Eternal Flame – O Fim
11 À Espera do Inesperado
Notas iniciais
Fiquei imóvel por vários instantes, apenas observando os pares de olhos dourados e negros esquadrinhando a minha face. Era difícil saber como agir àquela situação, afinal, Arthur e Jennifer eram quase integrantes da família, e descobrir que ambos eram traidores mentirosos doía como uma pancada do estômago. Se eu já me sentia tão mal, fiquei imaginando a mágoa de Seth ao saber que o alvo de seu imprinting era, na verdade, assim como seu irmão, um membro dos Volturi, os quais foram programados para nos destruir.
– Não consigo acreditar – eu disse intrigada com a mensagem contida na carta. – Como eles foram capazes?
– Precisamos detê-los – Jacob interrompeu cerrando os punhos.
– Não vamos nos antecipar, Jake – minha mãe discordou. – Antes de tudo, devemos saber os verdadeiros motivos e intenções de terem vindo até aqui.
– Ah, qual é, Bells? – o lobo ergueu os braços pra cima, como um gesto irritado. – Já está na cara! Jennifer e Arthur foram treinados para acabar conosco. E, pelo jeito, também foram ótimos atores quando nos convenceram de que eram nossos aliados.
Um silêncio perturbador pairou pelo recinto, deixando consigo o eco vazio e inquietante. Esfreguei as mãos molhadas de suor uma na outra, em completo nervosismo. Tudo ao nosso redor estava tão perfeito antes disso. Achei que, talvez, eu estivesse desacostumada com os empecilhos tão recorrentes que nos cercavam.
Lágrimas arderam em meus olhos, pedindo permissão para serem expulsas. Mas não, eu não iria deixá-las sair; não queria piorar ainda mais aquela situação tão complicada. No entanto, vacilei por um mísero segundo e deixei um soluço audível escapar dos meus lábios.
Os vampiros e lobisomens que formavam o amplo semicírculo me fitaram. Pareciam compreensivos, contudo, eu me sentia desconfortável por demonstrar minhas emoções em meio a tantas outras coisas para nos preocuparmos. Mesmo assim, eu estava tonta, nauseada, completamente exausta. Eu desejava correr, desaparecer dali, disparar para um lugar isolado e me convencer de que aquilo era apenas um sonho ruim.
– Está tudo bem, querida – a voz aveludada de Edward soou próxima ao meu ouvido. Inevitavelmente, é claro, ele havia ouvido meus pensamentos.
– Não, não está tudo bem – rebati balançando a cabeça em negativa repetidas vezes. – Como pode dizer uma coisa tão farsante como essa? Nada está bem.
– Ness... – Jake massageou meus ombros, notando como aquilo me afetava.
Mordi o lábio inferior quando senti gotas de lágrimas percorrerem as maçãs das minhas bochechas. Limpei-as automaticamente com as costas da mão direita.
– Nossos amigos – murmurei hesitante. – Simplesmente não consigo acreditar que eles nos traíram tão descaradamente – queria desabafar, expor tudo aquilo que se acumulava dentro de mim como estilhaços de uma bomba. Porém, não conseguia organizar as palavras adequadamente.
– Ninguém aqui está acreditando. Mesmo que alguns de nós já tivéssemos certa desconfiança – Jasper argumentou num tom sereno.
Não demonstrei nenhuma reação, apenas permaneci imóvel, sustentando o olhar na figura do vampiro à minha frente.
– Enquanto vocês estavam na lua-de-mel, tirávamos algumas conclusões cabíveis sobre a carta – Edward prosseguiu ao perceber que ninguém fazia menção de se manifestar. – Eu, Jasper e Carlisle a analisamos com cuidado. Chegamos a algumas deduções, talvez não tão precisas, mas que podem ser válidas – o vampiro sustentou o peso em outra perna e virou a cabeça na direção de Jake. – Leah já mantinha um relacionamento com Arthur antes da nossa última guerra, Jacob?
– Acredito que sim. Lembro-me de tê-los visto se beijando alguns dias antes da batalha. Mas no que essa informação vai contribuir?
– É um fator importante, lobo. Nós acreditamos que Aro o enviou para nos espionar antes mesmo da luta, afinal, caso os Volturi perdessem, Arthur já saberia sobre tal fato e estaria pronto para nos enfrentar – Edward explicou com extrema calma. – Pelo que consta na carta, o vampiro tem múltiplos poderes. E, também, era um membro recente dos Volturi. Jennifer não parece exercer muito destaque... Eu e Carlisle achamos que a garota foi enviada como uma espécie de reforço a Arthur.
– Mas e o imprinting de Seth? Ela parecia se importar com ele – argumentei com melancolia no olhar.
– Talvez nem tanto – o lobo murmurou cabisbaixo, recostando-se na parede da mansão.
– Isso é tão repugnante! – Rose cerrou os punhos, exaltada. – Devíamos persegui-los e matá-los agora mesmo. Servimos como verdadeiros “bichinhos de estimação” para eles.
– Não, Rosalie – Esme sibilou, afagando o ombro da loira.
Minha tia revirou teatralmente os olhos dourados e desvencilhou-se do toque gentil de minha avó.
– Infelizmente não podemos fazer nada a respeito – disse Carlisle. – Edward tentou ler a mente dos dois, mas algo os bloqueava. Provavelmente algum poder que Arthur lançou. E os lobos, por sua vez, tentaram rastrear o cheiro dos vampiros. Contudo, também não identificaram coisa alguma.
– Mas a aparência de Jenny e Arthur era tão fiel a dos humanos – murmurei, ainda tentando processar cada informação que minha família expunha.
– Era apenas mais um truque – Paul balbuciou de repente, dando levemente de ombros.
– Não se iluda, Nessie – Alice apareceu atrás de mim e passou o braço entorno dos meus ombros. – Jennifer e Arthur pareciam adoráveis, mas não vieram até aqui para fazer amizades. Muito pelo contrário – a baixinha hesitou por alguns instantes, perturbada. – Eles queriam possuí-la, matá-la. Acreditavam que você era o verdadeiro pretexto para o início dos conflitos entre os dois clãs.
– Impossível – sussurrei a mim mesma.
– Sei que é doloroso acreditar, mas é a única realidade a respeito de tudo isso.
Eu não sabia como reagir. Não havia palavras em minha boca para a situação. Cada frase exposta agia como um golpe de punhais afiados que, como se não bastasse, remexia-se sem dó em meu peito, criando um abismo negro que consumia cada partícula da minha alma.
Meu estômago se revirou, e senti o gosto amargo da bile nos lábios. Retrocedi alguns passos, cambaleando enquanto colocava as mãos sobre a boca. Uma série de chutes insistentes e dolorosos parecia atingir meu abdômen, e eu me retorci agoniada por conta da dor.
– Nessie, você está bem? – Jacob inquiriu visivelmente preocupado.
– Estou – menti limpando o suor da testa. – Só preciso me sentar.
O lobo concordou automaticamente, apreensivo. Em seguida, ajudou-me a caminhar até o sofá de quatro lugares instalado em um dos cantos da ampla sala de estar.
Eu estava completamente impaciente, revirando-me como um gato manhoso no assento confortável. Tinha vontade de explodir, despejando tudo o que me entorpecia. Contudo, era covardia demais descartar todos os meus sentimentos de repulsa sobre quem não tinha culpa de absolutamente nada, e sim, ao contrário disso, apenas prestava-me ajuda.
– Bem, ainda temos algumas suposições, mas uma vez que não possuímos evidências suficientes, ainda não podemos considerá-las completamente – Jasper concluiu parecendo mentalmente exausto.
E então, assim como o vapor de água fervente, todos os vampiros e lobisomens se dissiparam pela casa. Novamente o silêncio oco e perturbador pairou pelo ambiente.
– Ness, você está bem? – Jacob inquiriu ao mesmo tempo em que apontava para o espaço ao meu lado no sofá. Permiti que o lobo se sentasse, e ele o fez no mesmo instante.
– Estou tentando me conformar com a situação, mas é completamente inútil – respondi melancólica e enterrei o rosto entre as mãos.
Jake se aproximou mais de mim e aninhou-me entre seus braços. Em seguida, começou a ninar-me como se eu fosse uma criança. Consenti a mim a liberdade de chorar até todas as minhas forças se esvaírem, até não restar uma única gota de lágrima em meus olhos.
Imagens aterrorizantes dos olhos escarlates que estavam por trás de Arthur e Jenny nublavam minha mente. Era impossível não me sentir intimidada e, por isso, apertei-me contra o peitoral de Jacob, soltando um gemido de pavor.
– Vamos para casa? – perguntou-me ele enquanto afagava a ponta dos meus cachos acobreados. – O sol já está se pondo... Você precisa descansar.
– Tudo bem – concordei.
Eu estava totalmente fraca, mas me levantei sem rodeios. Inicialmente, minhas pernas fraquejaram e a dor no estômago me atingiu mais uma vez. No entanto, não me deixei abater. Comecei a caminhar, mesmo de forma débil, para fora da mansão.
Foi um trajeto extremamente silencioso até nossa mais nova casa. Atravessamos uma pequena área da floresta, a qual era repleta de pinheiros relativamente distantes um dos outros. Entre eles haviam alguns arbustos ou árvores mais baixas.
E então, assim que chegamos à residência, quebrei o silêncio com um arfar desesperado:
– Jacob, me ajude.
Em seguida, imergi em um abismo escuro, sentindo uma dor lancinante no abdômen. Apenas senti o enlace dos braços de Jake ao redor do meu corpo completamente inconsciente.
(...)
Uma luz ao longe, mesmo sendo tênue, nublava minha visão. O ambiente a minha volta girava, e ponderei antes de abrir totalmente os olhos, temendo desmaiar novamente.
Também ouvia algumas vozes distantes, mas não conseguia distinguir absolutamente nada. Não identificava ninguém presente no local, muito menos onde eu jazia.
Jacob. Eu sentia uma necessidade arrebatadora dele. Alguma força dilacerante me prendia às trevas, rasgando-me por dentro e por fora. Mas apenas a ânsia pelo calor do lobo me fazia querer mudar de ideia. Fazia-me não querer ceder.
Com a respiração irregular, levantei-me de supetão da superfície macia em que eu repousava. Toda a minha família e alguns lobisomens formavam um aglomerado carregado de tensão ao redor de mim. Porém, quando me avistaram despertar, suas expressões apreensivas começaram a abrandar, transfigurando-se em fisionomias um tanto aliviadas.
– Oh, meu Deus – Rebecca foi a primeira a manifestar-se. – Nessie, querida, você se sente confortável? Como está?
E assim, uma avalanche de perguntas partindo da irmã de Jake decaiu sobre mim. Eram todas elas relacionadas ao meu bem-estar. Apesar desse gesto bondoso, o questionário passou a ser irritante depois de alguns instantes.
– Espere, Rebecca. Deixe Renesmee respirar – Carlisle pediu com total calma.
Assenti discretamente, agradecida por meu avô tê-la impedido de prosseguir. Carlisle lançou-me um curto sorriso em resposta.
Quando eu ia sorrir de volta, Jacob avançou sobre mim, depositando um beijo terno em meus lábios. Seu rosto e o contorno dos olhos estavam ligeiramente vermelhos, então imaginei que ele tivesse chorado. Por minha causa. De repente, senti-me como uma pessoa horrível. Todos ali se apresentavam sobrecarregados, e eu só piorava a situação.
– Ah, Ness, eu quase pensei – Jake hesitou por alguns instantes. Em seguida, com a voz embargada, conseguiu prosseguir: – Pensei que fosse te perder, meu amor.
Balancei negativamente com a cabeça, discordando da sua ideia. Posteriormente, passei os dois braços pelo seu pescoço, puxando-o para mais perto. Ficamos muito tempo ali... As testas coladas, as respirações calmas se misturando.
– Renesmee – a voz serena de Edward nos lembrou que ainda estávamos ali, diante de uma multidão de vampiros e lobos.
Separei-me do abraço de Jacob, relutante. Olhei para meu pai, aguardando o que ele tinha para dizer.
– Logo que você ficou desacordada, Jacob nos avisou. Fomos prontamente até sua casa. Carlisle, preocupado com seu estado, fez alguns exames. E descobrimos o que é a causa desses seus constantes desconfortos.
– Ou melhor, quem – Rosalie interveio.
– Ok, vamos direto ao ponto – Edward respirou fundo e desnecessariamente, passando o peso de uma perna para outra. – Nessie, você terá um filho.
– O quê? – disparei desconcertada, lançando um sorriso radiante a Jake. Porém, quando vi que ninguém naquela sala correspondia a minha felicidade, o sorriso desapareceu de meu rosto, dando lugar a uma careta frustrada. – O que foi? Por que não estão contentes?
– Seu bebê também é um híbrido, Nessie – explicou Alice. – Não sabemos a verdadeira força que ele pode exercer sobre você.
– Eu fiz alguns testes com ele – disse Carlisle, completamente sério. – Ele parece instável... – com tal informação fiz menção de sorrir novamente, porém fui cortada por outro comunicado: – Desde que consigamos suprir suas vontades.
Ajeitei minha postura na maca, curiosa com o que meu avô tinha a contar. Posteriormente, disparei:
– E quais seriam elas?
– Ele só pode se alimentar de sangue humano. Caso isso não aconteça, ele pode se nutrir através do seu organismo. Além disso, ele também tem um crescimento relativamente acelerado. Não tanto quanto o seu, mas, mesmo assim, exige minuciosos cuidados.
– Uau! Um bebezinho exigente! – exclamou Emmett.
Lancei-lhe um olhar de desaprovação, não achando graça alguma em sua piada totalmente desnecessária.
– Mas... Nessie vai ficar bem, não vai? – Jacob disse de repente.
– Se seguirmos todas as instruções que lhes dei, acredito que sim – Carlisle respondeu tranquilo.
– Estou contando que isso seja verdade – murmurei com os olhos inexpressivos enquanto passava uma das mãos pela barriga levemente saliente. – Não quero ver nenhum de nós sofrer.
– Mas espere! – Embry exclamou abruptamente. – Teremos que caçar humanos para suprir a necessidade do híbrido? Isso é totalmente contra a nossa natureza! Não há outro jeito?
Os vampiros se entreolharam por um longo e silencioso tempo. Matar humanos. Realmente não era algo apropriado, uma vez que ia completamente fora dos nossos princípios. Afaguei novamente a barriga, totalmente contrariada.
– Primeiramente, tentaremos com sangue animal, mas se não funcionar... – Edward balbuciou dando levemente de ombros. – O sangue humano será a única circunstância à que recorrer.
– Irão mesmo matar dezenas de pessoas por causa de um bebezinho? Há soluções muito mais rápidas – Embry contestou olhando ferozmente para a região próxima ao meu ventre.
– Ninguém. Toca. Nele – cerrei os dentes ao pensar na hipótese de matá-lo.
Clarie, que estava próxima a nós, se encolheu devido ao rumo que a conversa tomava.
– Embry, você está maluco? – Jake sustentou o olhar sobre ele, dando-lhe um empurrão instantes depois. – É meu filho. Você não tem o direito de opinar sobre isso! Se algo acontecer a ele, eu...
– Já chega! – Alice vociferou com a voz de sino. – Não vamos nos desentender em um momento tão delicado como este. Teremos bastante tempo para tal quando tudo for resolvido.
(...)
– Acha mesmo que Embry estava falando sério? – perguntei horas depois, quando todos os outros haviam voltado para casa.
Agora nossa casa parecia extremamente silenciosa. Apenas eu e Jacob, a sós. Podíamos ter mais um momento de amor, no entanto, a expectativa tomava conta de nós.
– O conheço há anos. Não acredito que ele seja capaz de algo tão brutal... Creio que tenha sido apenas o nervosismo da situação.
– Vou acreditar em você... Espero que esteja certo – eu falava ao mesmo tempo em que me aninhava em seu peito. – Eu tenho tanto medo.
– Eu estou aqui, meu amor. Não tema. Eu vou protegê-la mesmo que isso me custe à própria vida. É meu dever, afinal... você é meu imprinting – Jake se aproximou de mim e depositou um beijo casual em meus lábios. Mesmo sendo um simples gesto, aquilo me fez incendiar. – Venha, eu lhe darei um banho. Você precisa relaxar, Nessie.
Concordei com a cabeça e, em seguida, o lobo pegou-me pela mão e me conduziu vagarosamente até o banheiro da residência. Assim que cheguei, comecei a me despir. Uma lufada de vento gélido invadiu o ambiente, mas devido à minha temperatura relativamente elevada e ao calor de Jacob, eu não senti absolutamente nada.
O lobo ligou a torneira da banheira de ferro fundido. A água descia com certa suavidade, enchendo o recipiente aos poucos. Enquanto esperava, enrolei uma toalha sobre os ombros e deleitei-me sobre o abdômen de Jacob. Aquilo era tão reconfortante que me senti levemente sonolenta com suas carícias.
– Seu banho já está pronto – Jake avisou-me através de um sussurro ao pé do ouvido.
– Ok, obrigada – dei um curto sorriso. Era um dos primeiros naquele dia tão turbulento.
Levantei-me debilmente do colo quente do lobo e caminhei até a banheira com um esforço quase doentio. Senti-me aliviada ao sentir a água quase fumegante em contato com meu corpo rígido. Só então percebi o quanto estava exausta.
Com o chuveiro instalado no recipiente, Jake foi passando a água pelos meus longos e acobreados cachos, afagando-os ao mesmo tempo. Era tão boa a sensação de estar próxima da pessoa que ama, principalmente quando ela também demonstra tal sentimento por você independentemente da situação, seja ela agradável ou não.
Lágrimas idiotas arderam em meus olhos. Não queria liberá-las, mas foi algo quase automático: quando finalmente percebi, elas já contornavam a linha do meu maxilar. Porém, graças a minha sorte, elas se camuflavam junto à água. Portanto, como eu desejava que acontecesse, Jacob nem sequer percebeu.
Depois de alguns minutos de banho, eu me sentia revigorada, mas nada muito significativo. A melancolia e o ressentimento ainda pesavam em minha alma. Mas eu não queria me mostrar abatida, principalmente se tratando de Jake, que fazia tudo ao alcance para me auxiliar.
Levei a mão para tocar o braço dele. Mesmo sendo palavras simples, senti que elas vieram da fibra mais profunda e verdadeira do meu espírito:
Não tenho como agradecer pela sua preocupação. Amo-te mais do que a infinidade de estrelas que o universo possa suportar.
Jacob sorriu radiante em resposta. Aquele ato simplório me fez ficar maravilhada, soltando uma dezena de suspiros.
– Vá para o quarto descansar, sim? Enquanto isso irei me banhar, estou completamente cansado.
– Claro, claro – concordei apressadamente, ficando feliz que Jake também tivesse um tempo para repousar.
Assim que Jacob trancou a porta do banheiro, caminhei até nosso quarto, que ficava em frente ao recinto no qual eu me encontrava segundos atrás. Deitei-me cautelosamente na cama e puxei o edredom até meu queixo. Não era um dia muito frio em Mandeville, contudo eu me sentia febril, e isso me fazia dar calafrios compulsivos por baixo do tecido fino de meu pijama.
Recostei a cabeça no travesseiro, observando com os olhos inexpressivos o teto acima de mim. Distrair-me com coisas inúteis servia como uma perfeita terapia. Talvez eu tenha pegado esse costume do lado humano de Bella.
Estava tão obcecada pela paisagem inerte ao redor que o simples movimento disforme das cortinas fisgou minha atenção. No entanto, algo permanecia estranho... Eu não me recordava de ter deixado a janela aberta, uma vez que nem sequer havia entrado em meu quarto naquele dia.
Um vulto quase imperceptível circundou o ambiente. Olhos humanos nunca o acompanhariam, mas, devido aos meus dons sobrenaturais, eu pude ver quase claramente aquele espectro macabro. Puxei o edredom ainda mais próximo ao meu rosto, temendo o que poderia vir a seguir.
Um barulho estridente como o de unhas riscando a lousa fez com que eu tapasse os ouvidos na tentativa de bloquear o som. Aquela cena de filme de horror revirava-me o estômago. Eu poderia muito bem levantar e cravar os dentes em quem quer que fosse o responsável, mas estava sem forças para um ato do tipo.
Até que finalmente vi... Um par de olhos espiava-me sob a cama; olhos grandes e de um tom... escarlate vivo.
Um garoto loiro e semelhante erguia-se do chão, parando bem diante de mim, eu que agora era apenas mais uma figura inofensiva e com a expressão desfigurada de tanto pavor.
Arthur estava ali. No entanto, não era aquele mesmo rapaz que eu conhecera há meses... Era um Arthur forte, destemido... Um vampiro sanguinário.
– Achei que tardaria mais para nos reencontrarmos, cara Renesmee. Mas eu não poderia esperar pela oportunidade de vê-la novamente – sua voz irônica e gutural, muito diferente daquela de quando ele parecia um simples mortal, me fez estremecer. – Ah, como é bonita. Pena que seja tão ingênua.
– Jaco... – eu iria prosseguir, contudo fui impedida pela mão pétrea de Arthur pressionando meus lábios.
– Shiii... Esse nosso papo é particular, acredito que não precisaremos da intervenção de ninguém, não é mesmo?! – o vampiro apertou com força desenfreada a região do meu rosto em que segurava, fazendo-me soltar um gemido agudo de dor. Então, depois de mutilar-me o suficiente, prosseguiu: – Soube que sua família acabou por descobrir minha verdadeira identidade... Mas sabe, até que isso foi um ponto bastante positivo. Eu não suportava mais ter de me camuflar – de repente, Arthur metamorfoseou-se em humano novamente, mostrando aqueles mesmos olhos azul-cinzentos com que tanto convivi. Porém, com a mesma velocidade que se transformou, voltou a ser o mesmo sobrenatural repugnante. – Gostou? – perguntou-me. Eu iria gesticular um não repudiado com a cabeça, no entanto, Arthur respondeu à própria pergunta: – Eu o adoro... É um truquezinho que uso para despistar ou confundir os inimigos. Você caiu em minha artimanha como uma criança, não é mesmo? – uma risada aguda saiu de seus lábios. – Ah, pobre Renesmee... Você foi a única que acreditou em mim e Jennifer até o último minuto. Tenho tanto a lamentar por você. Mas, sabe... Por sua causa, os Cullen confiaram em nós e fizeram com que eu pudesse extrair todas as informações necessárias para destruí-los... Oh, se Aro estivesse aqui estaria tão orgulhoso – ele disse enquanto fingia divagar.
– Você é odioso! Odioso! – vociferei com a voz abafada, tentando livrar minha boca do aperto do vampiro.
– Cale a boca ou eu dilacero-a aqui mesmo – ele retrucou e desferiu um tapa em meu rosto atônito. – É uma pena que eu tenha de pedir um favor antes de matá-la.
– Que favor? – perguntei com a voz firme, tentando não evidenciar o medo que sentia.
Arthur pendeu a cabeça para traz e soltou uma gargalhada sádica.
– A intervenção da sua família ao querer descobrir mais sobre meu verdadeiro status dificulta o meu trabalho... Caramba, isso me irrita tanto, Nessie! – senti-me enojada ao escutá-lo pronunciar meu apelido, contudo, eu não ousaria reagir. – Então, eu gostaria que você convencesse-os novamente de que eu sou apenas um patético e frágil mortal, para que eu finalmente prossiga com o objetivo de matá-los.
– O quê? – indaguei estridente. – Você acha mesmo que eu enganaria minha família para que você alcance seus propósitos?
– Sim, eu acho. Afinal, sei muito bem que você não gostaria de ter essa linda silhueta aos pedaços.
Uma lágrima escorreu solitária pela linha de meu maxilar. Não, eu realmente não gostaria de fazer algo tão repulsivo como o favor que o sanguessuga me pedia, sobretudo quando isso envolvia toda minha família.
– Não se aborreça, criança. Eu lhe darei parte dos meus poderes, e tenho certeza de que você cumprirá a sua parte do trato – ele me sorriu complacente, como se falasse com uma sobrinha.
Em seguida, Arthur levantou meu rosto com a ponta do dedo indicador para que eu pudesse olhá-lo. Apertou os olhos, e uma névoa branca quase imperceptível começou a atravessar os poucos centímetros que nos separavam. Ela dançava diante da minha face como se já tivesse sido treinada para aquilo. E eu, enquanto isso, esvaia-me em lágrimas à medida que ele realizava o processo.
– Pronto, querida – assim que piscou desviando-me do transe, o vampiro depositou um beijo farsante em minha bochecha. – Espero que eu possa contar com você.
Minha vontade era de dizer uma infinidade de nãos para ele, mas as palavras agiam sem nenhuma eficiência em meus lábios. Estar perante àquela situação era completamente desesperador.
– Ness? – a voz de Jacob soou familiar perto dali.
Virei-me de supetão na direção dele, clamando mentalmente por ajuda. Porém, quando entrou, ficou apenas me fitando confuso, não entendendo os motivos de minha reação.
Olhei discretamente por cima de meu ombro. No entanto, Arthur não permanecia mais ali... Havia desaparecido em meio à tempestuosa escuridão sem deixar um mísero rastro de sua assombrosa aparição.
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