. Eu conhecia todas as manias dela e ela conhecia as minhas. Eu conhecia seus hábitos e ela os meus. Coisas que somente eu sabia sobre ela e coisas que somente ela sabia sobre mim.
Mas me pergunto se ela sabia que eu a amava.
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