Eterno
1 Eterno
Notas iniciais
“Ela não sabia como aquilo era doloroso. Ela não sabia o quanto estava linda. E aquilo me comprovou o que suspeitei durante a minha existência. Até a Morte tem um coração. O meu é o meu fardo. Pois nunca vou poder descansar ao lado dela como desejo. Aquela linda mulher que me fez descobrir esse fato e o enterrou em suas mãos coladas ao peito.”
Eterno
O vento seco gritava rouca e sombriamente em meus ouvidos, riscando o céu cinza. Bofeteava bruscamente os meus cabelos, emaranhando-os no vai e vem vicioso enquanto a cada ida parecia cortar meu rosto ardentemente, como um corte de papel.
O vasto campo não demonstrava sua vitalidade naquele dia, diferente do normal. Tudo estava monocraticamente deprimente. Lamentável. Eu me resignava a olhar aquele bloco de concreto preso na terra. Ah, como eu vira blocos como aquele durante toda minha existência. Era impossível e desnecessário contar. Mas aquele era diferente. Trazia de mim o mais profundo contraditório arrependimento. Eu não me arrependia dela. Eu me arrependia por ela. E por mim.
Por que eu tinha de ir vê-la?
O céu não se entristecera apenas para mim. Não seria egoísta a este ponto. Afinal, ele era uma pessoa boa. Extraordinária. Em fato, eu devia agradecê-lo descomunalmente. Em todo aquele tempo ele a amou, respeitou e cuidou carinhosamente (coisas que meus ossos do ofício me tornava, sumariamente, incapaz e impotente). Assim como seus votos de casamento diziam. Eu me lembro com uma exatidão irrefutável porque eu estava lá. Precisei atrasar algumas buscas e compreendo que minha presença em um local de felicidade como aquele é incoerente.
Enquanto as pessoas sorriam e emocionavam-se de alegria eu permanecia no começo do tapete gentil que ela percorrera. Apenas observando a meu modo frio e impassível. Eu não sou um masoquista, embora criem controvérsias. Eu só precisava garantir que ela seria feliz. Ao ouvir o tão esperado “sim” eu confirmei minha teoria dúbia. Ela aprenderia a ama-lo com o tempo. Mas não me esqueceria e aquilo a atormentaria lentamente.
Parti antes do beijo. Como disse, não sou masoquista. Todavia, já tinha atrasado demais.
Enfim, sinto que precisavam tomar nota deste fato para entenderem o que aconteceria.
Ele estava lá também, debruçado sobre o memorial. Murmurava brandamente, com os olhos azuis marejados, na tentativa tola que ela o escutasse. Ele também morria por dentro, veja bem, eu senti na ponta da minha pele que se apenas necessitasse de óbito de estado de espirito eu o levaria neste exato momento. Porém, eu não o olhava, eu via através dele, eu via apenas e unicamente o memorial.
Quando o homem loiro se levantou ele fungou e afagou os olhos com a palma da mão. Olhou uma última vez para o buquê de tulipas e flores de cerejeira que deixara, com os olhos reluzindo em um desespero conformado. Ele a queria, mas sabia que não a teria. Eu não estava longe disso, tirando um pouco da confirmadade. O homem loiro deu a volta e caminhou em minha direção. Entretanto, eu continuava apenas a vê-la naquele monte cinza e rabiscado. Eu senti quando ele me transpassou, eu senti seus batimentos dolentes.
E tenho quase certeza que ele me sentiu.
Poucos passos depois ele parou e se autoanalisou.
Em memória à
Uzumaki Haruno Sakura
Os pelos de seu corpo estavam curiosamente eriçados.
1939 – 1992
Mas o espanto esvaiu-se assim como ele.
Eu me permiti aproximar daquela lápide e examinei melhor, não pude evitar o olhar contundente.
Filha obediente e cuidadosa.
Uma esposa sublime, dedicada, amorosa e leal. Será eternamente amada.
O céu parecia trincar com o vento forte e tremular sobre minha cabeça assim como minhas pernas tremularam e falsetearam, me enganando sadicamente e tornando meus joelhos dúbios. Caí no chão com eles, afundando-os na terra sob a grama.
Era a primeira vez que me prostrei de joelhos involuntariamente. E a última.
O vento batia em meu corpo insistindo em trazer as memórias.
“Você se lembra?” ele sussurrava com o topo de sua amável austeridade.
Eu me lembrava.
A primeira vez que a vi. Quando ela me enganou sorrateiramente na cama do hospital com uma bala alojada no útero pouco desenvolvido. 1943. Ela tinha cinco anos.
Quando nos reencontramos, em meados do outono de 1959, eu buscava sua mãe. Então ela me viu. E eu não me escondi. Ela me chamava à atenção peculiarmente. Eu a via quase todos os dias. Com o passar dos dias virara um hábito. Semanas, um vício. Eu não me escondia, mas a observava de longe. Era linda.
Até que certa vez ela quebrou meu disfarce. E eu apenas o apurei.
Meus braços chacoalhavam em uma dança com o ar.
Eu ainda sentia vividamente os lábios cálidos que ela possuía roçando aos meus em uma terna e lacerante paixão.
“Você sabe o que eu sou.”
“Perfeitamente bem.”
“Então como pode sorrir?”
“Por que eu sei exatamente o que você é.”
Quando se é alguém tão marmóreo como eu, apenas a presença de alguém caloroso como ela era instigante. Uma calidez única que apenas ela, humana, despertou em um deleite profundo a cada toque macio e aveludado que ainda salpicava nas pontas de meus dedos. Ainda sentia suas curvas, o ar quente que ela lufava em mim... Ela era uma indispensável anomalia de olhos perfurantemente verdes e vibrantes.
Arfei.
A ironia zombava de mim ao me dar conta que aqueles lábios, aquele corpo... Chegava a doer por fazer falta.
Eu a amei.
Ela me amou.
Ternamente.
Fraquejei. Meu rosto se contraiu diante aquela lápide.
“Você ainda vai me amar?”
Ela me perguntava com sua voz suave afagando meu pescoço.
“Eu serei sempre seu.”
O problema.
Sempre.
“Mesmo quando eu envelhecer e ficar feia? Mesmo quando eu não puder mais te satisfazer?”
As perguntas eram frequentes.
“Eu vou te amar Sasuke. Pelo o que você é. Por seu corpo. Por completo. Eu te amo e quero o seu bem.”
Sinceridade.
Ela sempre quis o meu bem.
E eu o dela.
Foi o que ela me disse por último.
“Você vai me amar, Sasuke?”
“Até depois de quando eu tiver que busca-la. Eternamente.”
Foi o que quis responder, com ela em meus braços naquela noite de veraneio. Mas não disse. Apenas a apertei, puxando-a para mim, sentindo-a e guardando-a no máximo de segundos que me restavam.
Me dei conta.
Do meu egoísmo.
Ela me amava.
Eu a amava profundamente. Eternamente. Mas ela não era eterna.
Debrucei-me e enterrei minhas unhas na terra vermelha e a remexi. Arfei e me sufoquei.
A contra gosto ela entendeu.
Estávamos fadados à tragédia.
Entenda-me, meu olhar nunca foi tão obrigado a indolência quando a vi partir.
“Eu sempre vou te amar.”
“Eternamente.”
“Estarei linda para quando me visitar.”
Ela sorriu melancolicamente e eu desapareci como sua lágrima que mergulhou no chão.
Ela se casou.
Eu a observava todos os dias.
Certa ocasião eu tenho convicção que ela me viu, quando já estava casada. Estava muito frio e ela trabalhava em consultório público sem aquecedor. Já devia estar doente.
“Sasuke?”
No entanto apenas escutou sua voz ricochetar na parede branca e voltar com um tom desolado e frustrado.
Eu queria o melhor para ela.
“Você se lembra detalhadamente, certo?” o vento tornou a me torturar.
Eu arfei.
Arfei.
Arfei.
Arfei.
Remexendo na terra pelos vãos dos dedos como se fosse ela quem eu tocava. Uma fincada cega e pontiaguda entrou em meu peito.
Eu parei de vê-la.
Era melhor assim.
Depois da segunda grande idiotice dos humanos, as guerras variadas que seguiram me mantiveram bem ocupado, coletando e coletando indiscriminadamente.
Uzumaki Haruno Sakura
Naquela noite de novembro chovia torrencialmente.
1992
Meus olhos, incrédulos, não queriam aceitar. Diante aquela cama ela sorria com pés de galinhas nos olhos que adquiriram um reflexo prateado com o tempo. Os lábios estavam levemente mais finos como os curtos cabelos mais claros e opacos. As linhas de expressões eram palpáveis e ela estava pálida e moribunda.
Como eu nunca a quis ver.
Parecida comigo.
Ao seu lado, na poltrona, seu marido dormia. Deveria estar exausto.
Eu me aproximei lentamente, querendo tolamente ganhar tempo. Sendo como eles, os humanos.
Mas o nome dela já fora marcado.
Naquele momento eu não precisei me revelar. Quando estão perto de mim não há como não ver.
“Olá querido”
Eu me resignei a parar rente ao seu lado e lhe fitar complacente.
“Sasuke”
Ela tinha dificuldade em falar e respirar.
“Não me olhe assim. Sabíamos que esse dia ia chegar. Lembra-se do que me disse?”
Até quando tivesse de busca-la. Fui vítima de minhas próprias palavras.
“Na realidade, apesar das minhas miseráveis tentativas de negação, eu esperava que esse dia chegasse porque finalmente saberia que o veria novamente. E seria a última vez.”
Ela continuou, fitando-me com seu olhar doce.
“Eu fui muito feliz, Sasuke. Você me fez feliz. Tanto por Naruto como pelo tempo em que estivemos juntos. Durante todo esse tempo fui feliz. E lamento por você não ter tido o mesmo.”
“Eu sempre quis o seu bem. Isso era o suficiente.”
Riu mansamente.
“Não foi e não vai ser. Por isso posso dizer. Eu te disse que te amava por saber quem você é.”
Eu, a morte, engoli em seco.
“Sabe, querido Sasuke... já não estou tão bonita quanto quando nos... Quando nos conhecemos, tampouco jovem. Me... desculpe.”
Agachei-me e cobri seus olhos. Afaguei meu rosto no dela, roçando meu nariz. Precisava sentir aquela carne viva e quente mais uma vez. Inalar aquele perfume escondido sob o odor frio do quarto e guarda-lo dentro de mim.
“Você está linda.”
“Eu nunca deixei de te amar. Amei Naruto profundamente, como uma mulher pode amar um homem, mas nunca te esqueci... nunca te esqueci completamente. Nunca seria capaz, afinal... você... meu eterno amor.”
Uma estranha lágrima saltou de meus olhos cerrados e umedeceu nossos rostos, unindo-se com a tênue linha que deslizava suavemente pelos cantos dos olhos dela, cortando meus dedos.
“Você sempre será linda pra mim. Eu te amaria de qualquer jeito.”
“Eu sei, meu querido Sasuke.”
Cerrei suavemente suas pálpebras e, naquele instante, sentia-a brevemente comigo. Uma sensação pavorosamente passageira.
“Eu te amo.”
Era o que a morte dolorosamente dizia para alguém que acabara de consumar.
Naquele cemitério o céu desmantelou sobre mim e aquela lápide a qual eu me agarrara afoitamente.
Ela não sabia como aquelas poucas palavras pesariam e me arrastariam com extraordinária dor.
A infame e teatral ironia
Alguém amou a Morte mais do que tudo
E a Morte amou devotamente alguém que teve de sucumbir
Alguém descobriu e ganhou o coração da morte
E a morte a enterrou junto com seu coração
Naquele cemitério. Ajoelhada. A Morte chorou e desejou morrer.
Fale com o autor