Eu Estou Aqui
6 Capítulo VI
Notas iniciais
Capítulo 6
"Tenta achar que não é assim tão mal
Exercita a paciência
Guarda os pulsos pro final
Saída de emergência"
– Pulsos, Pitty
Nico acordou com a luz do Sol incomodando seus olhos. O calor fraco acariciava seu rosto com suavidade. Ele apertou os olhos por um momento, fez uma careta, desconfortável, e entreabriu os olhos. Os acontecimentos da noite anterior jorraram em sua mente como uma cachoeira. Ele e Percy conversando nos campos. Percy sorrindo para ele. Aquele sorriso contagiante, tão bonito... aquele sentimento de esperança, de que talvez Percy sentisse algo – mesmo que muito pouco – por ele. Aquela estranha felicidade. E depois... as palavras saindo dos lábios de Percy com convicção, sem parecerem ser ditas pela mesma pessoa de momentos atrás. “Annabeth, quer se casar comigo?”. A dor. Nico reviveu aquele momento, como se não se lembrasse de como respirar. As lágrimas quentes escorrendo por seu rosto. E Jason. Sua voz dizendo com suavidade as palavras que ele precisava ouvir no momento em que precisava ouvi-las. “Estou com você”.
Di Angelo cerrou os olhos e mordeu o lábio inferior com tanta força que sentiu gosto de sangue. Cobriu o rosto com o braço e apertou os olhos com força. Então era isso. Mesmo que ele estivesse apaixonado – mesmo que no começo sem se dar conta disso, afinal ele era apenas uma criança quando se conheceram – por Percy há muitos anos, ele sabia que aquilo era um sonho inalcançável. O que havia acontecido ontem apenas confirmava aquilo. Mesmo que aquela paixão houvesse destruído sua vida por completo, no final era isso que ele merecia, não era? Um garoto rejeitado por tudo e todos encolhido em seu quarto, os olhos vermelhos por ter chorado na noite anterior. Parecia que as Parcas estavam bravas com ele, como uma mãe irritada com seu filho, dando-lhe uma bronca. “Você está triste? Não reclame, nós avisamos que isso daria errado...”.
Seus olhos começaram a queimar com pequenas lágrimas, mas ele fungou e se forçou a engoli-las. Mesmo que não houvesse ninguém lá para ver, ele não poderia se dar ao luxo de ser tão fraco novamente. Ele havia derramado poucas lágrimas desde a morte de Bianca, nunca na frente de pessoas vivas ou mortas. E agora, havia caído em prantos. E pior, na frente de Jason Grace.
Jason.
Nico realmente não fazia ideia de pensar a respeito do filho de Júpiter. Ele havia se mostrado tão... surpreendente. Era o oposto do que ele havia pensado quando o vira pela primeira vez. Quando olhara para Jason pela primeira vez, imediatamente pensara que ele seria um completo idiota e arrogante; mas não. Ele estava se mostrando tão compreensivo e honesto... mesmo quando sabia mais sobre o garoto do que qualquer pessoa ao seu redor – até mesmo Hazel – e poderia usar isso contra ele, ele não o fazia. Ele era solidário e parecia realmente querer ajudar.
Como se qualquer coisa fosse capaz de ajuda-lo, na situação em que se encontrava.
Por outro lado, era irritante o modo que Jason fazia questão de mostrar que ele sabia sobre o segredo de Nico, e até mesmo queria falar sobre isso. Na maioria das vezes, di Angelo tinha vontade de se enfiar num buraco e nunca mais sair de lá, ou de esbofetear Grace. Mas como poderia?
Nico não entendia porque reagia daquele jeito ao interagir com Jason. Algumas palavras e ele já havia perdido o controle de sua raiva. Algumas frases, e ele não fora capaz de conter sua dor. Alguns dias e ele já não sabia o que pensar.
É. Nico estava tendo uma péssima semana.
Mas e agora? O que ele faria? Poderia simplesmente agir sem demonstrar emoção perto de Percy, depois da noite anterior? E Jason? Ele só piorava as coisas. Como poderia voltar a olhar nos olhos de Jason Grace depois daquilo? Talvez fosse melhor evitar ambos quando saísse de seu chalé, se um dia saísse de lá. Ele sentia vontade de simplesmente parar de existir, parar de pensar tanto. Mesmo a morte não seria o suficiente; mortos continuam com suas consciências funcionando perfeitamente, para o bem e para o mal. Os outros tinham muita sorte pelo simples fato de – bem, de não serem Nico. Eles podiam parar de sentir toda aquela energia negativa e escuridão ao simplesmente se afastarem dele. Ele estava preso a isso, simplesmente por ser ele. As outras pessoas poderiam simplesmente fugir dele, mas Nico não poderia fugir de si mesmo. Mesmo que se recusasse a agir sobre a angústia que o dominava e enfrenta-la, ele nunca poderia se impedir de senti-la ou pensar nela. Onde quer que fosse, seus fardos o perseguiam. Bianca. Percy. O simples fato de seu pai ser Hades já era um fardo. Deuses, o que ele havia feito de tão errado para merecer isso?
Nico sentia vontade de ficar deitado em sua cama para sempre. Talvez ele entrasse em coma. Isso até que não seria tão ruim. Porém, ali entrava Jason novamente: ele certamente repararia que Nico não saíra de seu chalé o dia todo e viria ver se estava tudo bem. Se o encontrasse naquele estado – esparramado na cama, sem vontade de viver – com certeza iria querer “ajudar”, sendo que a definição de Jason para a palavra “ajudar” era “conversar sobre o que o deixara daquele jeito, não importa o quão constrangedora fosse a tal conversa”. Di Angelo provavelmente deveria dar um jeito de parecer não tão destruído e fingir que estava assim. Ele fingiria estar bem da mesma maneira que as pessoas fingiriam se importar. Mas talvez Jason não estivesse fingindo...
Nico balançou a cabeça, irritado com a maneira que todos os seus raciocínios – se é que ele conseguia raciocinar direito – levavam-no de volta ao filho de Júpiter. Era a mesma coisa com Percy... ele se deu conta que, do jeito que havia pensado naquilo, poderia parecer que estava gostando de Jason. O pensamento quase conseguiu faze-lo rir. Quase.
Nico encarou o teto. A pintura estava começando a descascar, e podia-se notar teias de aranha feitas de minúsculos fios se estendendo nos cantos das paredes. Pensou em Aracne, que ficara presa numa armadilha feita com a própria teia. A mesma teia que usara para puxar Annabeth, que ficara pendurada no abismo com Percy segurando-a pela mão. Nico lembrou-se de como sentira-se em pânico ao ser praticamente obrigado a prometer que levaria os outros até a Casa de Hades, em como ele não podia fazer nada para ajudar enquanto Percy e Annabeth despencavam para o Tártaro. Ele já estivera lá uma vez, e podia garantir que não era um bom lugar para passar as férias.
Percy e Annabeth.
Até mesmo os nomes dos dois juntos ficavam bem, não é mesmo? Imaginou que em poucos dias, a filha de Atena viraria Sra. Jackson.
Nico deu risada. Uma risada rouca, não muito alta e absolutamente sem graça nenhuma. Quando a risada começou a falhar e se transformar em choro novamente, ele se repreendeu e fez o possível para não faze-lo novamente. Seu queixo tremia, e ele sentia como se houvesse algo entalado em sua garganta.
Ele se sentou na cama e encarou suas mãos. Não adiantaria nada continuar deitado em seu chalé, adiantaria? Os outros normalmente não reparavam nele, mas Hazel e Jason aparentavam estar se preocupando demais com ele ultimamente, e como todos gostavam dos dois, acabariam atraindo atenção. E atenção era a última cosa que o filho de Hades queria naquele momento. Isso apenas reforçava que ele deveria simplesmente agir como sempre agia. Com essa conclusão, ele suspirou e pôs os pés no chão. Se levantou e com passos instáveis, foi para o banheiro, arrastando os pés atrás de si.
O filho de Hades girou a torneira para a direita, o que fez um fio de água escorrer pelo cano de metal. Ele encarou a água por um momento e enfim posicionou os mãos em concha sob a água. O líquido transparente logo fez contato com sua pele, formando uma pequena poça em suas mãos, um pouco escorrendo por entre os dedos ocasionalmente. Nico fechou os olhos e mergulhou o rosto em suas mãos. Depois de esfregar um pouco as mãos no rosto, abaixou a cabeça automaticamente, por causa das gotas que escorriam para seus olhos. Ele apoiou os cotovelos na pia e por um momento, cerrou os olhos novamente e pensou que talvez ele devesse apenas ficar lá parado. Se ele o fizesse, talvez não acontecesse algo pior ainda. Porém, a realidade o despertou e ele ergueu a cabeça, ainda com os olhos fechados, e passou a mão e uma parte do braço sobre o rosto, livrando parcialmente das gotas que escorriam por seu rosto.
Por fim, levantou o olhar para seu reflexo no espelho de tamanho não muito grande pregado à parede à sua frente, sobre a pia. Ele era quadrado e uma fina camada de poeira atrapalhava-o de ter uma boa visão de si mesmo. Não que ele quisesse ter; sabia que sua aparência estava tão boa quanto seu humor. Mesmo assim, estreitou os olhos para que pudesse ver melhor.
Estava um pouco – muito pouco – melhor do que o que imaginara. As olheiras marcavam seus olhos de um jeito que vira poucas vezes antes. Bem, ele devia ter dormido aproximadamente uma hora e meia aquela noite, mas depois de ficar apagado por três semanas, esperava que não parecesse tão ruim assim. Os olhos – graças aos deuses – não estavam vermelhos ou inchados, apenas cansados e sentiam pesados. Ele agradeceu que não aparentasse tão ridículo quanto realmente era. Os cabelos negros, por incrível que pareça, não estavam emaranhados. As mechas compridas formavam pequenas ondas curvas nas pontas, a franja – será que poderia chamar aquilo de franja? – caía sobre os olhos, de um modo que parecia faze-lo aparentar mais sombrio ainda, com uma sombra cobrindo os olhos. O rosto continuava pálido como sempre. um pálido estranho, por ainda conter evidências de sua pele ter sido morena. Não como a de Hazel, um tom moreno mais fraco, como o de Bianca...
Perfeito. Lá estava ele de novo. Pensando na irmã. Isso era irritante. O modo que ele não conseguia se desvencilhar dos fantasmas de seus passado. Ora, a maioria dos semideuses que conhecera não haviam tido uma infância exatamente feliz. Hazel, Frank, Leo, até Annabeth... mas mesmo assim, eles conseguiam ser... felizes. Todos eles sorriam com frequência, não tinham tanta dificuldade para lidar com o que pensavam ou sentiam... Nico tinha a impressão de que aquilo tudo deveria ser mais fácil do que lhe parecia, mas então por que era tudo tão complicado...? Talvez, é claro, porque eles tivessem uns aos outros. Eles nunca poderiam entender...
“Isso, Nico.”, pensou. “Parabéns, seu grande idiota. Culpe os outros pelo que você faz consigo mesmo. É mais fácil, não é? Eles não entendem, eles não fazem nada, a culpa é deles. Culpe todos os outros, seu grande covarde.”
Nico levantou a cabeça e encarou seu reflexo novamente, apenas para ver o rosto que tanto odiava. A pele pálida, o rosto magro, as olheiras que insistiam em marcar seu rosto, os olhos escuros. O rosto daquele garoto idiota que ia cada vez mais fundo em seu próprio ódio, que se encolhia ao sentir presenças vivas, que se recusava a receber qualquer tipo de ajuda e mesmo assim ficava se lamentando algum tempo depois. Aquele semideus inútil, covarde e frio.
— Odeio você. – murmurou para o espelho. – Espero que saiba disso.
O reflexo não respondeu. É claro que não responderia. Era apenas um reflexo numa superfície lisa revestida com prata. Ele não faria nada a não ser que o próprio Nico fizesse. E nesse momento, ele não queria fazer absolutamente nada, incluindo respirar.
De repente, uma raiva cresceu em seu peito. Raiva de si mesmo, de Percy, de todos. Ao encarar aqueles olhos negros e ressentidos, Nico ergueu o punho fechado e, antes que se desse conta do que estava fazendo, lançou a mão fechada na direção do espelho, com toda a sua força.
Nico ouviu um grito. Uma voz masculina dando um grito abafado para que os outros não ouvissem, e o som de vidro quebrando. Se sobressaltou ao constatar como aquela voz estava carregada com ódio e mágoa, um pouco selvagem até, antes de perceber que aquela voz era sua e ele quem havia gritado. Os cacos do espelho voavam pelo banheiro, seus cristais afiados apontando para os lados. A mão que havia atingido o espelho trazia una certa quantidade de cacos pequenos fincada nos nós dos dedos e nas costas da mão. Onde os cacos haviam se alojado, sangrava. Por instinto, pôs as mãos na frente do rosto para se proteger. Como estava usando o casaco, os fragmentos quebrados do espelho não atingiram sua pele, fazendo apenas alguns rasgos leves nas mangas do casaco. Nenhum caco ficou emaranhado em seus cabelos. O espelho, agora apenas um fundo de madeira mofada com alguns resquícios afiados de vidro dependurados em suas margens, balançou um pouco antes de cair sobre a pia com um baque agudo, fazendo o que restara do que antes fora um espelho cair sobre o mármore.
Nico soltou um grunhido de dor baixo, segurando a mão machucada com a outra. Ele abriu a torneira de metal e enfiou a mão sob a água gelada, que ajudou a acalmar os nervos nas mãos que o faziam sentir a dor, tomando cuidado para não tocar os restos do vidro cortante que haviam caído dentro da pia. A moldura de madeira havia tombado para o lado e depois de alguns segundos, caído no chão aos seus pés. Pensou que talvez ele tivesse sorte de seus pés não tivessem sido machucados, mas ele não se importaria com a dor física, de qualquer forma. As costas da mão sangrenta ainda ardiam, mas isso não o incomodava. Depois de retirar de sua mão os fragmentos visíveis do espelho, ele desligou a pia e andou para fora do banheiro em passos arrastados. Ele havia planejado talvez tomar um banho, mas parecia que seu mais recente surto de raiva havia tirado isso de suas opções.
Desejou que pudesse ir embora do acampamento. Mas definitivamente não queria deixar Hazel chateada. Como se já não bastasse ser uma máquina de desperdício de oxigênio e espaço no mundo, não queria magoar as pessoas. Além disso, se ele saísse de lá naquele momento, as pessoas poderiam acabar suspeitando...
Trocou de roupa e se preparou para sair. Nico pôs a mão sobre a maçaneta de platina. Ele ficou encarando o metal brilhante, pensando em como o brilho era similar ao de uma espada de bronze celestial. Se perguntou qual seria a sensação de uma espada como a de Luke, Mordecostas, rasgando sua pele. Imaginou como seria suas duas metades – deus e mortal – sendo feridas... Se perguntou se um dia Percy havia, durante uma luta, havia sido cortado pela lamina de dois metais, e se teria doído mais que uma lâmina comum. Nico balançou a cabeça. Estava sendo distraído muito fácil. Isso provavelmente não era bom.
O filho de Hades girou a maçaneta e abriu a porta de madeira. Finas porém numerosas gotas de chuva o atingiram sem aviso e ele apertou os olhos. O céu estava cinzento e as nuvens estavam um tanto baixas. Ele não havia visto chuva no Acampamento Meio-Sangue antes, havia? Mas isso também não significava que nunca houvesse acontecido, afinal, ele ficava fora por muito tempo e só vinha para visitas rápidas. As gotas castigavam a grama esverdeada que agora tinha poças de lama em alguns pontos onde a grama estava agrupada em menos quantidade, e uma neblina quase palpável se estendia até onde a vista alcançava. As copas das árvores balançavam suavemente conforme o vento as tocava com pouca delicadeza.
Nico puxou o capuz do casaco sobre a cabeça e deu um passo à frente. Uma rajada de vento o surpreendeu de lado e o fez cambalear para a direita. Ele resmungou, colocando as mãos nos bolsos e começou a andar. Para onde, não tinha certeza. Não estava com humor de ir até o lugar onde faziam a fogueira à noite e ter que aguentar todas aqueles campistas irritantemente alegres, gritões e festivos e decidiu que não faria mal pular o café da manhã hoje. E ele definitivamente não queria encontrar com Percy e Annabeeth ou Jason. Não queria nem mesmo encontrar Hazel, na verdade. Ou Piper e Frank, com quem ele não tinha problema nenhum – ele até achava a garota simpática, e era, de algum modo, engraçado o jeito que Frank parecia de algum jeito intimidado ao seu lado, mesmo tendo facilmente o dobro de seu tamanho – ou Leo, a quem ele achava um tanto irritante mas não havia nada demais à respeito disso. Um pouco insuportável de vez em quando, mas nada.
Ele passou perto da Casa Grande (N/A: é assim que chama?) e ouviu alguns resmungos irritados e a voz de Quíron respondendo aos adolescentes que não sabia se tinha havido algum problema com o controle meteorológico que impedia que situações como aquela acontecessem.
Nico não tinha nada contra a chuva.
Di Angelo estreitou os olhos para ver melhor as silhuetas que se projetavam à frente de Quíron e conversavam com o centauro. Sob uma capa de chuva amarela encontrava-se um garoto alto, moreno de pele branca e olhos verdes que pareciam se destacar na paisagem cinzenta. Ele segurava um guarda-chuva metade sobre si e metade sobre uma segunda figura que vestia um casaco impermeável e calças jeans, além de galochas de borracha roxas. Seus cabelos loiros estavam presos em um rabo de cavalo e os cachos compridos ondulavam sobre suas costas conforme ela se movia. Ela perguntava se era um problema mecânico e uma terceira silhueta deu um passo à frente, entrando no campo de visão de Nico. O garoto de cabelos cacheados acrescentou que se fosse o caso, ele poderia dar uma olhada, fez uma piada sobre como ele um incrível gênio que podia construir e consertar qualquer coisa e fez algo que parecia uma dancinha da vitória. O moreno e a loira riram, Quíron deu um sorriso e balançou a cabeça. Di Angelo bufou, irritado, e se virou para continuar seu caminho – qualquer que fosse – na direção oposta.
Ele não havia percebido que estava indo para a arena de treinamento até chegar lá. O lugar estava completamente vazio. Uma lona comprida se estendia sobre o lugar de modo que trabalhasse como um teto. A chuva havia se amenizado um pouco. Nico imaginou que talvez Leo houvesse começado a trabalhar nos mecanismos que controlavam o tempo no Acampamento, se é que aquilo era algo mecânico. Ele entrou em baixo da lona e correu os olhos pelo lugar. Era bastante grande, para ser sincero. Uma quantidade impressionante de bonecos de treinamento parecidos com vários tipos de monstros se estendiam intercalados em um estranho padrão, olhando para ele. Uma ponte de cordas sustentadas por colunas instáveis se estendia em algum ponto no alto, além de alvos para a prática de arco-e-flecha. Um arco de madeira se encontrava repousado sobre uma espécie de parapeito onde havia também uma alijava com flechas mágicas – cada vez que se tirava uma de lá, outra aparecia do nada automaticamente, em seu lugar. Se amaldiçoou por ter esquecido sua espada de ferro estígio em seu chalé, mas aparentemente, isso não seria um problema: fileiras inteiras de aramarias estavam dispostas sobre pedestais de metal ao seu lado incluindo uma espada parecida com a sua, a qual estava acostumado a usar. A diferença era no peso – era um pouco mais leve que a sua – e o metal, que era bronze celestial em vez de ferro estígio. Também havia uma pequena quantidade e armas feitas com Ouro Imperial, porém Nico decidiu que ficaria satisfeito com o bom e velho bronze celestial.
Sacudiu a cabeça para trás, para se livrar da franja que caía nos olhos. Os cabelos negros haviam crescido até os ombros, e talvez já estivessem longos o suficiente para prendê-los para trás, se isso significasse um obstáculo a menos em seu treinamento. Ou poderia simplesmente cortá-lo. Bom, algo assim não importava no momento, então simplesmente passou a mão na testa para afastar a franja – que voltou a cair sobre seus olhos irritantemente – e pegou uma espada.
Ele não tinha raiva de Percy. Não tinha raiva de Annabeth. Tampouco tinha raiva de Jason ou de Leo, ou de qualquer outra pessoa. Tinha raiva de si mesmo. De como só pensava e sentia a coisa errada pelas pessoas erradas, em como tinha medo de arriscar para fora do normal, por mais que o “normal” não seja uma boa opção. De como era, de suas origens e de sua situação.
Ele simplesmente... tinha raiva.
E estava pronto para causar dor a alguns bonecos.
A chuva estava irritando Jason um pouco. Ela o impedia de fazer suas atividades normalmente e, por causa da neblina, não conseguia enxergar muito bem. Agradeceu quando as gotas começaram a cessar e as nuvens que tampavam o Sol se afastaram. Os raios atingiam a campina dando uma aura bonita e calma.
Ele havia acordado antes das oito aquela manhã. Tinha ido tomar café da manhã com os outros, mas infelizmente, o assunto principal normalmente era o noivado de Percy e Annabeth não que ele não quisesse que aquilo acontecesse; na verdade, estava de certa forma feliz pela felicidade deles e sabia que os dois se amavam muito. Mas ainda sim, ao ouvir sobre aquele assunto, sentia um aperto no peito ao se lembrar de Nico.
Di Angelo não aparecera para o café da manhã. Jason não esperava que ele fizesse e duvidava que ele quisesse ficar perto do casal. Não sabia como ele se comportaria perto de Grace. Mesmo que a ideia o deixasse com uma ponta de irritação, sabia que ele provavelmente ficaria constrangido ao seu lado, e encararia a noite anterior como uma demonstração de fraqueza...
“Nico, seu idiota, ninguém é feito de ferro, inclusive você!”, tinha vontade de dizer. Mas não poderia. Ele só esperava que Nico estivesse bem, ou pelo menos melhor. Só esperava que ele não estivesse muito destruído, ou pior... que tivesse feito alguma besteira, como quase havia feito ontem. Lembrou-se de como ele estava completamente desolado e havia realmente considerado tirar a própria vida.
“Me mate, Jason. Eu quero morrer. Me mate. Agora.”
Jason suspirou. Aparentemente, Nico achava que não tinha nenhuma importância para ninguém. O filho de Júpiter sabia que todos se importavam com ele, pelo menos um pouco. Ele havia notado como o clima mudara quando Nico estava apagado, quase morto, depois da luta contra Gaia. Até mesmo Leo parecia um pouco para baixo. Ele sabia que Percy e Annabeth haviam ficado muito preocupados, quase que em choque. Eles o conheceram antes de qualquer outro deles.
O próprio Jason havia ficado um tanto arrasado, afinal, se ele houvesse sido mais rápido e não houvesse ficado andando em círculos naquele redemoinho de terra... porém, ele era filho do rei dos deuses, pretor de Nova Roma, um líder nato. Mesmo que ele houvesse sido afetado pela guerra tanto quanto os outros, não poderia demonstra-lo. Ele era um líder. Tinha que ser o modelo para os outros, tinha que ser forte. Parecia que Piper era a única que poderia entende-lo, mas por algum motivo, ultimamente parecia que nem mesmo ela...
Às vezes, sentia-se como se não pudesse mais respirar.
Resolveu que precisava tirar todas essas preocupações da cabeça, um pouco, e nada melhor do que descarregar um pouco de energia física para isso. Assim, dirigiu-se à arena de treinamento. O Sol voltava a brilhar acima dele e o calor aconchegante tocava sua pele com suavidade e o vento diminuíra. A neblina começava a se dissipar.
Ele só conseguia pensar que esperava que Nico estivesse bem.
Jason chegou perto da arena de treinamento pela lateral, porém deteu-se ao ouvir som de metal batendo em madeira e pedra. Tinha alguém treinando. O ruído parou por um momento, deixando-o ouvir o barulho de uma respiração um tanto ofegante. Jason se escondeu atrás de um coluna que sustentava a ponte de corda e esticou o pescoço para olhar quem quer que estivesse treinando sem ser visto.
Grace não esperava ver Nico di Angelo jogando uma clava de metal com espinhos na ponta no chão com violência. Porém, foi exatamente o que conteceu. A clava bateu no chão com um baque agudo. Nico a chutou com irritação, se dirigir aos alvos de arco-e-flecha e tentar acertar o do centro. Uma. Duas. Três vezes. Ao falhar em todas elas (as flechas não chagaram nem perto), ele olhou para o arco em sua mão por um momento, e depois gritou enquanto jogava a arma o mais longe que podia.
Jason saiu de trás da coluna.
— Parece que algum filho de Apolo terá problemas se quiser treinar a mira.
Nico se virou, sobressaltado e o olhou com olhos arregalados. Jason se surpreendeu ao constatar que as olheiras sob seus olhos estavam ainda mais fundas. Seus olhos estavam um pouco saltados, como se ele houvesse mantido-os abertos por muito tempo. O cabelo e as roupas estavam um pouco molhados, provavelmente por causa da chuva, e a mão direita sangrava com pequenos porém aparentemente profundos. Depois de ver que era apenas ele, Nico bufou, virou-se e andou em passos duros até o boneco mais próximo. Ele pegou uma espada, e, com um grito desafiador, partiu para cima do boneco, cortando-o ao meio. Ele se partiu como se fosse manteiga, levando o que estava atrás dele consigo.
Jason não sabia bem o que dizer.
— Você está bem?
— Estou. – o outro respondeu, prontamente, ainda de costas. – Nada de errado.
— Certo. – Jason se aproximou e tocou o ombro de Nico. – Essa foi sua resposta para pessoas irritantes que vem te importunar. Agora quero sua resposta verdadeira. E eu não permitirei que me trate como uma pessoa chata que veio te importunar.
A postura de Nico vacilou um pouco. Ele cerrou o punho, abaixando a cabeça. Seu corpo tremia um pouco, mesmo que o movimento fosse quase imperceptível.
— Você quer eu diga a verdade? Certo, Grace. Não, não estou bem. Não mesmo. Mas e daí? Não importa.
Nico quebrou o braço do boneco estraçalhado jogado no chão com o pé.
— Nunca importou. – concluiu.
Jason cruzou os braços.
— Importa, sim, Nico. Claro que importa.
— Pra quem, Jason? Para você? Para Hazel? Vou te dar uma dica: pare de se importar e simplesmente se afaste. Sua vida vai ficar bem mais fácil se você...
— Se eu o que? Se eu te deixar sozinho? Se eu simplesmente for embora e deixa-lo sofrendo?
Nico rosnou.
— Não estou sofrendo. Isso não é sofrimento. Já atravessei o Tártaro sozinho. Aquele lugar... isso sim é sofrimento. Isso não é nada.
— Nico, se você simplesmente deixasse de se oprimir e se abrisse mais com as pessoas... Todos se importam com você, pelo menos um pouco, e o único que não entende isso é você.
— Não.
— Se vê deixasse que as pessoas soubessem...
— Ah, perfeito, e o que você sugere? "Olá, Percy, eu sei que você vai se casar, mas eu preciso te contar que eu estou... — sua voz falhou. — que eu estou... apaixonado por você faz anos". É isso que você está me dizendo para fazer, Grace? Não. Isso está fora de questão. Eu não quero interferir no casamento ou na felicidade de ninguém. — respondeu, apoiando um braço na parede.
— Mas...
— Jason, por favor.
Foi naquele momento que Nico deixou transparecer o quanto estava cansado e completamente esgotado. Jason olhou em seus olhos e entendeu como ele havia se escondido de tudo e todos por tantos anos e agora estava sem qualquer energia para ter um discussão.
— Eu... tudo bem. Desculpe. – Jason disse.
Nico continuava de costas para ele, a cabeça baixa e o corpo apoiada em seu braço que se apoiava na coluna que sustentava a ponte. Jason reparou que a mão do semideus sangrava e imaginou o que teria acontecido.
— O que houve com a sua mão? – perguntou.
Nico encarou-a, automaticamente.
— Eu... Foi só um espelho.
Grace resolveu não fazer mais perguntas. Já havia entendido exatamente o que acontecera.
— Olha, se... se você quiser treinar, eu posso sair. – resmungou di Angelo.
— Você não precisa sair só por causa de mim. A arena é bem grande, tem espaço suficiente para dois.
Nico abriu a boca para responder, mas foi interrompido ao ouvir o som de passos se aproximando. A cabeça de Percy emergiu de trás da parede da tenda. As cabeças de Jason e Nico se viraram automaticamente.
— Ah, oi, pessoal. – disse Percy, animado.
O filho de Poseidon passou por eles, se dirigindo às fileiras de armas atrás deles, pegou um relógio prateado e se dirigiu à saída.
— Meu escudo. – explicou. – O que Tyson havia feito. Esqueci-o aqui ontem.
— Certo. – resmungou Nico.
— Eu... eu interrompi alguma conversa importante? – perguntou o de olhos verdes.
— Não. – Nico respondeu, antes que Jason pudesse pensar em qualquer resposta inteligente. – Jason só estava me contando que você pediu Annabeth em casamento ontem, na fogueira. Eu sei que você tinha me falado para ir, mas eu acabei não indo, então não estava sabendo disso. À propósito, parabéns.
Percy sorriu de orelha a orelha.
— Obrigado. Bom, eu tenho que ir. Vejo vocês depois, acho. Tchau.
Nico e Jason seguiram Jackson com o olhar até que ele desaparecesse de sua vista. Depois disso, Nico emitiu um som que era como se estivesse suspirando e bufando ao mesmo tempo e, com raiva, virou-se e partiu em pedaços outro pobre boneco.
— Por que você falou aquilo?
— Ora, o que mais eu poderia dizer?
Nico...
“Por favor, me deixe ficar treinando ao seu lado.” , Nico queria dizer.
— Não. Só... só me deixe em paz. – Nico disse.
Jason olhou-o com uma expressão angustiada. Lhe incomodava o jeito que Nico, em vez de aceitar o apoio que ele lhe oferecia, manda-o embora e queria ficar sozinho.
— Certo, se é o que você quer.
Assim, Jason deixou o lugar, com um Nico frustrado atrás de si. Nico chutou os restos dilacerados de um boneco de treinamento e se apoiou na coluna.
“Você é a pessoa mais estúpida que existe.”, pensou.
Mal sabia ele que o começo de uma mudança que ele jamais imaginara aconteceria naquela mesma noite, na fogueira, na hora do jantar.
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