Eternizados
1 Capítulo único
“No alto de um penhasco, torres escuras desenhavam em linhas tortas o céu acinzentado pela neblina de uma manhã fria. Os sussurros do vento e o mar feroz debatendo-se contra rochedos, eram tão assombrosos quanto a história do próprio castelo que ali findava.
Uma janela permanecia aberta, deixando amostra um fino tecido de seda clara que dançava a favor da brisa. Com um assobio de uma corujo, cuja moradia se fazia na árvore mais alta do jardim morto daquele castelo, podia-se ouvir um cantarolar melodioso.
Uma sombra refletia naquela janela aberta.
Uma sombra de longos cabelos escuros acinzentados. Olhos azuis como um céu estrelado, e pele alva, sem marcas.
Parecia tão concentrada em uma canção que já a tempo conhecia, que nada poderia tirar sua atenção. Os pensamentos focados no horizonte que prometia o retorno daquele que um dia havia levado seu coração em uma viagem, que tão logo descobriu não ter mais volta.
Desta vez, as lágrimas que cedera cair, não tinham como objetivo a esperança, mas a tristeza profunda que cada vez mais se afundava. Lentamente, os olhos pousaram no penhasco, como para que ter certeza da morte certa que outrora, já havia imaginado ser. A decisão já não tinha chances de ser repensada.
Só precisava de um passo adiante, e tudo estaria acabado(...)
Todavia, nem tudo poderia ser tão simples assim. O destino entrelaçado a maldição daquela jovem dama era como um relógio que marcava em um mesmo ponto duas vezes por dia. Estava sempre voltando e voltando... Um destino sem fim.
Impulsionada pela luz da manhã, voltou para o escuro de seu quarto quando a janela fechou em um silêncio confortável, sem antes é claro, dár-lhe a chance de uma fresta de felicidade. Uma fresta de uma incansável esperança. Um sorriso ainda insistia em se formar, mesmo depois de uma longa noite de profunda solidão. E ao passo que a sombra da dama sumia para sempre, uma janela no horizonte se abria, para que o sol por fim renascesse.
Assim como o esperado durante a noite, o dia não seria diferente para um jovem viajante. No entanto, a diferença estava em como ambos esperavam por seu reencontro.
O jovem rapaz tinha em seu rosto, o sorriso mais do que confiante, e esperançoso. As mãos apoiadas em um muro de madeira, de modo que pudesse estar seguro ao balançado de um navio em movimento. Mas seu coração ainda apertado pelo medo e ansiedade do retorno, desmanchando o sorriso logo após o nascer completo do sol, e o sumiço do único brilho que fazia seu coração saltar. Não se sabia o que esperar, tal como não sabia como conduzia seu precioso navio em aventuras incansáveis.
Mas ele cansou. Ele finalmente se cansou.
E voltava para um destino incerto e sem fim.
E naquela troca do dia para a noite, a expectativas apenas pairava, mas nunca se satisfazia. Não completamente.
O destino não era tão bom assim. E havia eternizado a frustração de um casal apaixonado numa maldição sem fim.
12 horas. 12 horas de uma longa história.”
— Eles nunca se encontraram, vovó? – A pergunta vinha como um soar de esperança e impaciência. Um riso fraco, antes de uma resposta longa, podia ser ouvida da própria senhora, cuja neta tinha em seus braços em cima daquela velha poltrona.
— Infelizmente, não se teve mais notícia alguma do jovem príncipe viajante, ou da jovem dama da janela. – Suspirou, olhando, cuidadosamente, para um relógio que fazia referência a uma réplica eternizada daquela triste história.
A jovem menina, que não passava de seus sete anos de idade, murmurou um lamento, até decidir que precisava ver, novamente de perto, aquela réplica grande e bela. O sol tinha acabado de nascer, e a janela do quarto iluminava as vidraças bem limpas e enfeitadas com detalhes minuciosos.
Seis horas, aquele relógio marcava.
— Veja, vovó! – A pequena de vestido branco rodado dava pulos de empolgação. – A janela se fechou e o Navio começou a se mexer! – Apontava para o engenhoso objeto.
Sem muita esforço, a senhora idosa andou lentamente até a mesa, rente a janela, que iluminava boa parte daquela imagem tão bem trabalhada a mãos. Sorriu fitando o jovem príncipe em seu navio.
— Eu não gosto dessa parte, vovó! – A garotinha, emburrada, cruzava os braços em desaprovação. – Porque a noite e o dia não se encontram? Porque eles precisam ficar separados aqui? – Apontou para os dois opostos, que ironicamente, estavam tão perto.
Era certo que não era a única a pensar daquela forma. A avó orgulhosa encarou a neta com ternura.
— Você faz perguntas difíceis, minha querida. – Sorriu, amável. – Venha, precisamos descer para o café da manhã. Seus pais logo irão retornar de viajem, e vão querer vê-la alimentada e bem arrumada.
Mesmo a contra gosto, a pequena não hesitou em obedecer a avó, que igualmente resolvera descer junto a ela. Mas antes, uma promessa pairava nos pensamentos da jovem Kamy, que decidiu, por conta própria, se tornar a primeira escritora daquele conto trágico quando o fosse capaz de fazê-lo. Prometeu também a si, que aquela história teria seu final feliz.
Portanto, até os dias de hoje, não se sabia a vericidade de sua escrita. E não havia ninguém que o questionasse, além de sua vó. Orgulhosamente, tomava para si que o jovem casal viveria felizes para sempre. E assim, para satisfazer o desejo de uma escritora sonhadora, o destino, havia dado paz aquele lendário casal.
Vinte anos depois, o relógio, finalmente, havia parado, e tal foi a surpresa quando, por pura coincidência, o sol e a lua tinham se encontrado em fim. A réplica desgastada pelo tempo, havia quebrado, levando consigo o suspiro da verdadeira história que acometia a tragédia romântica do século.
Fim.
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