Eu Consigo Te Enxergar
3 Capítulo 3
Notas iniciais
Aquela manhã foi uma tremenda dor de cabeça para o pequeno Matthew. Nunca ele imaginaria que alguém, totalmente desconhecido, o visse e falasse com ele... sem contar que essa pessoa o achava fofo!
“Fofo... Eu sou fofo?”
Colocando as mãos no rosto por causa da vermelhidão causada pelos próprios pensamentos, Matthew concluiu que seria melhor ele não pensar nisso por um tempo. Então ele pegou o caderno e começou a rabiscar um desenho aleatório.
Enquanto rabiscava, ele pode pensar um pouco sobre como era a vida dele na antiga cidade... Acho que isso só o deixou melancólico.
Coisas que poderiam ser consideradas irrelevantes para muita gente, machucavam os sentimentos do menor. Lembrar de coisas da infância era pior! Não tivera uma infância tão emocionante ou muito memorável em relação à coisas agradáveis.
Das coisas que conseguia lembrar, era uma triste rotina de escola e casa que chegava a ser entediante. E o convívio familiar não era melhor. Lembrar que quem ganhava os melhores presentes, quem era mais ouvido, quem chamava mais atenção... quem era mais amado... se alternava entre Alfred e Arthur!
“Por que sou tão invisível?”
“Não sou bom ou ruim o suficiente...?”
E as poucas vezes que fora notado por outras pessoas, ou era muito dolorosa, ou tão imperceptíveis que ele não conseguia se lembrar.
Aquela sensação que lágrimas sairiam de seus olhos foi difícil de segurar, mas Matthew conseguiu ter força nisso.
“Talvez a vida melhore agora.”
–-- x ---
Com o tocar do sino, um a um, os alunos foram se retirando do colégio. Com Matthew era um pouco diferente, ele ficava até tarde para poder se sentir feliz todos os dias ao ir para o colégio.
Sempre que a escola esvaziava, ele atravessava os corredores e corria direto para uma sala com inúmeros instrumentos musicais. Havia instrumentos de corda, de sopro... Mas o que sempre chamava a atenção do menor era um velho piano de parede. Um piano que estava sempre escondido dos outros instrumentos. Matthew nunca tinha visto ninguém tocá-lo! E talvez devesse ser pelo fato de já terem teclados e um piano de calda enorme na sala. Mas e esse? Vão simplesmente abandoná-lo?
Matthew queria muito tocá-lo, mas por nunca ter aprendido nada em relação à música, ele só podia admirá-lo. Ele ficava lá naquela sala, sentado perto do piano de parede e imaginando o dia que pudesse tocá-lo. Sim. Isso o deixava extremamente feliz! Ele esquecia, completamente, de todos os problemas só por estar naquela sala, perto daquele piano de parede.
“Ele é como eu... Está lá, mas ninguém o enxerga...”
Ninguém?
Não, isso não era verdade.
Matthew o enxergava, e via algo belo naquele simples piano de parede. Algo que só ele via. E era esse algo que o atraía para ele e o fazia ficar até tarde no colégio. Esse algo era, realmente, muito relaxante.
“Algum dia, eu vou ter alguém que me enxergue do mesmo jeito que eu o enxergo.”
Ele sorria do nada para aquele piano como se esperasse alguma resposta. Talvez isso até seria interessante se realmente acontece-se.
Matthew acabou ficando mais tempo do que deveria na sala, até que começou a ouvir barulhos no corredor. Começou a ficar muito preocupado. E se algum professor perceber que ele está em uma sala sem autorização? Isso poderia arruinar as suas chances de demonstrar o valor que ele tinha. E ainda meio desesperado, ele acabou se escondendo do lado oposto que estava do piano de parede, se agachou e agarrou as pernas. Ele torcia fielmente para que ninguém entrasse na sala.
Foi em vão.
Percebendo que a porta estava se abrindo, Matthew já estava começando a ficar com os olhos cheios d’água e com todos os tipos de pensamentos ruins. Ele começou a pensar que a vida dele nunca poderia mudar. Seria sempre daquele jeito... insuportável... triste... e solitária.
–- Será que você poderia me passar essa flauta?
Ao tentar raciocinar melhor a pergunta que ele acabara de ouvir, Matthew olhou para cima e deu de cara com lindas orbes azuis, mechas loiras e uma barba ainda por fazer.
–- Poderia? Sabe, eu tenho que voltar e entregar logo ela para aquele idiota do Gilbert.
–- F-Flauta...? – Matthew fazia essa pergunta com um pouco de lágrimas nos olhos.
–- Essa que está do seu lado – então ele apontou para uma caixa preta retangular.
–- Isso é uma f-flauta...?
–- Claro que é! – acabou soltando uns risinhos – Deixe eu abrir para você.
Mas antes dele abrir a caixa que guardava o instrumento, ele pode perceber que Matthew estava com algumas lágrimas em seu rosto, então puxou um lenço do bolso, segurou o rosto do menor e começou a enxuga-las.
–- Você não deveria chorar... Pessoas fofas e bonitas como você deveriam ser sempre alegres...
–- M-Me d-desculpe... Eu não quero i-incomodá-lo...
–- Você não me incomoda. Eu só não quero te ver chorando.
–- Isso é difícil... – Matthew acabou olhando para baixo ao responder isso.
Francis parou de enxugar as lágrimas do menor e encarou aquele cabelos loiros e aquele fio protuberante que saia do centro de sua cabeça. Talvez aquela criatura fofa, só precisasse de um pouco de atenção. Então ele respirou fundo e tentou organizar bem as palavras antes de perguntar:
“Você ainda não chorou o bastante?”
“Se quiser chorar, vai em frente. Eu não me incomodo.”
Matthew levantou a cabeça e começou a encarar aquela estranha criatura em sua frente. Ele quer faze-lo chorar. Mas por quer? Ele gosta de ver o sofrimento dos outros? E ele também não poderia simplesmente chorar na frente de outras pessoas que não entendem seus problemas!
–- Não... Não quero chorar...
–- Tem certeza?
–- T-Tenho.
–- Não. Você não tem. – Francis segurou o queixo do menor para que ele pudesse encará-lo – Você precisa chorar agora... Senão fica muito mais doloroso se você chorar sozinho! – Francis deu um suspiro e voltou a falar – Estou me oferecendo para ser a pessoa que veja você chorar e que tente te ajudar.
“Ver”. “Ajudar”. Eram palavras tão estranhas até aquele momento para o pequeno Matthew que ele levou um tento para juntar as duas numa mesma frase. Ele realmente queria ficar do lado dele? Para ver e ajudar os problemas? Isso era tão estranho...
–- Se você não descarregar todo esse sentimento de tristeza logo, você pode piorar!
–- E-Eu... – a sensação que lágrimas escorreriam era muito forte.
–- Não se preocupe... – Francis abraçou Matthew e o fez ficar apoiado em seu ombro – Eu só quero ajudar.
Não podendo mais conter aquela sensação, Matthew se agarrou nas costas de Francis, e não demorou muito para que o mesmo sentisse seu ombro ficar molhado. Matthew soluçava um pouco e tentava não gritar ao lembrar do passado/presente em que via passar na mente.
Francis ficava acariciando os cabelos do menor, querendo transmitir que estava tudo bem, que iria melhorar, que ele não era o único com problemas. E por alguma razão, ele achou que começou a se sentir bem por isso.
“Acho que fiz certo ao segui-lo até aqui.”
–-- x ---
Matthew ainda não entendia bem o por quer de Francis estar andando ao lado dele durante uma boa parte do percurso do colégio até a sua casa. Será que ele era algum tipo de stalker?
–- Ah... F-Francis...?
–- Sim~~
–- Desculpe eu perguntar... Mas por quer você está me seguindo?
–- Não estou lhe seguindo. – Francis começou a rir – Estou indo para a minha casa.
–- Não parece... – foi tão baixo que Francis QUASE não ouviu.
Durante o a caminhada, Matthew ficava virando, discretamente, a cabeça várias vezes. Ele olhava Francis com atenção nessas viradas. Mas por que ele estava fazendo isso? E com um homem! Não, isso era estranho... isso era inaceitável... seus familiares nunca aprovariam.
Familiares.
Talvez eles nem soubessem com quem Matthew andava se ele próprio não disse-se. Será que nem em relação a isso eles se manifestariam de alguma forma?
“Por que eu estou pensando nisso?”
Se pegar pensando em relações homossexuais com alguém que acabara de conhecer era algo totalmente constrangedor. Tão constrangedor que Matthew conseguia demostrar fisicamente isso.
–- Suas bochechas estão vermelhas. – Francis ainda fez questão de parar e pegar nas bochechas de Matthew.
–- O Q-QUE??
–- Sim, elas estão! – Francis soltou outra leva de risos – Você realmente fica muito fofo desse jeito!
“Fofo...”
Por que Matthew ficava vermelho com um elogio tão bobo desses? Não fazia sentido! Sem contar que ele só ficava assim depois que Francis dizia isso.
Droga!
Mas internamente, Isso deixava Matthew mais tranquilizado... como se nada pudesse o deixar triste. Ele até pensou que poderia ouvir Francis falando mais uma vez isso e que não se importaria tanto.
“Ele me achou fofo e... bonito?”
Ele acabara de se lembrar da estranha cena na sala dos instrumentos. Matthew era bonito? Ele próprio não sabia definir isso. Ninguém dissera qualquer coisas sobre isso para ele. Então a curiosidade se manifestou.
–- E-Eu sou... b-bonito? – ele segurava um de seus braços e abaixava a cabeça por causa da vergonha que essa pergunta proporcionava.
Francis ao perceber o nível da pergunta, o estado emocional e físico de Matthew só conseguiu formular uma única resposta para isso. Ele soltou um sorriso, estendeu a mão até segurar mais uma vez o rosto do menor e faze-lo encarar pela segunda vez naquele mesmo dia. Deu um pequeno suspiro e disse:
“O mais lindo que eu já conheci.”
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