Notas iniciais
Desculpem se não gostarem! Tentei mudar o estilo pra ver se dava certo! :D

Eu estava calmo. E estranhamente feliz naquele dia. O frio que me obrigava a usar um moletom quentinho para andar a pé pelas ruas de Tokyo. Era em dias como esse que eu agradecia aos céus pela minha moto ter quebrado, e, ou eu pegava um táxi para andar por aí, ou apenas me locomovia a pé. Naquele sábado, a segunda opção parecia muito mais agradável. Eu achava esplendoroso ver aquele céu que aos poucos escurecia acima da minha cabeça, aquela umidade que deixava o ar fresco o dia inteiro. E aquele calor que emanava do corpo do meu marido, abraçado à mim era inegavelmente delicioso. Aquele braço firme e possessivo tomando minha cintura, mostrando que eu tinha alguém e que alguém me tinha. Eu estava perfeitamente perfeito. Nada podia me incomodar, até que meu amor resolveu entrar numa cafeteria para descansar um pouco e tomar um café quentinho pra aquecer o corpo. Assenti com a cabeça e eu disse que iria assim que fumasse um cigarro ali fora, afinal, não queria incomodar ninguém lá dentro. Ele concordou e beijou meus lábios de uma forma tão apaixonada que eu quase pude acreditar que ele ficaria ali comigo. Mas ele entrou. Eu fiquei lá fora, a mercê da brisa fria que tocava meu rosto pálido e imutável, como num carinho tênue. Um sorriso. Peguei enfim a cigarreira no bolso e o isqueiro em seguida, para acender aquele bendito filtro de nicotina preso em meus lábios carnudos e entreguei-me ao prazer imenso daquela droga viciante. Porém, foi quando me virei para observar meu marido que vi aquela cena agradável. Um cara alisando o braço do meu amado. Joguei o cigarro em qualquer canto e meus passos foram rápidos até aonde ambos estavam, abraçando meu amor por trás de imediato, o que resultou no afastamento do menor de nós três, que se retirou em seguida. Minha vida acabou instantaneamente quando Kai me afastou e suspirou, avisando que eram apenas amigos. Eu estava, no mínimo, chocado. Olhei-o nos olhos e eu notei que... Ele não estava sendo cem por cento sincero comigo. E eu perguntei se ele estava falando a verdade, e ele concordou com a cabeça, mas os orbes não encaravam os meus. Estavam perdidos em algo mais interessante no chão. Ele me puxou pela mão para uma das mesas e eu me soltei, estava tudo errado demais para aquele toque. Errado Demais. Eu neguei com a cabeça e ele me disse tantas coisas... Disse que eu era ausente e visivelmente distante, quase inexistente para ele há meses. Eu fiquei quieto e ele continou... Sentia falta do meu antigo eu, daquele guitarrista apaixonado de antes. Eu apenas concordava com a cabeça, mesmo que eu quisesse pedir desculpas por isso, minha voz não saía. E também, eu sabia que essa discussão terminaria bem; como todas as outras que eu e Kai já tivemos. E foi então que ele encerrou aquela conversa com uma frase intragável: \"Não sou mais só seu.\", ele disse quase com frieza. Meus olhos marejaram e eu ofeguei, claramente chateado. Desculpas. Ele as pediu por um tempo e eu neguei todas, e logo tirei minha aliança da mão esquerda e coloquei-a em cima do balcão. Nem me despedi, só queria sair logo dali. Ele veio atrás de mim por um tempo.

Só consegui me perder dele quando entrei num belo parque de sakuras. E não queria mais lembrar dele naquela hora. Entretanto, isso me parecia impossível, especialmente naquele momento e naquele lugar, aonde haviam tantos casais apaixonados. As árvores daquele parque não eram mais tão lindas, tão floridas, tão vivas. Estava tudo morrendo e se desmanchando junto com a minha felicidade. Meus passos eram dolorosamente arrastados e tristes, e combinavam bem com os meus soluços e o rosto molhado pelas lágrimas que só faltavam pingar no chão, tamanha a abundância destas sobre minhas bochechas. AS flores de sakura caíam bem na frente dos meus olhos, desprendendo-se de seus galhos, e foi quando eu me perguntei, por que as coisas tão belas não podiam ser eternas e inacabáveis? Eu queria voltar no tempo. Voltar ao ano que o conheci, que eu me tornei dele e me perdi nos encantos do meu amado, que agora, era apenas um amado. Não mais me pertencia. Ele... Não era mais meu. Então pra que eu viveria agora? Minha maior aspiração era o amor, e eu tinha certeza que nunca mais encontraria uma paixão como a que sentia pelo Kai. Nunca.

Me apoiei numa das sakuras que tinha mais pétalas abaixo de si, o que tornava o chão bem fofo. Eu me larguei nele e apoiei as costas no tronco fino. As flores brancas assemelhavam-se à neve pela qual eu era apaixonado. Mas o inverno ainda estava longe... Era outono ainda. Uma estação tão solitária, tão morta. Mas eu gostava. Gostava da frieza dos dias de outono. E eu não sabia, mas em breve, as flores não seriam a única parte morta daquele parque. Ao tatear meus bolsos em busca da minha cigarreira, encontrei alguma outra coisa, algo que tinha a forma de um canivete. Tantas coisas passaram pela minha cabeça quando vi aquele pequeno objeto nas minhas mãos... Antes que eu pudesse me impedir e ser racional, minha camisa estava erguida até o peito e inúmeros cortes foram marcando minha pele, deixando o sangue espesso escorrer e manchar o cós da minha calça e as pétalas abaixo de mim. Vários cortes... Vários. Até que um foi fundo demais no meu corpo e perfurou-me o estômago com aquela ponta afiada. Devido ao meu gemido de dor, não demorei para ser achado por um casal que me chamou seguidas vezes de \'moço\'. Eles tatearam meus bolsos e acharam a identidade e o celular, ligando para o primeiro número na agenda rápida, que era de Kai. Em pouco tempo, o parque estava repleto de médicos e policiais. Kai chegou em seguida e ajoelhou-se do meu lado. \"Yuu... amor... aguenta...\". Era estranho, mas eu não o ouvia claramente, mesmo ele estando ao meu lado, ele parecia distante. Não liguei para isso, e, completamente sem forças, me rendi ao meu fim. No meu funeral, Kai leu o que estava na minha barriga com a voz chorosa, e jogando algumas flores de sakura sobre mim, quando eu fui enterrado junto ao resto da minha família. \"Lembre-se de mim assim.\"

Apesar de todo o mal que eu causei para meus entes queridos, eu fiz algo bonito naquele dia. Aquela sakura era a única de todo o parque branco e nevado que nasceu eternamente com as pétalas rosas.

-x-

Notas finais
Fim. Trágico, sim.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!