Eu Estava Errado

1 Capítulo 1 - Humilhação


Narrando

Mais um dia entediante na Escola Mundial, os alunos — todos divididos em grupos — estavam em seu horário de almoço e aproveitavam para conversar e tirar as suas dúvidas sobre as matérias. No grupo dos populares estava Paulo Guerra que por ser o capitão do time de futebol, rico e filho do maior médico de São Paulo era como uma celebridade entre as adolescentes, só faltava que elas pedissem um autografo como dizia o seu amigo Jaime.

Ele não comia e nem prestava atenção nas conversas ao seu redor, seus olhos estavam vidrados na mesa dos nerds, mais especificamente em Valéria Ferreira. Ela era a garota mais inteligente da escola e por isso motivo de zoação de praticamente todos os populares, não usava óculos nem aparelho, mas era tão desajeitada que sempre estava caindo e com hematomas pelo corpo inteiro.

Paulo era apaixonado por essa garota, mas escondia isso de todos. Nenhum de seus amigos aceitaria que ele se relacionasse com uma nerd principalmente a rainha deles e como realmente se importava com sua reputação Paulo fingia que seu passatempo favorito era humilhar a Ferreira, mas sempre que possível lançava olhares na direção da garota rezando para que ela não percebesse.

Quase sempre ela percebia porque também estava olhando para ele. Valéria era apaixonada por Paulo mas sabia muito bem que não teria chance com o garoto mais popular e além de ser lindo e rico deveria ser o maior galinha de São Paulo. Sua mãe sempre lhe disse para se valorizar e ficar com Paulo com certeza não era a melhor forma de fazer isso. Todas as garotas que ele tinha saído nos últimos anos — pelo menos as que ela sabia — não passava de vacas ou vadias, algumas lideres de torcida, outras irmãs dos outros jogadores e outras que só queriam uma noite com ele.

Valéria bufou com seus pensamentos. Por que estava novamente pensando e olhando para o Guerra? Talvez porque às vezes ele mandava alguns olhares que a deixavam realmente desnorteada ou porque ela era uma completa idiota apaixonada que não conseguia simplesmente esquecer um garoto. Provavelmente a última opção, pensou suspirando tristemente.

–Tudo bem? — Perguntou Daniel um de seus amigos.

–Claro, claro. — Deu de ombros.

–Você estava suspirando e bufando sozinha Alicia, qual é o problema?

Daniel conseguia ser muito insistente e observador quando queria e logo seguiu o olhar de Valéria percebendo que ela olhava para a mesa dos populares. Foi a vez dele de bufar, gostava muito de Valéria para ver ela se machucando por um idiota sem cérebro como o Paulo, mas mesmo com muitas conversas nunca conseguiu fazer com que ela esquecesse ou se conversasse de se convencer a esquecer aquele garoto.

–Val... — O garoto suspirou. — Esquece ele.

–Não consigo Dan, simplesmente não consigo! Já fiz de tudo para esquecer esse garoto, mas é praticamente impossível. Eu sou uma idiota.

Valéria se debruçou sobre a mesa e Daniel começou a sussurrar palavras de apoio para a sua amiga. Paulo vendo aquela cena teve que reprimir a vontade de levantar rapidamente de sua cadeira e sair correndo na direção de Valéria para lhe perguntar o que tinha acontecido e abraça-la tentando fazer com que ela ficasse bem assim como Daniel fazia. Ele era uma das poucas pessoas que Paulo sentia inveja, mas somente porque ele era o melhor amigo de Valéria.

–Paulinho. — Uma voz extremamente irritante invadiu os seus ouvidos.

–Olá Margarida e já pedi para não me chamar assim. — Respondeu sem muito humor.

–Vejo que alguém não está muito animado hoje não é? — Ela riu se sentando em seu colo.

Paulo respirou fundo reprimindo a vontade de joga-la longe. Deu o seu melhor sorriso falso e assentiu em resposta. Ela disse que isso não duraria muito tempo e antes que ele pudesse abrir a boca para perguntar o porque Alicia invadiu o refeitório com um mega fone pedindo a atenção de todos.

–O que aquela maluca vai fazer? — Valéria perguntou levantando a cabeça.

–Coisa boa não pode ser. — Daniel respondeu sem tirar os olhos de Alicia.

Ele não a olhava de uma forma maliciosa assim como metade do refeitório, ele a olhava com desconfiança assim como Paulo que desde que Alicia entrou sentiu seu coração dar um pulo, havia alguma coisa muito errada com o sorriso que ela carregava no rosto.

–Você tem alguma coisa haver com isso? — Perguntou a Margarida rapidamente.

–Claro que sim e você vai gostar da surpresa! Irá animar seu dia Paulinho pode ter certeza.

Antes que ele pudesse corrigi-la por causa do apelido Alicia subiu em uma das mesas ainda segurando um mega fone e pediu a atenção de todos novamente.

–Queridos amigos da EM. — Começou o seu discurso. — Eu queria informar vocês de uma coisa muito... Peculiar. Tenho certeza que nenhum de vocês sabem disso, mas alguns com certeza desconfiam. — Houve alguns murmúrios nas mesas, mas Alicia os ignorou e continuou a falar. — Eu como representante de turma me sinto no dever de informar isto a vocês, já que esse fato pode mudar muito as coisas aqui... Bom pelo menos para duas pessoas: Valéria e Paulo

–O que? — Os dois exclamaram juntos em choque.

–Sim meus caros amigos o líder dos populares e a rainho dos nerds... Bom o que muitos de vocês não sabem é que a garotinha sem sal ali está completamente apaixonada pelo o senhor gostosão aqui. — Ela apontou para os dois respectivamente. Valéria ainda estava em choque e Paulo extremamente irritado. — E ela queria muito uma chance com o seu príncipe encantado para poder ter seu “felizes para sempre” — Ela riu e todos acompanharam, menos Valéria, Paulo e os amigos de Valéria. — Mas como vocês sabem esses dois nunca poderiam dar um casal a não ser o Paulinho ali nos fale que goste dela — coisa que eu realmente sei que não irá acontecer — e para sermos justos daremos essa oportunidade para ele! — Ela desceu da mesa e foi para o lado de Paulo. — Meu caro amigo você poderia fazer o favor de nos falar o que você sente pela sem sal... digo Valéria?

Todos no refeitório começaram a rir. Valéria agora já não estava em choque as lagrimas caiam livremente pelo seu rosto ao ouvir as palavras de Alicia e ainda mais quando via o sorriso sínico da garota, ela olhava para Paulo suplicando com o olhar para que ele não falasse nada já tinha sido humilhada o suficiente e seu segredo já estava exposto para todos principalmente para o próprio Paulo, mas achou que ele não tinha entendido o que os seus olhos suplicavam quando ele pegou o mega fone na mão e subiu na mesa.

Valéria se preparou para o fim da sua humilhação e Paulo para começar com a sua mentira. Não tinha outra opção a não ser gritar para todos os cantos que não gostava da Valéria, admitir ali que ela era o grande amor de sua vida só acabaria com a sua reputação principalmente agora que ele sabe que ela também gosta dele e isso que deveria ser algo bom de se saber trouxe a pior sensação da vida dele. Resistindo a tentação de dizer o que sentia de verdade Paulo fechou os olhos para não ter que encarar Valéria e começou a falar.

–Querida Alicia... — Abriu os olhos e sorriu falsamente para ela. — E todos vocês ai do refeitório bom saber que a Estranha Ferreira está apaixonada por mim não muda nada na minha vida... Alias na vida de quem ela muda alguma coisa? — Todos riram e ele se sentiu ainda pior, mas já tinha começado com a mentira teria que ir até o final. — Valéria é a garota mais desajeitada e idiota que conheço para ela só o que importa são os livros... Garota custa cuidar das suas roupas sem ter que minha irmã ir te vestir. — Todos já davam grandes gargalhadas. Paulo procurou Marcelina no refeitório, mas não viu nenhum sinal dela agradeceu mentalmente por isso. — Valéria saiba que você nunca terá o meu amor, por favor, desista de mim, criatura, Paulo Guerra nunca te achara mais do que uma estranha idiota entendido? Espero que sim! E pessoal obrigada pela atenção.

Ele sorrio fingindo estar satisfeito enquanto todos o aplaudiam. Esse foi o melhor que ele conseguiu fazer e pelo jeito continuava com a sua reputação, suspirou aliviado, mas essa sensação não durou muito. Olhou para a mesa dos nerd e viu vários pares de olhos o encarando incredulamente, mas não foi isso que chamou a sua atenção Valéria já não estava mais lá.

Olhou em volta procurando algum sinal dela, mas não encontrou nada. Sentiu-se tão mal com isso que as lagrimas se formaram em seus olhos... Magoou tanto Valéria a ponto dela fugir dali a troco da sua reputação? Essa não parecia ser uma troca justa, não para ela...

Valéria depois de ouvir as palavras de Paulo e sem saber como tinha conseguido ficar ali para ouvir tudo ela saiu correndo sem rumo. Ouviu algumas pessoas a chamando em meio aos aplausos do refeitório, mas se sentia tão humilhada que não se importou com nenhum dos dois. Sim ela já tinha sido humilhada antes por Alicia e Margarida, mas nunca por Paulo e doeu tanto ouvir aquilo vindo dele que ela não pode conter as lagrimas. Foi para o estacionamento e agradeceu silenciosamente o fato de ter a estacionado tão perto do refeitório. Entrou no seu carro e mesmo sem estar em condições aceitáveis para dirigir deu partida.

A garota fez o caminho até a sua casa rapidamente, seus olhos castanhos o tempo todo tomados por lagrimas dificultaram um pouco.

Chegou a sua casa com olhos e nariz vermelhos de tanto chorar, sua mãe ao ver a sua filha naquele estado logo correu para abraça-la, perguntou o que tinha acontecido, mas não obteve resposta já que Valéria começou a chorar ainda mais.

Quando Roberto chegou e viu sua esposa fazendo carinho no cabelo de Valéria enquanto essa fungava ele correu para mais perto delas perguntando o que tinha acontecido. Valéria ainda não tinha contado para a sua mãe o que a fez chorar tanto e isso fez com que sua mãe desse de ombros para a pergunta de Roberto.

Quando se sentiu um pouco mais calma por causa das palavras de seus pais, Valéria contou para eles o que tinha acontecido o que deixou os dois em choque. Roberto prometera dar um jeito na situação e Valéria apenas assentiu em resposta.

Algumas horas depois comunicou a eles que iria se deitar. Quando chegou em seu quarto foi até o seu banheiro tomou um banho rápido e logo colocou o seu pijama, prendeu o seu cabelo e se jogou em sua cama cansada demais do dia que teve. Valéria tentou não se lembrar, mas sua mente insistia em passar as imagens como um filme... e ao relembrar das palavras de Paulo seu coração despedaçava. Ele poderia não gostar dela, mas humilhar ela daquele jeito foi desnecessário. Sem poder se conter chorou até dormir.

Ao contrario de Paulo que não dormiu, ele chegou a sua casa cansado. Depois de perceber que Valéria tinha ido embora o seu dia só tinha piorado, não encontrou a garota em nenhuma das aulas que eles tinham juntos e nem nos corredores, muito menos no estacionamento como quase sempre acontecia. Ele dirigiu para a sua casa sem se importar em oferecer carona para Margarida como sempre. Paulo agradeceu o tempo todo por Marcelina não ter ido para a escola, pois nessa hora ele já teria ouvido muitas ameaças e promessas de morte.

Paulo suspirou. Quando humilhou Valéria na frente de todos só estava pensando em sua reputação, mas agora só pensava em quão idiota tinha sido! Como ele poderia ter feito aquilo com ela se seria muito mais simples dizer o que realmente sentia? Mas ele sempre gostou de complicar as coisas e fazer tudo errado,

Chegou em casa e não se preocupou em comer. Trancou-se em seu quarto e ficou lá até anoitecer olhando para o teto e chorando. Sim, chorando de vergonha e raiva. Estava tão arrependido e queria concertar as coisas e dizer para Valéria a verdade, mas sabia que ela não iria acreditar e pedir desculpas não faria a mínima diferença.

Suspirou derrotado. Finalmente tinha acabado com o resto da sua vida. O que adiantava agora ser o mais popular e o que pega todas sendo que a garota que ele queria foi humilhada por ele mesmo?