Eternizar: Um conto de Alan Mendes
5 Parte 5
Notas iniciais
— Hora de irmos para casa! – Avisei.
– Acho que sim.
Apressei o passo para chuva não nos alcançar, em instantes estávamos em casa.
A fina chuva se transformou em pedras de gelo e o moderado vento em tufões. Assisti a tempestade destruir minha horta mais uma vez e acabar com a eletricidade. Acendi algumas velas nos cômodos do chalé e estendi um colchão próximo a lareira para Cristina não passar frio durante a noite. Preparei dois deliciosos chocolates quentes para nós e ficamos abraçados, Cristina cantarolava uma canção desconhecida e eu fitava a brasa queimar a madeira. Fiquei com ela enquanto a água fervia para nosso banho, logo cada um se banhou e retornou para perto da lareira. Não demorou muito para cairmos no sono.
Acordei e notei que a Cristina já havia levantado, imaginei que ela estivesse no telhado meditando, por isso fiquei tranquilo para fazer as tarefas.
Fui para o quintal, o céu estava sombrio e minha horta acabada. Não estava sozinho, Cristina estava lá colhendo o que a chuva não estragou.
– Lamento! Quase nada se salvou – Disse ela.
– Não tem problema, não é a primeira vez que isso acontece. Vamos lá para dentro tomar café, depois eu cuido dessa bagunça.
O tempo ficou nublado e parece que vai ficar assim o dia todo, enquanto tentava arrumar o que a chuva estragou, Cristina assistia TV, felizmente a energia elétrica voltou cedo.
As horas passaram depressa, nem percebi, fiquei tentando ressuscitar o que sobrou da horta. A Cristina deve ter se cansado de esperar pelo almoço, essas horas ela deve estar devorando um gigantesco x-burguer.
Esperava que as luzes estivessem acesas e que o som da TV estivesse atravessando as paredes do chalé, mas pelo contrário, o silêncio era aterrorizante. Eram quatro da tarde, por isso o escuro não era absoluto, mesmo assim os pelos do meu braço se arrepiaram com o cenário sombrio que meus olhos testemunhavam. Tudo era quieto, exceto meus pensamentos que de repente me trouxeram lembranças...
Cristina disse uma vez que eu era paranoico ao extremo, que eu era cego ao obvio e que eu criava situações desnecessárias, como agora. Fico pensando... É normal que ela tenha simplesmente deitado mais cedo, já que a doença não deixa seu corpo descansar.
Subo as escadas em longas passadas, entro no quarto e noto a janela escancarada, o vento frio brinca com a longa cortina branca de seda, é o sinal de mais uma noite gelada chegando. Um relâmpago seguido por um trovão... E a chuva começa a cair.
O quarto está escuro, mas consigo notar que Cristina não está na cama – Certamente adormeceu no sofá da sala enquanto assistia TV, melhor assim, por que não teremos aquecedores na casa já que um raio acabara de torrar o poste de luz, sorte nossa que a lareira lá embaixo tem bastante lenha pra queimar.
Tentei analisar pela janela o estrago que o raio fez, mas o vento começou a empurrar a chuva para dentro do quarto, então fechei a janela antes que inundasse tudo. De repente alguma coisa prendeu meu pé que me desequilibrou, caí de testa na lateral da cama, o choque foi tão forte que fiquei tonto no mesmo instante.
Minha cabeça sangrava muito, tirei a camisa que estava usando para estancar o sangramento. Logo que me recompus fui mais perto do local onde eu havia tropeçado, fitei, ainda com a visão atordoada, até que o clarão do relâmpago revelou... Cristina! Neguei a acreditar no que os meus olhos estavam vendo, queria usar a pancada na cabeça como desculpa para pensar que a imagem era mera ilusão, mas por mais que eu piscasse os olhos a imagem continuava ali.
Sinto que vou cair, pareço não ter mais firmeza nas pernas, nem sei mais se estou de pé... É.... Não estou! O que sei é que estou tocando o rosto dela... É tão... Frio! Onde está suas bochechas rosadas?
– Vamos Cristina Levanta, p-por f-favor – Gaguejei – Vamos levanta logo, levanta, levanta meu amor.
Ela está muito gelada, talvez não consiga responder por isso. Como é que ela caiu?
– Cristina? Você vai ficar bem! Vou deixar você bem aquecida perto da lareira está bem?
Não sinto a pulsação dela... Bom talvez melhore depois que ela ficar quentinha.
Vou ficar aqui na frente da lareira com ela até ela melhorar, eu só queria que ela falasse comigo... Só um pouco... Só mais um pouco...
– Cris? Cris? Fala comigo! ... Cris? Por favor fala comigo! Cris? Cristina por que não quer falar comigo? Desculpe por ter deixado você sozinha por algumas horas... Eu prometo... Prometo com minha vida nunca mais ficar longe de você... Mas por favor fala comigo. FALA COMIGO! FALA COMIGO! FAAALAAA!!! Por favor.
Eu que fiquei dois dias pedindo para ela falar comigo, mas Cristina não deu uma palavra, ela se quer abriu os olhos para mim... O que eu estava fazendo? Quanto tempo mais eu ia insistir com essa loucura. Cristina me deixou, foi embora e eu nem pude me despedir.
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