Eu A Vi Em Molching

1 Capítulo único.


Notas iniciais
Essa é uma história curtinha que serve para nos fazer refletir sobre o tempo que temos e o que devemos fazer com ele.

Aquela mulher não havia sido uma boa mãe. Havia se preocupado com todos os detalhes da criação de uma criança, é verdade, as mamadas, a alimentação sempre saudável e na hora certa, roupinhas sempre limpas, as fraldas eram constantemente supervisionadas a fim de nunca deixar a criança desconfortável em uma fralda suja, nunca perdera uma única visita de rotina ao médico pediatra e qualquer febre a deixava alerta.

No entanto, apesar de estar fisicamente sempre perto, sua alma de mãe não estava lá, talvez já gostasse da filha, mas, perdida entre tantos problemas e desilusões, não conseguisse expressar e nem mesmo perceber em si mesma esse imenso amor.

A menina cresceu e a pobre mulher nem se deu conta, não percebeu o tempo passando, não se ateve a esse detalhe: “o tempo passa”. Mas um dia se deu conta do quanto falhara, do quão ausente esteve mesmo estando tão perto. Havia abraçado tão pouco aquela criança, havia beijado-a tão pouco na mais tenra idade que acreditava que, mesmo se passasse o resto da vida beijando-a e abraçando-a ainda não seria o suficiente para resgatar o que faltara no início e, agora, o remorso lhe pesava sobre os ombros.

Enquanto as pessoas iam chegando devagar e silenciosamente para o enterro, a mulher permanecia sentada no mesmo lugar, parecia petrificada, não se notava movimento em um único músculo que fosse da face ou de qualquer outra parte do corpo. Rosto fúnebre, olhar morto. As mãos largadas sobre o colo, ombros curvados como se escorasse o peso do mundo e a boca entreaberta denunciavam a incredulidade diante daquele momento.

Ela iria enterrar a filha sem ter tido tempo de dizer a ela o quanto a amava, o quanto era importante em sua vida e a motivação para tudo o que fazia, e que em todo o momento seu pensamento se ocupava dela, mas havia julgado mal a questão do “tempo”. Pensou tê-lo de sobra, visto que sua filha ainda era tão jovem.

Enquanto analisava aquela situação, me chamou a atenção uma figura que surgia na entrada e que diferia das pessoas presentes no local. Então olhei em direção à porta de entrada do salão onde se realizava o velório e vi, com meus próprios olhos, alguém que julgava existir apenas na ficção, que fazia parte de uma história que eu havia lido há pouco tempo. Talvez ela quisesse me dizer “eu sou real, eu realmente estive em Molching e estou aqui agora”, porque nossos olhares se cruzaram.

Seus olhos tinham a cor de um pote de mel contra o sol e foi só o que pude ver sob o gorro de sua túnica que, ao contrário do que se pensa, não é negra ou sombria, tem um tom azul acinzentado, lembrava um tecido nobre e, de tão longa, cobria-lhe as mãos e os pés. Não carregava nenhuma foice ou qualquer outro tipo de instrumento e não causava medo, estranho não?!

Bem, como eu disse, ela claramente percebeu que a notei, mas, como quem veio apenas cumprir uma obrigação, deslizou suavemente salão adentro parando à beira do esquife, passou a mão uma vez pelos cabelos da menina e em seguida tomou-a nos braços, caminhando em direção à saída.

Tão impossível quanto querer explicar o que senti, foi deixar de me lembrar dela e sua narrativa durante a passagem pela Europa em meio à segunda guerra.

Como se fosse capaz de ler meus pensamentos, e creio que o era, parou antes de cruzar o limiar, olhou nova e diretamente nos meus olhos e, diante da minha pergunta óbvia e egoísta para aquele momento, balançou negativamente a cabeça. Mesmo sem que eu pudesse ver nada além de seus olhos doces como o mel, pude sentir um leve sorriso nascer em seu rosto como se fosse uma satisfação poder me dar aquela resposta, retribuí o sorriso e ela se foi. Através da porta larga, vi que não olhou para trás, como sempre.

Olhei novamente para a mulher que conservava a mesma posição e a mesma expressão. Eu queria tanto lhe dizer que sua filha estaria bem, que fora levada com doçura, mas, não! De certa forma compreendi que nada seria capaz de amenizar a dor que aquela, enfim, mãe carregava na alma, nada seria capaz de arrancar de cima de seus ombros o pesado remorso que decidira carregar pelo resto de sua existência.

Entendendo que aquela situação era irreversível, enfiei minhas mãos nos bolsos e me dirigi à saída tal qual ela fizera. Sem resistir, quando já estava fora do salão lancei um olhar por todo o local mesmo sabendo que ela não estaria mais por ali. Caminhei devagar e tranquilamente até o carro pensando que ela quis, por algum motivo, que eu soubesse que ela poderia estar em qualquer lugar ou em vários lugares, até mesmo numa história, num livro, e ainda assim ser verdadeira. Talvez, quem sabe, tenha se afeiçoado a mim por perceber o quanto aquele livro mexeu comigo e de certa forma, por saber que minha visão sobre ela havia mudado a partir daí.

Notas finais
Espero que tenham gostado! bjokas♥
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!