Olhava para o teto, e parecia que o tempo não passava. Ficar ali, esperando o Nathan, só estava me dando mais agonia pelo o nosso quase beijo. Imaginem se eu tivesse o beijado. Seria estranho? Claro que seria! Quando nos beijamos pela primeira vez foi um teste. Quero dizer, eu era virgem, e foi um treinamento para a vida. Não que eu tenha beijado muitas bocas por ai, mas eu fiquei com outros meninos. Uns dois para ser exata. O que? Minha boca, minhas regras. Eu não gosto de sair beijando por ai, ainda mais quando se tem um pai que quer costurar um pedaço de cortina no meu vestido, achando que está muito curto, e um irmão que mais parecia o meu segurança. Pois é, eu sofri nessa vida. Papai Gabe não é fácil, mas isso vocês já sabem. Conhecem o suficiente para imaginarem as loucuras que ele já fez. Pois bem, meu primeiro beijo foi o Nathan e eu não me arrependo. Pelo menos foi com um amigo. Se fosse com um estranho, eu sairia correndo e nunca mais iria querer ver o rosto do garoto. Os outros dois beijavam bem, mas tinham um problema, que até hoje eu não consigo descobrir. Ai, como essa vida de romance é complicada. Eu deveria ter virado freira, como o meu pai queria. Ele chegou a me levar ao colégio de freiras, fez todo aquele drama, mas na época eu não quis saber. Mamãe ficou uma fera com ele.

Eu já estava quase ligando para o Nathan, preocupada com essa demora. Será que tinha acontecido alguma coisa com ele? Ai, Jesus Cristinho, será que ele tinha sido assaltado? Será que aconteceu algo com ele? Roubaram a comida? Ai, Sophie, pelo amor de Deus! Respira e não pira! Vou ligar pra ele para me tranqüilizar.

Fui até a sala, peguei o meu celular e liguei. Nada! Ele não me atendeu. Liguei de novo, de novo e de novo, mas não me atendeu. Meu Deus! Será que ele encontrou com alguma mulher? Será que foi com a ex dele? Ele não iria me abandonar aqui para ficar com outra pessoa. Eu acabo com ele! Respiro fundo umas dez vezes, antes de tentar ligar para ele. Disquei de novo, mas escutei a porta abrindo, e eu me virei, e assim eu o vi. Ele estava com as compras nas mãos, então não roubaram a comida, e estava sério. Tinha acontecido alguma coisa, e o meu faro não estava enganado.

— Nathan, eu liguei pra você diversas vezes, mas você não me atendeu. – fui até ele, que estava na cozinha.

— Eu devo ter colocado no modo silencioso. – virou-me para mim. — Está com fome? Eu trouxe a nossa comida.

Então era isso? Ele não me atende, chega sério e agora finge que está tudo bem? Comigo não, querido. Aqui o negócio é mais embaixo.

— Nathan, olha pra mim! – falei, seriamente.

— Eu acho que você vai gostar do que eu comprei, e...

— Chega! – gritei. — Eu vou embora! Eu como alguma coisa no caminho, daí você pode conversar com as paredes, porque é assim que eu estou me sentindo.

—Sophie! – ele segurou a minha mão, e me fez olhar para ele. Malditos olhos lindos!

— Que merda, Nathan! Eu vou embora!

— Não vai! Você vai comer, e me explicar o porquê está usando a minha camiseta. –sorriu.

Olhei para baixo, e agora que eu fui me lembrar de que eu estava usando a camiseta dele.

— Nem vem! Não muda de assunto, porque eu vou fazer as perguntas por aqui. – cruzei os braços e olhei fixamente para ele

— Meu anjo...

— Ah, nem vem com isso. Você vai me responder tudinho, sem enrolação.

Ele me puxou até a sala, e me nos sentamos no sofá. Agora ele vai abrir essa boca linda, quero dizer, essa boca, e vai falar porque chegou tão sério daquele jeito.

— Pode começar o interrogatório.

— Pois bem, você saiu para comprar algo para comermos, mas demorou demais, não que estivesse contando os minutos pra você voltar. E quando voltou, estava todo sério e nem me ouvindo direito você estava. O que aconteceu, Nathan?

O olhar dele estava mais perdido do que dinheiro no fim de mês. Alguma coisa aconteceu por aqui, e não foi o nosso quase beijo.

— Não aconteceu nada. Eu demorei por causa da fila, só isso.

— Sei. – respirei fundo. — Desde quando você mente pra mim? Ou melhor. Desde quando um amigo mente para o outro? Eu estou decepcionada com você, Nathan. Eu nunca menti pra você. Sempre soube do que eu sentia, e eu me abria pra você. Eu falo o que me aflige; o que me deixou feliz ou até coisas de mulheres. Nath, eu achei que fôssemos melhores amigos, mas eu vejo que eu sou sua amiga, já você... – dei de ombros. — Eu vou deixar você pensar, mas sozinho. Eu vou embora, e depois você me liga. – levantei-me, e queria sair dali sem pensar duas vezes, senão eu voltaria atrás na minha decisão.

Nathan precisa parar de ficar desse jeito. Ele me esconde alguma coisa, e não quer me falar. Isso me deixa magoada, porque somos amigos, e eu nunca escondi nada dele. Nada! Sempre contamos segredos para o outro, mas ele está mudando. Algo dentro dele está mudando.

— Não! – ele agarrou os meus braços, me fazendo bater no peitoral dele. E que peitoral! — Eu não quero que você vá embora. Nunca! Eu não quero estragar a nossa amizade, e o que construímos até hoje. Meu anjo, você é a pessoa mais importante de toda a minha vida. A pessoa que eu confio e conto tudo! – suspirou. — Eu sai daqui pensativo sobre o nosso quase beijo, e depois de comprar a nossa comida, eu estava vindo embora, quando encontrei com o Leonard.

Sentiram o impacto da frase? Esses dois juntos é morte! Pelo pouco que eu vi, Nathan perde a paciência quando está com Leonard, e olha que o Nathan tem um estoque enorme de paciência.

— Se você não está ferido, então quer dizer que ele está morto? Nathan, você atirou nele? Ou pior, você contratou uma gangue, que deram uma surra nele, deixando-o agonizando em um beco sem saída, onde os bichos irão comer toda a sua carne e...

— Sophie? Sophie? Sophie, meu amor, olhe pra mim. – ele segurou o meu rosto, chamando a minha atenção de volta.

Espera ai! Ele me chamou de meu amor? Ele bebeu? Só faltava ele enchido a cara. Ai, eu mato ele!

Segurei o rosto dele, tentando cheirar o seu hálito.

— O que você está fazendo, Sophie?

— Só quero saber se você encontrou com a Cátia. – falei.

— Que Cátia?

— A Cátia cachaça. Você bebeu?

— Eu não! Eu estou ótimo, por quê?

— Você me chamou de “meu amor”.

Ele ficou vermelho, parecendo a Po dos teletubbies.

— Saiu sem querer, Sophie. Foi para chamar a sua atenção, que estava criando um cenário de assassinato, com gangue, tiro, beco sem saída. Eu acho que você está assistindo séries demais.

— Não muda de assunto, e não fale das minhas séries, que o negócio fica feio. O que aconteceu com o Leonard? Porque vocês dois juntos não dá certo.

— Não aconteceu nada. Nós nos encontramos, e ele veio com toda aquela grosseria dele, e eu o coloquei no lugar.

— Sem porrada?

— Sem porrada, porque eu sou paz e amor.

— Sei. Sobre o que falaram?

— Sophie, não foi muita coisa. Ele veio querendo falar de você, e eu disse que... Bem, que somos amigos e eu iria te defender, se ele tentasse alguma gracinha. Ele ficou nervoso e foi embora.

— Só isso?

— Sim. Eu disse que foi coisa boba.

É. Eu ainda estava esperando a parte sangrenta, mas tudo bem.

— Podemos ir comer? – perguntou. — Aliás, porque está com a minha camiseta?

— Eu só quis vesti-la. Acho que ficou bem em mim, né?

— Tudo fica bem em você, meu anjo. – sorriu.

Nós nos sentamos à mesa, e eu me servi. Estava maravilhoso, mas o real motivo de ele ter saído não era por causa da comida. Ele tinha que pensar sobre o que tinha acontecido entre nós. Nós quase nos beijamos, depois de anos.

— Nath, eu sei que você não queira falar sobre isso, mas precisamos entender o que está acontecendo com a gente. Nós temos um passado, quero dizer, foi só um beijo, mas temos um passado. E hoje, bom, hoje quase aconteceu de novo.

Ele largou o garfo, e olhou pra mim. Um olhar profundo e hipnotizante.

— Eu pensei que você tivesse esquecido esse assunto.

— É meio que impossível, não é? – falei, sarcasticamente. — Porque você quis me beijar?

— Sophie, vamos esquecer isso, e...

— Eu só quero saber, ok?

— Então me responda: porque você quis me beijar?

Merda! Não funciono sobre pressão das pessoas. Não tenho tempo de pensar em algo, mas eu nem sei no que pensar. Porque eu quis beijá-lo? Porque eu quis?! Eu queria muito beijá-lo de novo? Porque ele é lindo, maravilhoso, inteligente, tem um peitoral forte, e braços com veias que saltam e eu acho sexy, usa óculos, é fofo, não tem tanto medo do meu pai, me conhece muito bem, é meu amigo e somos unidos? Droga! Nem eu sabia o motivo direito.

— Foi o calor do momento. Eu não sei direito o que deu em mim, eu só não te afastei da minha boca. – eu estava confusa, sem entender o que estava acontecendo comigo.

— A sua resposta é minha. – segurou uma das minhas mãos.

— Nem vem copiar a minha resposta. Eu quero saber o seu motivo.

Ele soltou a minha mão, e desviou o olhar. Eu o chamei, mas ele parecia aéreo naquele momento. Esse não era o meu Nathan.

— Sophie, eu te beijei por que...

Escutamos um celular tocar, e não era o meu. Ele me olhou, como se pedisse permissão para atender.

— Pode ir, depois voltamos ao assunto. – sorri.

Nathan pegou o celular, e fez uma cara feia. Quando eu ia perguntar quem era, a campainha começou a tocar, desesperadamente.

— Eu vou abrir a porta. – gritei, já que ele nem estava mais perto de mim. — Já vai! – que pessoa insistente.

Abri, sem nem verificar quem era, e dei de cara com uma mulher alta, de cabelos pretos, que estava usando uma calça jeans bem apertada, que marcava bem o corpo curvilíneo que tinha, e que eu não tinha.

— Em que posso ajudar? – ela não é estranha. Eu já a vi em algum lugar.

Ela me olhou e cima para baixo, e fez uma carinha de nojo. Eu vou passar cuspe na roupa dela.

— Você deve ser a Sophie, amiguinha do Nathan. – disse com desdém.

— Sou. E você, quem é? – ainda bem que tinha feito karatê na escola quando eu era criança. Tudo para me defender.

— Sophie? – escutei a voz do Nathan, mas eu me concentrei na mulher aqui na minha frente.

— Jaqueline. Eu sou a namorada dele.

O que? Não! Ele não tinha namorada! Ele teve, passado bem distante do presente. Ai, merda! Mas se ela acha que eu vou ficar quieta, ela está bem enganada. Aqui corre o sangue de Emily e Gabe. Sangue de treta!

Nathan

Ele ainda teve a ousadia de perguntar da Sophie? Filho da puta! Eu estou pedindo paciência mentalmente, senão eu acabo com a raça desse cara. Pode mexer comigo, mas não mexa com a Sophie, em hipótese alguma! Ela é minha!

— Não ouse falar o nome dela. Você entendeu, ou quer que eu desenhe?

— Está corajoso, Nathan? – sorriu sarcasticamente.

— Não brinca com a Sophie, não chegue nem perto dela, ou você irá se arrepender.

— O que vai fazer? Que e eu saiba, eu é que fui trocado por você, e eu não entendo a Jaqueline até hoje por ter feito isso.

— Eu não tenho culpa da mente diabólica daquela garota. Você deveria ficar com raiva dela, não de mim. Apesar de que, eu não faço questão nenhuma da sua amizade.

— Eu acho que deveria fazer questão, porque eu posso ser o seu próximo melhor amigo, já que, possivelmente, eu terei um relacionamento com a doce Sophie.

Basta! Isso foi o estopim da minha paciência. Ele nunca colocaria as mãos nela! Nem que passasse por cima do meu cadáver.

— Nunca, entendeu? Nunca que você irá colocar as mãos nela. – o segurei pela camisa, e bufei de raiva. — Ela é minha, e você não vai ousar chegar perto dela, senão eu acabo com você.

— Me solta, seu babaca! – ele riu. — Desde quando amigo tem direito sobre quem a outra amiga pode ficar? Eu fico imaginando o beijo da Sophie. Deve ser doce, igual a ela. As mãos delicadas dela passando sobre o meu corpo, e as minhas mãos sobre o pequeno corpo dela. Naqueles cabelos cheirosos, no pescoço... Imagine essa cena, Nathan. Acho que a ela irá gostar.

Merda! Ele quer me desestabilizar. Ele não irá fazer isso, porque eu o mato antes. Eu acabo com ele antes e ele ameaçar ter alguma coisa com a Sophie. Eu respirei fundo, mas as malditas imagens, mesmo que hipoteticamente, estão me atormentando. Eu estou quase partindo pra cima dele, mas o sorriso me veio em mente, e eu pensei o quanto ela ficaria decepcionada se eu arrebentasse a cara desse idiota. Por mim, não faria mal algum, mas a Sophie veria que eu estou perdendo a cabeça com quem não merece.

— Está pensando no quando a Sophie irá gostar? Eu acho que ela irá adorar, não acha?- sorriu. — Nós dois juntos, namorando. Ela será totalmente minha.

— Isso nunca irá acontecer! – ri da cara dele.

— E porque você acha que não irá acontecer? Acha que ela irá obedecer as ordens de um amigo? Ela é só sua amiga, Nathan.

— Nós estamos namorando. – merda! Falei besteira, e a Sophie vai acabar comigo. Estou mais que ferrado com isso.

— Vocês dois? Desde quando?

— Isso não te interessa. Ela é minha! Minha namorada, minha amiga e minha mulher! Acho bom você sair de perto dela, senão você irá se arrepender de chegar perto da Sophie.

Ele me olhou com fúria, e antes de se virar para ir embora, me olhou, friamente.

— A Jaqueline vai matar você por isso, e eu vou adorar que ela maluca fique no seu pé. E eu ainda terei a Sophie, você vai ver. Esse namorinho irá acabar.

— Vocês dois podem tentar, mas nós dois ficaremos juntos, e isso é um fato.

Ele saiu nervoso, e eu pensei em fazer a dancinha da vitória, mas eu me lembrei que estava ferrado, em diversas vezes. Se a Sophie descobrir que eu fiz isso, ela me mata. Se o Lucas descobrir que eu fiz isso, ele me mata e se o pai da Sophie descobrir que eu fiz isso, ele me mata e ainda pendura o meu cadáver.

Porque raios eu fui mentir? Eu terei que contar pra ela, senão o idiota do Leonard vai contar, e isso só vai piorar a minha situação. Porque eu fui dizer que éramos namorados, sendo que não passamos nem perto disso. O máximo foi um beijo, quando ela tinha 15 anos, só isso. Isso vai me ferrar, e eu até vendo o meu caixão, porque eu vou morrer, e isso é um fato.

Entrei no carro, e apenas me concentrei em chegar ao meu apartamento, sem pensar na besteira que eu inventei.

***

Parei diante da minha porta, com um terço no bolso, e rezando umas mil orações, pedindo proteção aos céus, a Deus e tudo mais. Jesus é mais, e ele não irá me abandonar nessas horas. A Sophie iria entender o eu lado, e ficaria tudo bem. Meu padrinho nem iria precisar saber disso. Só fingiríamos para o Leonard, mas por pouco tempo, só isso.

Destranquei a porta, e então eu a vi, parada na sala, usando a minha camiseta. Porra! Ela está malditamente sexy! Eu não posso me perder. Foco, Nathan!

— Nathan, eu liguei pra você diversas vezes, mas você não me atendeu. – veio até a mim.

— Eu devo ter colocado no modo silencioso. – virei-me para ela. Eu nem escutei o celular, porque a minha cabeça estava cheia demais. — Está com fome? Eu trouxe a nossa comida.

Eu queria desviar o assunto, seja ele qual for. A Sophie amava comer, então ela iria esquecer-se de qualquer assunto que seja.

— Nathan, olha pra mim! – falou, seriamente.

— Eu acho que você vai gostar do que eu comprei, e...

— Chega! – gritou. — Eu vou embora! Eu como alguma coisa no caminho, daí você pode conversar com as paredes, porque é assim que eu estou me sentindo.

Droga! A última coisa que eu queria era isso. Tê-la aqui me dava paz, mesmo com a minha cabeça explodindo. Eu não poderia deixá-la sair assim. Eu sou o namorado dela, de mentira e sem ela saber, mas eu sou.

—Sophie! – eu segurei sua minha mão, e a fiz olhar pra mim.

— Que merda, Nathan! Eu vou embora!

— Não vai! Você vai comer, e me explicar o porquê está usando a minha camiseta. –sorri.

Ela ficava linda de qualquer jeito, e essa camisa tinha uma história entre nós. Porque tão linda? Ela era um anjo na minha vida.

— Nem vem! Não muda de assunto, porque eu vou fazer as perguntas por aqui. – cruzou os braços e olhou fixamente para mim.

Eu amava esse jeito durão dela, que não durava muito tempo. Esse olhar malvado, mas que tinha a pureza neles. Uma alma linda e pura.

— Meu anjo...

— Ah, nem vem com isso. Você vai me responder tudinho, sem enrolação.

Eu não conseguiria escapar das perguntas dela. Sophie era insistente quando queria alguma coisa. Eu a levei para a sala, e nos sentamos. Respirei fundo antes de falar alguma besteira.

— Pode começar o interrogatório. — falei.

— Pois bem, você saiu para comprar algo para comermos, mas demorou demais, não que estivesse contando os minutos pra você voltar. E quando voltou, estava todo sério e nem me ouvindo direito você estava. O que aconteceu, Nathan?

Aconteceu que eu quase arrebentei a cara do Leonard, que não parava de dizer asneira sobre você, e eu acabei inventando que estávamos namorando, só isso. Mas eu não iria dizer isso agora. Eu pensaria com calma, e treinaria para falar, porque ela vai acabar comigo.

— Não aconteceu nada. Eu demorei por causa da fila, só isso. – eu omiti a informação, por enquanto. Logo ela irá saber da verdade, então eu não menti.

— Sei. – respirou fundo. — Desde quando você mente pra mim? Ou melhor. Desde quando um amigo mente para o outro? Eu estou decepcionada com você, Nathan. Eu nunca menti pra você. Sempre soube do que eu sentia, e eu me abria pra você. Eu falo o que me aflige; o que me deixou feliz ou até coisas de mulheres. Nath, eu achei que fôssemos melhores amigos, mas eu vejo que eu sou sua amiga, já você... – deu de ombros. — Eu vou deixar você pensar, mas sozinho. Eu vou embora, e depois você me liga. – levantou-se, e eu senti como se um soco tivesse dado em meu estômago. Aquelas palavra pesaram a minha consciência, porque eu estava omitindo algo que era sobre ela e, mesmo que não fosse, ela é a minha amiga. Nunca escondi nada dela, e isso corta o meu coração.

— Não! – eu agarrei os seus braços, fazendo-a ficar mais perto de mim. — Eu não quero que você vá embora. Nunca! Eu não quero estragar a nossa amizade, e o que construímos até hoje. Meu anjo, você é a pessoa mais importante de toda a minha vida. A pessoa que eu confio e conto tudo! – suspirei. — Eu sai daqui pensativo sobre o nosso quase beijo, e depois de comprar a nossa comida, eu estava vindo embora, quando encontrei com o Leonard.

Só de me lembrar dele, a raiva sobe, e a vontade de acabar com ele ainda mais. Ele é um babaca! E ele achando que tocará na Sophie? Só vai achando.

— Se você não está ferido, então quer dizer que ele está morto? Nathan, você atirou nele? Ou pior, você contratou uma gangue, que deram uma surra nele, deixando-o agonizando em um beco sem saída, onde os bichos irão comer toda a sua carne e...

O que? De onde ela tirou essa ideia? Eu nunca faria isso, apesar da vontade de dar uma boa surra nele, mas eu faria isso com as minhas próprias mãos. Mas a Sophie estava viajando nessa história dela. Eu já falei que ela anda vendo muitas séries policiais e de zumbi, e depois fica com medo ou criando histórias na sua cabeça.

— Sophie? Sophie? Sophie, meu amor, olhe pra mim. – meu amor? Foda-se! Ela tinha que olhar pra mim. Segurei o rosto dela, e chamei a sua atenção de volta.

Ela segurou o meu rosto de volta, tentando cheirar a minha boca. Ela está maluca?

— O que você está fazendo, Sophie? – tentei me afastar, mas ela não deixava.

— Só quero saber se você encontrou com a Cátia. – falou.

— Que Cátia? – perguntei sem entender.

— A Cátia cachaça. Você bebeu? – ela estava ficando nervosa.

— Eu não! Eu estou ótimo, por quê?

— Você me chamou de “meu amor”.

Ela não deixa passar nada despercebido. Ela é foda! Inteligente pra caramba, e eu sou ferrado. Onde eu posso enfiar o meu rosto agora?

— Saiu sem querer, Sophie. Foi para chamar a sua atenção, que estava criando um cenário de assassinato, com gangue, tiro, beco sem saída. Eu acho que você está assistindo séries demais.

— Não muda de assunto, e não fale das minhas séries, que o negócio fica feio. – mexeu com as séries, mexeu com ela. — O que aconteceu com o Leonard? Porque vocês dois juntos não dá certo.

— Não aconteceu nada. Nós nos encontramos, e ele veio com toda aquela grosseria dele, e eu o coloquei no lugar.

— Sem porrada?

— Sem porrada, porque eu sou paz e amor. – mentira. Queria dar porrada, mas usei o sorriso dela como um mantra.

— Sei. Sobre o que falaram?

— Sophie, não foi muita coisa. Ele veio querendo falar de você, e eu disse que... Bem, que somos amigos e eu iria te defender, se ele tentasse alguma gracinha. Ele ficou nervoso e foi embora.

Nathan, para de ser cagão, e fala a verdade, pelo amor de Deus! Fale a besteira que você inventou, e assuma os riscos.

— Só isso?

— Sim. — boca traidora que não diz a verdade. Merda! — Eu disse que foi coisa boba.

— Podemos ir comer? – perguntei, mudando de assunto. — Aliás, porque está com a minha camiseta?

— Eu só quis vesti-la. Acho que ficou bem em mim, né?

Eu olhei fixamente pra ela, e suspirei. Tudo ficava bem nela, até uma camiseta enorme, e que depois ficaria o cheiro dela. Depois de hoje, essa camisa virou a melhor de todas. Já era a minha preferida, agora eu não dou pra ninguém, em hipótese alguma.

— Tudo fica bem em você, meu anjo. – sorri.

Nós nos sentamos à mesa, e nos servimos. A comida estava maravilhosa, e eu sabia que ela amaria. Eu estava tão concentrado em comer, que não pensei em mais nada. Tentei relaxar, pelo menos nesse momento.

— Nath, eu sei que você não queira falar sobre isso, mas precisamos entender o que está acontecendo com a gente. Nós temos um passado, quero dizer, foi só um beijo, mas temos um passado. E hoje, bom, hoje quase aconteceu de novo.

Ainda tinha a história do beijo, do quase beijo. Um beijo que eu queria dar, confesso.

— Eu pensei que você tivesse esquecido esse assunto.

— É meio que impossível, não é? – falou, sarcasticamente. — Porque você quis me beijar?

— Sophie, vamos esquecer isso, e...

— Eu só quero saber, ok?

Eu também quero saber por que ela queria me beijar. Eu senti isso, do mesmo jeito que ela sentiu que eu queria beijá-la.

— Então me responda: porque você quis me beijar?

Quero vê-la falar a verdade. O que ela sentiu em quase me beijar.

— Foi o calor do momento. Eu não sei direito o que deu em mim, eu só não te afastei da minha boca.

— A sua resposta é minha. – segurei uma das suas mãos.

Essa era parte da minha resposta. Eu não sabia o motivo, ainda, mas, naquele momento, eu queria beijá-la. Beijá-la muito, mas algo dentro de mim gritou para eu parar, senão poderia estar fazendo uma besteira.

— Nem vem copiar a minha resposta. Eu quero saber o seu motivo.

Talvez o meu motivo seja a mudança geral na nossa amizade. Se eu dissesse as palavras em voz alta, eu poderia estar colocando em jogo tudo o que construímos até hoje. Eu tenho medo, mas eu poderia arriscar tudo? E se eu não tentasse e me arrependesse? Tantas perguntas, e eu só tinha uma resposta na minha cabeça.

— Sophie, eu te beijei por que...

Escutei o meu celular tocar, e quis jogá-lo longe por estar me atrapalhando nesse momento. Eu preciso atender, porque não para de tocar.

— Pode ir, depois voltamos ao assunto. – sorriu.

Peguei o celular e vi o nome da pessoa mais desagradável que eu já convivi. Inferno!

Fui para o quarto, e respirei fundo antes de atender.

— O que você quer, Jaqueline? – fui ríspido, para ela entender que acabou.

— Nossa, que nervosinho! Nem parece aquele homem fofo e carinhoso. O que aconteceu, amor?

— Você. Que inferno, Jaqueline! Eu disse para me deixar em paz, não disse? Some da minha vida!

— Você sabe que não será tão fácil assim. Você me largou seu idiota!

— Eu fui esperto, porque eu te agüentei muito tempo.

— Pode falar o que quiser, mas não vou desistir, principalmente depois de descobrir que a sua amiguinha está por aqui. Então a querida Sophie está mais perto de mim?

— Fique longe dela! Longe de mim e dela. Volta para o Leonard.

— Eu não, aquele babaca. E gostoso, mas é um babaca. – riu. — Ah, preciso ir. Você me verá muito antes do que pensa, querido. Beijos nessa sua boca gostosa.

E a vaca desligou na minha cara. Meu dia não podia piorar. È o Leonard, falso namoro, quase beijo e agora a louca da ex, que quer ser atual. Nem se eu fosse louco eu a queria de volta. Ela é maluca! Respirei fundo antes de voltar para a sala, e eu gritei pela Sophie, querendo saber quem era na porta. Espero que seja coisa boa.

Escutei apenas as últimas palavras da mulher que eu queria que sumisse.

— Jaqueline. Eu sou a namorada dele.

Puta que pariu! Pode cair algo na minha cabeça, porque eu já estou ferrado. Essa louca encontrou com a Sophie, justo no meu apartamento, e ela vestindo a minha camiseta. Eu preciso acabar com a graça dessa mulher, antes que ela fale mais alguma merda para a minha Sophie. Eu acabo com ela e com o Leonard, mas eles não vão acabar comigo e com a Sophie.