Notas iniciais
Betado e revisado, qualquer erro, avisem.

Sabe Yuu, eu acho que eu sou uma pessoa muito egoísta, porque... Eu queria você só pra mim. Te monopolizar completamente. Queria fazer com que você tivesse olhos apenas para mim, fixados apenas em mim, que visse apenas a mim. Porém nem tudo é como queremos. A vida é dessa forma, para aprendermos.

Mas dói Yuu... Dói demais perceber que a pessoa que você mais ama no mundo não te vê mais dessa forma, e dói mais ainda ver que eu não posso fazer nada para mudar! Me diga, por favor, o que eu fiz para que você perdesse o interesse em mim? Foi porque eu sou pegajoso demais? Chato demais? Ou até porque eu como muito?

Me desculpa. Me perdoa.

Se você tivesse me dito antes, eu mudava! Eu faria de tudo para mudar e não perder você!

Desculpa por despejar tudo aqui, mas eu precisava desabafar de alguma forma.

.. Eu... Eu me sinto tão quebrado! Eu perdi meus pais, as pessoas que eu mais amava e se não fosse por você, eu duvido muito que ainda estivesse aqui. Mas agora... Eu perdi você também. E só de pensar nisso, eu... Eu tenho vontade de sumir.

E te olhando aqui, a dormir tão serenamente... Eu percebo o quanto realmente amo você. E pode me chamar de masoquista, mas tirei uma foto sua agora, só pra me matar aos poucos em casa. Sou idiota, né? Tudo bem, eu deixo me chamar assim.

Está sendo uma tortura, sabe... Olhar para seus braços, é como se eles me chamassem para se acomodar ali e passar o resto da minha vida desse jeito... Mas eu sei que é só minha mente pregando peças comigo.

Droga, já estou chorando. Eu sou realmente patético. Um grande idiota! Porém eu preciso deixar você ir! Se você não está bem ao meu lado, eu não vou te prender! Não vou mentir dizendo que minha felicidade é a sua, não vou, mas... Mas... Eu não me sentiria bem em saber que você não é feliz comigo.

Desejo de todo meu coração que você passe bons anos com a Emilia, que vocês formem uma bela família, que você tenha os filhos que eu sei que você queria ter, mas que ao meu lado não teria. Quero que você seja feliz!

Acho que está na hora de eu parar de escrever.

E me perdoa, me perdoa, me perdoa... Me perdoa por ter sido um fardo na sua vida. Me perdoa por ter te dado trabalho. Me perdoa por tudo! Você foi tão bom comigo, durante todos esses anos, mesmo com seus defeitos. Foi realmente os melhores momentos de minha vida. Obrigado... Por tudo também.

Sei que repeti isso algumas vezes nessa carta, mas quero que saiba que não menti em nenhum momento, eu te amo. Te amo de verdade.... Te amo tanto! Que é como se não coubesse tanto amor em mim!

Eu te amo Yuu.... Eu te amo...

Do seu eterno,

Allen Walker.”

Eu não sabia como reagir.

Eu mal havia acordado e já estranhei que não senti o moleque enroscado em mim, me viro na cama e percebo que estou sozinho, e quando olho mais atentamente, sobre o travesseiro estava um papel, um simples papel branco.

Uma carta.

A abri, não sabia porque, mas sentia meu coração apertar. Franzi o cenho quando reconheci a letra do moyashi. E conforme eu lia, conforme eu via a tinta meio borrada, conforme eu via as marcas de lágrimas – estas sendo as culpadas pelas partes machadas-, mais eu me desesperava.

Minhas mãos tremiam. Eu não conseguia entender o que estava acontecendo.

Vejamos, tem algum tempo que notei que Allen estava estranho, mas não dei muita importância, ele é estranho sempre, então se fosse algo o incomodando, eu pensei que um dia ele viria falar comigo. Logo depois ele passou a me ignorar e ficar se agarrando com aquele loiro idiota.

Mas eu sabia que seria pior se eu o pressionasse, então permaneci quieto, apenas esperando. Depois veio aquele desafio estúpido do coelho estúpido, e então tudo desmoronou de vez.

– Espera ele... Terminou comigo por aqui? – Encarei, e reli aquela carta pela terceira vez, ainda sem acreditar.

Corri até a sala, sem me importar em vestir uma roupa, e peguei meu celular que estava dentro da bolsa, já discando o número que eu sabia de cor. Mas apenas chamava. Repeti a ligação mais um monte de vezes, em nenhuma eu era atendido.

– Maldição Allen! – Me sentei no sofá, passando a mão no rosto, puxando meus cabelos. — Que droga está acontecendo?

Eu estava ficando irritado.

Voltei para meu quarto, coloquei qualquer roupa e saí de casa. Entrei no carro, dirigindo tendo como destino a casa de Allen. Estacionei na frente do apartamento, e cumprimentei o porteiro que eu já conhecia de tanto frequentar aquele lugar.

– Está atrás do senhor Allen? – Ele se pronunciou.

– Ah, sim... – Virei-me a encara-lo.

– Senhor Allen saiu em viagem. Disse que não sabia quando voltava.

Que?

–Yullen-

Eu já não sabia o que fazer.

Liguei para Lavi, até mesmo para o loiro idiota, e nenhum dos dois sabem sobre Allen. Apenas disseram que ele lhes mandou uma mensagem dizendo que ficaria um tempo fora.

Não sabia o que fazer, eu estava... Desesperado! Ele não podia ter feito isso! Como assim, simplesmente some, me deixando apenas uma carta dizendo que me amava e mais um monte de coisa e... Droga Allen! E se ele fizesse alguma coisa errada? E se ele entrasse em algum problema? Esse garoto atrai azar! Claro que não podia deixar de me preocupar.

Eu queria saber onde ele estava... Pensei em muitas hipóteses mas não tinha certeza de nenhuma. E... Foi nessa hora que me toquei, que nunca realmente perguntei a ele que tipo de lugar ele gostava... Na verdade... Eu nunca lhe perguntei nada.

Encostei-me no sofá, deixando minha cabeça pender para trás no braço do assento. Coloquei o braço sobre os olhos.

– Que droga de namorado eu sou...

–Yullen-

Durante duas semanas eu permaneci na minha, continuei indo à faculdade e ao trabalho normalmente, mas quando a terceira semana estava por fim foi quando o choque da realidade me abateu.

Allen estava sumido.

Ele não dava noticias. Eu já tentei ligar para ele durante todo esse tempo mas sem sucesso algum. Sempre, sempre, o telefone apenas chamava. Lavi me disse que algumas vezes Allen o ligou, mas nunca dizia onde estava. Até mesmo na faculdade, quando fui perguntar sobre ele, disseram que pediu transferência, mas a informação sobre onde era confidencial a pedido dele, que clamou para que não contasse a ninguém.

Eu sabia que estavam fazendo seu trabalho, mas eu não conseguida deixar de me irritar. Allen não tinha parentes, seus pais eram filhos únicos e seus avós já eram falecidos, ele não tinha para onde ir... Ou tinha? E eu apenas me mantive no escuro, procurando não saber nada a respeito dele...

Sentia minha cabeça doer, mas sem me importar realmente, apenas olhando para a galeria de fotos do meu celular. Aquele idiota não sabia, mas meu celular só tinha foto dele.

Eu precisava arranjar uma forma de falar com Allen.. Eu necessitava isso...

–Yullen-

Naquele dia, quando havia completado um mês que Allen sumiu, chamei o usagi na minha casa. Podem falar que estou desesperado.. Porque estou mesmo. Eu precisava conversar com ele, o único que, sei lá, poderia me dizer que merda estava acontecendo. Pois, sendo sincero, eu não tô entendendo merda nenhuma.

Não fazia a mínima ideia do que estava passando na cabeça do Allen. De onde ele tirou esse pensamento de que eu não estava mais interessado nele, e isso me deixava irritado. Já mandei mensagens de texto, mensagens de voz, liguei trocentas vezes para ele, e nada do filho da mãe me responder. Howard disse que conseguia ligar para Allen normalmente, e... Nossa! Como eu estava puto com isso! Esse oxigenado consegue falar com ele e eu não?!

– Inferno... – Praguejei, jogado no sofá esperando o coelho, que estava atrasado.

Passei a mão no rosto, respirando fundo. Olhei para o teto branco. Aonde esse moyashi foi? Aonde esse idiota está?

Meus pensamentos foram interrompidos pelo soar da campainha. Me levantei, já sabendo quem era. Abri a porta vendo aquela figura ruiva ridícula entrar. Incrivelmente, ele estava sério. Nos sentamos no meu sofá, e eu o encarei.

– Você sabe onde o Allen está? – Lavi suspirou, e voltou a me olhar.

– Sei. E não, não vou te falar. – Ele parecia decidido, mas eu não aceitaria isso.

– Que? Como não? Quero ir atrás desse idiota e-

– O único idiota que eu estou vendo, é você. – Me interrompeu. Encarei-o mortiferamente.

– Como é?

– É isso mesmo. Eu não vou dizer onde o Allen está. Eu prometi a ele que não diria... E sabe, você não tem o mínimo direito em vê-lo!

– Por que não? Eu sou o namorado dele.

– Era, que eu saiba. – O caolho me olhou igualmente irritado. – Escuta Kanda, você tem noção do quanto Allen é sensível? – Fitei-o sem entender, onde ele quer chegar? – Pela sua cara eu vejo que não.

– Do que é que você está falando?

– Você é mais burro do que eu pensava. – E quando fiz menção de levantar, ele fez isso. – O Allen estava se sentindo sozinho! E não me venha dizer que estava ao lado dele todo o momento porque não estava! Sabe que mês estamos? É, Outubro... Sabe qual foi o mês passado? O que tinha nele? O aniversário de morte dos pais do Allen.

Que?

– Eu sabia que você tinha esquecido! – Lavi começou a andar pela sala. – Ele queria você ao lado dele nesses momentos! Ele precisava de você! E o que você estava fazendo? Estava na porra de um videogame. Eu fiz aquele desafio pra ver se você se tocava de alguma coisa... Mas vejo como você é burro. – Voltou a me encarar, parecendo ainda mais irritado. — Custava Yuu? Custava perguntar a ele se estava tudo bem? Custava ao menos dar um carinho a ele? Caralho! Você era o namorado dele!

– E porque não me disse antes?

– E EU QUE TENHO QUE DIZER? – Eu não tinha o que responder, então apenas permaneci quieto. – O Allen não vai te dizer as coisas, e você sabe disso! Ele guarda para si o máximo que ele pode, e você, por conviver com ele, deveria saber quando estivesse mal, ou quando precisasse de algo...

– Eu não leio mentes. – Lavi me olhou, parecendo indignado.

– Vai se defender até o ultimo instante? O que é mais importante Kanda, seu orgulho ou o Allen? Decide. Ah, e sabe o que mais o deixou magoado, foi você com a Emília.

– Que? Ele é que estava em cima daquele loiro idiota.

– O Link é amigo do Allen... E o que a Emília é sua? Ah é, até me arrependo de ter contado aquela mentira do jardim pro Allen. Tem noção de como ele ficou arrasado? Eu queria contar a verdade para ele, queria mesmo, me sinto super culpado por isso, mas... Ele precisava ficar longe de você. – Lavi foi para a janela, ficando um tempo quieto.

Por que... Ele precisava ficar longe de mim? Eu não entendia isso.

– Carregar seus materiais, chama-la por uma apelido... Cara, você é burro? E ainda ta se perguntando porque ele tinha que ficar longe? Você não é merecedor do Allen, não é. Vamos lá Kanda, seja sincero. Quando você carregou os materiais do Allen? Hã? Quando você o chamou por um apelido carinho? Porque moyashi não é nada carinhoso. Quantas vezes você o chamou pelo nome? Acho que é possível até contar nos dedos. Kanda, vamos lá cara, pare e pensa. O que você fez pelo Allen nesses últimos tempos? Reflita. Eu não vou dizer mais nada. Perceba suas burrices você mesmo.

Dito isso, saiu de minha casa, batendo a porta. Eu poderia muito bem sair daqui e ir bater nele, encher esse idiota de soco... Eu faria isso se não tivesse percebido que ele tinha razão. O choque de realidade caiu em meus ombros como pedra.

Eu fiz... Tão mal assim a ele?

–Yullen-

Eu nunca me senti tão... Sei lá... Quebrado...

Fiz o que Lavi disse, pensei nos últimos tempos e, nossa, como eu era um merda. Se eu tivesse sido mais atento, perceberia todo os avisos que Allen me deu de que ele não estava bem... As continuas ligações, as mensagens, provocar ciúmes, vir para minha casa e ficar quieto como se me pedisse em silêncio para que olhasse para ele e perguntasse porque estava tão silencioso.

Droga, droga, droga... DROGA!

Como fui tão imbecil? Talvez eu pensasse que Allen estava melhor depois de ele ter se tornado mais comunicativo com todo mundo, de sorrir mais vezes, brincar e... E eu fui perceber só agora que ele se tornou assim porque estava comigo.

E parando para pensar e analisar todos esses anos, eu apenas fui me desleixando, deixando Allen de lado, passando a me importar apenas comigo mesmo. Tudo isso fazia parecer que eu não o quisesse mais. Quatro meses atrás Allen me pediu para morar com ele, e como naquele dia eu fiquei bravo, pensando que ele estava querendo me controlar... Fui totalmente insensível ao negar, ignorando o olhar chateado dele, que para mim, naquela hora, pareceu apenas um teatrinho para que eu cedesse.

Certo, foi um jogo, um desafio... Mas eu realmente tinha extrapolado em chamar Emília por apelido e carregar seus materiais. Agora na questão do jogo, eu ainda não entendi porque Allen ficou tão chateado. Talvez fosse porque eu estava tão concentrado e viciado no jogo que eu não dei atenção a ele.

Argh! Eu estava me cansando disso! Ok, se queriam que minha consciência pesasse, se queriam que eu ficasse mal com isso, se queriam que eu ficasse arrasado, conseguiram. E muito bem. Eu estava me arrependendo amargamente de não ter tratado Allen melhor. Posso estar falando como se ele tivesse falecido, mas... Eu sentia que eu não o veria mais. Realmente consegui perder a pessoa mais importante para mim sendo tão idiota.

E com essa realização, sabendo muito bem disso, segui minha vida, mas não da mesma forma que antes. Eu ia para a faculdade porque queria terminar, e ao trabalho porque precisava dele para me sustentar, entretanto, se eu pudesse parar tudo na minha vida, eu faria isso. Minha motivação para fazer qualquer coisa sumiu.

Lavi não pediu desculpas – e nem tinha porque pedir – depois daquela conversa, mas depois de alguns dias ele veio falar comigo novamente, me chamar para sair ou fazer qualquer coisa. Mas eu sempre recusava, não era uma desculpa, era apenas a verdade quando eu dizia que não estava afim. E quando era final de semana ou feriados, eu apenas ficava mofando em casa, ou as vezes eu frequentava o jardim secreto meu e do Allen, passando horas à toa lá, apenas me amargurando.

Meses se passaram dessa forma.

Emília tentou falar comigo nesse meio tempo, mas eu não tinha saco pra falar com ninguém. E quando ela soube, pelo Lavi, que Allen foi embora, ela veio pedir desculpas a mim, mas não era ela a culpada, e sim eu. Eu fui o namorado insensível, eu fui o idiota que não deu valor.

E, dessa forma, eu meio que virei paranoico, imprimi algumas das fotos que eu tinha de Allen, colocando em qualquer canto da minha casa, apenas para me torturar um pouquinho mais. E não pensem que desisti de falar com ele. Não, todos os dias, sempre que eu podia, estava ligando ou mandando mensagens, mesmo não tendo qualquer retorno destas. Até que chegou o dia em que a maldita voz eletrônica dissera que o numero não existia. Confirmei minhas suspeitas quando Lavi disse que Allen mudou de número, dizendo que estava se cansando das constantes ligações que eu fazia. Obviamente, ele não me passou o número.

Dia após dia, eu me definhava mais um pouco. Até que um dia, no período de férias Lavi invadiu minha casa, indo até meu quarto, onde eu estava, abrindo a janela e puxando as cobertas do meu corpo.

– Mas que saco! – Reclamei, pronto para puxar a coberta novamente. – Me devolve usagi!

– Não! Você vai levantar dessa cama agora! – E num momento de distração eu consegui arrancar das mãos dele. – Eu estou falando sério Kanda! Já pensou se o Allen volta e te vê nesse estado deplorável? Você está mais magro, com orelhas imensas e uma cara horrível. Cadê o japonês turrão mais gostoso do mundo?

– Morto. E... – Ri irônico. – O Allen não vai voltar.

Lavi me encarou quieto, sua expressão era triste... Ou simplesmente de pena. Mas eu ignorei, me virando de costas para ele, usando o cobertor sobre meu corpo como um casulo.

– Vai embora.

E nada recebi como resposta, apenas ouvi a porta do meu quarto fechar, e suspirei aliviado quando pensei que ele foi embora.

Doce ilusão.

Alguns bons minutos depois, Lavi voltou para meu quarto, e eu senti o cheiro de comida. Tirei apenas parte da coberta do meu rosto para vê-lo parado ao meu lado, colocando coisas sobre o criado-mudo.

– Acho bom você comer tudo.

– Não tô com fome.

– Você vai comer Kanda, nem que eu tenha que enfiar na sua goela.

– Quero ver você fazer isso. Eu te mato. – Ele olhou para mim, colocou as mãos na cintura e suspirou.

– O que vou fazer com você?

– Que tal... Ir embora e nunca mais voltar? – Me encarando incrédulo, Lavi bufou.

– Você, fazendo psicologia criminal, querendo lidar com criminosos, sofrendo por amor? Sério Kanda? – Fiquei quieto, desviando o olhar para fitar o teto. O que a profissão que eu iria seguir tinha a ver com isso? – Desculpa. Não sabia que ficaria chateado.

Eu nada respondi. Queria me livrar daquele caolho idiota logo, então peguei qualquer coisa que ele tenha feito e comi, deixando claro meu desgosto.

– Estou muito bem com meu soba.

– Ahh, tô vendo. – Disse irônico. – Tão bem, que emagreceu sabe-se lá quantos quilos.

– Tsc, para de querer tomar conta da minha vida. Que saco. – Lavi se sentou na ponta da minha cama.

– Eu estou apenas preocupado com você... Kanda, o que pensa fazer da sua vida? Vai desistir apenas porque Allen te abandonou? – Não respondi, mantendo minha boca ocupada com comida. – Cara, você está horrível. E eu to falando sério, está notável isso.

– Não me importo.

– Mas deveria!

– Lavi, vai embora, quero ficar sozinho.

– Mas Kanda...

– Agora. – Respondi mais rude. Não queria ninguém falando da minha vida, eu não queria ninguém me criticando. Eu merecia estar na merda, então tem com me deixar em paz?

O ruivo negou com a cabeça, levantando e saindo, dessa vez, definitivo.

Suspirei, largando a vasilha ainda na metade no criado-mudo de novo. Não estava com fome. Eu só... Queria realmente ficar sozinho.

–Yullen-

E então um ano se passou... Dois... E então três.

Fazia um ano que eu tinha terminado a faculdade, e eu estava sendo assistente de um psicólogo criminal que era amigo de um dos meus professores, que me designou para esse serviço. Ele havia me recomendado por eu ser um dos melhores alunos nessa área, sempre mantendo minhas notas boas e mostrando um grande desempenho. Mas não pense que eu havia superado a perda de Allen.

Não...

Na verdade, para mim, o tempo foi uma tortura.

Foi difícil realmente aceitar que eu não o teria mais. Porém, eu sofria até hoje, prova disso é que continuei descuidado com minha saúde, e durante todo esse tempo, Lavi tentava enfiar na minha cabeça que eu tinha que seguir em frente, mas eu não conseguia, isso estava além do meu alcance.

Até que, por essas razões, eu fiquei doente. Mais especificadamente, pneumonia. E então tive que pensar uma licença até que eu ficasse melhor. Mas, sinceramente, eu achava que ia morrer.

Mesmo seguindo as recomendações médicas, eu não sentia que estava surgindo efeito, me sentia pior a cada dia. As tosses faziam minhas costelas doerem, dor por todo corpo, febres sempre altas, mas eu não tinha quem pudesse cuidar de mim. Meus pais moravam no Japão, e o único com quem eu podia contar era Lavi, mas ele estava fazendo estágio em outro país, e, sempre se mostrando preocupado comigo, ligava todo dia para saber como eu estava. Eu até poderia ir para um hospital, mas... eu odeio hospitais.

E naquele dia, eu estava pior do que nunca, levantei da cama, sentindo minha garganta seca e rumei para a cozinha visando pegar água, mas uma forte tontura me assolou, tentei me apoiar na parede, porém meu corpo perdeu todas as suas forças, e, quando eu estava caindo no chão, sentindo minha consciência esvair, eu olhei para a porta de entrada da minha casa. Ri da minha desgraça, a febre junto dos remédios, mais uma vez, me fizera alucinar... Alucinei ao ver Allen na porta da minha casa.

.. Seria um sonho tão bom.

–Yullen-

Aos poucos meus sentidos voltaram, e fui pego de surpresa quando me vi deitado em minha cama e não no chão onde foi que desmaiei. Tentei me sentar, mas meus braços ainda estavam sem força, praguejei.

– Não tente se levantar Yuu. – Eu ainda não sei explicar como consegui, mas virei meu rosto rapidamente na direção da voz, vendo Allen sentado ao meu lado. – Está com cede? – Eu o encarava incrédulo, era impossível ser ele... Só podia ser minha mente brincando comigo de novo. Fechei os olhos e me deitei melhor, sentindo as lágrimas passarem a escorrer por meu rosto.

– Sou tão patético. Alucinações idiotas. – Minha voz estava rouca e muito baixa, prova de minha fraqueza física, mas não me importei.

– Eu não sou uma alucinação... – Ouvi sua voz novamente.

– É sim. Não vou discutir com alucinações de novo. – Virei-me de costas para aquela imagem que minha mente doente produzia, cobrindo meu rosto com a coberta. – Porcaria. Eu tô morrendo mesmo. – A tosse voltara com força, e eu sentia como se minhas costelas se comprimissem, causando muita dor.

– Para de ser teimoso. – Estranhamente eu senti mãos tocarem minhas costas, e quando a tosse cessou, me virou calmamente, ajudando-me a sentar, entregando-me um copo de água em seguida.

Minhas alucinações não me tocavam.

Tomei a água que me fora entregue, sentindo um alivio na garganta. Sua mão tocou minha testa, e eu tremi ao senti-la gelada.

– Você está fervendo em febre! – Não direcionei meu olhar a ele, apenas fitando a coberta em minhas pernas. Se era Allen mesmo ali, do meu lado, eu não era digno de olhar para ele. – Tome, vai fazer a febre passar. – Deu em minha mão um comprimido e o copo com água novamente, para facilitar na hora de engoli. E sem protestar, tomei, entregando-lhe o copo. – Fique aí, vou preparar algo para você comer. – Ajeitou os travesseiros em minhas costas, saindo do quarto depois.

Era Allen... Ele estava de volta.

.. Por que aqui... Na minha casa?

Não fazia o mínimo sentido. Ele não queria mais me ver, certo? Ele deixou isso claro quando me ignorou durante esses três anos.

Meu coração se apertou, e arfei, franzindo o cenho, apertando a camisa sobre o peito esquerdo. Eu não era merecedor de seus cuidados, então por que ele estava aqui? Por quê? Não era melhor se livrar desse problema que eu era, e simplesmente me deixar definhar até morrer?

Suspirei, olhando para a janela do meu quarto. O dia esta claro e ameno, mas eu ainda sentia frio, provavelmente por causa da febre. Estava difícil respirar, devido ao nariz estar congestionado; peguei o papel higiênico que tinha no criado-mudo, assoando e desejando que minhas vias nasais estivessem desentupidas. Minha respiração estava ruidosa e pesada, e eu soava frio. Tossi algumas vezes, tentando relaxar em seguida.

Eu realmente deveria morrer.

– Aqui. Coma tudo. – Allen voltou para o quarto, carregando numa bandeja uma vasilha com alguma sopa. – Triturei as verduras e o frango para que ficasse fácil de você comer.

Soltei um baixo agradecimento, assoprando algumas vezes e comecei a comer. Ficamos em silêncio por todo o momento, eu comendo enquanto Allen permanecia sentado na cadeira ao meu lado.

– Por que voltou? – Eu não queria, não queria mesmo, mas sentia uma pequena fagulha de esperança se assolar em meu peito...

– Lavi me ligou. Me disse que você estava doente, e como já fazia uns três meses que eu voltei para cá, ele me pediu para cuidar de você.

Esperança essa que acabou de ser esmagada. Eu sentia vontade de chorar de novo.

Ele não voltou por mim... Ele veio para cá apenas porque Lavi pediu.

– Ah.. Está perdendo seu precioso tempo. – Eu ainda não me permitia olhar para ele, então apenas fiquei a olhar a vasilha vazia sobre meu colo. – Deveria me deixar morrer.

– Por que...?

– Porque sim. Caolho idiota, não deveria ter te ligado. Desgraçado.

– Ele está preocupado com você Yuu!

– Foda-se. Não pedi por isso.

– Para de ser idiota! Ele é seu amigo!

– Foda-se também. Não me importo. E eu já disse, está perdendo seu tempo. Vai embora.

– Eu vou ficar aqui, e vou cuidar de você, para de ser teimoso.

– Não quero, tem como respeitar minha vontade de morrer? – Eu sei, estou fazendo um drama do cacete, eu poderia aproveitar a oportunidade, mas não, eu não podia. Porque... Ele usa um anel no dedo anelar da mão direita. Allen nunca mais seria meu.

Meu peito doía novamente. E a vontade de chorar voltou.

Eu estava realmente patético.

– Não vou deixar você morrer, para. – Ouvi ele se levantar da cadeira e sair do quarto. – Vou preparar a banheira, você tem que tomar um banho, e depois te darei outro remédio.

Sem nem querer ouvir qualquer protesto meu, ele saiu.

– Droga... – Coloquei a mão no rosto. Você não tem noção de como essa sua bondade me machuca. – Droga Allen...

–Yullen-

Não deixei que ele me desse banho, o expulsei do banheiro, dizendo que qualquer coisa eu o chamaria. Grande mentira, mas Allen acreditou. Fiquei parado na banheira, com a nuca deitada em sua beirada, olhando para o teto, naquele momento permiti que minha fraqueza viesse a tona.

E eu chorei.

Chorei como chorei em todos esses três anos, mas talves fosse até pior.

Allen tinha voltado, mas ele nunca veio tentar falar comigo.

Allen tinha voltado... Compromissado.

Allen tinha alguém.

Meu choro era desesperado, e eu não me importava que ele estivesse ouvindo... Eu sabia que ele ouvia. Eu via a sombra que seu corpo fazia no vão da porta, mas eu realmente não ligava.

Eu precisava tirar essa dor. Eu precisava fazê-la passar. Depois de tanto tempo, doía mesmo... Mas foi só ele voltar, foi só ele aparecer que tudo desmoronou.

E por causa do choro, eu não conseguia respirar, estava desesperador, e eu esperava que isso me fizesse morrer, porque... eu não aguentava. Eu não estava aguentando. Mas isso começou a me causar espasmos, a febre voltou e comecei a tossir fortemente.

Allen entrou como se estivesse desesperado no banheiro.

– Yuu! – Pegou a toalha, me tirando da banheira e me envolvendo nesta.

E antes que minha consciência se fosse novamente eu disse:

– Senti tanto sua falta... – E cai inerte em seus braços.

–Yullen-

– Ele está muito fraco, Lavi... – Ouvia a voz do albino assim que acordei, mas permaneci como se estivesse dormindo, apenas ouvindo a conversa. Ou pelo menos o que Allen dizia. – Ele já desmaiou duas vezes! Eu sei... – Suspirou. – Ele toda hora repete que é para eu deixa-lo morrer... Sim... Deve ser por isso que ele não foi para um hospital. Não sei nem como ele pôde pegar uma licença... Sim... Sim... Tudo bem. Vou cuidar dele... É claro que estou preocupado Lavi! Você tem que ver seu estado, ele está horrível! Ok... Aham. Certo, eu te ligo qualquer coisa... Tchau.

Ouvi seus passos se aproximarem da cama, e depois sentia a cama afundar mostrando que ele havia se sentado, tão logo suas mãos acariciaram meu rosto, e em seguida meu cabelo. Mas eu continuei quieto, sem me mover ou mostrar sinais de que estava desperto.

Eu sabia que não tinha escolha. Sua presença ao meu lado, mesmo que me torturasse, estava tão... Boa. Eu sentia saudades do seu perfume tão característico, dos seus lindos cabelos brancos, ah.. de tudo. Então, mesmo que doesse, eu permitiria que ele cuidasse de mim, só para usufruir de sua presença antes que ele sumisse de novo. Eu precisava disso.

Com isso, parei de reclamar e Allen nem disse nada. Continuou cuidando de mim, me ajudando quando eu precisava, e apenas quando necessário trocamos algumas palavras. E assim fui melhorando. As tonturas não vinham com tanta frequência, meus desmaios pararam, a tosse não estava mais tão forte... Eu não queria melhorar.

E então, num dia, eu estava deitado no sofá, vendo qualquer porcaria na televisão enquanto Allen fazia o almoço, eu estava distraído, pensando nele, até que ouvi sua voz.

– Sabe Yuu... Eu percebi uma coisa.

– O que?

– Tem muitas fotos minhas pela casa... Por quê?

– ... – Não respondi de imediato, apenas pensando em como dizer. – Porque... Eu precisava de alguma coisa para não esquecer você. – Ouvi o barulho de coisas caindo na cozinha, e isso me alarmou. – Está tudo bem? – Perguntei me levantando.

– S-sim.. eu só... tropecei. – Fui para a cozinha, vendo-o pegar as panelas que deixou cair.

– Tem certeza?

– Cla-claro... – Encarei-o fixamente, mas dei de ombros e voltei para a sala.

– Quando você foi embora... Minha vida perdeu totalmente o sentido. Infelizmente, demorei para perceber que você era a razão de eu seguir em frente. Ah, — Suspirei, me deitando de barriga para cima. – Seus sorrisos no final do dia eram o motivo de eu ir trabalhar todo dia de manhã tão bem. – Não recebi resposta alguma de Allen, e nem esperava receber.

Durante o jantar não trocamos nenhuma palavra. Não sei o porque, mas Allen não olhava para mim, e até mesmo quando ele ajeitou o futon ao lado da minha cama, me desejou um simples boa noite e desligou a luz.

Eu realmente não tinha entendido qual era o problema com ele, mas não pensei muito nisso, apenas aproveitei do seu perfume impregnado no quarto para dormir.

Entretanto, no meio da noite, acordei ao sentir a cama se mover levemente, e um corpo pequeno se aconchegar no meu. Demorei a notar que era Allen. Ele tremia, e então percebi que ele soluçava, se agarrando em minha roupa. Fingi ainda dormir, e então abracei-o. Allen apenas se agarrou com mais força em mim, tentando conter seus soluços.

Eu não sabia porque ele chorava, mas eu sabia que se eu mostrasse que estava acordado, ele iria para sua cama, então apenas continuei a abraça-lo, desejando que ele parasse de chorar.

–Yullen-

– Yuu, me ajude aqui, por favor. – Ouvi sua voz me chamar na varanda, me encaminhei até lá, vendo-o sobre um banquinho para alcançar o varal.

– Quer que eu faça isso? Acho melhor...

– Não! Apenas pegue essas roupas que caíram. – Apontou para as peças que estavam caídas no chão. — Coloque nos meus ombros.

– Allen, acho melhor deixar eu fazer isso... Você vai cair.

– Você ainda está fraco, tem que ficar de repouso. Agora vá deitar-se e-

Ele se virou tão bruscamente que o banquinho tombou para o lado, no exato momento me alarmei e corri para pega-lo. Caímos no chão, e reclamei um pouco ao sentir minhas costas doerem pelo impacto, mas fiquei satisfeito ao vê-lo caído sobre meu peito.

Quando Allen levantou seu rosto, fazendo biquinho, eu fiquei hipnotizado. Fazia tempo que eu não via seu rosto tão perto... E como se eu não controlasse meu corpo, uma de minhas mãos se moveu sozinha para seu rosto, fazendo um carinho sutil em sua face macia. Allen apenas me olhou, sem fazer nada e nem se expressar. Minha tola mente interpretou que ele não se importava, e então, puxei seu rosto para perto, beijando seus lábios.

Meus olhos estavam fortemente fechados, então não vi sua expressão naquele momento, mas, provavelmente, ele ficou em choque, e quando percebeu o que acontecia, me empurrou, saindo de cima de mim.

Foi nessa hora que percebi o que fiz, encarei-o, vendo seu rosto corado, e me sentindo horrorizado. Eu o havia feito trair a pessoa com que ele estava.

– Desculpa... – Me levantei, correndo para meu quarto.

Que merda eu tinha feito?

Incidentes como aquele não tornaram a acontecer.

Allen, que parecia estar se aproximando aos poucos de mim, passou a ficar mais distante, mas nem fiz questão de protestar, afinal, eu estava errado. Em partes, eu não me arrependia de tê-lo beijado. Senti saudades dos seus lábios tão macios, de ver seu rosto tão perto... Mas por outro lado, isso fez com que eu não tivesse mais chance alguma de reconquistá-lo. Era apenas um dos pontos ruins... O outro foi que... Esse beijo, esse incidente fez com que minha pobre mente saudosa passasse a lembrar de como era possuir seu corpo... Então, constantemente, eu acordava com um certo incomodo entre as pernas.

A única coisa que eu podia fazer era correr para o banheiro e me aliviar lembrando de seus doces gemidos, de sua doce voz ao chamar meu nome...

Eu estava realmente no fundo do poço.

E, infelizmente, o tempo foi se passando, e o dia em que eu estava melhor chegou, demorou, mas chegou. Allen estava no quarto arrumando suas coisas, enquanto eu estava sentado em minha cama a olha-lo, claro que eu não queria que ele fosse embora, mas quem era eu para impedir alguma coisa? Mesmo não merecendo, ele veio e cuidou de mim, eu apenas tinha que agradecer pelo tempo que passei ao seu lado.

Estávamos então parados na porta de minha casa, e Allen apenas anotava algumas recomendações para que eu seguisse. Eu não pude impedir o sorriso que nasceu em meu rosto ao vê-lo tão sério e aparentemente preocupado. Ele realmente seria um bom médico.

– Entendeu Yuu? – Apenas afirmei com a cabeça.

E ele saiu pela porta, mas antes de seguir viagem pelo corredor e ir para o elevador, ele parou, ainda de costas para mim.

– Não vai... Pedir meu novo número?

– Não. – Sorri, mesmo que ele não pudesse ver. – Não sou merecedor de ter você de volta, mesmo que seja como um simples amigo. – Não resisti a tentação, e acariciei seus cabelos brancos, me aproximei e beijei sua testa. – Obrigado. Mesmo que não estivesse preocupado comigo, eu realmente agradeço por ter cuidado de mim, vou lembrar com muito carinho esses dias... Sei que não vai ter importância, e que pode parecer mentira, mas quero que saiba que eu ainda te amo. Espero que seja muito feliz com quem você estiver. – Baguncei seus cabelos, e, ainda sorrindo, me despedi, entrando em casa.

Despedidas não eram fáceis, mas eu sentia meu coração mais leve depois de ter dito o que eu queria. Acho que agora eu poderia seguir em frente.

Notas finais
Agradecimentos especiais à: Lau Chan, Futrika, Enma Ai, Celyzinha e Sweet Death; por comentarem no cap anterior. Yay! E aqui está o capítulo da semana!!! E o penúltimo ;A; E o que estão achando meus amores? O Yuu ficou um pouquinho OOC, mas foi necessário para essa parte da fic~ E eu quero mesmo que digam o que estão achando dessa fic, OK? É muito importante pra mim. Enfim, é só. Até semana que vem! 18.10.2014