Em uma pequena cidade do interior de São Paulo, durante o intervalo das aulas numa escola para crianças, sozinha estava uma pequena garotinha loira de olhos claros como o dia, com a pele tão branca que suas bochechas e lábios quase chegariam ao carmim. Uma menina tão pequena que tudo ao seu redor, no seu ponto de vista era gigante. As mechas loiras e lisas, tocavam sua bochecha, poderia até ser visto o lóbulo da orelha, e a franja curta cobria só metade da testa. Se não fosse seu vestido azul de babados e o grande laço no topo da cabeça, a primeira impressão seria de estar vendo um menino.

Sentou-se num canto, sozinha, enquanto murmurava uma melodia familiar, sorriu furando com um canudinho a caixinha de suco de manga. Tinha nas mãos um saquinho plástico cheio de biscoitos caseiros de nozes, eram seus preferidos. Alegremente enquanto tentava desfazer o nó do saquinho, começou a cantar a melodia que estava a murmurar, no Brasil conhecida como “meu chapéu tem três pontas”:

— Mein Hut, der hat drei Ecken

Drei Ecken hat mein Hu…

Mal começou a cantar, fora interrompida por um puxão de cabelo e seu próprio gemido de dor, derrubando seu lanche no chão, e sendo obrigada a levantar, apertou os olhos e segurou a mão de quem puxava fortemente suas mechas, na tentativa de livrá-las. Olhou bem, e quem a segurava era uma menina morena um pouco mais velha, acompanhada de mais duas meninas de idades diferentes, uma delas era de sua classe.

— Você se acha só porque não é daqui! _ Disse a mais velha, que a dominara pelos cabelos.

Não entendeu bem a pergunta, mas notou que as outras riram, então com voz de choro perguntou:

— Do que fala?

— Você sabe o que quero dizer! _ Respondeu a mesma que começou a dialogar_ Só porque é alemã, se acha linda, e nem tem tamanho para isso, sua "nazistinha"!

— Não entendo, _ em aflição disse a garotinha_ por favor falar devagar, que “siguifica” se acha?

— Não sabe nem falar direito, e quer ser a melhor da escola.

— Solta! _ clamou a loira_ Deixa em paz, não fez nada!

As garotas gozaram das palavras e do sotaque desta, a mais velha puxava com mais força seu cabelo, e sua colega de classe pegou seu saquinho de biscoitos, sorriu e caçoou:

— Que nojo! Do que é feito isso?

— Nozes... _ Choramingou a alemã.

— Eca! Quem come isso?_ Riu sua colega com as outras meninas_ Só velhos comem coisas assim, vamos te fazer um bem, pisem!

Jogou o saquinho no chão e as garotinhas pisaram nos biscoitos até virarem farelo, em seguida a mais velha jogou a menina no chão, assim caindo sentada de bunda. Uma delas apertou a caixinha de suco no cabelo da loirinha, molhando-a de cima a baixo.

— P-Por favor, não!_ Chorava ela.

Não paravam, as outras crianças observavam sem nada fazer. Uma empurrou-a, deitando-a no chão, e todas começaram a pisar nela.

— Vamos deformar esse seu rostinho ridículo, "nazistinha"! _ Falou a mais velha.

Nesse momento, a líder dessas “bullies” foi empurrada e caiu no chão, as meninas pararam de chutar a pequena e assustaram observando a mais velha cair. Ela levou um chute forte na barriga de uma garota muito magra, que aparentava ter a mesma idade dessa e até mesmo ser mais fraca.

— Ana covarde! _ gritou com raiva a menina magrinha, continuando a chutar sua barriga_ Covarde!

Parou e olhou feio para as meninas mais novas, e ameaçou-as:

— Quem mais quer apanhar?

Não obteve resposta, riu, virou-se e olhou para a mais velha, que estava chorando, e novamente fez uma ameaça:

— Ana, por que você não se mete com quem tem seu tamanho? Você não é melhor que ninguém, e nunca será bonita, porque está estragada por dentro! Leva seus projetos de inveja com você ou...

— Eu vou falar para inspetora! _ Chorando, ameaçou de volta Ana.

— Boa sorte, _ respondeu a “justiceira” _ todo mundo sabe que você bate em crianças mais novas, mesmo que eu me dê mal, vai ficar pior pra você na "saída"!

As garotinhas se foram irritadas, enquanto a boa menina ajudava a loira a se levantar, e perguntou preocupada:

— Você está bem?

— Sim, _ Respondeu a mais nova_ mas apanhei, porque sei não.

— É realmente engraçadinho o jeito que você fala, _sorriu_ vamos no banheiro, vou te ajudar a limpar tudo isso.

— Biscoitos...

— Ah, seu lanche? Eu ainda não comi o meu, você quer? Ei... Não chore!

— O-Obrigada...

— Está tudo bem, não se preocupe. Meu nome é Amélia, e o seu?

A pequena enxugou as lágrimas e observou melhor a menina que acabou de ajudá-la. Alta para a idade que aparentava ter, magra e de pele um pouco escura, bronzeada. Seu cabelo castanho escuro e longo estava preso num rabo de cavalo, e olhos cor chocolate. Vestia uma bermuda jeans, uma camiseta longa branca, e tênis escuro.

Então a Alemã sorriu e finalmente respondeu:

— Também começa com “A”!

— Sério? _ Sorriu Amélia.

— Sim, Aili!

— Puxa, mas que nome diferente. Eu tenho dez anos e você?

— Meine Güte! És muito alta! Tenho seis.

— Eu não sei o que você disse antes, mas... Sim sou muito alta.

Já dentro do banheiro, Amélia ajudava Aili como se fosse uma irmã mais velha a limpar-se. A mais nova estava a admirar isso, e não parava de olhá-la.

— Que houve? _ Perguntou a morena.

— Vamos estar amigas? Por favor?

A garotinha mais velha riu, e respondeu:

— Sim, vamos ser amigas!

— Para sempre?

— Para sempre!

— Promete de dedo!

Novamente a morena riu:

— Sim, eu prometo de dedinho.

As duas entrelaçaram seus mindinhos, selando aquela promessa, à partir dali, iniciando um longo caminho. Sorriram uma para outra e Aili desejou que tudo aquilo se transformasse em música, então cantarolou.

Notas finais
Se alguém encontrar algo de errado, por favor avisem, eu revisei mas mesmo assim, pode acontecer ^-^ Obs.: Meine Güte é uma expressão como "Oh meu Deus!".