Eternamente Clara

1 Uma manhã de domingo


Naquele dia, acordou mais tarde do que o normal. Às nove da manhã, foi até a cozinha para aproveitar o café preparado com tanto carinho pela avó. — Não coma tanto para não ficar sem fome no almoço, hein! — exclamou a velha dengosa. — Tá bom, tá bom vovó... — Clara respondeu de boca cheia, enquanto se deliciava com um pedaço de bolo de fubá que acabara de sair do forno. Os raios de sol já batiam nas cortinas brancas, que dançavam com a doce brisa de uma manhã preguiçosa de domingo. A garota pegou uma xícara de chá de amora e foi até a sacada do quarto para observar a tranquilidade das ruas da pequena cidade de Laranjeiras.

Era uma cidade calma e radiante, assim como a própria manhã de domingo. Famosa por seus vastos laranjais, o município tinha pouco mais de dezesseis mil habitantes e todos se conheciam. Dona Mônica, a avó de Clara, viveu ali durante toda a sua vida. Casou-se, teve filhos e netos, e saiu de lá apenas uma única vez, em uma viagem para a Itália em 1986 onde perdeu seu marido para sempre. A viagem que deveria comemorar 46 anos de casamento, e não apenas isso, mas também amor verdadeiro e triunfante, trouxe apenas tristeza e luto para a família Solietto. A causa da morte de Antônio sempre fora um mistério irresoluto, tornando seu relógio de bolso a única prova de que ele já habitou esse mundo.

A monotonia fluía pelos ares da casa de carvalho quando a menina foi até o quarto da avó, onde costumava brincar quando criança. Encontrou caixas velhas e empoeiradas que guardavam memórias de uma vida inteira. As fotos retratavam seus avós em uma época de prosperidade, quando o amor reinava e não havia qualquer tipo de preocupação. Bonecas traziam à tona memórias puras de horas e horas de felicidade verdadeira. Lembrou de brincadeiras que fazia com as primas e inclusive momentos embaraçosos, como a vez em que sua mãe gravou uma dança sincronizada ao som de uma música popular da época. Junto aos sentimentos de nostalgia e alegria, o relógio lhe chamou a atenção.

Um relógio de bolso, prateado, aparentava ser da década de quarenta, com desenhos irreplicáveis que lhe concediam o ar de solenidade. Clara observou o objeto por quase um minuto antes de pegá-lo. O relógio transmitia um sentimento estranho de instabilidade e insegurança que nunca foi sentido por ninguém. Um feixe de luz passava pela única janela do quarto, iluminando o rosto da garota que estava extasiada apenas observando a peça reluzente. Finalmente, a curiosidade moveu seus finos dedos pela casca prateada. A textura era única, do tipo que seria inconfundível se a sentisse novamente e em nenhum outro lugar iria. Os entalhes formavam sulcos que faziam arrepiar a pele apenas com o passar do dedo. Abriu então a casca e para a sua surpresa, não havia ponteiros.

Antes que pudesse dar corda no relógio, foi interrompida. – Clara, vem almoçar! – sua mãe chamou da cozinha. – Tô indo! – respondeu, saindo da hipnose. Foi até a mesa levando a relíquia consigo. – Vovó, de quem é esse relógio? – perguntou para a avó que terminava de preparar a feijoada de domingo. – Relógio? Que relógio? – Dona Mônica estava distraída. – Esse aqui ó! – levantou o relógio no alto para que ela pudesse ver. A avó se aproximou, deixando a feijoada de lado. – Onde foi que você encontrou isso, Clarinha? – a viúva parecia nostalgicamente intrigada. – Bom, eu estava mexendo numas coisas do seu quarto e encontrei por acaso... O que é? – Clara ainda esperava uma resposta. – Esse relógio... Seu avô o amava. – Fez uma pequena pausa, procurando as lembranças em sua memória. – Ele o lustrava todos os dias pela manhã e levava para todos os lugares. Quando fomos à Itália, foi a única coisa que ele me deixou. Nunca encontraram o corpo ou qualquer rastro, mas o relógio permaneceu no criado mudo ao lado da cama. Talvez ele tenha esquecido... – Clara tinha seus olhos vidrados, ora no relógio, ora na avó. – Pode ficar com ele, Clarinha. Nem tem mais os ponteiros. – Um sorriso se abriu no rosto da menina. – Sério vovó?! Tem certeza? – Mônica voltou sua atenção para a feijoada que já perfumava a cozinha. – Claro, minha querida. Mas só depois de comer, porque a feijoada já está pronta.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.