Eu, Leviatan
1 Lembranças, os portais do inferno
Notas iniciais
O tempo parece não mudar, fico sentado aqui na frente desse mar como uma estatua glorificando a natureza; também não poderia me restar outra alternativa a não ser a lembrança... A lembrança de quem já fui um dia.
Mas você deve estar me perguntando... Quem é esse maldito velho bêbado sentado enfrente ao mar ? Bem deixe-me que eu me apresente, Sou Zephyrus, Elliot Zephyrus e eu sou um ocultista. Não como Platão, Aristóteles ou Crowley, sou de um nivel mais baixo ainda.
Minha vida foi baseada em exorcismos, ocultismo, demônios, anjos e pessoas (essas são as piores) passou muito tempo desde que essa coisa veio e me deixou com apenas mais um dia de vida, e o que me restou foi vinte e quatro horas de lembranças, cai entre nós lembranças são um pé no saco. Elas te lembram quem foi você e o quão idiota você foi com as pessoas, mas a pergunta que fica é: valeu a pena? Bem só nos resta lembrar.
Ano de 2015 — Rio de Janeiro — 20 anos de idade ~
Eu tinha uma banda de Hard-Rock chamada Black Bordel éramos cinco: Elliot, Kelmi, André, Joan e Cristopher. Fazíamos letras pra oprimir o governo, que naquela época estava em crise absoluta, pessoas desiludidas, e amor não correspondido também era tema de nossos rabiscos, muitos deles nem saíram do papel mas concerteza fizemos sucessos em bares e eventos no nosso bairro. Eu era vocal, André era guitarra e vocal, Kelmi era baixista, Joan era o baterista e Cristopher Guitarra.
Teve um dia que fizemos show em um bar num bairro vizinho ao nosso. Casa lotada, bebida á rodo e não podia faltar aquelas fãs que ficavam humidas só de nós pisarmos no palco. Logo depois que o show terminou resolvemos voltar para casa a pé mesmo, já que não era tão longe assim o nosso destino. Fomos todos juntos mais a filha de Joan e sua namorada Lucia.
Começou a chuver muito forte naquela madrugada e Chris resolveu levar a gente num casebre abandonado em uma das ruas do bairro.
- Mas que porra de lugar é esse Chris?! ficou maluco, foi?! Não sei se percebeu mas estou com minha família aqui cara! Minha mulher e nem minha filha irá dormir nesse ninho de urubu! — Murmurou Joan, assim que deparou com o casebre abandonado.
- Calma chará, é só uma casinha, e aliás não vamos dormir e sim ficar aí até a chuva passar, se ficar aqui fora sua filhinha querida pode pegar um resfriado e você não quer isso... Quer?! Então vamos antes que eu pegue uma gripe aqui! Aliás pegue os agasalhos na bolsa da Kelmi pessoal. — Chris foi bem direto a esse ponto, ele tinha razão tenho que admitir.
Se aproximando da porta de madeira eu e Chris tivemos que arrombar com um pedaço de ferro enferrujado que tivemos que arrancar do portão principal da casa. Chegando lá fechamos a porta e acendemos uma fogueira ali no chão. Não tinha nada demais na pequena casa, era um lugar literalmente abandonado e ainda tinha todos os moveis; Empoeirados e rangendo como dentes de um velho pirata.
- Nossa mas que lugar sujo! — Resmungou Kelmi ao olhar em volta da sala de estar.
- É... Esqueceram de chamar a Rosie*, amor, relaxa e sente-se, vou ver se tem algo na geladeira. (Referência a personagem Rosie, Empregada da família Jetsons) — Elliot com um tom irônico e sagaz interrompeu Kelmi enquanto todos se sentavam em volta da fogueira.
Enquanto todos se ajeitavam em volta da fogueira fui bisbilhotar na cozinha, não tinha absolutamente nada lá, era só uma cozinha escura com uma pia de enfeite, como vi que não tinha nada fui em direção a fogueira e resolvi assar uns pães que tinha na minha mochila. Ana Clara filha de Joan e Lucia estava explorando a casa, enquanto conversamos sobre o show e a nossa playlist.
Depois dos pães vieram o vinho, ah! Doce sangue de Dionisio me dê força! Quando falei isso alto enormes olhos voltaram contra mim e logo em seguida risos e um rosto vermelho de vegonha.
Passaram-se 15 minutos e nada da menina Clara voltar, eu e a banda começamos a ouvir uma musica muito estranha que vinha do segundo andar, paramos um pouco e Lucia identificou a voz da menina.
- Mane , mane cum Pulsante super ianuam meam Et dixi: " Salve Satan credo Aliquam ire" — Cantava a menina no andar de cima.
- Mas pera aí!? É a Ana ela sabe cantar? — Disse Kelmi espantada.
- Acho que não coração, que tipo de criança canta a musica de Robert Johnson em latim? Então vamos ver! — Respondeu Elliot liderando a banda até o segundo andar.
Quando eu era moleque um caminhão passava na nossa rua levando gado do matadouro pro velho aterro do Jorge. Não dava pra ver dentro, mas emanava um fedor que impregnava tudo por horas e revestia a garganta e os pulmões com o lodo da putrefação. Uma vez seguindo andar de um ônibus, eu consegui olhar dentro do caminhão e passei uma semana suando frio á noite... Imaginando como seria cair naquele monte de ossos fragmentados, carne dilacerada e crânios de órbita vazada... Chafurdando em sangue, bílis e vermes. O fedor de carniça é inesquecível, acre, obsceno... Um odor palpável.
Nas trevas, alguma coisa se move. Uma cauda... Respiração ruidosa? Os outros me empurram pra dentro. Á medida que meus olhos se acostumam com a falta de luz, eu conto pelo menos quatro cabeças decepadas antes dos meus sentidos oscilarem.
Todos começam a ficar assustados e uma gritaria e um rugido surge no andar de baixo. Duas opções, encarar a treta lá em baixo ou ficar aqui em cima no matadouro! Que duvida!
Descemos e logo lá em baixo vemos Clara dançando e falando línguas, Kelmi e Lucia vão aparta-la enquanto eu e os rapazes ficamos conversando sobre o que tem lá em cima.
- ME SOLTEM! ELE ESTÁ COM RAIVA! VOCÊS DEIXARAM ELE COM RAIVA, ESTA É A CASA DELE! ARRRRRRRRRHG!!! — Gritou a menina numa voz grossa e enxuta.
Enquanto as duas meninas abraçam Clara e a confortam Kelmi me chama para ver a menina.
- Elliot, venha aqui! Eu sei que faz uma ou duas semanas que não mechemos com essa coisa mas... Dá uma forcinha? — Disse Kelmi com Clara tremendo e suando fria em seu colo.
- Tudo bem coração, vamos tentar! Oi queria aqui é o Tio Elliot, olhe pare os meus dedos e diga o que está acontecendo com você. — Enquanto eu falava eu chacoalhava os dedos e olhava bem para o rosto de Clara, estava preparando a hipnose.
Nisso eu entro na mente da menina e digo, — O que está acontecendo amor? Diga pro seu Tio Elliot — Enquanto isso todos observam o ato e eu entro no oceano profundo de uma criança de 10 anos.
Entro numa cúpula amarelada com imagens e olhos e a menina vai narrando o que ela passa no momento.
- Tio Elliot, ele quer vocês, inclusive a mim ele quer me levar!
- Quem querida?
- O Laileb! Ele é um cachorro branco, com quatro olhos, corações pelo o corpo e estã com muita raiva, porque invadimos a casa dele! Tio Elliot ele quer meu corpo, não deixei ele pegar!
- Não vou querida, ele não vai fazer nada com você, prometo!
Depois da pressão psicológico que sofri agora a pouco, reuni o pessoal e fui bem direto na minha decisão.
- Galera, preciso falar com vocês...
- Droga! Chris o que estã acontecendo aqui?! Aonde foi nos meter dessa vez? — Falou Joan num tom agressivo
- Eu não faço a minima ideia do que está acontecendo aqui Joan, olha pra sua menina, e deixe Elliot falar ! — falou Chris nervovo e suando de medo.
- Ok, O que temos aqui é uma manifestação espiritual, tem um demônio aqui dentro e ela quer possuir sua filha Joan, aconteceça o que acontecer confie em mim vamos sair daqui assim que tudo acabar. — Disse Elliot confiante aos rapazes e depois se dirigiu as meninas e vos disse a situação.
- Topamos Zephyrus! E agora o que nós vamos fazer?! — Lucia murmurou num tom agressivo e todos estavam apostos para receber as ordens de Elliot.
- Esse demônio é um ser poderoso, temos que invocar um demônio mais forte ainda para acabar com essa criatura. Vamos combater fofo com fogo! — Disse Elliot convicto
Lembro de levar todos lá pra cima para executar o ritual de exorcismo, fiz um círculo de proteção no chão com giz, me despi e pus uma veste branca. O pessoal estava lá atrás observando tudo, enquanto eu fazia um pequeno altar na frente do corpo da menina estirada ali no chão. Comecei com o ritual, nós aguardamos e nada acontece...
- Vamos seu puto! Cadê você? Fiz tudo direitinho... Não consigo entender! — Sagatana, uma vez mais, pelo o poder da arte aqui liberada ao teu redor... Pelos nomes de teus mestres, Lúcifer, Belzebu, Behemoth... Obedece-me agora! Ou queima para sempre no fogo dos sóis! — Aquele merdinha...
Gritei e roguei e nada dele aparecer resolvi rogar mais uma vez antes de tomar uma medida drástica e lá fui eu...
- Sagatana, pelo o poder da vara dos relâmpagos... Pela última vez... Responde a mim, teu mestre! — Clara! Meu Deus do céu! O que está fazendo aqui? Saia rápido! — Elliot se espantou ao ver Clara acordada da hipnose tentando mandar ela de volta ao transe.
- Mas você me chamou, eu ouvi me chamar — Disse Clara num tom calmo e solene.
- Não! Eu não chamei, por favor volte, aqui não é seguro. Onde foi parar Lucia? — Respondeu Elliot procurando Lucia em volta.
- Lucia? A Lucia pulou da janela hahaha! — Disse Clara com voz alterada e um sorriso bizarro estampado no rosto.
- O Que?! — Respondeu Elliot apavorado.
- Olá, Laileb! — Disse Clara entrando num sono profundo.
Quando Ana Clara desmaia outra vez eu e o pessoal se depara com aquele cachorro branco horrendo saindo de uma fenda no fim de todo aquele matadouro, ele estava indo em direção a menina, ele iria comê-la e logo em seguida a gente seria o prato principal.
Existe um medo que espeta o âmago do ser como madeira estilhaçada. É o medo que surge com a constatação de estar irremediavelmente indefeso... Impotente e fragilizado, aprisionado entre as mandíbulas ensanguentadas do irracional. Esse medo ataca agora... Iniciando um lento terremoto em minhas vísceras. Difundindo... Irrompendo... Revirando o mundo inteiro aos berros.
O ritual funcionou. O demônio apareceu... Mas não diretamente. As fibras da sanidade... Esticadas ao extremo... Se convulsionam. Um horrendo milagre acontece diante dos nossos olhos... Criação... O abjeto nascimento de um pesadelo.
A criança se levanta e o cachorro se aproxima e a invade como se fosse papinha de bebê, Deus do céu! ele está dentro dela. E ela o vomita fazendo nascer uma coisa horrenda que jamais vi na vida.
- ~ Você é patético Zephyrus. Chafurda na ignorância e ainda tenta me obrigar? Não sabe que a raiz de todo o poder está em nomear... E você não faz ideia de quem sou... — Disse o demônio se levantando com um tom arongante.
- Mas... ? — Disse Elliot confuso e bastante nervovo
- ~ O caractere que você desenhou era meu... Mas Sagatana não é o meu nome. E assim sua invocação não continha o imperativo mágico. ~
- Então por que você veio cara? — Gritou Elliot querendo receber explicações
- ~ Porque tenho o maior prazer em esmagar a arrogância e corroer a vaidade. É com tipos como você que o inferno mais se diverte. E agora... Depois de ter brincado e dançado de acordo com a sua arte inútil... A justiça decreta que eu cobre meus honorários. Levarei o atormentado coração desta criança para me aplacar pela eternidade. ~
- Não! fui eu quem pisou na bola! Leve a mim! — Proclamou Elliot
- ~ Você? Não, você já é meu... Seus amigos também. Ainda em botões, a serem arrancados quando eu desejar. Eu quero a menina. Não há negociação... Embora, como mostra consideração... E já que insiste, permitirei que acompanhe até lá embaixo.~
E fomos...
" — Aproxime-se herói... Se deseja conquistar o medo... E compreenda o significado das palavras "Abandonai toda a esperança, vós que entrais." Sinto a mão dela na minha... Está inerte e fria... Um réptil tremendo nas trevas. Eu levo Clara sem resistência, pelos portais do inferno. Mas não consigo. Ninguém conseguiria entrar de livre vontade neste lugar. Tenho de tentar a vara dos relâmpagos, o que tenho a perder?
- Pelo poder de Adonay... Aquele que tudo governa com este sagrado cetro da arte... Demônio, eu te lanço ao Limb... Ahhh!!!!! — Enquanto Elliot Rogava uma prece para conter o demônio seu cetro se transformou numa cerpente assustando-o. Elliot e a menina são sugados pelo o portal do inferno.
Não tem nada a ver comigo, mas o universo estremece ao nosso redor. Eu seguro firme sua mão, arrastando a garota através de fogo e fumaça. Deus dai-me forças! E eu consigo. Trouxe um inocente do inferno para a salvação. Deviam me canonizar por isso.
Todos apavorados... Vieram me confortar, e tudo o que sobrou foi o braço dela que eu estava segurando. O corpo se foi assim como minha dignidade.
- NÃÃÃÃÃÃÃOOOO!!! Chorem agora, filhos, esperneiem e arranquem os cabelos. Lembrem-se o inferno fatalmente será seu lar... Considerem isto uma amostra do que está por vir! — Proclamou Elliot depois de ter passado o evento.
Catástrofe de ponta a ponta, uma catástrofe indesculpável, idiota e vergonhosa. Não posso culpar ninguém. Os dedos acusatórios apontam todos em minha direção.
Mas todos nós cometemos erros não é? Até os demônios. A única diferença é que eu paguei pelo o meu. 2 anos em um hospital psiquiatra.
Todos pagamos. André ficou mudo, Christopher ganhou uma gagueira, Joan partiu para drogas pesadas, Kelmi fez seus votos e Lucia foi trabalhar com crianças molestadas. É, exatamente como o demônio prometeu, o inferno ficou com todos nós. Mas como eu já disse, todos nós cometemos erros... E o do demônio foi finalmente me dizer o seu nome... Laileb.
Foi aqui que tudo começou, mas será que irá ser aqui que tudo vai terminar? Este é o campo de caça onde vou realizar minha vingança... Assim que eu souber exatamente como.
FIM
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