Notas iniciais
Olá! Seguimos com mais um capítulo semanal. Este continua o arco de flashbacks que estabeleci no capítulo anterior. Espero que gostem!

Seguimos nosso breve conto — cujas páginas já se avolumam, cujas folhas já amarelam — nas memórias que Alatar narra ao jovem Hador.

A verdade é que, apesar da pergunta que inicia nosso capítulo anterior, o Mago jamais revelaria o que há além do Mar. Tal história nunca poderia chegar aos ouvidos dum mortal qualquer, quanto mais de alguém que conhecera há pouco; revelar o que se sucedera em seu passado recente, entretanto, era tentação forte demais para nosso herói. Necessitava narrar-lhe as linhas que ora narro a vós; e, por torpe ironia do destino, tais saberes seriam essenciais ao que viria pela frente.

Assim, leitor, peço-te que mais uma vez assuma o lugar do jovem Hador, permitindo que eu tome a posição de nosso amigo Alatar e revele o que há de verdadeiro entre as névoas que encobrem os anos pretéritos da jornada dos Ithryn Luin. Talvez desse modo você possa compreender melhor por que mostrei há pouco os manuscritos d’O Mensageiro, e o que há de errado com a filosofia de seu senhor.

A história que eu e Alatar trazemos agora já está cronologicamente distante de nosso capítulo anterior. Aproximamo-nos, em verdade, muito mais da reunião dos Istari, que mostrei a vós tanto tempo atrás. Lembra-te da conversa entre os Cinco Magos? De como Alatar desafiava Curumo; de como Olórin os contrapunha com sua sabedoria; de como Aiwendil se perdia em seus pensamentos?

O importante aqui, entretanto, é sobretudo o desfecho dessa conversa, que creio já ter esvanecido de tua memória. Importa que Saruman, ao fim e ao cabo, anunciou que iria ao Leste com os Magos Azuis, e que ao seu lado perseguiria os Balrogs que restavam.

Essa é a história que contamos neste momento: uma lenda Azul e Branca.

***

Era então o início da Terceira Era; a primeira vez que Alatar e Pallando iam ao Leste desde os tempos que mostrei há pouco.

Estas terras já eram, então, muito distintas do que um dia foram. Já não revelavam toda a grandeza da Criação, mas haviam sido maculadas pela perfídia daqueles que ali tomavam morada. Os campos secavam, as árvores eram mortas, os dias eram sempre quentes ou gélidos em demasia. As hordas bárbaras atravessavam vilas e povoados reduzindo ao pó todos aqueles que ousavam erigir sobre as areias algo mais que a malícia e a miséria.

Cavalgavam agora os três Magos. Curumo liderava a trupe em seu cavalo branco, sempre inabalável diante das visões terríveis que se repetiam cotidianamente. Os servos de Oromë, entretanto, estremeciam a cada nova pradaria, saudosos dos tempos em que haviam atravessado os bosques e encontrado os primeiros dentre os Filhos de Eru. Apagar tais memórias não era fácil, e àquela altura o otimismo do Mago Branco já se tornava afrontoso.

Perseguiam juntos já há alguns séculos. O tempo, entretanto, não facilitou a convivência. Os humores de Alatar e de Curumo não se davam, o que tornava comum os eventos nos quais faziam uso da primeira desculpa conveniente para se separarem — alguns meses ou dias que fossem eram suficientes para aplacar os ânimos. Assim, um ia ao Sul, dois iam ao Leste; colhiam informações e tornavam a se reunir. Naquele dia, entretanto, seguiam como unha e carne já há cerca de dois anos. Não é de se espantar que nenhum deles estivesse lá muito exultante.

Seguiam então o rastro dum demônio em especial. Seu flagelo arrebatara centenas de guerreiros quando o primeiro Senhor do Escuro ainda reinava. Estava já oculto há milênios, mas sua possível adesão a Sauron atemorizava o coração de cada um de nossos heróis. Caçá-lo era, portanto, questão de sobrevivência.

Afinal, você não acreditaria que os discípulos do maior dos caçadores passariam milênios sem uma presa digna, não é mesmo?

— Temo que tenhamos nos afastado dele — anuncia Curumo, a voz isenta de qualquer mácula de cansaço.

Alatar bufa. Pallando observa o líder com cautela.

— Por que o dizes? — pergunta o segundo.

— É simples. As árvores parecem aqui um tanto mais saudáveis que há algumas léguas. Se nosso inimigo está sob a terra, imagino que sua presença possa ser medida por…

— Não é assim tão simples — interrompe Alatar. — Há homens que podem conjurar a chuva se forem educados para isso. As árvores podem viver por seu intermédio, ou ainda por outros meios.

O Mago Branco o examina de cima a baixo.

— Está correto, Alatar. Mas a probabilidade de que estejamos diante de um homem como esses é desprezível.

— Decerto. De todo modo, o inimigo é sagaz. Já o procuramos há algumas primaveras, não é mesmo? Talvez seja tempo de desconfiar um tanto mais daquilo que está aparente. Melhor do que medir sua presença pela cor das folhas das árvores é procurar pelo peso no coração dos homens. As intempéries do clima podem ser contidas por anos a fio até que se imponham, mas as desgraças que se abatem sobre solo amaldiçoado jamais se ocultam aos olhos atentos.

Curumo o encara por um momento. Impassível, seu semblante aos poucos se converte em um sorriso honesto.

— As forjas exigem trabalho cuidadoso e exatidão matemática. Compreendo agora que a caça, entretanto, abre certa margem ao instinto, ao que é duvidoso. — Suas palavras são cuidadosas, mas gentis. — Devo ter me tornado arrogante demais para crer que seria capaz de sobrepujar um discípulo de Oromë no assunto.

Pallando observa a situação com hesitação. Enfim, sorri e esporeia o cavalo.

— Vamos! Adiante. Esteja onde estiver, o inimigo não há de caçar a si mesmo.

***

Singraram as pradarias por mais algumas léguas, e então chegaram a um pequeno vilarejo. Nada muito singular para os padrões do Leste e de suas culturas exóticas. Aquelas pessoas de pele castanha e cabelos escuros não viviam em casas de pedra e tijolos, mas sim em espaçosas e estranhas tendas. Usavam numerosos adornos no corpo: pulseiras, colares e anéis dourados confundiam a vista e encardiam com o tempo. Pareciam contribuir para dar um tom estranho a seus olhares, que eram firmes e assustadores, dotados de uma distinta cor de âmbar. Os homens tinham bigodes e barbas longas, e as mulheres colecionavam tranças como marcas de sua idade, experiência e maternidade.

Havia ainda ao menos duas crianças para cada velho, e dois velhos para cada jovem.

Os Magos cessaram o cavalgar erguendo consigo a poeira daquele chão árido, logo prendendo as montarias e desmontando. O povoado os recebeu com hesitação: os velhos os observavam de longe, e alguns poucos moleques se aproximaram em uma análise despudorada, metendo os dedos em suas vestes e lançando palavras numa língua estranha.

Curumo observou os arredores com algum pudor, se afastando das crianças; Alatar assobiou, e logo Huan apareceu, entretendo os pequenos com seus truques e latidos. Já Pallando tomou a frente e se aproximou dos velhos.

— Saudações — disse com um aceno. — Nós somos peregrinos em busca de alguma atenção. Não pedimos comida, mas sim um abrigo e ouvidos atentos.

Um senhor careca se aproximou com o apoio de sua bengala.

— Venham comigo.

Curumo e Pallando o seguiram, mas Alatar ficou para trás. Nosso Mago ria das brincadeiras dos moleques e os distraía com seus truques, embora se mantivesse atento ao desenrolar das coisas. Separar-se dos demais fazia parte de sua estratégia de investigação.

***

Os dois outros seguiram o velho e seus companheiros a uma tenda maior, de forte cor vermelha. O lugar é um tanto distante, quieto, e todos se reúnem em torno de uma espécie de fogueira.

— Em nossas terras, os peregrinos não são comuns — diz o velho. — Nosso povo não confia nos homens de fora, muito menos nos do Oeste. Mas há em vós algo diferente. Dizei quem sois.

O Mago Branco e o Azul se entreolham. O segundo toma a dianteira.

— Temos muitos nomes, meu senhor. Mas nenhum deles é importante para a mensagem que vos trazemos. Estamos apenas de passagem. É nosso dever alertá-los sobre os perigos que cercam estas terras e sobre vosso dever para com o mundo que habitam.

Os demais nativos permanecem de cabeça baixa. Apenas o líder se dirige aos visitantes. Ele se cala por um momento, caminhando com a mão emagrecida demasiado próxima do fogo.

— E qual seria o perigo que cercam estas terras? Qual seria nosso dever diante do mundo?

É a vez de Curumo dar um passo determinado adiante.

— O retorno do Senhor do Escuro e de seus Arautos. Pois a ameaça vive, meus bons senhores, e colocará de joelhos todos os homens deste mundo se eles se recusarem a ouvir o chamado. A guerra jaz no horizonte; ainda que demore séculos, ela retornará e destruirá todo aquele que não estiver preparado.

Demora alguns segundos, mas os demais nativos, até então calados, soltam risos contidos. O velho permanece com a mão direita ao fogo.

— E seria nosso dever levar os joelhos ao chão, jurar fidelidade aos vossos estandartes e responder ao chamado quando a guerra viesse? Dedicar nossas vidas a homens que sequer revelam seus nomes? Sacrificar-nos por um mundo que nada nos deu? Proteger a terra onde apodrecem nossos filhos e lutar lado a lado com aqueles que os mataram e tomaram suas esposas? — Suas palavras são ferozes como um açoite; conforme se enraivece, as próprias chamas parecem se comportar de forma mais hostil. — O mundo nunca fez nada por nós. Não faremos por ele.

O semblante outrora pacífico do Mago Branco se altera. Ele bate o cajado no chão com violência, e imediatamente o fogo se reduz a uma chama tímida. Os nativos recuam conforme ele avança em passos céleres, sua estatura parecendo aumentar, sua sombra cobrindo o teto.

— Podem ter sido castigados pelo mundo, mas a tua inércia só trará ainda mais lâminas à tua garganta. Teu ressentimento não irá fazer com que sejam poupados pelas hostes do maligno. Não prezam pelas crianças que ainda vivem lá fora? Desejam que o destino seja cruel com elas, como foi convosco?

O velho, entretanto, permanece inerte.

— Fora daqui. Não ouviremos mais das tuas palavras de serpente.

***

Do lado de fora, Alatar se entreteve distraindo os pequenos. Huan latia e entretia a todos com seus truques, enquanto o Mago fazia de seus fogos de artifício um pequeno espetáculo. Não tardou para que o olhar triste, mas curioso das crianças se tornasse alegre e cheio de energia.

Assim, enquanto todos contemplavam as chamas coloridas que tomavam os céus, o Mago foi até um garoto um pouco mais velho, cujo comportamento um tanto mais contido e calado chamava a atenção.

— Gostaria de ficar com alguns fogos para si?

O garoto olhou para ele com alguma desconfiança, mas assentiu. Alatar puxou alguns dos mais fracos e deu-os a ele.

— O velho que recebeu meus amigos é teu avô, não é? — perguntou. Quando o pequeno confirmou, prosseguiu: — E onde estão os teus pais?

Ele apontou então para o Sudeste, na direção de algumas dunas avermelhadas. Percebendo a tristeza em seu semblante, o Mago deu um passo adiante e, suspirando, fechou os olhos e tocou seu ombro.

O truque era exigente, e ele sabia que pagaria o preço por tentá-lo. Entretanto, a pouca idade do rapaz — somada a seu atual estado emocional e à confiança que tinha no Mago — foi suficiente para facilitar as coisas. Bastaram alguns segundos para que visse as memórias às quais se referia, com a vila sendo incendiada por um grupo de bárbaros que arrastavam a mãe do pequeno pelos cabelos e a levavam para longe em seus cavalos.

Compadecido pela dor do pequeno, soltou-o e se ajoelhou ao seu lado.

— És muito corajoso, Yastor. Me diga… poderia me emprestar algo que pertença à tua mãe? Garanto que trarei de volta em menos de duas luas.

O garoto corre para dentro de uma cabana, e logo traz de volta um vestido. O Mago agradece, dobrando-o cuidadosamente e colocando-o na bolsa de sua montaria.

É quando Curumo e Pallando retornam revoltados. Seus passos velozes erguem poeira e espantam as crianças. Os dois logo soltam seus cavalos e saltam sobre eles.

— Vamos, Alatar. Não há nada para nós aqui.

Nosso herói se despede dos pequenos e faz o mesmo. Huan o acompanha conforme eles cavalgam para longe.

***

Eles seguiram por alguns minutos, se afastando do vilarejo sem que se dissesse uma palavra. Enfim, o Mago Branco abriu a boca:

— Jamais o encontraremos se tivermos de lidar com essa hostilidade em cada povoado. Ele está próximo, mas permanece bem escondido. Já é o terceiro lugar no qual nada nos é dito.

Alatar sorri, vasculhando sua bagagem.

— Eu não seria tão apressado em tirar tais conclusões, Curumo. Tive uma conversa interessante com um jovem rapaz enquanto vocês estavam lá dentro. Creio que sei onde procurá-lo.

— O que quer dizer? — pergunta Pallando.

Não tarda para que Alatar puxe o vestido dos bolsos e assobie.

— Encontre-a, Huan.

O cão se aproxima e cheira o tecido. Logo, fareja o ar e dispara à frente dos cavalos, guiando seu caminho por um deserto maldito

Notas finais
É isso! Espero que tenham gostado. O próximo capítulo trará um pouco mais de ação para vocês. Até a próxima!