Eternamente amor
1 Acordo eterno
A capa com estampa de galáxias tremulava ao vento forte de mais uma longa noite. O frio que encontrava seu corpo não era nada se comparado à saudade que sentia. Nesses momentos, lembrava-se do dia em que sua vida mudou. Um único dia, e tudo ficou diferente. Era a prova de que o amor pode sim nascer de repente, num instante. Ela, que adorava o sol, ama alguém totalmente pálido. Ela, que adora cores, ama alguém que gosta de roupas escuras. E nada disso importa.
Irônico como ela, que conhece todos, sem exceção, se apaixonou pelo único que não pode ter. E ele, que sempre achou que nunca poderia sentir nada que fosse bom, agora a ama. Porém, devido à seus eternos compromissos de trabalho, acordados desde o nascimento de ambos, não podem ficar juntos. Ele, que pensava já estar acostumado ao sofrimento, experimentou uma nova dor: a do coração partido. A dor de não poder estar junto dela, tocá-la e amá-la, como deve ser feito. Enquanto aqui, do outro lado, ela, que conhecia a dor, por experimentá-la por meio de outros, experimentou o sentimento em si mesma. O amor, a felicidade, a paixão e a terrível dor de não poder viver esse amor.Então, como poderiam se sentir próximos, manter contato? Sendo assim, fizeram uma promessa. Um acordo eterno. Acordo tal que não envolvia só eles mesmos, mas o mundo todo. Sabiam que seria terrível, que acalmaria seus corações mas arrasaria o de outros. Porém, haviam formas de se compensar. Quando um ia, outro chegava. Claro que já haviam feito isso antes. Sempre houve morte, e também vida. Mas nunca fizeram isso um para o outro. Nunca quando queriam, mas apenas quando lhe eram dadas ordens. Ordens divinas. Porém, decidiram que, às vezes, deveriam se permitir. Apesar da dor que sentiam por fazerem mal à quem ficava, um pequeno espaço era preenchido. Um espaço chamado saudade. Amor.Pensaram que seriam punidos. Mas talvez Ele tenha se compadecido com suas dores, e acabou permitindo tudo aquilo. Contanto que não houvessem exageros. Agora, a Vida sente-se próxima de seu amado, porque hoje é um dos dias em que foram autorizados a cumprir sua promessa. Lá embaixo, na cabana abaixo do penhasco, uma nova vida nasce. Uma pequena criança. Enquanto isso, lá na outra extremidade da cidade, criancinhas choram por sua perda. Tanto um como o outro sabem que até a menor forma de vida importa. Que sempre haverá alguém para sentir falta do que se foi. Nesse caso, uma família sentiria um enorme vazio ao constatarem que ele nunca voltará. Bob, o cachorrinho. Bob, a pequena alegria da casa. Bob, que provavelmente seria substituído, mas que continuaria em seus corações. Vida se sentia mal por fazer outras pessoas ficarem mal. Mas aquela centelha de felicidade aumentava só por saber que ele receberia seu presente, e daria seu lindo sorriso, o qual seria capaz de derreter qualquer coração congelado. Pensando bem, foi o que mais gostou nele. A forma como se revelava quando sorria, deixando de ser aquele que todos temem e que se esconde atrás de sua imensa capa preta. Ele, assim como o esperado, recebia o agrado. Sorria por pensar que ela por ele esperava, mesmo conhecendo o terrível fardo que os prende longe um do outro. Acolheria Bob como uma parte de Vida. Uma parte felpuda e barulhenta, mas ainda sim uma parte. Podia lembrar-se dela todos os dias apenas olhando aquele pequeno animal.Vida e Morte agora tinham seus corações em sintonia. Longe e perto ao mesmo tempo. Ligados pelo amor que ultrapassa os limites da vida e da morte. Eternamente.E é por isso que, às vezes, vidas inocentes são retiradas e mortes precoces acontecem. É uma forma que Vida encontrou de demonstrar o que sente por Morte: puro e simples, eternamente eterno, amor.
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