Eu Consigo Te Enxergar
16 Capítulo 16
Notas iniciais
Os olhos iam de cima a baixo, encarando e avaliando, fisicamente, aquela criatura que estava à sua frente. Por que ele estava ali? Por que ele estava ao lado de seu irmão? Aquela pessoa parecia não ser gente boa. Será que Matthew começou a andar com pessoas erradas quando se mudou de casa? Arthur não poderia deixar que seu irmão andasse com pessoas assim. Mas antes de qualquer coisa, ele precisava descobrir quem era aquele ser.
“Vou descobrir a relação que você tem com meu irmão.”
Arthur ainda escarava aquela pessoa quando Matthew o ajudou a levantar. Pelo visto, Matthew não percebera a cara de apatia que se estampava no rosto de Arthur. Para ele, Arthur estava apenas assustado com algum pesadelo.
–- Quem é você? – Arthur falava com desgosto.
–- Bem, eu acabei de dizer que o meu nome é Francis.
–- E o que faz na minha casa?
–- Er... Essa casa não é do Matthew?
–- Tanto faz. O que faz aqui?
–- Eu vim ajudar a preparar o jantar...
–- Não precisa. Eu vou fazer o jantar hoje.
–- A-Arthur! Você está como convidado! Não se preocupe, eu e o Francis vamos preparar o jantar.
Arthur voltou os seus olhos para o irmão mais novo. E percebendo que se ele continuasse com a discursão eles nem iriam comer naquela noite. Ele apenas sentou mais uma vez no sofá e encarava os dois indo sorridentes até a cozinha.
“Quem é esse sujeito?”
Francis olhava, discretamente, entre os ombros para ver o que Arthur estava fazendo. Pelo visto, o irmão de Matthew era o total oposto que ele pensava que fosse. Ele não queria admitir isso para não entristecer seu doce Matthew, mas o irmão dele o fez ficar irritado.
–- Acho que ele não gostou de mim... – Francis murmurou.
–- O que? – Matthew pareceu confuso.
–- Nada.
–-- X ---
Ele estava correndo a tanto tempo que nem se tocara que já tinha deixado o portão daquele colégio há muito tempo. Ele só queria manter uma distância segura daquela pessoa para poder pensar com mais clareza antes de abordá-la. Ele corria tanto que nem percebeu que já estava escurecendo. Roderich não gostava de andar sozinho pelas ruas quando escurecia. Ele sentia que alguma coisa ruim iria acontecer se andasse naquele horário. Mas ele nem tinha lembrado desse fato até parar perto de um muro para poder descansar.
“Droga... Nem vi que já estava ficando tarde... Onde eu estou?”
Ele olhava para os lados procurando alguma referência para poder pedir ao Vash para encontra-lo. Ele não queria andar sozinho. Enquanto ainda tomava fôlego, ele só pode ouvir uns barulhos de passos. Era passos pesados, rápidos e ritmados. Roderich foi possuído pelo sentimento de medo e não pode pensar muito quando gritou.
–- EU NÃO TENHO DINHEIRO! ME DEIXE EM PAZ, POR FAVOR!
–- Eu não sou um ladrão... seu idiota...
–- Ah?
Quando finalmente ele conseguiu se acalmar um pouco, Roderich pode notar a figura de cabelos brancos e olhos escarlates que estava ofegante. Será que ele veio correndo atrás dele? Não poderia ser verdade!
–- O que está fazendo aqui, Gilbert? – ele perguntou com certa dificuldade por ainda está cansado da maratona.
–- Você queria falar comigo, então eu vim saber o que você quer.
–- Eu... bem... Você não deveria ter vindo atrás de mim!
–- Por que?? – Gilbert ficou irritado.
–- Porque você mesmo disse que não queria mais me ver...
–- Eu sei o que eu disse.
–- Então porque você ainda veio?
–- Porque mesmo que eu tenha dito isso, você ainda queria falar comigo.
O jovem Roderich até pensou em responder, mas ele sabia que não teria como rebater com um argumento daqueles. Ele começou até a se sentir meio burro por ter feito aquilo. Ele nunca pensou que o albino ganharia dele em alguma lógica.
“Droga... eu não sei o que eu faço...”
Gilbert encarava aquele rosto que estava evitando a mais de um ano. Como era possível ele ainda amar aquela criatura que o fez sofrer por tanto tempo? Mas por alguma razão, as coisas que Vash tinham falado fizeram com que ele refletisse um pouco.
–- Vai ficar mudo mesmo? – Gilbert odiava ficar no silêncio – O que você pretendia me falar?
–- Eu... na verdade... droga, eu não consigo organizar as minhas palavras!
–- Você só fica assim quando está nervoso. Eu te deixo nervoso? – Gilbert foi se aproximando.
–- Não! Eu só estou assim porque já está escuro. Eu não gosto de andar pela rua de noite...
–- Mentira! Se fosse isso, você estaria pegando agora mesmo seu celular para ligar para qualquer um pedido para vir lhe buscar.
–- Mas eu ia fazer isso!
–- Então faça. – Roderich encarou o gesto que Gilbert fez para ele poder pegar o seu celular e ligar para alguém. Mas ele simplesmente só ficou encarando o albino – Não pode ligar? Ou não precisa ligar?
–- Cala a sua boca!
–- Você não precisa ligar porque já tem alguém que você confia aqui com você, não é mesmo? E você está nervoso por minha causa, não é?
–- Já disse para calar a sua boca! – Roderich queria chorar. Era a primeira vez que Gilbert falava tão seriamente com ele.
–- Me diga logo o que você quer me falar. – Gilbert chegou perto de Roderich e o abraçou – Me diga logo, por favor... Eu não aguento mais esperar... Eu não aguento mais sofrer... E com certeza, você também não aguenta.
Roderich retribuiu o abraço e logo se pôs a chorar no ombro de Gilbert. Ele odiava ficar assim, era humilhante. Não gostava de chorar, principalmente por motivos que ele não tinha controle. Ele não queria chorar mais na frente de ninguém, e estando daquele jeito, na frente de Gilbert só fez com que ele se sentisse mais humilhado.
–- Jovem mestre... me diga... por favor...
Há tanto tempo ele não ouvia aquele ser o chamando daquele jeito... Ele só conseguiu deduzir uma única coisa a se fazer: falar a verdade! Mesmo que ela saísse de forma chorosa ele precisava dizer.
–- Eu te amo, seu idiota!
Gilbert soltou um sorriso que há tanto tempo ele não tinha soltado, que quase saiu uma gargalhada indesejada na hora. Ele abraçou com mais força a pessoa que ele mais amou e que ainda ama para ter certeza que aquilo não era mentira. Ele só queria que aquele momento durasse para sempre.
–- O incrível eu sempre te amou. E eu nunca vou parar de te amar, jovem mestre....
–- Idiota...
Gilbert o afastou do abraço e deu de cara com aqueles olhos violetas que estavam atrás dos vidros que faziam parte daqueles óculos simples com armações pretas. Ele precisava olhá-los por mais algum tempo. Era a primeira vez que ele enxergava aqueles olhos com um sentimento a mais vindo de seu proprietário. Aqueles olhos o enxergavam com amor, e não somente como amigo.
“Agora eu posso enxergar os meus próprios olhos violetas... Não preciso mais admirar os olhos violetas de outros...”
Com certeza Francis o mataria se ouvisse aqueles pensamentos. Mas agora, isso era o de menos. Ele não tinha apenas os olhos, tinha Roderich por inteiro. E ele queria provar daquilo tudo. Ele segurou o rosto do moreno para que pudesse se aproximar do seu, e antes de puxá-lo para mais perto, Gilbert demonstrou um grande sorriso que fizeram Roderich perceber que os problemas deles tinham, finalmente, terminado.
E não demorando muito, Gilbert encostou seus lábios aos de Roderich, para finalmente sentir aquele sabor que ele tanto almejava desde o momento que se apaixonou por aquela criatura cheia de regras e etiquetas e que era tão frágil e medrosa a ponto de não andar sozinho de noite.
“São doces e macios...”
–-- X ---
Francis cortava alguns legumes para compor uma salada e Matthew mexia uma grande panela de cozido. Até seria tudo lindo e agradável se não fosse a aura negra que exalava de Arthur ao ver Francis muito perto de Matthew. Por que ele estava agindo assim?
“O que eu fiz para ele?”
Alternando seus olhares da televisão para a cozinha, Arthur não queria perder um único detalhe para acusar Francis de alguma coisa. Ele não tinha gostado dele logo de cara devido há vários fatores. Ele parecia despreocupado. Tinha cara de quem não seria uma boa influência para seu irmão mais novo. E era esse sujeito estranho que estava fazendo o jantar e não ele, ou seja, seu irmão preferia a comida de gente estranha e não a do seu confiável irmão.
–- Vocês já terminaram aí? Eu estou com fome.
–- Espere mais alguns minutos, Arthur! Daqui a pouco a comida sai. – Matthew falava alegremente.
–- O que você está preparando Matthew? – Arthur ignorava, fortemente, a presença de Francis.
–- Um cozido e um pouco de purê de batata. E Francis está fazendo salada e uma macarronada.
–- Vou comer o cozido e o purê.
Francis ficou irritado. Ele não queria ser grosso com aquela pessoa na frente de Matthew. Sem contar que aquela pessoa (horrível!) era o irmão de seu amado, e pelo visto, Matthew se dava muito bem com ele.
“Como eu queria tacar essa colher de pau na cara dele...”
E sem perceber a tensão que se formava nos dois cantos da casa, Matthew foi finalizando a preparação da comida. Ele realmente não notou a briga interna que estava acontecendo bem na sua casa. Ele só se preocupava em servir o jantar e que ele, Arthur e Francis conversassem durante o jantar. Talvez assim, Arthur se esquecesse dos problemas.
Arthur até se esqueceu dos problemas, mas não da maneira que Matthew pensara...
Depois que já estava tudo pronto e posto à mesa, os três se sentaram e foram degustar daquele banquete. E realmente, Francis e Matthew faziam uma grande dupla na cozinha. A mesa estava linda e com um belo aroma. Até Arthur não poderia negar que a comida de Francis parecia apetitosa. Mas ele manteve a postura e se prontificou a comer apenas a comida de Matthew.
–- Esse cozido está muito bom, Matt! Você melhorou muito na cozinha.
–- Obrigado. Eu fui pesquisando outras formas de melhorar os temperos.
–- Você tem que cozinhar mais vezes. Não precisa ficar gastando tanto dinheiro comprando comida semi-pronta no mercado.
–- Vou cozinhar para você esse fim de semana, eu espero que goste.
–- Vou gostar.
–- Que bom. – Matthew sorriu para o irmão – Ei, você vai querer um pouco de macarronada, está muito boa.
–- Não. – Arthur respondeu isso olhando para Francis.
–- Você não precisa forçar seu irmão a comer algo que ele não quer, Matthew. – Francis tentava responder o mais educadamente possível.
–- Eu só pensei que ele iria gostar de provar...
–- Ele não deve gostar muito de macarronada, não é mesmo Arthur? – ele até tentou esquecer que Arthur não gostava dele ao perguntar aquilo diretamente para ele.
–- Eu gosto de macarronada. Só não gosto dessa.
Aquilo já estava tirando Francis do sério, mas logo ele esqueceu Arthur quando duas mensagens de Gilbert fizeram com que ele ficasse mais calmo. E então ele foi logo avisando para Matthew.
–- Gilbert se entendeu com Roderich. E já está voltando para casa. Ele foi deixar Roderich em casa primeiro. – Francis deu um sorriso e logo em seguida Matthew sorriu também.
–- Isso é ótimo! Eu já estava ficando preocupado...
–- Você estava preocupado desde à saída do colégio.
–- Vocês dois são do mesmo colégio? – Arthur se intrometeu no meio da conversa.
–- Sim. O Francis é do segundo ano, o mesmo período do Alfred... – Matthew se lembrou da situação e percebeu que tinha feito besteira – Desculpa! Eu deveria ter falado nisso...
–- Não se preocupe... Ele não está aqui. – Arthur fingia estar bem, mas sabia que Alfred chegaria no dia seguinte na cidade.
–- Arthur... sobre ele não estar aqui... bem...
–- O que foi Matthew? – Arthur ficou curioso.
–- Ele vai lá para casa. – Francis finalmente falou.
Tanto Matthew quanto Arthur encararam Francis com uma feição de surpresa. Do que ele estaria falando. Então Francis respirou fundo e falou que Alfred era amigo de Gilbert. E quando ele tinha descoberto que Alfred era irmão de Matthew ele tinha ido logo avisar para ele sobre isso.
Francis pensara que quando Matthew tinha falado que “meu irmão está em casa” ele se referia a Alfred. E a visão que ele tinha de Arthur se baseava naquilo que Gilbert tinha mencionado sobre Alfred.
–- Acho que eu não estou com mais com fome... – Arthur se levantou e foi para o banheiro.
–- Eu espero que a visão que ele tinha de mim não piore mais depois disso...
–- Tenho certeza que Arthur não lhe odeia – Matthew tentava ser otimista.
–- Bem, eu não sei o que está acontecendo com os seus irmãos... mas espero que não fique ruim a situação.
Matthew encarava Francis e pensava como ele poderia explicar a situação atual para ele. Talvez não fosse tão ruim explicar desde o princípio. E então, Francis passou mais um tempo na casa de Matthew só ouvindo a história toda. E quando ele se despediu, ele resolveu que não deveria se intrometer.
“Eles são uma família estranha...”
–-- X ---
~MENSAGEM!~
Remetente: Gilbert Beilschmidt
Assunto:–-
“Ei, Francis! Não se preocupe comigo, eu já estou voltando para casa. Fui só deixar o Roderich em casa. E estamos bem agora. Ou seja, eu vou ficar jogando na sua cara como o meu Roderich é mais fofo que o seu Matthew! KESESESESE~”
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~MENSAGEM!~
Remetente: Gilbert Beilschmidt
Assunto:–-
“E não se esqueça que amanhã o meu amigo Alfred vai ficar lá por casa!”
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