1

O clima estava insuportável entre os integrantes do KAT-TUN. Fazia alguns dias que as iniciais não estavam se falando além do essencial para o trabalho. Ainda assim, quando podia, Kamenashi pedia a Koki para transmitir qualquer que fosse a informação para Jin. É claro que o rapper estava adorando a situação. E é claro que Jin estava odiando aquela proximidade entre Kokame. Só que era orgulhoso demais para admitir ou ainda para tentar resolver a situação.

Ora, porque é que depois de ter sido agredido da forma como foi, ele deveria se desculpar? Não estava fazendo nada de errado. Ele só não podia contar a Kame o que estava acontecendo por consideração a Ryo. Se Kamenashi não confiava nele o suficiente para deixar isso passar, então era a tartaruga quem estava errada.

Era o que Jin pensava enquanto procurava por seu mp3 dentro da sua mochila. Estavam todos no camarim naquele momento.

Tinha que ser firme e esperar que Kamenashi esfriasse a cabeça para perceber que era ele quem devia vir se desculpar. Imaginou algumas formas de perdão que Kame bem que poderia fazer quando eles estivessem a sós. Sorriu como um imbecil.

– Aonde você quer almoçar, Koki?

A realidade, no entanto, era menos doce do que a imaginação de Jin. Ele teve sorte de estar de costas para todos naquele momento, pois teve que controlar ao máximo o seu ciúme evidente em seu rosto. A verdade era que ele tinha vontade de espancar aquele rapper maldito. Mas não podia, afinal, tinha que manter sua relação com Kame em sigilo absoluto. Bem, quase absoluto. Apenas tinha contado a Yamapi. Mas ele era um túmulo, então, poderia se considerar que o segredo estava a salvo.

– Ehhh? Porque você só convidou o Koki, Kame? – Nakamaru zombou.

Agora ele também queria bater em Nakamaru. O que tinha demais Koki e Kame sair para almoçarem juntos? Porque ele teve que insinuar algo mais nisso? Fechou o zíper com força, esquecendo-se do que procurava. Coçou o nariz, incomodado.

– Porque há coisas que eu quero conversar apenas com ele...

Maldita tartaruga. Agora queria bater nela também. Lembrou-se do pm3. Abriu o zíper com força.

– Isso é suspeito!! – Junno riu.

– Por acaso estão namorando escondido? – quis saber Ueda.

E, então, um forte estrondo. Todos olharam para a cadeira que Jin chutou na direção da parede e em seguida para o rapaz, que saiu resmungando qualquer coisa que ninguém foi capaz de compreender.

– O que há com ele? – indagou Junno.

– Sei lá... – Kame sacudiu os ombros.

Ueda , Koki e Nakamaru apenas riram com cumplicidade. Kame olhou para cada um, mas deixou isso de lado.

2

Se Ryo estivesse no camarim do KAT-TUN e tivesse presenciado aquela cena, entenderia o mau humor de Jin quando eles se encontraram para almoçar. E se Jin estivesse a par dos últimos acontecimentos na vida de Ryo, também compreenderia a cara de poucos amigos do moreno. Ambos, porém, percebiam que o outro estava com pouca paciência.

Tackey estava ocupado gravando algumas cenas do dorama, então não pode comparecer para discutirem sobre os resultados das investigações.

– Junno disse trabalhou aquele dia todo e, pela agenda, ele nem ao menos pisou na Johnnys. – Jin dizia, com a cabeça apoiada em uma mão, entediado – Mas Ueda... Bem, ele não me respondeu nada. Você sabe como é ele, não sabe? Se precisar contar segredo a alguém, esse alguém é o Ueda! O cara não abre a boca pra quase nada! Ele é muito discreto! Simplesmente me ignorou e não me respondeu de jeito nenhum. – Jin dizia como se fosse a coisa mais surpreendente do universo. – Bem... Ele e o Pi.

– O que tem o Pi?

– O Pi também sabe guardar segredo.

– E o que isso tem a ver?

– Ora, se você um dia namorar o Pi, ninguém vai descobrir, ele saberia ser muito discreto.

– E porque eu iria namorar Yamapi? Você bateu com a cabeça?!

Jin deixou sua briga com Kamenashi de lado agora que eles entraram nesse assunto. Sim, ele tinha que ajudar seus melhores amigos e, depois, ele poderia esclarecer tudo ao Kame. Esse era o caminho.

– Né, Ryo? Porque você não considera essa possibilidade?

– Que... Que possibilidade?

– De namorar o Pi!

– De onde você tirou essa idéia?!

– Pensa comigo, seria muito legal! Meus melhores amigos namorando!

– E porque você não namora com o Pi, então? Eu também ficaria feliz pelos meus melhores amigos namorando!

– Se eu fizesse isso estaria morto no dia seguinte! – ele fez bico.

Ryo o olhou com uma careta, era difícil acompanhar a linha de raciocínio de Jin. Muita vezes. Quase sempre. Por isso, ele desistiu de tentar entendê-lo e voltou ao assunto principal.

– Os suspeitos diminuíram agora...

– Sim! – Jin concordou balançando a cabeça e começou a contar com os dedos: – Koyama, Massu, Tegoshi, Yamapi, Shigue, Okura e Ueda...

– Pode riscar o Okura também. – Ryo afirmou e ante ao olhar indagador de Jin, explicou: – Ele me confessou que é apaixonado pelo Tegoshi.

– EHHHH??? Okura?? Apaixonado por aquele insuportável? Quem em sua sã consciência se apaixonaria pelo imbecil do Tegoshi? – Jin estava mesmo surpreso – Eu já fico me perguntando como alguém pode ser fã daquele nanico??

– Jin, ele é do meu tamanho! – Ryo o lembrou, olhando-o torto.

– E aquele sorriso? Ele é muito falso, ninguém pode sorrir daquele jeito o tempo todo!

– Jin... Quando mais novo você era todo sorriso também... Aliás, você vivia gargalhando também. Era irritante!

– E aquele jeito arrogante dele só porque sabe cantar bem!

– Meu Deus! Ele é o pior! Que coisa, NUNCA vi ninguém com essa descrição antes! – Ryo arqueou a sobrancelha e sua voz era extremamente irônica. Ainda assim, Jin não o percebeu.

– Não é? E ele nem canta tão bem assim, afinal.

– Não, não, você canta melhor né, Jin?

– Se você está dizendo... – ele disse, com falsa modéstia.

– BAKA!! – gritou, fazendo o outro estremecer.

– De qualquer jeito, quem pode ser tão retardado, imbecil, cego e de muito mal gosto pra se apaixonar por ele?

– Sério, eu gostaria muito de entender como você pode ter essa birra com Tegoshi? O que ele te fez?

Jin mostrou um enorme bico. Ora, Ryo era seu melhor amigo, não tinha que ficar do seu lado?

– E por que eu tenho que gostar desse cara? O que ele tem de bom, afinal? – Jin jogou suas costas no encosto da cadeira em que estava, esparramando-se, ainda emburrado, sentindo que seu dia estava piorando ainda mais.

– O que o Tegoshi tem? Sério, Jin... Se você desse a ele uma chance, se você se desse ao trabalho de conversar numa boa com ele... Você... Até mesmo você perceberia por conta própria.

– O que você quis insinuar com isso? – ele estreitou os olhos, mas Ryo o ignorou.

– Ele é muito alegre... Às vezes irrita, eu admito... Mas ele é a pessoa que torna o ambiente mais leve dentro do News... Quando estamos cansados, quando o que projetamos não dá certo, é natural desanimar, não? Mas Tegoshi está sempre lá, vibrante, colocando a gente pra cima. E, mesmo que você não acredite, ele é uma pessoa gentil. Sempre preocupado com todos.

Jin olhou para Ryo estranhando o sorriso que viu o moreno exibir. Na verdade, aquilo o assustou.

– E ele é mesmo divertido... Você precisa ver as peças que ele prega no Shigue! – gargalhou – Só o tapado do Shigue mesmo pra cair... Às vezes quem começa é o Keii, mas se derem ideias ao Tegoshi... Ele é diabólico!

– Isso prova que ele é um mala sem alça!

– O Tego é uma boa pessoa, Jin...

– Você não me conveceu! O que mais você gosta nele, afinal?

Ryo pensou seriamente naquela pergunta. Demorou tanto a responder que Jin já havia até se esquecido do assunto e voltado a se preocupar em como estaria sendo o almoço entre Koki e Kame. Por isso, Bakanishi não entendeu o que o moreno dizia, apenas voltou a prestar atenção nele quando escutou:

– Eu realmente gosto da sua voz... Como ele pode falar baixo e tímido quando está sem graça e como ele pode rir de forma escandalosa, principalmente se é pra tirar sarro de alguém. Gosto do seu sorriso. Gosto do seu sorriso quando ele ganha presente... Até mesmo se for presente do Okura. – nesse ponto, a sua voz soou irritada. – Eu gosto da forma como seus olhos são provocantes... Quando ele está vestido de mulher e morde os lábios...

– Né... – Jin lhe olhou com espanto – Essa resposta é estranha. – ele disse vagarosamente. Estava com medo, muito medo, daquele Ryo que ele via pela primeira vez.

– Eu gosto do seu rosto... Da sua mão... Gosto até mesmo da pinta no dedo anelar que ele tem na mão direita...

– Ryo... Você é um retardado, imbecil, cego de muito mal gosto?? – Jin o olhou preocupado. Piscou. – VOCÊ ESTÁ APAIXONADO POR AQUELE IDIOTA?

Ryo também piscou. Franziu a testa.

– NÃO DIGA TOLICES! – se enervou.

Jin fez cara de emburrado e cruzou os braços.

E essa agora? o Ryo apaixonado pelo Tegoshi? Era o que me faltava... Droga, isso não vai me ajudar em nada! Nada de sexo em grupo... Eu jamais deixaria aquele insuportável me tocar... Pior, e se ele quiser tocar o Kame?! Não, não, ele não pode nem olhar para a minha tartaruga... Droga, mas parece que eles vão fazer um dorama juntos ano que vem! Maldito Tegoshi! Só atrapalha a minha vida! Não basta ser do mesmo grupo dos meus melhores amigos, ficar publicando por aí que admira o Pi, ele ainda tem que seduzir o Ryo? Aliás, como o Ryo pode trocar o Pi pelo Tegoshi? O Pi é mais bonito, mais legal, mais confiável, mais inteligente, mais famoso, mais moreno, mais alto, mais, tudo mais que o Tegoshi em toda sua vida será capaz!

Jin olhou para Ryo.

– Que é? – indagou o moreno com uma expressão irritada.

– O Pi é bem melhor! Que droga! Por que você não pode se apaixonar pelo Pi???

– Vai à merda, Bakanishi! Já disse que não é nada disso e... Que obssessão pelo Pi é essa?!

– É que agora vai dar tudo errado! – ele se revoltou – Você namorar o Tegoshi, nós não vamos poder sair junto! Nada de encontro duplos! E o Pi vai ficar triste! E o Kame não vai parar de brigar comigo!

Ryo o olhou, sem acreditar no que ouvia.

– Você poderia fazer o favor de falar em japonês? Sério, não estou te entendendo! E aonde o Kamenashi entra nessa história?

Jin sacudiu a mão no ar, irritado. Ryo o olhou com igual humor e cruzou os braços.

Que dia horrível eu estou tendo! – eles pensaram.

3

Foi somente quando ele chegou em casa que ele se lembrou do último envelope que haviam deixado em seu armário. Aquilo estava começando a irritá-lo profundamente, a ponto até de deixar sua curiosidade de lado. Ele não queria mais saber de declarações, estava a ponto de desistir de saber a identidade daquela pessoa.

Jogou a chave no móvel ao lado da entrada, retirou seus sapatos, sentando no degrau e ficou pensativo.

Não importava, afinal.

Não era Tegoshi, depois de tudo. O caçula estava se entendendo com Okura.

Quando foi que eles começaram ser tão íntimos que ele nem ao menos pecebeu? Se tivesse prestado atenção na aproximação de Okura, podia ter interferido.

Ryo estranhou a si mesmo ao cogitar tais ideias. Não devia ser egoísta a esse ponto. Se eles gostavam um do outro, devia ficar feliz por eles, não? Apesar de tudo, eles eram seus amigos e companheiros de bandas. Suspirou e abriu os botões da sua camisa, sentia-se sufocado.

Estava cansado. O ritmo árduo dos trabalhos e essas preocupações desnecessárias estavam acabando com a sua energia. Levantou-se, com a intenção de seguir para o banho, mas seu olhar recaiu sobre a estante. As cartas estavam ali, inclusive a última, que ele havia deixado intacta.

Imaginou Jin zombando dele se soubesse que estava com medo de uma simples folha de papel. Estreitou os olhos. Não perderia para Bakanishi desse jeito jeito. Foi até o móvel e pegou a carta. Rasgou o envelope branco.

Ryo-chan...

Eu estive pensando por muito tempo... Devíamos nos encontrar? Você quer saber quem eu sou? Não ligo mesmo se tomar um fora. Acho que deviamos jogar abertamente. Né... Aposto que está pensando que eu deveria ter feito isso desde o início, não está? Você prefere as coisas de forma mais prática e simples...

...Mas eu gosto das coisas um pouco mais complexas... Gosto de jogos...

Será que você consegue cogitar algumas hipóteses sobre mim?

Espero a sua resposta. Se quiser saber quem eu sou... Vista uma camiseta social preta com uma bermuda jeans... Se não quiser use uma combinação preta! Eu saberei que você se decidiu desse jeito! Não se preocupe, eu sempre estou por perto e poderei ver a sua resposta.

Sei que não vai demorar a se decidir, você quer acabar com isso, não quer?

Ryo lambeu seu lábio inferior. Aquela pessoa o estava desafiando?

4

Kamenashi foi o primeiro a chegar no camarim, na manhã seguinte, como de costume, mas, desta vez, ele se sentiu solitário. Brigar com o Jin sempre o deixava assim. Era horrível, mas, por outro lado, estava cansado de sempre ver o namorado correndo atrás do melhor amigo, inclusive literalmente. O que Jin estava pensando afinal?

– Depois me explica... Acha que sempre terei tempo pra você? – resmungou em voz alta. – Droga...

Ele suspirou, jogou sua bolsa transversal na poltrona e se sentou no outro sofá. Brigar com Jin também o fazia se sentir angustiado. E, se de fato, o namorado estivesse começando a gostar do melhor amigo? Talvez ele estivesse cansado de seus ciúmes. E se desta vez eles não voltassem a fazer as pazes?

A porta foi aberta e ele se decepcionou por não ser Jin. Ainda assim, ele foi capaz de sorrir simpático e cumrpimentar aquela pessoa com educação.

– É o seguinte. – Tackey não devolveu a educação e, com o indicador no peito de Kamenashi, que parecia ainda mais acuado sentado e olhando para cima, para a sua direção, disse: – Você tem que perdoar o Jin.

Kame uniu as sobrancelhas. Estava em dúvida. Até que ponto seu senpai estava a par daquela briga? Será que ele poderia saber sobre seu verdadeiro relacionamento com Jin? Aquele imbecil! Deve ter contado ao Tackey!

– Eu não sei porque vocês brigaram. – ele prosseguiu – Mas o Jin anda insuportável e a culpa disso é toda sua!

– Minha?! – ele se indignou – Você sabe o que ele...

– Não me interessa! Não deve ter sido nenhum motivo forte o suficiente para estragar o que vocês tinham!

Ele sabia... Ele sabia!!! Ele sabia? Kamenashi voltou a xingar Jin em pensamento.

–... São anos de amizade, não são?! – Tackey voltou a falar – Nem mesmo Jin é capaz de jogar fora algo tão especial! Vocês trabalharam duro juntos durante muito tempo... E se divertiram juntos... E cresceram juntos... Às vezes o Jin é um cabeça dura, mas é só porque ele é atrapalhado demais para certas coisas... Por isso... O perdoe, está bem? Seja lá o que tenha acontecido... O perdoe... E logo... Porque ele está me irritando com seus choramingos. "O Kame tá bravo comigo, o que foi que eu fiz??". Você percebe? Aquele tonto nem ao menos sabe porque você tá bravo! Ele me liga sempre que tem tempo disponível! Por favor, resolva isso!

Kamenashi virou o rosto.

– Porque ele não pode simplesmente se desculpar?

– Porque ele é o orgulhoso Akanishi Jin? – disse, como se fosse algo bastante óbvio.

– Eu também tenho o meu orgulho!

– Então... Escreva uma carta! – ele sugeriu – Dessa forma, você conta a ele seus motivos e não precisa encará-lo. Seu orgulho será preservado!

O mais velho retirou um papel e um envelope da sua sacola e entregou ao caçula. Kamenashi olhou incerto, mas os pegou.

– Não sei como isso pode preservar o meu orgulho...

– Ótimo, fiquem os dois nessa e nunca mais se falem pelo resto da vida! – Tackey agitou os braços, inconformado. – Ao menos peça para ele não encher mais o meu saco!

Tackey o deixou sozinho no camarim de novo e Kame pensou naquela possbilidade. Cogitar um término real e duradouro era algo que o assustava. Tinha se acostumado demais com a presença de Jin. Não, ele havia criado uma certa dependência de seu sorriso, seus olhares, sua energia, seu carinho... Era natural. Estavam juntos desde os seus doze anos... Não como namorados, apenas amigos. Havia conhecido Akanishi Jin cedo demais para que pudesse ter alguma experiência em evitar a sua sedução. Jin sempre foi o tipo de pessoa que conquista as pessoas em um primeiro olhar... Ainda que o rapaz não dê confiança facilmente às pessoas, ele parece emanar uma atração involuntária. Ele se sentiu atraído por esse brilho.

Akanishi Jin é incrível, havia sido o seu primeiro pensamento sobre o namorado. Tinha uma voz incrível, apesar dos transtornos da puberdade, e uma beleza indiscutível. Na verdade, hoje, quando pensava com mais atenção Kamenashi tinha consciência de que naquela época Jin era apenas um garoto sem noção, bobo, imaturo e, em certos assuntos, um tanto burrinho. Mas ele era sincero e seu sorriso, delicioso. E havia sido isso o que realmente o cativou. Da amizade para o namoro, levaram alguns anos.

Kamenashi foi o primeiro a se dar conta de seus sentimentos e, por isso, ele passou por mais dificuldades que Jin. Sozinho, ele teve que aprender a aceitar o que sentia, a lidar com o medo da rejeição e do preconceito, a controlar os ciúmes e os desejos, este último cada vez mais fortes quanto mais Akanishi crescia e se tornava o sexy símbol do grupo.

Foi praticamente insuportável quando Jin passou a tê-lo como principal alvo de seus gracejos. Como resistir aos olhares enigmáticos, os sorrisos maliciosos, os sussurros que produziam arrepio por todo o seu corpo? No final, e para sua felicidade, não se tratavam apenas de brincadeiras do Bakanishi... E o namoro começou pouco depois deles gravarem Gokusen.

Quando ele partiu para o estrangeiro, ele quase perdeu a razão. E nem havia sido um término. Apenas um tempo. E o namorado só tinha ficado seis meses nos Estados Unidos.

Não, não podia ficar sem ele de novo. Tomado pelo impulso, ele começou a rabiscar algumas linhas no papel que Takki havia lhe entregue.

5

– Qual é o seu problema, Yamapi? – Jin resmungou, esfregando os olhos – Qual a parte do "eu tô com sono" você não entendeu?

Ele estava sendo empurrado pelo amigo pelos corredores da agência.

– Baka! Não é hoje que vocês tem uma entrevista na Fuji TV?

– Sim... E?

– E o Kamenashi não é sempre o primeiro a chegar quando vocês tem um compromisso em televisão?

– Sim, porque ele gosta de ensaiar sua postura e dicção no camarim antes da gente sair.

– Então...

– Então o que, saco? Por que você me tirou de casa tão cedo?

– Baka! É a sua chance de falar com ele, resolver as coisas, e ainda ficar um tempinho com ele no camarim, não acha?

Jin parou de andar e refletiu. Abriu um largo sorriso.

– Você tem razão!

Ele voltou a andar com mais ânimo, até parar bruscamente. Desprevinido, Yamapi bateu o nariz na nuca do amigo.

– Idiota, porque parou?

– ... Mas é o Kame quem tem que resolver as coisas comigo! Estou farto dele ficar bravo comigo por SUA causa! – ele estreitou os olhos e encarou Pi com mau humor.

– Eh? E o que eu tenho a ver com isso? Se resolvam vocês dois! Se ficar nesse orgulho idiota você vai perder a pessoa que você ama!

– Mas porque eu tenho sempre que pedir desculpas? Eu não fiz nada de errado desta vez e ainda apanhei!! E apanhei do Koki, aquele cretino miserável que fica se esfregando no Kame em cada oportunidade! Sério, ele faz de propósito!

Yamapi bufou, entediado, conhecia aquela ladainha.

– Escute... E se vocês continuarem brigados, aí é que o Koki terá mais espaço, não é? Ontem ele não foi almoçar com o Kamenashi por causa disso? – ele se aproximou da orelha de Jin e começou a falar maliciosamente – Começa com um convite para almoçar... Depois um cinema... No escuro... Mão aqui... Mão ali...

– Kame não seria capaz...

– Mas ele está triste...

– Ainda assim...

–... E o Koki quer consolá-lo!

– Mesmo assim... Kame é uma pessoa honesta, ele terminaria comigo primeiro antes de qualquer coisa!

– E você vai esperar ele querer terminar com você, baka??

Jin pareceu pensar naquilo e Yamapi aproveitou a deixa para empurrá-lo novamente até o camarim. Diante da porta, jogou o amigo para dentro e foi embora antes que a sua presença irritasse Kamenashi.

Kamenashi se assustou quando Jin entrou cambaleando no camarim. Eles se olharam, e no instante seguinte cada um olhou para um lado diferente. Estavam envergonhados.

– Oh... Ohayou! – Jin ergueu a mão e sacudiu a cabeça, cumprimentando-o.

– Un. – Kamenashi sacudiu a sua. – Ohayou. – lambeu os lábios. Sempre os lambia quando estava pensativo e naquele momento sua mente fervilhava, sem saber o que dizer. E ele odiava mortalmente esse tipo de situação, essa em que ele perdia as palavras. Normalmente elas aconteciam somente com Jin. Era irritante.

– Anooo...

Jin se aproximou demais e Kamenashi jogou o corpo por cima da carta que escrevia, finalmente se lembrando de sua existência, olhando agitadamente para todos os lados. Seria muito constrangedor se ele a lesse ali, na sua frente. Por sua vez, Jin achou aquela atitude bastante suspeita.

– O que está escondendo?

– Não estou escondendo nada! – ele abraçou o móvel. – Absolutamente nada!

– Não é o que tá parecendo! – ele se aproximou. – Deixa eu ver!

– Não!

– Porque não?!

– Porque eu tenho que deixar?

– Porque... Ora, você realmente está aprontando, não é? – ele se jogou sobre as costas de Kamenashi, tentando alcançar o que quer que ele estava escondendo.

– Não, saí!!!! Tira a mão!!! – ele se desesperou.

Jin o encarou, zangado e se afastou. Kamenashi o olhou em dúvida. Então Jin pulou sobre ele de novo, e Kamenashi se desesperou. De novo. Jin era mais forte, logo conseguiria descobrir o que era.

– Tira a mão daí!!! – Em pânico, Kame fez a única coisa que lhe ocorreu. Mordeu o pulso de Jin.

Akanishi saltou para trás quando sentiu os dentes dele em seu braço.

– Itteeee... Você está maluco??!

Kamenashi aproveitou a chance, dobrou o papel — um tanto amassado — e o guardou no envelope vermelho — no mesmo estado — e encarou Jin.

– O que é isso? Uma carta? – ele franziu a testa – Pra quem é?

– Não te interessa! – ele respondeu, ríspido.

Jin o olhou para ele de modo suspeito. Kamenashi virou o rosto, sentindo-se corado. Jin o olhou com mais atenção, aproximando-se. Kame ficou tenso. Pensava se deveria aproveitar o momento e entregar a carta. Seria vergonhoso. Seria muito constrangedor, mas... Poderiam resolver aquela briga, não poderiam? Ajeitar as coisas com Jin, não era isso o que ele queria? Mordeu os lábios, ansioso em tomar uma decisão.

Jin observou a todos os movimentos do rosto de Kame, e este pensou se por alguma acaso o mais velho era capaz de ler os seus pensamentos. Jin o olhava com tamanha intensidade que ele pensou absurdamente que talvez Jin já estivesse a par de sua intenção. A vergonha apenas aumentava diante da certeza de que Jin o conhecia o suficiente para conseguir ler suas expressões. Sim, estavam juntos há tanto tempo, era natural algo assim... Isso provava o quanto eles estavam em sincronia, o quanto um combinava com o outro. Essa ideia começou a acalmar Kamenashi. Sim, não havia mais ninguém que servia para ele além de Jin e ele era o único para Akanishi também. Essa certeza o permitiu encarar aqueles olhos intensos. Eles deviam se acertar. Mordeu os lábios.

Jin chegou a uma conclusão.

– É para o Koki, não é??

Kamenashi arregalou os olhos. Suas ilusões desmoronaram. Não eram um casal perfeito e jamais seriam.

– Koki???! Koki???!! Koki... Que Koki??!! Jin, você é um imbecil!! – foi a vez dele se irritar – Seu cretino, estúpido, idiota!

O caçula marchou em direção à saída. Que ideia de Koki era essa? Ele se esforçando para pedir desculpas naquela maldita carta, abrindo mão do seu orgulho — do seu grande orgulho — e aquele sujeito vem lhe falar de Koki? Será que Jin fazia algum noção do quanto estava sendo difícil para ele escrever tudo aquilo? Kamenashi só não se atentou ao pequeno detalhe de que o conteúdo da carta era desconhecido a Jin. Ele bateu a porta após sair.

Jin encheu a boca de ar, bravo.

– Mas o que foi isso? O que foi que aconteceu aqui??

6

Ele sentiu os olhares dos integrantes do Kanjani 8 sobre si. Rangeu os dentes. Odiava se sentir ridículo quando não era a sua intenção ser ridículo. Enquanto estivesse fazendo um papel, tudo bem. Mas não estava nada bem quando estava sendo manipulado por alguém a se sentir ridículo.

Certamente, que ideia daquela pessoa mandá-lo se vestir com uma camisa social e bermuda jeans? A moda japonesa era bastante liberal, mas para tudo havia limites.

Ryo notou o sorriso zombeteiro se formar nos lábios de Yoko e antes que fosse alvo de suas piadas, ergueu a mão, encarou o mais velho e disse:

– Nem começa. Não estou tendo uma boa semana.

– Ok, ok, Nishikido-san! – Yoko se curvou formalmente – Mas o seu senso de moda é indiscutível.

Era lógico. Seu olhar ameaçador nunca funcionava com Yokoyama. Como havia se esquecido? Akanishi e Yokoyama eram as pessoas mais sem noção de perigo que Ryo conhecia.

– Né, Ryo... – uma voz hesitante o tirou de seus pensamentos. Ele olhou para Okura. – Ryo... Você pode me ajudar mais uma vez?

Suspeitou daquele tom de voz.

– O que é agora?

– Tegoshi me chamou para sair.

Ele o que? Deus, onde Tegoshi aprendeu a ser direto desse jeito?! Ok... Isso não era para me surpreender tanto, afinal.

– E o que eu tenho a ver com isso? Que bom para vocês, não é? – seu tom era ligeiramente agressivo.

– Demo... Você o conhece melhor... E eu não quero estragar nada... Pode me dizer a que tipo de lugar eu deveria levá-lo? Ele prefere um encontro romântico, algo mais divertido ou talvez... Talvez ele... Seja... Um pouco... Liberal?

Era deprimente, Ryo avaliou, como Okura estava caidinho pelo caçula do News. Se alguém da imprensa publicasse esse tipo de imagem, com certeza ele perderia metade das fãs. Claro, sempre haveriam aquelas que o considerariam "kawaii" por estar coçando a parte de trás da cabeça daquele jeito, enquanto olhava para os próprios pés. Mas, como um homem, isso era o pior!

Como Tegoshi poderia gostar de um homem assim?

Ele deveria ter alguém seguro, determinado, de pulso firme ao seu lado para realizar todas as suas vontades. Alguém que soubesse exatamente como proceder em um encontro com ele sem precisar de conselhos de terceiros. É claro que não deveria ser um encontro romântico. O romantismo deveria ser somente no final do encontro.

Tegoshi se divertiria muito se o levassem a um karaokê. Seu sorriso não desapareceria enquanto pudesse cantar. Ou ainda se fossem assistir a um jogo de futebol. Talvez, ainda, eles pudessem jogar uma partida de futebol. Tegoshi, apesar de parecer, não era uma menina. Eles poderiam disputar penâltis ou dribles em alguma quadra. Depois, tomariam banho no vestiário e seguiriam para outro lugar. Banho no vestiário. Isso soou realmente erótico. Imaginou-o no chuveiro, ensaboando o corpo e...

No que diabos eu estou pensando??

Voltou a si e percebeu a testa franzida de Okura.

– Leve-o a um jantar romântico, depois ao cinema e diga que o ama. Ele vai adorar! Tegoshi é muito sensível. Nada de beijos, nem segurar na mão no primeiro encontro! – ele bateu no ombro de Okura e sorriu – Boa sorte, Ta-chon!

– Arigatou, Ryo-chan! – ele se afastou, empolgado, certamente sonhando com os momentos agradáveis que passaria com Tegoshi.

Eu sei, eu sou um monstro. Mas pelo menos esse cara não vai transar com o Tegoshi tão cedo!

E Ryo sentiu-se um pouco mais feliz.

7

Havia sido um longo e estressante dia. Tudo o que ele mais queria na vida, naquele momento, era tomar um banho e ir logo para a casa. Dormir e acordar no dia seguinte, descobrindo que todas as brigas com Kamenashi não passavam de um pesadelo. Sim, era isso. Apenas um pesadelo.

Contudo, ele não estava conseguindo acordar e o pesadelo apenas piorava, ele pensou consigo mesmo, quando abriu a porta do vestiário e escutou a voz de Koki.

– Eh? Um bilhete anônimo? Pra mim? Ah, de quem será?

No mesmo instante, Jin sentiu seu peito inflamar. Ele correu pelos armários até onde sabia ser o de Koki e o encontrou com Ueda e Maru. E, para seu total desespero, nas mãos do rapper, uma carta. Vermelha.

8

Escondidos atrás de uma fileira de armários, mais atrás, mas em uma posição estratégica em que eles conseguiam testemunhar aquela cena, Yamapi e Takki tampavam as próprias bocas para evitarem o flagrante.

A confusão estava armada. Certamente, enciumado, Jin causaria um grande barulho, brigaria com Koki, mas depois estaria suscetível o suficiente às ideias de Yamapi para reconquistar o namorado. Com isso, Jin se esqueceria totalmente de Ryo e seu problema amoroso. Era nisso que os dois apostavam.

Entretanto...

9

Nas mãos do rapper, a carta que ele viu Kazuya escrevendo mais cedo. Estava certo. Era uma carta para Koki e, segundo o que ouviu do próprio, era uma carta de amor. Kazuya estava se declarando para ele.

Sua mente fervilhou. Ele caminhou até o rapper, que o olhou com receio e segurou firme em sua gola.

– Owe, Jin! – Ueda e Maru tentaram intervir ao ver o rapaz erguer o punho.

E, então, uma súbita dor na consciência.

– É você quem quer que namoremos escondidos! Eu estou ficando farto disso!

(...)

– Aonde você quer almoçar, Koki?

– Ehhh? Porque você só convidou o Koki, Kame? – Nakamaru zombou.

– Porque há coisas que eu quero conversar apenas com ele...

(...)

– Eu nunca sou a sua prioridade, mas seus amigos sempre são!

O que ele estava fazendo com Kazuya, afinal? Não bastou ter sido egoísta o suficiente para pedir ao namorado que o esperasse voltar do intercâmbio? E quando volta, o que mudou? Nada. Absolutamente nada. Sentiu-se envergonhado, ele continuou a agir como antes, como se nada tivesse acontecido, como se não houvesse um intervalo de seis meses no relacionamento entre eles. Kazuya nunca reclamou. E as reclamações que ele fez, Jin não lhe deu ouvidos. Irritava-se com as implicâncias do caçula com seus amigos e ainda o obrigou a manterem o relacionamento em segredo.

Não era um bom namorado, nunca o foi. E, mesmo assim, Kamenashi ainda o aguentou por muito tempo. Agora, simplesmente acontecia o que era natural em um relacionamento tão relapso — de sua parte — como era o deles. Kamenashi se cansou, havia se apaixonado por Koki, e estava indo embora.

Diante de tais fatos... O que ele poderia fazer?

Abaixou o punhou e a fronte.

9

Yamapi arregalou os olhos e engoliu em seco, sentindo-se miserável. Olhou para Tackey, que lhe devolveu um olhar confuso. Eles não conseguiam acreditar no que estavam vendo. Era quase como um presságio para o fim do mundo. Em algum lugar do mundo, com certeza, coisas estranhas começaram acontecer. Algo no nível das vacas voarem, os pássaros mugirem, o sol nascer à meia noite, cegos voltarem a enxergar, surdos voltarem a ouvir. Só isso explicaria o que eles estavam testemunhando.

– Bakanishi... – o mais velho estava incerto do que via.

– Ele... Ele... – Yamapi gaguejou, igualmente incrédulo – Ele está...

– ...Chorando?

– Não é possível... – Pi riu nervosamente – Isso... Não é possível!

Era possível.

Ainda segurava a gola de Koki, mas sem agressividade. Havia desviado o rosto, mas ainda assim suas lágrimas eram visíveis. Igualmente perplexos estavam Ueda, Maru e o próprio Koki, que franziu o cenho.

– Jin? – Koki o chamou – Hey, Jin... Isso aqui é... – ele quis revelar que tudo não passava de uma armação, mas o amigo começou a falar antes.

– Seja melhor que eu.

– Hã?? – ele abriu bem a boca, para enfatizar a sua surpresa.

– Se não for melhor, eu nunca vou te perdoar. Cuide dele. Yoroshiku.

E Jin virou rápido de costas, tapou a boca com a mão, segurando o choro, e saiu com passos largos do vestiário.

Um silêncio, profundo, confuso e incômodo se formou.

Takki e Pi saíram do esconderijo e se aproximaram dos integrantes do KAT-TUN.

– Bem... Não foi exatamente assim que eu planejei. – Pi confessou – Mas acho que isso deve manter o Jin ocupado... Mas... Por alguma razão... Eu...

– Está com dó? – Koki questionou, apontando o indicador para ele – Pois saiba que eu também. – inclinou a cabeça, confuso consigo mesmo.

– Por alguma estranha razão... Eu também! – disse Maru.

Ueda e Takki concordaram.

10

Ryo estranhou que Jin não atendia as suas ligações. Soube por Yamapi que ele não estava falando com ninguém ultimamente e, além disso, havia conseguido uma dispensa de uma semana por que estava gripado. Suspeitavam da Influenza A. Por isso ele conseguiu um bom período.

– Droga, eu ia perguntar se ele acha que eu devo mesmo encontrar com aquela pessoa misteriosa. Porque não atende ao menos o telefone? Será que morreu? Não, já teriam noticiado se fosse isso. – ele apoiou o celular no queixo e fitou a carta que estava em suas mãos.

Finalmente, a pessoa havia marcado o dia e a hora que deviam se encontrar. Finalmente, ele descobriria quem era o autor das cartas anônimas. Olhou para a data no calendário. Também era o dia do primeiro encontro de Tegoshi e Okura. Fechou a cara.