Eternidade e a beleza passageira
2 Capítulo II - Asinhas do barulho
“E aqui estava eu, pensando que você não sobreviveria.”
Exposta ao predador noturno e indefesa devido ao dano de suas asas, a fada se sentou no carvalho frio, com o pequeno coração batendo forte, temendo pela própria vida. Nikolai, por sua vez, não a tocou, apenas a observando de longe. Não mantinha uma expressão gentil ou um olhar cauteloso. Sua expressão era vazia, e seus olhos, impossíveis de se ler.
Fadas não usavam o mesmo dialeto dos humanos, assim como elfos se comunicavam com a língua élfica. Apesar de não entender exatamente o que o vampiro lhe disse, após alguns segundos paralisada, a fada controlou sua respiração, se convencendo de que, caso o vampiro quisesse, ela já estaria morta. Tentou se levantar, mostrando dificuldades em manter o equilíbrio, visto que raramente usava suas pernas para caminhar, e estava fraca devido aos ferimentos. Assim como Nikolai sequer pensou em ajudá-la a ficar de pé, apenas a observando silenciosamente, a criatura também não esperava nenhuma ajuda, mas a situação se tornou desconfortável quando ela se virou para o imortal, que a encarava sem sequer piscar. Tentou desviar o olhar, mas era impossivel evitar um ser tão grande focado nela. Então, ele aproximou sua mão, tocando-a com gentileza, porém não o suficiente, visto que a fez cambalear para o lado.
“Você é bem fraquinha, achei que sua espécie fosse mais ativa que isso.” disse o vampiro, ainda intrigado com a criaturinha à sua frente. Ela, por outro lado, não entendeu a língua que o outro falava, mas sentiu que ele não estava falando nada bom, o que a fez virar o rosto em desaprovação.
Com o rosto virado, e de pé, Nikolai teve uma visão melhor da fada. O cabelo dourado emanava um calor que lhe parecia familiar, como o próprio sol, a costura desengonçada da seda, parte pela idade e qualidade do tecido, e parte pela sua falta de prática com costura, cobria muito de algumas partes do pequeno corpo, e deixava outras partes muito expostas. As asas, que lhe lembravam as de libélulas iridescentes, estavam abaixadas. Era possível notar um brilho que indicava vida fluindo por entre as veias, exceto pela única asa danificada, que Nikolai havia se esforçado para costurar de volta no lugar. Certamente, aquela fada não voaria tão cedo, mas, considerando que o zumbido do bater das asas destas criaturas eram extremamente irritantes aos ouvidos sensíveis do vampiro, não estava particularmente ansioso para vê-la voar novamente.
Enquanto observava a fada de forma mais atenta, Nikolai se viu perdido em pensamentos. Por que ele havia se incomodado em ajudá-la? Ele, que sempre considerava as fadas irritantes, barulhentas e inconvenientes, estava cuidando de uma delas como se fosse uma preciosidade a ser preservada. Era uma contradição estranha, uma que ele não conseguia explicar completamente para si mesmo. Apesar de sua aversão geral às criaturas mágicas, havia algo naquela fada específica que o intrigava, ou talvez as circunstâncias de seu encontro. Talvez fosse a fragilidade de sua forma diminuta, ou talvez a questão que assombrava sua mente: como uma criatura da vida parou no jardim de seu castelo? Ou talvez, em algum lugar dentro do coração sombrio e solitário de Nikolai, ainda houvesse aquela centelha de compaixão que ele se esforçava para reconhecer. Talvez os anos de isolamento do ser eterno chegariam ao seu fim.
Enquanto Nikolai continuava a contemplar a fada, uma única certeza se formava em sua mente imortal: independentemente dos motivos por trás de sua decisão de ajudá-la, ele não poderia simplesmente abandoná-la agora. Ele havia começado algo, quebrado o ciclo de incontáveis anos e trazido uma criatura viva para sua existência fatídica. Mas, na jornada da recuperação da coisinha, o vampiro sabia que, diferente dele, ela tinha necessidades: alimento, e um nome. Com um suspiro, se lembrou de ter visto um antigo livro sobre fadas na biblioteca em ruínas do castelo. Apesar de sua relutância inicial em se envolver com assuntos relacionados a essas criaturas, ele sabia que precisava entender melhor as necessidades da fada que agora repousava sob seus cuidados se quisesse garantir que ela sobrevivesse. Resolveu deixá-la de lado por alguns instantes, focando-se em sua busca de informações que antes nunca lhe pareceram úteis. Com passos decididos, Nikolai se dirigiu à biblioteca, deixando para trás o corredor sombrio e o quarto principal onde deixou a fada.
A biblioteca do castelo era um lugar de maravilha e desolação. Estantes repletas de livros encadernados em couro ressequido se estendiam até o teto, enquanto móveis cobertos por poeira e teias de aranha testemunhavam o abandono do lugar ao longo dos séculos. Apesar da desolação, uma aura de conhecimento e história pairava sobre o ambiente, onde segredos antigos aguardavam serem revelados. Nikolai se movia com cautela natural entre os corredores silenciosos, guiado pela luz fraca e pelo eco de suas pegadas sobre o chão de pedra desgastada, em busca de respostas entre os tomos empoeirados. Alguns livros estavam intactos, preservados pelo tempo e pelo cuidado diligente dos antigos bibliotecários do castelo, enquanto outros jaziam em estado de decomposição, suas páginas amareladas e desintegrando-se ao menor toque. Os móveis da biblioteca, outrora grandiosos e majestosos, se encontravam cobertos por um véu de poeira e teias de aranha. Poltronas estofadas e cadeiras de leitura de madeira escura ofereciam assentos desconfortáveis, testemunhas silenciosas do abandono que se instalou no castelo ao longo dos séculos.
Entre os escombros e pilhas de livros empoeirados, ele finalmente encontrou o volume que procurava. Abriu-o com cuidado, folheando as páginas amareladas até encontrar o capítulo sobre alimentação de fadas. Enquanto lia atentamente as palavras antigas escritas nas páginas desgastadas, descobriu que as fadas se alimentavam principalmente de néctar, frutas e gotas de orvalho encontradas na natureza. Aquilo confirmava suas suspeitas, mas ele sabia que precisava encontrar uma maneira de fornecer esses alimentos à fada em seu cuidado, considerando que, por mais simples que parecessem, nada daqueles itens se encontravam nas proximidades do castelo.
Com essa informação em mente, Nikolai fechou o livro e retornou ao seu quarto, onde havia deixado a fada, encontrando-a adormecida entre os tecidos. Enquanto contemplava a fada adormecida à sua frente, percebeu que ela também precisava de algo mais: um nome, um símbolo de sua identidade e existência única neste mundo. Com um resquício de humor sarcástico, sussurrou perto da criatura adormecida.
“Asinha. ”
Asinha precisava de roupas, aqueles trapos não lhe serviriam. Fadas eram naturalmente conhecidas por sua graça, e Asinha não seria diferente. Ela também precisava de comida de verdade, de frutas. Nikolai se lembrava de uma vila que ainda lutava pela sua existência a uma distância considerável do castelo. Talvez fosse a hora do vampiro visitar esta comunidade de forma pacífica, ao invés de seu estilo padrão “predador da noite”. Se dirigiu ao guarda-roupa de madeira que se mantinha de pé em um dos cantos de seu quarto, rangendo as portas ao serem abertas e cuidadosamente, o imortal selecionou uma de suas vestes que estava menos destruída pelo tempo, tentando parecer o mais humano possível. Na penteadeira da mesma madeira, próxima ao guarda-roupas, repousava uma escova coberta por um véu de poeira. Se lembrou vagamente de, apesar de não ter reflexo, Victoria passava horas de seu dia sentada ali, escovando suas madeixas negras, em busca de um reflexo que não existia. Em uma destas sessões, a vampira se frustrou, estilhaçando o espelho, e Nikolai nunca teve a coragem de removê-lo da penteadeira, deixando-o lá mesmo após muito depois desde que sua amada se foi.
Mas aquele não era o momento para aquilo. Assoprou a escova de Victoria, numa tentativa de limpá-la, pois sabia que, apesar de não poder ver seu próprio reflexo, seu cabelo dificilmente poderia ser considerado apresentável, visto que sua aparência não era algo que lhe incomodava desde os últimos séculos. Após imaginar que estava minimamente apresentável, Nikolai deu uma última checada em Asinha, que ainda dormia nos tecidos. Ela respirava rapidamente, mas não parecia estar sentindo dor.
Nikolai deixou para trás os corredores sombrios e as muralhas antigas do castelo, emergindo para a noite serena do lado de fora. O ar fresco da noite envolveu-o como um abraço familiar, enquanto ele se dirigia para os portões do castelo, passando pelos restos de estátuas e jardins que um dia foram majestosos. Com passos silenciosos e decididos, seguiu o caminho sinuoso que levava da fortaleza até a vila próxima. A luz da lua iluminava seu caminho, lançando sombras longas e ondulantes sobre a estrada de terra batida à sua frente e, à medida que se aproximava da vila, os sons da vida noturna começaram a preencher o ar. O farfalhar das folhas nas árvores, o canto distante dos grilos e o murmúrio suave do riacho que corria nas proximidades criavam uma sinfonia tranquila que acompanhava seus passos.
Finalmente, ele chegou aos limites da vila, onde as casas de pedra e madeira se erguiam contra o céu estrelado agora estrelado. As luzes das janelas cintilavam como estrelas distantes, indicando a presença dos moradores que ainda estavam acordados a esta hora. Nikolai entrou na vila com determinação, seus olhos vermelhos brilhando com a intensidade de sua missão. Ele sabia que tinha uma tarefa importante pela frente: encontrar os tecidos e frutas que Asinha precisava para sua recuperação. Com passos firmes, se dirigiu ao centro da vila, pronto para enfrentar qualquer desafio que o aguardasse em sua missão noturna.
Ao adentrar a vila, logo avistou um pequeno estande de frutas, onde um vendedor estava prestes a fechar suas atividades noturnas. Com a determinação de quem tinha uma missão a cumprir, ele se aproximou do estande e iniciou sua tentativa de negociação.
"Boa noite, senhor", disse Nikolai com voz suave, mas firme. "Estou precisando de algumas ameixas frescas. Seria possível conseguir algumas, mesmo que o horário já esteja avançado?"
O vendedor, um homem de meia-idade com um avental sujo e mãos calejadas, olhou para Nikolai com uma mistura de surpresa e desconfiança. Ele pareceu notar algo incomum no estranho que estava diante dele, embora não conseguisse identificar exatamente o que era. "Am... Ameixas?" murmurou, coçando a cabeça com uma expressão perplexa. "Desculpe, senhor, mas já estou fechando por hoje. E... bem, não costumo ver alguém como o senhor por aqui. Está tudo bem?"
Nikolai, vestido com suas roupas nobres de pelo menos um século passado, percebeu o olhar inquisitivo do vendedor e sorriu de forma suave, mas enigmática. Ele sabia que sua aparência incomum poderia levantar suspeitas, mas estava determinado a garantir comida para Asinha, não importando os obstáculos que encontrasse pelo caminho.
"Compreendo sua hesitação, meu caro", respondeu, mantendo sua compostura nobre. "Mas tenho certeza de que podemos chegar a um acordo satisfatório para ambos. O que me diz?" Nikolai retirou uma pequena bolsa de seu casaco, revelando um punhado de moedas de ouro reluzentes. Ele as colocou sobre o balcão do estande com um gesto elegante, sabendo que o valor das moedas era exorbitante para comprar simplesmente algumas ameixas. "Eu garanto que essas moedas serão mais do que suficientes para compensar sua generosidade e minha inconveniência, meu caro vendedor", disse Nikolai com um sorriso confiante, esperando convencer o homem a fazer o negócio.
No entanto, o homem permaneceu desconfiado, olhando alternadamente para as moedas de ouro e para Nikolai com uma expressão incerta. Antes que pudesse responder, Nikolai fez uma pergunta inesperada:
"Por acaso, você sabe se fadas comem ameixas?"
Com isso, o vendedor arqueou uma sobrancelha, surpreso com a pergunta estranha vinda de um sujeito ainda mais estranho. Ele coçou a cabeça, tentando entender o que estava acontecendo. "Bem, eu... Eu não tenho certeza", respondeu, ainda confuso. "Acho que nunca pensei sobre isso. Mas, se me permite dizer, você é um homem muito peculiar. O que exatamente está acontecendo aqui?"
Nikolai percebeu a hesitação do vendedor e sabia que precisava agir com cautela. Diante da crescente desconfiança do vendedor, o vampiro decidiu que precisava improvisar uma desculpa convincente para explicar sua estranha solicitação por ameixas, sua aparência peculiar e sua pergunta extremamente mal planejada.
"Ah, meu bom homem, permita-me explicar", começou, adotando uma expressão de preocupação. "Minha esposa está grávida... e tem sentido desejos por ameixas. Você sabe como são as grávidas... seus desejos podem ser bastante... peculiares."
O vendedor pareceu considerar a explicação de Nikolai por um momento, ainda olhando para as moedas de ouro sobre o balcão. Ele coçou o queixo, ponderando sobre a situação. "Bem, eu nunca ouvi falar de grávidas comendo ameixas por causa de fadas, mas quem sou eu para questionar?" respondeu o vendedor finalmente, dando de ombros. "Se é isso que ela quer, então quem sou eu para negar? Acho que é melhor eu não me meter."
Nikolai soltou um suspiro de alívio ao ver que sua desculpa havia funcionado. Ele então retomou sua postura nobre e ofereceu um sorriso de agradecimento ao vendedor. "Agradeço por sua compreensão, meu caro, minha esposa certamente ficará feliz.", disse Nikolai, recolhendo as ameixas que o vendedor havia separado para ele. "Agora, se me dá licença, devo retornar ao castelo antes que minha amada esposa comece a me procurar." Ao dar as costas, travou por um momento, se lembrando que comida não era a única coisa que precisava.
O imortal então partiu em busca de um alfaiate que pudesse ajudá-lo com sua próxima missão: encontrar roupas para Asinha. Enquanto percorria as ruas da vila, ele observava atentamente as fachadas das lojas, procurando por qualquer indicação de um estabelecimento que vendesse roupas sob medida e que ainda estivesse aberto.
Finalmente, seus olhos encontraram uma pequena loja com uma placa de latão pendurada sobre a porta, indicando que ali era um alfaiate. Ele adentrou o estabelecimento, sendo recebido pelo som suave de uma sineta que anunciava sua chegada. O interior da loja era acolhedor e cheio de tecidos coloridos, dispostos em pilhas ordenadas ao redor do espaço. Um homem mais velho, com óculos sobre o nariz e uma fita métrica enrolada em torno do pescoço, olhou para cima ao ouvir a sineta e cumprimentou Nikolai com um aceno de cabeça.
"Boa noite, senhor", disse o alfaiate com cordialidade. "Em que posso ajudá-lo?"
Nikolai explicou sua incomum solicitação por roupas que coubessem em uma boneca, tentando imitar o tamanho aproximado de Asinha com a mão, se lembrando do quão pequena ela era, e explicando que precisava de peças pequenas e delicadas para uma amiga muito especial que colecionava estes brinquedos, mas especificando a importância da parte de trás do vestido ser completamente exposta. O alfaiate pareceu surpreso com o pedido, mas logo se recuperou e concordou em ajudar.
"Entendo, senhor", respondeu o alfaiate, ajustando os óculos enquanto examinava Nikolai com curiosidade. "Vou procurar em nosso estoque por tecidos e padrões adequados. Por favor, aguarde um momento."
Enquanto o alfaiate buscava os materiais necessários, Nikolai observou os detalhes encantadores da loja, imaginando como Asinha ficaria feliz com as roupas novas. Ele sabia que estava prestes a trazer um pouco de alegria para a vida da pequena fada, e isso o encheu de determinação para completar sua missão com sucesso, no entanto, Nikolai não pôde deixar de notar as roupas masculinas cuidadosamente exibidas em manequins ao redor da loja. Ele observou os cortes modernos e os tecidos elegantes, e, por um breve momento, uma ideia atravessou sua mente imortal. Será que ele deveria comprar algo para si também? Afinal, suas próprias roupas eram do século passado e talvez fosse hora de uma atualização. Lembrou-se de que Victoria se preocupava profundamente com a aparência do vampiro, garantindo que ele sempre estivesse bem vestido e apresentável, e ver aqueles trajes o fez se lembrar de que talvez Victoria gostaria que ele comprasse algo para si. Uma tristeza passageira viajou por ele, se lembrando da mulher, sempre bem vestida e sempre a mais bela joia do castelo von Jaeger. Mas, após tantos anos de isolamento e enfrentando uma profunda melancolia, a sua própria aparência externa havia perdido a importância para ele, especialmente sem sua amada para inspirá-lo a manter sua elegância nobre. Nikolai não se importava mais com as últimas tendências da moda ou com a impressão que sua vestimenta poderia causar nos outros. Nos últimos séculos de sua existência, poucas coisas lhe chamavam a atenção, e menos ainda uma atenção positiva. Agora, com a criaturinha sob seus cuidados, todos os anos de indiferença se projetaram numa determinação que lhe era estranha, mas reconfortante.
Enquanto Nikolai refletia sobre suas próprias preocupações, tentando afastar os pensamentos sobre Victoria, o alfaiate retornou com uma série de vestidos de boneca delicadamente pendurados em seu braço. Cada um deles era uma obra de arte, confeccionado com tecidos finos e adornado com detalhes encantadores.
Os vestidos eram uma mistura de elegância vitoriana e estilo romântico, com silhuetas clássicas e toques modernos. As cores suaves e delicadas, como rosa, azul, verde e lilás, contrastavam com os detalhes mais sombrios dos vestidos. Um dos vestidos apresentava uma saia esvoaçante de tule rosa pálido, adornada com laços de fita e renda delicada. Outro era um vestido azul claro com mangas bufantes e detalhes em pérolas, evocando uma sensação de conto de fadas. Um terceiro vestido era verde pastel, com um corpete ajustado e uma saia rodada, decorada com bordados florais.
Cada vestido era único e encantador à sua maneira, e Nikolai não pôde deixar de sorrir discretamente ao imaginar como Asinha ficaria adorável neles. Ele agradeceu ao alfaiate com gratidão, sabendo que tinha encontrado exatamente o que estava procurando para sua pequena amiga. Com os vestidos em mãos, ele se preparou para retornar ao castelo, ansioso para ver a reação da fada ao recebê-los.
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