Eternos ~ sendo reescrita~

2 A eternidade do nosso amor


20/06/2016

. . .

Estar nesse quarto de hospital o observando já era mais do que rotina, eu me sentia na obrigação de vir até aqui, de fazer Louis sorrir e de ajudá-lo o máximo que puder. Para mim tudo estava bem, eu estava confiante, ele poderia melhorar logo e voltar para mim, eu estava realmente esperançoso.

E iludido. Eu sabia, era uma ilusão... Louis não respondia ao tratamento há bastante tempo. Mas se eu não ficasse forte eu desabaria e desabar não era uma opção. Mesmo que eu soubesse... Que ele estava morrendo... Eu também sabia que o amava e isso preenchia meu coração de algum modo.

Só faltava dizer a ele.

"No que está pensando Jeff?" Louis perguntou sorrindo levemente, me observando ajeitar as flores, senti-me corar e forcei meu melhor sorriso, não que fosse um bom sorriso.

"Nada de mais, então vai mesmo ir para casa?"

Ele deu de ombros, sorrindo triste.

"Se eu tiver que morrer, espero no mínimo morrer com dignidade." — Louis tinha belos olhos azuis, que antes me faziam sentir paz, mas agora tudo o que sentia era dor, ele desviou o olhar: "O médico disse que devo ter alguns dias de vida talvez, então quero ir para casa, sinto falta do meu irmão, da minha cama, de comer pudim até não poder mais! Cory quase não pode ficar comigo por muito tempo aqui, o trabalho exige muito, eu não quero isso... Quero quem amo perto de mim."

" É... Eu te entendo..."

Foi tudo o que consegui dizer, em todos esses anos que passamos como amigos Louis foi incrível comigo, sempre tinha a palavra certa a dizer quando eu precisava, e agora aqui estávamos: Ele está morrendo e tudo o que consigo dizer é um mero 'entendo'.

"Não faça essa cara, Jeff, está me deprimindo".

"Desculpe!" Pedi com sinceridade, não consegui pensar em dizer muito mais coisas, porque tudo o que eu queria dizer era 'Eu te amo', mas eu não conseguia.

Por que não conseguia?

Era simples.

Mas me parecia errado, eu não entendia o porquê. Sempre me disseram que era errado. Ao mesmo tempo me diziam que todos nós tínhamos o direito de viver como queríamos. Nunca soube em que acreditar, mesmo eu tendo certeza do que sentia, eu não tinha a mesma certeza quanto a dizer.

"Pensando bem..." Ele começou, sorrindo e com os olhos brilhando minimamente. "Pelo menos enquanto vivi eu tive você ao meu lado, mesmo que eu morra, nunca vai me esquecer não é mesmo?"

"Eu jamais te esqueceria"

Ele estava morrendo! Essa era a verdade, não havia controversas, não havia outras opiniões para contestar, não havia outra opção. Não havia cura. Uma única lágrima conseguiu escapar, abri a boca para dizer o que tanto queria...

A porta se abriu. Uma enfermeira entrou para pegar uma prancheta e rapidamente saiu.

Louis começou a fechar os olhos lentamente, ele estava quase dormindo, ultimamente tinha sido muito assim.

"Queria dizer alguma coisa?" Perguntou ainda sonolento, eu sorri e soltei sua mão.

"Não, vou deixar você descansar" Ele rapidamente dormiu. De longe observei como parecia sereno e pensar que teria tão pouco tempo de vida.

Talvez ele vivesse mais um ou dois dias. Um ou dois.

Essa era a verdade, ele estava morrendo e eu era um verdadeiro covarde.

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21/06/2016

No outro dia minha mãe me avisou que ele havia ido para casa, ela parecia sofrer tanto quanto eu, já que nos viu crescer juntos afinal, conhecia a família de Louis desde que Cory nasceu e sempre os admirou muito, eu a encarei, seu olhar demonstrava preocupação e ela não parecia ter muito sucesso em segurar as lágrimas, eu a abracei o mais forte que pude e ela retribuiu.

"Obrigado por estar ao meu lado, mãe!" — Sussurrei e ela apertou o abraço.

"Eu sempre vou estar..." — Ela beijou minha bochecha e sorriu minimamente. — "Agora vá, sabe como o nosso moreninho é ansioso. "

Eu consegui sorrir e corri até a porta, saindo de casa sem conter a ansiedade. Corri até o ponto de ônibus, a casa dele era um pouco longe, mas não me importava, eu nunca me importei, aprendi o caminho quando tinha dez anos e isso foi mais do que suficiente para que hoje, cinco anos depois, eu ainda lembrasse.

Não me sentei no banco, fiquei em pé, nervoso, olhando de segundo em segundo se o ônibus vinha. Comecei enviar mensagens fofas para o numero do Louis, ele não respondia, mas eu sabia que estava lendo ou que iria ler em algum momento, mandei algumas coisas engraçadas também até que o ônibus chegou e eu, finalmente, pude ir para a casa dele.

. . .

Depois de um século, finalmente cheguei e não consegui conter o sorriso. Toquei a companhia com expectativa, um rapaz veio me atender, era o irmão de Louis, ele parecia, fisicamente, uma versão mais arrumada do mais novo, era moreno, tinha os mesmos olhos, só que, em vez das roupas largadas do irmão, Cory usava roupas sociais bem combinadas.

Ele sorriu quando me viu e abriu o portão.

"Que bom que veio, Jeff" Consegui notar as olheiras que ele tinha, está ai outro que não dormiu.

"Onde ele está?"

"No quarto, vá lá, qualquer coisa estarei lá perto da piscina"

"Ok!"

Segui para dentro da casa, ignorando qualquer obstáculo do caminho, subi as escadas e parei na segunda porta de madeira que vi, entrei com cuidado, Louis estava deitado olhando para a porta e sorriu quando me viu.

Ele parecia mais pálido que o normal, mas tentei ignorar isso.

"Boa tarde! Atrapalho?" Perguntei me sentando perto dele.

"Jeff você nunca atrapalha. Acordou tarde hoje?" Ele permanecia deitado e me olhava com curiosidade.

"Digamos que sim." Comentei fazendo bico e ele sorriu, digamos que eu não cheguei a dormir. "Como está se sentindo?"

"Cansado, não consigo prestar atenção em mais nada, até agora o máximo que consigo é prestar atenção em você."

Sei que pode parecer egoísmo, mas aquilo me deixou um pouco feliz, ele estava prestando atenção apenas em mim. Ele ouviria qualquer coisa que eu dissesse. Qualquer coisa.

"Jeff, o Tito sumiu!"

"Tito? Ah! o Ursinho!" Sim, ele ainda dormia com um ursinho de pelúcia. O que era fofo e engraçado ao mesmo tempo. "Vou ver com seu irmão"

Sai rapidamente do quarto e corri até a piscina, Cory estava sentado na beirada e estava sendo abraçado por uma jovem morena, ela afagava calmamente o cabelo dele, olhando o próprio reflexo na água.

"Cory?" Chamei e ele me lançou um olhar amistoso, então me aproximei. "Louis quer o ursinho, sabe onde está?"

"No quarto dos meus pais, ele o deixou lá antes de ir parar no hospital. Mesmo que eu tenha dito para ele não andar, mas ele é teimoso." Os olhos dele estavam um tanto avermelhados e sua voz soou falha, a jovem também parecia abalada, ela mal conseguiu me olhar nos olhos.

"Sempre foi um teimoso." Resmunguei, sem muito humor. "Obrigado Cory!" Me virei para voltar ao quarto, mas Cory me chamou.

"Está disposto a qualquer coisa mesmo por ele?" Nesse momento ele segurava as mãos da jovem com mais força.

"É... Eu... Acho que sim, ele é meu amigo... Então!" O sorriso que ele abriu foi o suficiente para me fazer desistir de enrolar.

"Não sou idiota Jeff, só tente não perder muito tempo, ele está esperando que você dê o primeiro passo."

"Cory... Você..." Ele diminuiu o sorriso e olhou para frente, deixando as lágrimas rolarem sem pudor.

"Eu vou perdê-lo!" Cory falava com alguma dificuldade. "Mas quero que ele pelo menos tenha o seu único desejo realizado!"

"Eu... vou pegar o Tito!"

Cory apenas assentiu e deitou a cabeça nos ombros da garota, suspirei e tentei segurar as lágrimas. Mas tinha uma pergunta que eu me segurava para não fazer.

"Por que Cory? Por quê? Ele é um menino tão bom, por que ele tem que morrer? Não é justo!"

"Meus pais sempre disseram que Deus sabe o que faz!"

"Por que todos dizem isso? Não é justo droga, quero Louis para sempre! Para Sempre! Não quero que ele morra, não é justo!"

"Ele parou de tomar os remédios. Ele está sofrendo Jeff, ele quer acabar com essa dor logo e não suporta nos ver sofrer assim por tanto tempo..." Meu coração perdeu o ritmo. "Nem eu suporto, mas tenho que sorrir por ele não é?"

"Quanto tempo ele tem?"

"Os remédios dariam mais um dia a ele, só que agora ele tem apenas umas horas, considerando que ele não os toma desde de manhã, talvez nem uma hora."

"Só?" Ele confirmou e senti meu medo aumentar e o sufocamento em meu peito ficar intenso.

Em algumas horas eu o perderia para sempre. Algumas meras horas. Ou menos, muito menos, talvez apenas uma hora, ou meia hora.

"Tem que ser forte! Eu acho que ele está apenas esperando você dizer o que tanto quer. Ele está esperando você, apenas isso."

"Cory..." Eu podia sentir sua dor enquanto ele falava, sua voz parecia cortante.

"Ele me disse que já tem bastante tempo que você parece querer dizer algo. Ele já sabe o que é, assim como eu já sei, mas ele quer ouvir de você."

"Sim" Murmurei baixinho, meio corado e sem jeito, eu sabia que não podia enrolar mais, então, sem olhar para trás, corri novamente para dentro da casa e subi as escadas, o quarto dos pais dele ficava um pouco antes do de Louis, onde encontrei Tito, o panda de pelúcia que ele ganhou do pai quando fez sete anos.

Peguei o ursinho e o levei até Louis, ele sorriu e agarrou o bichinho com alegria, vendo essa cena acabei não resistindo e passei a mão rosto dele.

Ele me encarou confuso e eu sorri.

Eu continuei e ele não tentou impedir e nem pediu para que eu parasse, apenas fechou os olhos e sorriu, pegando minha mão que estava livre e entrelaçando nossos dedos.

A pele dele era macia, Louis sempre foi delicado como uma rosa, embora tivesse um gênio forte e intimidador as vezes, mas nada é mais natural do que uma rosa ter espinhos não é mesmo?

Deitei ao lado dele, assim conseguia fitar melhor aqueles olhos azuis tão belos e decididos, eu sempre o admirei por conseguir ser tão calmo e ainda assim conseguir convencer qualquer um de qualquer coisa. Nós nos encaramos sem falar nada, porque só havia uma coisa a dizer.

Aproximei mais meu rosto do dele, para vê-lo corar e fechar os olhos. Dessa vez tentei não pensar muito, que se dane o certo ou errado.

"Eu te amo Louis!" Sussurrei e ele abriu os olhos na hora, ainda mais vermelho. "Te amo e é desde sempre!"

Sabe quando um enorme peso é tirado das suas costas?

Os olhos dele se encheram de lágrimas. "Eu também te amo!" Ele admitiu e dessa vez quem começou a chorar fui eu, nossos rostos ficaram a um centímetro, limpei as lágrimas dele e me aproximei lentamente, até colar meus lábios no dele, que primeiro parecia surpreso, mas depois começou a retribuir.

Não durou muito porque ele não tinha fôlego suficiente, mas bastou para mim. Eu o abracei, não conseguindo mais conter as lágrimas, era como se o mundo inteiro tivesse deixado de existir e restassem apenas nós dois.

"Jeff se eu morrer você tem que prometer não me esquecer!" Louis pediu entre lágrimas e eu sorri.

"Eu jamais esqueceria você!"

"E me prometa... Que não vai se prender só a mim, que vai tentar ser feliz com outra pessoa" Aquele pedido não fazia sentido na hora, eu apenas tinha olhos para ele, mas ainda assim concordei. "Também prometa... Que...".

"Não se esforce tanto"

"Estou bem... Prometa-me Jeff, que vai ser sincero e fiel com essa pessoa".

"Prometo!"

"Obrigado, toma" Ele me entregou o Tito, eu balancei a cabeça, estava chorando novamente, mas Louis insistiu em me obrigar a pegar o panda. "Cuida dele, promete? É tudo o que tenho do papai! É seu!"

"Prometo"

Ele apenas sorriu, eu o beijei novamente, dessa vez um simples selinho, mas naquele momento era mais do que isso, era uma promessa final.

"Vou te amar para sempre!"

Ele ainda segurava minha mão e, com um esforço enorme, conseguiu envolver os braços em meu pescoço.

Eu apenas esperei que ele conseguisse chegar até mim, era agoniante ver como ele sofria por um simples movimento, mas o olhar de decisão que ele possuía me fez apenas o observar chegar até mim e encostar a cabeça em meu ombro, ele já estava cansado e parecia que se esforçava para respirar.

"Se eu tivesse mais tempo ia conseguir te convencer a ver Star wars!"

"Sua magia funciona com todos, menos comigo." Retruquei com um sorriso vitorioso e ele fez bico. "Esse seu jeitinho meigo nunca me enganou"

"Merda... Se eu conseguisse falar mais que uma frase eu juro que conseguiria te enganar" Ele respirou fundo. "Mas vou deixar para uma próxima"

Uma próxima... Meu sorriso diminuiu e ele beijou minha bochecha.

"Minta pra mim Jeff, por favor!" Ele pediu subitamente, eu olhei em seus olhos e me obriguei a sorrir.

"Vamos viver juntos para sempre!"

Nós dois começamos a chorar, mas Louis conseguiu forças para sorrir levemente, como ele conseguia? Não sei, mas o admirava ainda mais por isso.

"Sim" Ele disse "Vamos ter uma casa na praia? E um cachorrinho? Podemos ver o pôr do sol juntos?"

De algum modo consegui parar de chorar, Louis não teve tanto sucesso, o pior era que mesmo chorando ele conseguia ser fofo.

"Ai meu Deus Jeff!" Ele conseguiu dizer, ainda entre lágrimas, sua voz, pela primeira vez, revelou o desespero e o medo que sentia. "Céus não quero te deixar! Mas dói tanto o meu corpo, meu coração, minha alma."

"Estou do seu lado"

"Mas eu nã-"

"Estou do seu lado" Repeti e fiquei repetindo até ele parar de chorar. Ele respirou fundo e olhou para o teto de um jeito curioso, totalmente em silêncio. "Está tudo bem?"

"Sim, só estou com um pouco de sono, engraçado porque eu não quero... Dormir. Cadê o Cory?"

Me ofereci para chama-lo e aproveitei para tentar me acalmar. Do topo da escada pude gritar o mais velho, que apareceu rapidamente e entrou no quarto, eu fui logo atrás.

"Quero os dois aqui pertinho de mim" Louis estava sorrindo, Cory e eu nos sentamos ao lado dele. "Podem ficar aqui até eu dormir?"

Nós dois concordamos e por quase meia hora ficamos ouvindo o Louis falar sobre todo tipo de coisa, com o tempo ele começou a perder um pouco do fôlego e os olhos pareciam fechar sozinhos, mas ainda assim ele insistia em falar.

"Cory pode adotar o Jeff como irmão, o que acha?" O mais velho sorriu e concordou me lançando um olhar de apoio. "Vocês podem brincar de tiro ao alvo e jogar bola juntos, poderiam rir e contar piadas e pelo menos assim você não vai se sentir sozinho Cory".

"Pode deixar Lu!" Louis sorriu ao ouvir o apelido que só o irmão usava.

"Droga, acho que estou ficando com sono."

"Tudo bem Louis, pode dormir!" Consegui dizer.

"Você tá chorando, Jeff!"

"Você também!" Retruquei e ele sorriu.

"Cory... Posso dormir?"

"Claro que pode Lu. Estamos do seu lado, nada de ruim vai acontecer". O mais velho se curvou e beijou a testa do irmão. "Nunca vou te esquecer!"

Louis olhou nos olhos do irmão mais velho e depois seu olhar se guiou a mim. Seu sorriso aumentou. "Se eu ver a mamãe e o papai eu falo que vocês cuidaram de mim. Amo vocês!" Foi o que ele disse.

Foi a ultima coisa que ele disse. Eu o abracei, chorando, sentindo meu mundo desabar. Nada de casa na praia, cachorro ou pôr do sol, só havia o ultimo sorriso de Louis, seus olhos se fechando e seu coração parando de bater.

Ele não mais respirava.

A namorada de Cory entrou no quarto chorando e o abraçou com força, eu mal consegui ouvir o que diziam, minha mente só tinha a voz de Louis, seu sorriso.

Ele só esperou por mim. Esperou para ouvir o 'Eu te amo'. Ele só queria ouvir que eu o amava.

O amor é uma coisa engraçada, ele vem e fica sem se preocupar se você aprova ou não, dai você diz a ele que é impossível e ele te dá uma ajuda...

Mas essa ajuda nem sempre é tão boa...

Ainda hoje me pergunto: Por que me fazer amar tanto e depois me fazer sofrer tão intensamente? Era para me fazer mudar de rumo? Fazer me aprender a viver?

Seja por qual motivo, uma coisa é certa: Eu o amarei eternamente!

Prometi a mim mesmo e prometo todos os dias tentar seguir em frente. Não só por mim, mas por Louis. Ele não viveu tanto ao ponto de conseguir maturidade para entender a vida, mas viveu o suficiente para me ensinar que amor não depende de gênero, amor não é carnal, amor não morre: Ele é eterno!

Louis sempre quis alcançar a eternidade, em seus últimos momentos certamente se sentiu a mais finita das criaturas...

Mas hoje eu entendo que naquele momento ele se tornou eterno e que eu o teria para sempre em meu coração. Então não tive mais medo, pois soube que ele estaria ao meu lado.

E que esse amor duraria para sempre!